sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Calça cor de rosa

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



Ela não se parecia com qualquer pessoa que eu já tivesse conhecido, era como se ela estivesse desencaixada, desconectada, descontextualizada de tudo ao redor. Eu a olhava, conversávamos, passamos aquele dia praticamente todo juntos, da manhã ao final da tarde, e ela era como uma personagem de um quadro cujo ambiente não faz sentido, como se as cores, as coisas, as pessoas, nada lhe desse significado. Ela e eu tínhamos feito uma prova, dessas de colégio particular, para concessão de bolsas, uma imitação de vestibular, mas para cursar o ensino médio. No fim do dia, em casa, sozinho, tentando entender o que tinha acontecido, mesmo abobado de encantamento eu disse a mim mesmo: “idiota, ela veste uma calça rosa, uma calça rosa de um mundo cor de rosa: você só pode estar de sacanagem, Hugo”. Foi em setembro, dezesseis anos atrás.
Não fomos bem naquela prova, mas, coincidentemente, fomos para o mesmo colégio meses depois. Ela estudava de manhã, eu, à tarde. As aulas de inglês, no entanto, eram fora da grade normal: as minhas, na sexta-feira de manhã, as dela, nas tardes do mesmo dia. Nos encontrávamos nos intervalos de cada período, ou na hora do almoço. Não era marcado, a gente simplesmente se cruzava, parava, conversava um pouco, às vezes se sentava num banco no corredor. Claro, depois de algumas vezes, comecei a repetir os horários, os corredores, os bancos, eu queria encontrá-la sempre, e mais do que nunca às sextas-feiras. Ela não vestia mais aquela calça rosa.
Eu já tinha ouvido falar de borboletas no estômago, o que eu sentia, contudo, estava longe da leveza, da delicadeza do bater das asas, da suave confusão das borboletas. Era como se um passarinho aprendendo a voar estivesse numa caixa de sapatos dentro de mim. Ela falava de maneira despreocupada e, ao mesmo tempo, parecia atenta e séria, como quem está concentrada nas coisas, porém, com naturalidade, sem fazer disso esforço, cansaço. Num instante, sorria, um riso franco, largo, arregalado. Ela conseguia deixar o ar atento e ser invadida com surpresa pelas coisas, sorria seu sorriso como criança que tenta esconder a própria timidez desviando o olhar mas fracassa, deixa escapar o riso.
Nos intervalos das sextas-feiras, bandas de alunos do colégio se apresentavam no pátio. A música, as canções e as bandas eram quase sempre nossos assuntos. Ela e eu tínhamos gostos parecidos. Foi por ela, em silêncio, que dei uma versão para versos que sempre me pareceram esquisitos, “A tempestade que chega/ É da cor dos teus olhos/ Castanhos”. Numa cidade quente e seca, apenas uma tempestade cujo vento levanta e carrega areia e terra poderia fazer com que o céu tivesse a clareza do castanho que os olhos dela tinham. Ela e eu gostávamos de Led Zeppelin, e Pink Floyd não era exatamente do gosto dela. Foi ela quem reparou o quanto eu gostava de coisas lindas, mas muito tristes. Ela também gostava de Guns N' Roses, afinal, chega a ser óbvio agora, ela tinha uma calça rosa.
Desde aqueles dias, mantenho bem a postura de simpatia en passant, todavia, me embaraço em demonstrar sentimentos e entender relações que envolvem alguma cumplicidade. Pra mim, de toda forma, era bem claro que ela não queria nada comigo além daquelas conversas ocasionais sobre as bandas e sobre as matérias e provas. Quando eu conseguia, lia romances que apareciam em artigos no jornal de domingo, referências clássicas, coisas que a professora de literatura citava como fundamentais, mas que não eram cobrados como leitura obrigatória, ou como preparação para o vestibular. Eu nunca falava sobre isso, eu morria de vergonha, ainda mais com ela. No português, ela tinha facilidade com as regras gramaticais que, pra mim, sempre foram um aborrecimento. Eu era bom de matemática também, a ponto de ter feito olimpíadas regionais, ela, saia-se fácil das equações, reações e elementos químicos. Enfim, se tivesse que puxar um assunto novo, falaria de futebol ou de videogame. Ela era do vôlei, mas falar sobre a segunda divisão do estadual de futebol não me parecia a dela. E mesmo tendo um irmão caçula, ela estava longe de estar interessada no FIFA 2002. Ela era um absurdo pra mim. Desconfortável, é verdade: oras, sentir-se uma caixa de sapato vazia movimentada pelo desejo de liberdade e voo coisa boa não poderia ser. Ou era, ou foi. Eu não conseguia entender, e não conseguia fazer nada além do que já acontecia.
Ela queria estudar Medicina, eu, Engenharia Aeronáutica. Mas não sei onde estava Saturno naquela época, quais ciclos ocorriam, quais se fechavam, quais se abriam. Não sei também que planetas habitavam a constelação de Sagitário. Sei apenas que os números, pouco a pouco, começaram a me escapar, e além dos romances eu comecei a ler Salário, Preço e Lucro, A Guerra Civil na França, Ciência e Política – Duas Vocações, e nossos horários mudaram. Nos anos seguintes, não nos encontrávamos mais semanal e regularmente. Vê-la ficou raro, mal nos cumprimentávamos no fim do colegial e, de repente, agora, eu sequer consigo me recordar se a vi nos últimos doze anos. Evidentemente, como sempre, ela pode vestir o que ela quiser, ela pode até continuar gostando de Guns N' Roses, me pergunto somente se, médica ou não, hoje em dia ela ainda tem uma calça cor de rosa.

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