domingo, 12 de março de 2017

Azeitonas

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



Gosto muito de pão de queijo, porém, já faz mais de um mês que vivo sem qualquer mordiscada, estou sem derivados de leite na minha alimentação. Não tem nada melhor, no meio da tarde, que aquele pãozinho quente com manteiga, é verdade, mas também já entrei no segundo mês sem alimentos que contém glúten. Vontade eu até tenho, de vez em quando, daquela cervejinha, nada pra dizer, meu Deus, estou desesperado. Aprendi isso quando deixei de comer carne, quase quatro anos atrás. Até hoje reconheço o cheiro bom de carne de panela com batatas, por exemplo, no entanto, passou a ser indiferente pra mim, não tenho vontade. Glúten, derivados de leite, e também ovos, eu estou deixando de comer - ao contrário de carne, por opção -, por recomendação médica. Felizmente, por enquanto, ninguém mirou nas azeitonas, imagine só, além de tudo isso, ficar ainda sem azeite, sem azeitonas pretas: ah, não!

Tem uns quatro, cinco meses, estou com dermatite. Passei por três médicos diferentes, fiz uma porção de exames, experimentei medicamentos também diferentes e, diante do diagnóstico inconclusivo - francamente, medicina ocidental, séculos de empiria, testes, avanços tecnológicos, e quando não é virose, é inconclusivo, francamente! -, o mais provável é que eu seja um sujeito atópico. Faz cerca de cinco meses, de repente, misteriosamente, cabrum, meu corpo resolveu deixar de ter alergias respiratórias, meus anticorpos migraram para a derme. Começou nas pernas, foi para as costas, para as mãos, para os pés, pelo corpo todo, são pequenas bolinhas vermelhas, como cravos. Agulham, coçam, irritam. Vieram também manchas vermelhas, sensação de arrepio, pele ressecada. Ou seja, era mais legal ter umas crises de bronquite, asma, rinite, e viver por aí espirrando.

Ao longo desses meses, minha relação com meu próprio corpo tem mudado. Antes, entendia eu e meu corpo como uma viagem de avião. Minha primeira viagem, quando eu tinha uns cinco, seis anos, foi quando meu pai presenteou minha mãe com um voo pela cidade, num monomotor pequenino. Sentado naquela poltrona desproporcional pro meu corpo de então, o cinto afivelado, aquela geringonça chacoalhava no alto, saltitava: eu flutuava entre a poltrona e o cinto. Assim eu me entendia, durante esses anos todos antes da dermatite, eu flutuava dentro de meu próprio corpo.

Dos últimos meses pra cá, diante da irritação na pele, da coceira, tem sido como se a todo momento eu quisesse me desfazer de mim mesmo. Como se estivesse me despindo, coçando, retirando a vestimenta que minha própria pele me dá. A sensação de flutuar dentro de meu próprio corpo deu lugar a uma inquietação centrífuga - meu Deus, que metáfora tenebrosa, Hugo -, sou eu uma melancia quadrada. Sim, que ideia ridícula tiveram, algum dia, colocar uma melancia para crescer em um cubo de vidro. É como se eu-melancia quisesse quebrar o cubo que é minha pele, ressecada, vermelha, empolada.

Lembrei das azeitonas porque, em meio às coisas que tenho retirado da minha alimentação, as frutinhas das oliveiras nem sempre estiveram presentes, e tem relação com o sentimento infantil de como entendia meu corpo e eu. Só voltei a comer azeitonas perto dos vinte anos, cerca de dez anos atrás. Senhora minha mãe é quem conta que eu comia muitas azeitonas quando pequeno, de que comia especialmente com meu avô materno, o Gordo. Ele pegava um prato, sentava para comer, para almoçar, para jantar, na mesa da cozinha, eu vinha, subia no colo dele, olhava o prato e pegava as azeitonas. Ora, entendi, depois de muito ouvir essa história das azeitonas com meu avô, que um dia o velho Gordinho se foi, não me avisaram, não me contaram, não me disseram nada, se eu comia azeitonas especialmente no prato dele, na ausência dele, ué, inconscientemente, não fazia sentido continuar comendo.

Da morte de meu avô a eu redescobrir as azeitonas foram mais ou menos quinze anos. Do meu corpo pedindo para não comer nada que contenha glúten, ovos e leite - espero que tenha parado por aí -, nesses quatro, cinco meses, eu só consigo pensar em qual é o luto que eu estou elaborando, quais as perdas. Talvez seja luto sobre mim mesmo.


   

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