VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

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Uma crônica de Hugo Ciavatta.

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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Água que nunca tem sono

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários




"Me preparei pra isso, ao longo desses anos todos com vocês, mas tem sido difícil...", meu pai me repetiu, "me preparei pra isso, mas tem sido difícil pra mim...", soluçava. Me lembrei disso, porque nesta semana véinho meu pai decidiu que não vai mais andar de moto. Desde que me conheço por gente – ainda não tinha me encontrado enquanto brócolis –, mesmo sendo mecânico de automóveis, meu pai anda de moto. Ele dirige carro, claro, apenas não gosta de enfrentar trânsito dentro de um. Ao consultar os álbuns de família, se vê que assim que nasci ele tinha uma CB 400 enorme para os anos 1980. Tem foto minha na CB vermelha. Senhora minha mãe gosta de dizer que eu sou meio lelé porque levei um tombo daquela moto. Brincando na garagem, dei com a cabeça no chão ainda pequeno. Acabara de aprender a andar e escalar coisas, fiz isso naquela moto que, ainda hoje, para minha lembrança, era um Everest e, ploft.


A chegada da inconveniente da minha irmã – óbvio, tinha que ser –, deu fim na CB vermelha. As finanças apertaram – faltou àquela aula de Economia, em vez de investimento, preferiu arrocho – e meu pai decidiu ficar somente com a CG 125 azul do dia a dia, 1977, a famosa moto Peixinho. Porém, trinta e oito anos depois de fabricada, sendo roubada pela segunda vez, a Peixinho não foi mais encontrada. Véinho meu pai deu sorte, pois no início do ano passado, antes de levarem a Peixinho, ele tinha tirado uma moto nova. Não sei o nome, a marca, mas de lá pra cá ele se achava horrores com aquela moto nova, comprou até um outro capacete, fazia pose pra subir, pose pra dirigir. Meu pai é um exibido, e, se deu sorte uma vez, foi uma vez, porque ele é azarado pra cacete: roubaram a moto nova dele faz dois meses. Quatro assaltantes entraram na casa dos meus pais, os mantiveram como reféns e fizeram um enxoval. Levaram ventilador, micro-ondas, caixa de ferramentas, R$20,00 e uma televisão 14'. "Casa errada, casa errada", senhora minha mãe conta, os bandidos repetiam alguns minutos depois de vasculharem a casa. Mas também levaram a moto e o carro dos meus pais. O carro, no dia seguinte, foi abandonado, a moto, não. De todo modo, tinha seguro the new La Poderosa.


Cobrei ele algumas vezes nesse período: e aí, cadê a moto, não foi tirar ainda? Ah, não, to vendo o modelo, ele dizia. Da última vez que estive em casa, ele até disse o modelo, falou que deixou reservado na concessionária e esperava receber um dinheiro pra pagar a documentação. Me contava isso no sofá, eu estava deitado no colo dele, a gente assistia à televisão. Ê laiá hein, comichão, não para quieto, falei pra ele, que se mexia muito ali deitado. Ele sorriu amarelo. Depois descobrimos que não era inquietação, eram espasmos na mão e na perna. As idas e vindas ao médico nas últimas semanas e a resposta dele parecem apontar que ele passou pelo efeito colateral de um novo remédio para o colesterol. Tremores, movimentos involuntários nos membros. Parou de dirigir por alguns dias, a mão corria sozinha sobre a mesa enquanto almoçávamos, o pé dava tchauzinho com a perna cruzada. Um mês depois, ao que parece, ele está recuperado, quase sem sinal desses sintomas.


Nesta semana, agora, veio a decisão, ele nos disse que não quer mais uma moto, que vai usar o dinheiro do seguro, da moto roubada, pra trocar de carro. Entre a desconfiança – meu pai é cheio de conversa fiada, a vida toda de enrolação, de histórias, não dá pra acreditar nele de imediato, só sendo muito ingênuo – e a surpresa, eu recebi a notícia e, ansioso, comecei a pensar que ele já sentia os tremores e espasmos nos membros há muito tempo, tendo escondido enquanto pode. Afinal, é do meu pai também dar perdido no tempo. Ele estende as coisas, vive tudo demoradamente, vive as coisas duas vezes, revive o passado continuamente, é como se dilatasse o tempo. O relógio segue um segundo após o outro, normalmente, mas meu pai altera a percepção das coisas na vida. Ele chora.


Os médicos disseram que não, que foi mesmo efeito colateral do remédio, e que agora, de fato, meu pai não está de historinha, que o remédio foi embora. A decisão é dele, véinho meu pai não quer mais uma moto, disse, porque sente que não tem mais concentração para o trânsito sobre uma moto. “Difícil pra mim” foi o que me ocorreu, porque, sim, é difícil pra mim também, sempre associei meu pai a uma moto, à CB vermelha, àquela velha CG 125 azul, a Peixinho, já sem espelhos, sem lanterna, com o banco rasgado, cheia de penduricalhos, folclórica, ou à nova, que potencializou o exibicionismo do velho. Como assim, pai, sem moto?


Sem moto, Hugo. Sem choro, também. Meu pai, que fala chorando, tomou essa decisão e tudo me parece seco, direto, claro. Véinho meu pai, aquele que repetia pra mim ano passado, soluçando, às lágrimas, “me preparei pra isso, ao longo desses anos com vocês, mas tem sido difícil...”. Levamos meses com ele no telefone, minha irmã e eu, mesmo ao chegar para uma visita num fim de semana, ou ao vir embora, ele chorava, chorava, chorava. No aniversário dele, ano passado, eu no trabalho, no meio da tarde, liguei, ele trocou duas, três palavras, perdeu a voz, chorou. Senhora minha mãe caia na gargalhada. Entre o choro – o pai – e o riso – a mãe –, história da minha famiglia.


Era difícil, meu pai dizia, porque tinha se preparado para a ausência dos filhos. No entanto, quando ela chegou, quando minha irmã foi embora, ele não suportou. Eu sei o que é, Hugo, é saudade, ele repetia, tem sido difícil pra mim, eu sinto muita falta de vocês, eu sabia que ia ser assim, mas eu sinto saudade. E chorava. Era o choro contra o tempo, porque cada vez que ele chorava, a gente tinha que parar, prestar atenção, perguntar, mas, pai, o que está acontecendo, está tudo bem. No início ele desconversava. Só depois deu uma resposta. A cada vez que vinham as lágrimas, porém, lá estávamos nós, pai, está tudo bem. Não importava que horas o ônibus saía, tínhamos que ouvir, dizer, engole esse choro, homem-de-Deus, abraçar, repetir, estamos aqui, o que foi. É tão exibido que até pra chorar ele quer confete.


Minha irmã é enfermeira, tem tendência a patologizar as coisas – eu... bem, eu... deixa pra lá –, segundo Helena o choro era síndrome do ninho vazio. Segundo eu mesmo, a boa e velha forma de ganhar tempo do meu pai. A decisão de abandonar a moto, por outro lado, me fez acreditar que não havia choro que lhe desse crédito, de que meu pai, à luz da fragilidade do corpo afetado por um remédio para o colesterol, e mesmo recuperado disso, entendeu seu limite. Ele não conseguiu enrolar, contar uma história sobre um almoço em 1967, chorar e desconversar. Como qualquer um, o tempo todo, entretanto, francamente, meu pai está dizendo adeus.


"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água.
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos 
nunca tem sono..."

Sono das Águas

Magma
João Guimarães Rosa.



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