VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 30 de março de 2016

tem uma coisa

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários


Se tem uma coisa que não sou é: eu não sou obrigado.
Estava eu ontem à tarde indo à natação quando, no entorno do hospital, visualizei quatro jovenzinhos com coletes alaranjados e de pranchetinhas em mãos. O pânico me invadiu.
Devem ser do Greenpeace, do projeto Tamar, imaginei. Poderiam ser os Cavaleiros Templários da IV Internacional, não importa, eu tremia. Tentei atravessar a rua, mas meu horóscopo ontem estava péssimo, obscuro, tive receio de morrer atropelado e decidi seguir pela mesma calçada.
Já fiz muita coisa errada na vida, mas nunca atrapalhei o dia e o caminho de ninguém, de um desconhecido pela rua, pra pedir assinatura e dinheiro pra salvar as baleias, impedir o aquecimento global ou construir um playground pras crianças do bairro. Se dependesse da minha firma e do meu surrado dinheirinho, a extinção dos ursos pandas já teria acontecido, a Índia viraria o Saara. Não entra no meu caminho, mano, não atrasa o meu rolê pra me lembrar que a vida, as pessoas e o mundo são um absurdo e completo sem sentido, faz favor.
Poucos metros faltavam e um dos jovenzinhos de colete e prancheta virou-se pra mim abrindo os braços, dizendo, olha quem vem lá. Nem começou abril, um calor ignorante, as pessoas discutindo política como se estivessem na Guerra Fria, a política institucional às claras de tão sombria, sem dúvida regida pela Salvador Dalí, e vou terminar o dia preso por homicídio, pensei. O menino se aproximou, me felicitando. Meu querido, disse ele. Como vai, querido, perguntou. Demos as mãos, e a cara que eu fiz, imagino, foi a minha melhor pior cara. Ele me deixou passar.
Mano, querido? Veja só, na minha gramática, vem de querer. Mano, sequer o ensinamento do filme do Batman você pegou: não é o que você diz, mas o que você faz que te torna algo pras pessoas. Mano, cê me liga? Mano, cê me escreve? Cê me procura com saudades, mano? Mano, eu te devo uma cerveja? Cê dividiu teu sonho de valsa comigo, mano? Te dei uma bronca porque cê fez o que eu disse pra não fazer e ainda assim cuidei de você depois daquele porre, mano? Não, né. 

Então, faz favor, vai salvar as baleias y hacer la revolución, só não me chama de querido, mano, que eu não sou obrigado.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Era Pavlov russo?

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários


- A vida é tão lógica como um gato: às vezes dá carinho porque quer comida; às vezes dá carinho mesmo sem querer comida; às vezes - muitas vezes, aliás - sequer dá carinho. Não vale a pena buscar coerência ou explicações.

- Pois é, e depois fica aqueles caras nos programas de televisão: “o gato é um felino caçador, por isso coloque a água longe da ração pra ele imaginar que está cumprindo um trajeto para o rio após a caça e blá blá blá”. E o gato nem aí pra nada disso, apenas puto de ter que andar da lavanderia até o corredor só pra tomar uma água...

- Dá vontade de pegar o cara que disse isso, convidar pra almoçar, colocar o prato com comida na mesa da sala e o copo de refrigerante no criado-mudo do quarto.

- Sim, e um cardápio bem apimentado de preferência... Mas o que isso tem a ver com a vida, tá dizendo que ela é fofinha, comilona, preguiçosa e dorme engraçada, tipo um gato?

- O que quis dizer é que na vida, quando você acha que encontrou um sentido prático, ela se comporta como um gato: danem-se os humanos, eu ajo como eu quero, não busque em mim nexos e linearidades.

- Nossa, que complicação, era mais fácil você dizer que a vida não tem lógica alguma, então.

- Ou que tentar entender racionalmente a vida seja tão improdutivo quanto tentar classificar como causa-efeito as ações de um bichano qualquer. Provavelmente Pavlov não teria sucesso se tivesse feito a experiência com um gato.

- Pavlov?

- Isso, aquele cientista russo que fez o cachorro salivar com um sino.

- Com um sino?

- É, ele fez o cachorro associar o sino com comida. Então quando o cão ouvia um sino ele começava a salivar.

- Por que diabos alguém faria isso com um cachorro? Coitado...

- Dizem que ele foi importante pra entender como nosso cérebro funciona, ou como nosso comportamento pode ser induzido de acordo com as situações.

- Ou manipulado... Dane-se, coitado do cachorro!

- É, dá dó... Pelo menos o Skinner fez com ratos.

- Fez o que?

- As experiências sobre o comportamento. Ele induzia os ratos a fazerem coisas como apertar uma barra pra ganhar comida.

- Coitado dos ratinhos!

- E depois ainda ele ficava reforçando o comportamento com estímulos ou então punindo para que eles deixassem de se comportar daquela maneira. Aquela coisa de reforço positivo, reforço negativo...

- Puta que pariu, que obsessão com isso...

- Com isso o que?

- Isso de querer controlar como todo mundo se comporta. Estimular, punir, reforçar...

- Mas olha que máximo, pensar que todos nossos atos são de alguma maneira induzidos por um monte de fatores inconscientes? Isso significa que nas pequenas coisas que fazemos podemos estar expondo um monte de coisas sobre nós mesmos que a gente mesmo não se dá conta. Acho isso incrível...

- Sim... Você, por exemplo... Ressaltou que o Pavlov era russo, mas não disse que o Skinner era americano...

- Que que tem?

- Oras, esses milhares de fatores inconscientes fizeram com que você dissesse que um era russo e omitisse que o outro era americano. Isso informa sobre você, sobre seus gostos, suas influências. Provavelmente você associa a Rússia a algo ruim, controladora, totalitária e considera os Estados Unidos o lugar da liberdade, dos direitos individuais...

- Ah, tá de brincadeira...

- É sério.. Esse seu, digamos... lapso... deve ter a ver com um monte de coisa: sua adoração por fast food, o modo como você odeia os filmes russos, seu vício por séries estadunidenses, sua paixão pelo Nirvana na adolescência, aquela professora que você odiava, Elvina Nikolaiev, você vive falando nela...

- Nossa, sério mesmo... Nunca ouvi tanta besteira... Sem falar que a dona Elvina - nem me lembre dela! - tinha descendência chechena, não russa...

- Mas na época da União Soviética era a mesma coisa... Mas enfim, fato é que você tem uma quedinha pelos ianques e um rancorzinho dos russos...

- Não diga besteira...

- Não sou eu que estou dizendo, é seu comportamento, as palavras que você escolheu... Os fatores inconscientes... Confessa, vai...

- Confessar o que? Nossa, sério mesmo que estou ainda dando corda pra essa sua teoria estúpida?!

- Não precisa negar, é normal ser imperialista. Tenho até amigos que são...

- Vai se ferrar! Aliás, como raios você sabe que o Skinner é americano se você nem o conhecia?!

- Não sabia, na verdade... Deduzi quando você ressaltou que o outro era russo... É o famoso pensamento binário... A gente tende a classificar o mundo em duas categorias: belo-feio, certo-errado, esquerda-direita, mulher-homem, ímpar-bar, russos-americanos... Logo...

- Logo?! Logo o que?! Ele podia ser afegão, dinamarquês, australiano, sírio, alemão...

- Mas o que ele é afinal?

- Americano, mas isso não quer dizer que...

- Rá! Não disse?! Logo, minha teoria estava certa.

- Logo nada! Logo o que você diz não tem lógica alguma!

- Tipo a vida?

- Tipo os gatos.

- Tipo os cientistas.

domingo, 6 de março de 2016

no metrô

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário



A porta fecha, encontro um assento próximo ao fundo do vagão do metrô, de frente para as janelas. O trem começa a se mover e ouço, do outro lado:

- BOM DI.A. DES.CULPA EN.TERROMPER A VI.A.GEM DE VO.CÊS, É MUITO TRIS.TE.UMA.MÃE.NÃO.TER O QUE.DAR DE CO.MIDA PROS SEUS FI.LHOS. TENHO QUA.TRO CRI.AN.ÇAS PE.QUE.NAS.

Dentro do túnel, o trem em movimento, o ar sendo cortado pela velocidade dos vagões invade os ouvidos. Procuro, de quem é a voz estranhamente pausada que, segundos antes, eu ouvia. Entre passageiros de pé, no meio do vagão, está uma senhora negra naquele instante apenas com a boca em movimento, sem voz para os meus ouvidos. O tempo até a próxima estação é o tempo que ela tem para se comunicar. Entre as estações, o tempo também é ruído.

O trem inicia a frenagem, as caixas de som se abrem ao mesmo tempo em que, outra vez, a voz da senhora se faz ouvir:

- Próxima QUALQUER estação CIN.CO Santa CENTA.VOS Cruz A.JUDA

O trem para, as portas se abrem:

- O.BRIGADA OBRI.GA.DA OBRI.GADA.

Passageiros se rearranjam ao redor dela e, ao fundo, o cartaz oficial da concessionária pede para que se denuncie pedidos de esmolas. Denunciar. Ela está com a mão estendida, movimenta-se lentamente em direção à porta e recebe algumas moedas enquanto isso. Antes da porta se fechar, ela sai. Segundos depois o trem adentra o túnel e o ar sendo cortado pela velocidade dos vagões invade os ouvidos.

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