quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Release

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários





Quando eu era mais novo, toda vez que chegava Release no toca-cd, no micro sistem, ou, depois, no diskman, no final de Ten, eu parava. Até no mp3, no carro, no random que fosse, entrava a vinheta da música e eu ia logo pra tecla > pulando. Tá lá no documentário do Cameron Crowe, Pearl Jam - Twenty, muita gente diz e o próprio Vedder reconhece, assim que escreve e as primeiras vezes em que interpreta a canção o transtornam. Dá pra ver nas primeiras gravações, nos primeiros shows, Release não aparece tanto, e quando aparece é um Eddie sombrio quem canta. Alguém vai dizer, mas também é um dramático que só o vocalista. É. Ainda assim, não tem muito eu-lírico, distanciamento, ou estranhamento no processo criativo, parece, tem é um grande mal resolvido, uma dor na letra. Faz pouco soube que o álbum é pensado a partir de Quadrophenia, do The Who, uma ópera rock toda esquisita. Os álbuns se parecem, é só reparar nas letras, intertextualidades, são sons diferentes, mas há sim um diálogo.

Não gosto muito do lance de “pai” nas coisas da vida. Tem aquela ideia vertical, do Uno, o Rei, que às vezes se transforma em “fundador”, “origem”, e quase sempre como símbolo de autoridade. Taí, como símbolo né, não apenas enquanto pessoa. Pode não ser pai, pode ser mãe, pode ser o irmão da mãe, pode ser só irmão, tio, tia, vizinho, amigo, namorada, companheiro, etc. “Pai” é um símbolo de autoridade. Deve ser por isso o meu contragosto: pelo que me lembro, quando meu próprio pai se investiu de autoridade em relação a mim, putz, não foi legal. Brigamos. Isso da adolescência pra cá, porque durante a infância, e a maior parte do tempo, até hoje, não vejo meu pai como uma figura de autoridade. Ele nunca me bateu, por exemplo, por mais que autoridade e violência não estejam diretamente conectadas ao físico. Às vezes a gente se esquece disso, infelizmente. Me lembro de ver meu pai uma única vez transtornado discutindo com um homem na portaria do zoológico de Ribeirão Preto, eu tinha uns cinco anos, ali ele parecia capaz de violência física. Era como se aquele não fosse meu pai, eu chorava e me levaram embora.

Meu pai é uma companhia gostosa, presente, carinhosa, atencioso. Mas num intervalo grande que está na minha memória, cujo início é aos 4-5 anos, quando começa o lance das cirurgias na orelha, há uma quebra em relação ao meu pai, uma transformação. Minhas primeiras lembranças de vida são em corredores de hospital, no HC da USP, em Ribeirão Preto, no HC da UNICAMP, e em uma clínica em São Paulo. A primeira cirurgia só foi acontecer aos 8 anos, em Campinas, e foram até os 12-13 anos. Meu pai muda radicalmente aí no meio. Depois de uma das cirurgias, eu não me recuperei, tive uma infecção, meu corpo rejeitou a cartilagem de uma das costelas que havia ido pra orelha. Foram três intervenções em vinte dias e um infeliz acaso, um mau encontro.

Meu pai e duas de suas irmãs desde então não se falam. Difícil lembrar onde eu estava semana passada, do que disse e se ainda concordo com meu próprio seminário sobre um livro dias atrás: quase vinte anos depois não me parece possível que alguém saiba o que aconteceu, quem disse o que pra quem, quem fez o quê, quem primeiro disse o que disse e porquê. Meu pai acreditou que estivesse perdendo o primogênito que durante onze anos esperou ter – em sua concepção ideal de família –, e assistiu à emergência de seus rancores, coisas mal resolvidas, conflitos, falas, decisões, relacionamentos afetivos, tudo isso ao longo dos então quase cinquenta anos de sua vida. A partir daí, oscilava, às vezes retirava-se das relações que tinha estabelecido até aquele momento, retirava-se do passado à luz do presente. Observador privilegiado de sua vida, como todos nós, contando-a então insistentemente, vestiu a coroa do Monarca, transformou seu passado num reino sob seu domínio. Sobre coisas ruins, tristes, era como se ele não tivesse feito escolhas, como se ele mesmo não tivesse agência em cada uma das relações que viveu: os outros, a corte era responsável, era como se ele apenas tivesse assistido, incrédulo. Às vezes, por outro lado, para coisas boas, raras, mas felizes, era como se somente ele tivesse feito, era ele, como bom Provedor, quem tomou as decisões. Principalmente, meu pai ao mesmo tempo vestiu a toga do Magistrado, transformou decisões erradas em julgamentos morais intransponíveis, bateu o martelo repetidas vezes, personalizou erros em pessoas, cristalizou todos, sentenciou-os, e também transferiu tudo isso a algumas outras pessoas próximas. E, sim, de alguma forma, ainda me sinto culpado por tudo isso.

Acho que foi aí que conheci o que era autoridade, e não exatamente a do meu pai. Naquele homem aparecia uma autoridade sombria, amarga, lateral, eventual ao longo das semanas, repetitiva em sua aparição, previsível em seu acontecimento. Daquele momento em diante, se hoje aparece faísca disso, sou capaz de apostar a relação que ele estabelecerá, a lembrança seguinte que contará. De certa forma, então, não consigo cantar Oh, Dear Dad, Release Me, porque ali ficou claro que autoridade, em casa, sobretudo, era minha mãe. Além disso, naqueles anos, eu também tive que forjar alguma autoridade em relação a tudo isso. Mesmo antes, meu pai nunca foi alguém que falasse com autoridade, é uma piada nossa até hoje: tudo que ele precisa, quando necessita investir-se de autoridade, seja pra dar bronca nos filhos, seja pra contar alguma coisa da qual ele vai se gabar, é batata, meu pai chama minha mãe. É hilário. Quem se dá bem com isso, tinha que ser, claro, é minha irmã, ela samba na cara do bobo do meu pai. Mas, ali, naqueles anos dessa confusão, também aprendi com minha mãe o que é segurar a onda: ela, muito mais do que eu.

Só tem uma onda que minha mãe não segura até hoje. Já conversamos algumas vezes, mas ela dá de ombros. É comigo. Quando eu nasci, veio uma concha no lugar da orelha esquerda, e o que no ultra som era a mão no rosto, no parto, percebeu-se que eu protegia o lado esquerdo. Eu chorava, a boca virava: má formação crânio-facial. Exames após exames, consultas após consultas, e o interrogatório era sobre minha mãe: que medicamentos a senhora tomou?; a senhora usa alguma tipo de droga?; a senhora tem alguma doença sexual? Não importa se criança, jovem ou idoso, quem parar ao meu lado distraído reparando que uma orelha não é como a outra, ah, se minha mãe estiver por perto esse alguém vai ouvir, “algum problema, que que foi, nunca viu?!”. O que pro meu pai é senso de proteção, em relação aos filhos, pra minha mãe se confunde com belicismo.

Já interrompi minha mãe algumas vezes nessas situações em que sou observado por curiosidade, já conversei em outros momentos sobre isso, porém, não resolveu. Entendi que é ela o eu-lírico de Blood. Minha mãe está dizendo, faz quase trinta anos, Spin me round, roll me over, fuckin' circus, Stab it down, one way needle, pulled so slowly, Drains and spills, soaks the pages, fills their sponges, It's my blood. "It's my blood", minha mãe repete. Não é exatamente como se ela se sentisse culpada, porque os versos em que Vedder ironiza, paint Ed big, turn Ed into, one of my enemies, pra mim, são minha mãe dizendo, paint Hugo big, turn Hugo into, one of my enemies.

Algumas pessoas já chamaram atenção pro fato de eu falar bastante sobre meu pai. Às vezes eu sorrio. Meu pai gosta de dizer que eu sou um velho rabugento, chato e reclamão feito um dos avôs de minha mãe. É que meu pai ainda não conviveu com o Adriano. Mas quando o assunto é definição de pessoa pelas linhagens familiares, é ponto passivo que tenho a ironia, a pentelhação, a sem noçãozice, o espírito circense e quase irresponsável, enfim, o humor de minha mãe. De algum modo, então, não só quando estou aqui falando do meu pai, no entanto, quase sempre por aí afora, as hastes que sustentam as lentes dos meus óculos são minha mãe. Como da infância até a adolescência eu passei por algumas cirurgias, às vezes três num ano, entre uma recuperação e outra cirurgia o tempo era curto. Fiquei muito tempo em casa, com minha mãe, com minha irmã, com minha tia também, com minha avó. Muito antes de ver um filme do Almodóvar eu já tinha conhecido um pouco desse universo. Ainda hoje, não me sinto exatamente bem em ambientes considerados masculinos.

Foi só com minha mãe também que aprendi o que é alguma autonomia. Ela nunca comprou a encrenca do meu pai com o passado dele. Não tomou a relação de meu pai com as irmãs dele pela relação dela mesma com as cunhadas. Foi aos casamentos dos sobrinhos, nesses anos todos, convidada, foi aos aniversários da sogra: meu pai, não. Se meu pai entrava em monólogo sobre seu passado e pedia interlocução, reconhecimento, ela negava, e negava que nós, minha irmã e eu, assumíssemos as relações e associações que ele estabelecia. Quem os vê por aí, sempre de mãos dadas, feito os velhinhos de Up – Altas Aventuras, ou mesmo o casal de Amor, o filme de Haneke, quem assiste a minha mãe contando piada, meu pai não entendendo mas rindo, ou meu pai contando uma história longa e cheia de detalhes que só minha mãe presta atenção, não, quem os vê não se dá conta de que há desentendimentos e diferenças que fortalecem alianças.

Já saindo do período das cirurgias, quando meu pai me ensinou a jogar tênis, um pouco pra que ele também voltasse a jogar, me lembro de como ambos, minha mãe e meu pai, encaravam uma partida de maneiras diferentes. Comigo, meu pai não competia, ele não levantava a bola, ou simplesmente a passava pro outro lado da quadra. Não era assim. Se ele batia firme, era pra que o jogo continuasse. Meu pai dava ritmo, gostava de um jogo de trocas de bola. Minha mãe, tsc, não. Hoje, me lembrando disso, e com algum exagero, evidentemente, era como se estivesse Serena Williams do outro lado da rede distribuindo pancadas enquanto habitava o centro da quadra. A cada estalido da bola na raquete de minha mãe, agora, era como se ela estivesse dizendo Still I Rise. Tantos anos depois, já está mais claro, talvez a única coisa que herdei foi mesmo o humor, careço dessa força.

Ao mesmo tempo, quando o assunto é “a cara de quem”, é meio óbvio que puxei minha mãe. Outro dia, porém, eu olhava meu pai sentado, grisalho, assistindo à TV na casa deles e, mais de trinta anos mais velho, eu me vi fisicamente naquele homem. Ele foi falar alguma coisa, foi se auto-elogiar, minha mãe logo cortou sarcasticamente, tei, pah, todos rimos. Tendo saído dali cerca de 12 anos atrás, morado em cidades diferentes e com dezenas de pessoas, poucas vezes encontro, como naquele momento, a sensação de me sentir em casa.

Meu pai, naquelas semanas, naqueles meses, anos atrás, e mesmo ao longo desses muitos anos, às vezes, me parece Tadeo Isidoro. Aquele que, por longa e complicada que seja uma jornada, pode compreender, pode descobrir, de uma vez por todas, quem é, pode saber a realidade de si próprio, sua natureza, pode conhecer seu destino e o de outras pessoas a partir de momentos únicos, através apenas de alguns instantes. Minha mãe, não, ao longo desses anos parece dizer que seu reflexo côncavo no vidro da lanchonete talvez seja dela uma imagem mais fiel que a lembrança que lhe guardam colegas do colégio, mais exata que a imagem que ela mesma figura de si própria (rf. O Brinco, Ana Martins Marques). E falando assim parece fácil: quero ver ser filho deles, né Helena.

Se uma dor, porque Vedder ainda aparece grave cantando Release, meio blue, desde o lançamento do álbum Ten, em 1991, até os anos 2010 ... vinte e cinco anos depois, quando vi essa apresentação de agosto de 2016 bateu certo alívio, algum otimismo. Logo no início, I see the birds in the rain – ê breguice –, Eddie aparece sorrindo. Lá no meio de um ôôÔôôôÔ novamente, sorrindo. Termina a canção e ele segue sorrindo. É só mais uma canção, que dia bonito, como tem gente, que legal, é o que ele parece dizer. Há, naquele senhor grisalho, sentado, assistindo à TV, ainda aquele homem carinhoso desde minha infância, há também um ar desanuviado, leve, quase adolescente, que eu mesmo não sei se reconheço: talvez tenha desaparecido aquele sombrio e rancoroso – oh, dear dad, feliz aniversário.









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