domingo, 6 de março de 2016

no metrô

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário



A porta fecha, encontro um assento próximo ao fundo do vagão do metrô, de frente para as janelas. O trem começa a se mover e ouço, do outro lado:

- BOM DI.A. DES.CULPA EN.TERROMPER A VI.A.GEM DE VO.CÊS, É MUITO TRIS.TE.UMA.MÃE.NÃO.TER O QUE.DAR DE CO.MIDA PROS SEUS FI.LHOS. TENHO QUA.TRO CRI.AN.ÇAS PE.QUE.NAS.

Dentro do túnel, o trem em movimento, o ar sendo cortado pela velocidade dos vagões invade os ouvidos. Procuro, de quem é a voz estranhamente pausada que, segundos antes, eu ouvia. Entre passageiros de pé, no meio do vagão, está uma senhora negra naquele instante apenas com a boca em movimento, sem voz para os meus ouvidos. O tempo até a próxima estação é o tempo que ela tem para se comunicar. Entre as estações, o tempo também é ruído.

O trem inicia a frenagem, as caixas de som se abrem ao mesmo tempo em que, outra vez, a voz da senhora se faz ouvir:

- Próxima QUALQUER estação CIN.CO Santa CENTA.VOS Cruz A.JUDA

O trem para, as portas se abrem:

- O.BRIGADA OBRI.GA.DA OBRI.GADA.

Passageiros se rearranjam ao redor dela e, ao fundo, o cartaz oficial da concessionária pede para que se denuncie pedidos de esmolas. Denunciar. Ela está com a mão estendida, movimenta-se lentamente em direção à porta e recebe algumas moedas enquanto isso. Antes da porta se fechar, ela sai. Segundos depois o trem adentra o túnel e o ar sendo cortado pela velocidade dos vagões invade os ouvidos.

1 palpites:

crônica foda, hugo!
gostei ddemais do jeito da escrita!
abração

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