terça-feira, 10 de novembro de 2015

Novembro

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários





Passei os últimos dias aflito com o telefone, qualquer tilintar pela casa eu já corria os olhos atrás do meu celular. A campainha do vizinho tocava e eu me via ao lado da televisão, onde também está o telefone fixo, acreditando receber uma ligação. Deixei de ignorar as três vezes semanais, ou quase que diárias, em que a operadora de telefonia me liga para oferecer um plano super especial de bônus, mensal, semestral, anual, intersecção com internet, SMS - sim, ainda existe -, conta bancária e crédito pessoal - não entendo como é possível -, mais chamadas de larga distância gratuitas e canais de esporte underground. Atendi todas as ligações crente de que era algo importante, imprescindível, sem ter um motivo, sem ao menos ter uma razão. Tudo o que tinha era apenas um sentimento, um impulso, um reflexo. Mas descobri o porquê hoje pela manhã, estou aliviado. Estamos próximos do fim do ano, em breve vem o Natal: tenho esperado Papai Noel me ligar.

Véinho meu pai é uma pessoa que gosta muito das pessoas, mesmo que não saia por aí demonstrando afeto, sorrindo, cumprimentando e fazendo coraçãozinho com a mão. Ainda que a vida distancie as pessoas, é notável como meu pai gosta de algumas dessas pessoas pela forma com que se interessa por elas, querendo saber delas. É velho fofoqueiro. Pra sacar isso vai um tempo, talvez anos, ele jamais vai admitir, e começo a achar que seja uma virtude - se é que existe isso -, a de não deixar que todos saibam o que quer que seja sobre você. Sendo bem objetivo, ele ultimamente andou perguntando do Rafael, seu sobrinho e meu vizinho. Eles não se veem faz anos. Outra coisa que véinho meu pai lembra bastante é que, uma vez, ficou bravo com Ricardo, também seu sobrinho, mas isso me envolve, e envolve, inclusive, Papai Noel. Ah, como eu gosto do Ricardinho e da Gi, ele diz, puxando o saco, mas aquela vez - meu pai é um escorpiano típico, quando ele diz aquela vez, hmmm, tremei-vos -, aquela vez eu fiquei muito bravo com o Ricardinho.

Não sei quantos anos eu tinha, eu não me lembro, provavelmente eu era muito pequeno, véinho meu pai diz que fez Ricardo me desdizer que Papai Noel não existia. Como qualquer criança que se preze, enquanto se aproximava o Natal, eu não estava nem um pouco preocupado com o nascimento do comunistinha do Jesus de Nazaré. Aniversariante de dezembro, seguramente eu calculava em voz alta o que pediria ao Papai Noel e o que deixaria a cargo dos meus pais no início da constelação de sagitário. Ricardo, alguns anos mais velho, deve ter sacado e, por esporte, mandou logo o clássico, "Papai Noel não existe, prestenção". Inquirido, meu pai, em vez de responder à materialidade das coisas, quis as fontes: sobrou pro Ricardo a bronca.

Como eu não me lembro dessa história, também não me recordo o que ganhei naquele Natal. De todo modo, presentes que me marcaram foram dois. De criança, um autorama enorme, desses que não cabe na sala, não cabe no quarto, que dá trabalho enorme pra montar e faz a gente passar dias com os olhos presos ao chão seguindo aqueles carrinhos velozes. Já adolescente, foi uma bicicleta, que me acompanhou durante mais de dez anos, desaparecendo roubada já no fim da faculdade. O autorama eu tenho até hoje, precisando ser montado dia desses pra desenferrujar. A bicicleta, arma ideológica dos comunistinhas de São Paulo, me faz muita falta. E não, não foi Papai Noel quem me deu esses presentes, eu já sabia naqueles anos, mas ainda não podia afirmar em casa. Papai Noel ligava todos anos em novembro pra saber como estávamos minha irmã e eu. Aval eu não tinha pra desacreditar aquela voz rouca e engraçadinha do outro lado da linha enquanto Helena era criança devota de Papai Noel, mesmo que a adolescência já tivesse me feito pedante. Lá estávamos em novembro, o telefone tocava, meu pai atendia, nos chamava e dizia, cheio de cuidados, é o Papai Noel, ele quer conversar com vocês. Só sendo muito sacana pra levar uma história dessa tantos anos e assistir aos filhos ali, delirando no telefone, sem dar bandeira, em silêncio, ao seu lado no sofá.

Levei muito tempo pra entender uma coisa besta, meu pai curtiu muito a infância e a adolescência minha e da minha irmã. Sessões de teatro, sessões de circo, uma atrás da outra, sessões de teatro, sessões de circo. Vamos andar de bicicleta, vamos nadar. Sessões de teatro, sessões de circo. E, evidentemente, telefonemas do Papai Noel. Se deixar, não duvido que véinho meu pai vá até hoje no fim da madrugada buscar a caçulinha numa festa do outro lado da cidade. Ainda volta falante, contando uma história qualquer de gafieira nos anos 1960. Vai ver que o registro em cartório que deram ao véinho meu pai, de seu nascimento, somente no dia 20 de novembro, explique o seu proceder de leitor de jornais velhos, já que nasceu no dia 10. Até pra completar anos ele leva uns dias pra ser reconhecido oficialmente. Leva tão a sério a coisa de viver demoradamente, quase que duas vezes as coisas todas da vida, que viveu até mesmo a vida dos filhos.

Feliz aniversário, pai, seu mimado, chorão. Obrigado, claro, pelo autorama e pela bicicleta, mas também por ter me feito atormentado pelos telefonemas do Papai Noel. Te amo, do seu filho, piolhento.


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