VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O mimimi das minorias

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários

Sou magrelo, quase sempre fui. Para não expor as costelas, sempre tive vergonha de ficar sem camiseta. No colégio, eu era zoado por isso. Por que fazer piada de magrelo pode e de gay não?

Depoimentos como esse tem pipocado nas redes sociais esses dias, incentivados pelo discurso de Levy Fidelix no último debate de candidatos à presidência. Mas será que fazem sentido?

Fazer piadas ofensivas com gente magra (ou com nerds, com a orelha ou a cor do cabelo do colega ) é um problema, sim. A ele damos o nome de bullying. É um problema principalmente na adolescência, porque pode levar à não aceitação da própria personalidade, à depressão, à violência e ao suicídio. Isso não significa o fim das piadas. Significa apenas que é preciso pensar na pessoa que é alvo da brincadeira. Ela está gostando? Há piadas que são feitas no intuito de incluir alguém em um grupo e zoeiras feitas com o sentido de humilhar, desumanizar e excluir.

Mas isso é bullying, não é preconceito. São coisas diferentes porque magros não constituem uma minoria social. Isso quer dizer que, no Brasil, as pessoas que estão com Índice de Massa Corpórea abaixo da média não são mais assassinadas do que as com peso ideal, eu não sou mais abordado pela polícia porque sou magro, não desconfiam que eu estou roubando uma loja porque minhas costelas estavam aparecendo na camiseta. Quando eu uso o banheiro em um restaurante, não tenho o constrangimento de pessoas me olhando com medo, as pessoas não mudam de calçada para evitar cruzar com um magro. Não há comunidades que se propõem exterminar todos aqueles que estão abaixo de um determinado peso. Ninguém acha que magros criam mal seus filhos, portanto, não tentam negar o meu direito de ter filhos ou de adotá-los. Não me é negado o direito de herança ou de financiar uma casa com outra pessoa porque somos um casal de magros. Não acham que eu estou me prostituindo se fico esperando um ônibus só porque sou magro, não me negam empregos porque o peso na cadeira é leve demais. Não há grupos que digam que eu estou pecando por ser magro, que digam que ser magro não é a vontade de Deus. Não apanho na rua porque sou magro.

Em outras palavras: ninguém nega a minha humanidade, meu direito à vida ou meus direitos civis por eu ser magro.

Se eu fico sustentando o discurso de que eu também sofro porque sou magro e de as minorias se fazem de coitadas, eu coloco tudo em pé de igualdade, como se as consequências fossem iguais em todos os casos. Não são.

É por esse mesmo motivo que não faz sentido falar em orgulho hétero, usar camisetas “100% branco” ou dizer que homossexuais e transexuais estão de mimimi. O problema do preconceito é que preconceito mata.

domingo, 21 de setembro de 2014

Conversa na Varanda

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

Minha rotina? Vez ou outra acendo meu cachimbo, sentado aqui na varanda, olhando pro nada enquanto nada acontece. Que nem domingo de cidade do interior, sabe? Acendo o cachimbo, olho pro nada e a paz vem, ô se vem... Vem dançando miudinho, miudinho, me envolvendo todo e eu nem sei o que fazer com isso, fico aqui, encostado vendo nada acontecer, sem reação. Acho que porque os homens da minha idade nunca aprenderam, durante a vida, a serem conduzidos na dança. Mas quando acendo meu cachimbo, dou o primeiro trago, entregue à cadeira, penso como é bom ser conduzido, e como perdi tempo querendo estar sempre no comando. Você é novo, moço, experimenta parar e olhar pro nada de vez em quando, muitas coisas acontecem enquanto nada acontece, sabe?

Tenho não. Nem neto, nem neta... Também tenho não. Nem filho, nem filha... Tive já, mas é passado.  Se morreu ou me deixou? Faz alguma diferença, seu moço? Sei só que eu to aqui, e na minha varanda tem só duas cadeiras: uma pra mim e essa outra que você tá sentado, que é pra caso algum compadre venha tomar um café... Se me sinto sozinho? Olha, só posso dizer que fazia tempo que essa cadeira aí não sentia o peso de alguém.

Tome, pegue aqui seu café, bebida santa. Ah, tá doce, esqueci de avisar. Meu estômago já não aceita o café tão amargo, tem que ter um bocado de açúcar pra adoçar. Meu pai falava que estômago é igual coração, muita amargura e ele para de funcionar... Fica tranquilo, seu moço, os dois meus tão bem, só com o desgaste natural do tempo, mas no fundo eu sei que é que nem carro usado, depois que dá problema resolve mais não, você sabe bem...

Quando não tenho companhia? Sei não. Aí converso com meu radinho, coloco ele nessa cadeira que você tá e fico ouvindo enquanto olho pro nada. Às vezes fecho os olhos enquanto escuto, gosto de imaginar a beleza de quem tá falando no rádio, se é moça bonita, se é rapaz bem aparentado. Sabe, meu radinho tem um chiadinho, mas eu gosto, me lembra um monte de coisa boa, sabe? Aquela época que tinha mais porteira que sinaleiro, a gente ouvia cada moda linda, cada saudade em forma de acorde. Eu gosto de ouvir as modas, eu achei uma rádio aqui que sempre toca umas modas bonitas. Fora essa, tem uma outra que só passa notícia. Mas esa eu ouço só às vezes, vou falar a verdade pra você, cada desgraça que não dá nem pra imaginar. Só por Deus, se bem que com tanta coisa ruim que acontece, às vezes dá pra achar que o Diabo tá no comando. Deus me livre, vira essa boca pra lá.

Quando ouço umas desgraças sem tamanho, fico com raiva, coço tão forte a palma da minha mão que ela fica toda avermelhada. Eu queria era saber qual foi o bicho que mordeu o homem. Deve de ter sido um bem venenoso, desses que quando ferroa não tem volta, ou vai ver que alguma onça com doença contagiosa abocanhou o primeiro que passou, espalhou essas pragas pelo mundo e agora tá assim, cheio de desgraça por aí... To calmo moço, to calmo. Mas bom mesmo era quando tinha novela no rádio.

Se bem que às vezes tem umas conversas que eu gosto nessa rádio de notícias que falei pra você. Outro dia mesmo tinha um doutor falando, agora não sei direito se era médico ou algum letrado. Só sei que era inteligente e disse uma coisa tão interessante que eu até guardei. Ele disse que achava muito engraçado o ser humano dizer que o avesso da "morte" é "vida", porque se fosse pra ser certo, o avesso da "morte" era pra ser "nascimento". E não é que faz sentido mesmo? Quando alguém nasce a gente enche a cara de sorriso e nem pensa que aquilo é o avesso da morte não é mesmo? Só de ter pegado um nenezinho no colo, eu já vi até coronel abrir sorriso sem saber o porquê. Essa mentira que a gente conta de dizer que a vida é o avesso da morte deve ser pra não lembrar que na verdade é o contrário: vida é o caminho que a gente faz pra chegar até ela. Seja eu aqui com meu cachimbo, olhando pro nada, dançando com a paz. Ou o moço aí, todo de branco fazendo esse tanto de pergunta. Mais café?

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A troca de ascendente

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



Ano passado, completei anos na casa dos meus pais, e na manhã do mesmo dia de meu aniversário, então, sra. minha mãe veio toda toda puxando papo:

- Nossa, e pensar que uma hora dessas anos atrás você resolveu nascer.
- Ah é, é? - tão interessado que nem virei a cadeira.
- É ... é... - quase pedindo um pouco de atenção -, era uma quinta-feira, seu pai tinha saído mais tarde porque ia ao dentista e logo depois que ele saiu a bolsa se rompeu. Quer dizer, não sabia direito, liguei pra dra. Leila - pediatra, obstetra, ou coisa parecida - e aí ela pediu pra que eu fosse pra lá.
- Como assim, rompeu a bolsa e você pegou o carro pra ir até o consultório, mãe?
- E você queria que eu fizesse o quê? Ligasse no celular do seu pai? Se nem hoje ele atende aquilo, imagina quando sequer existia isso.
- ¬¬
- Assim que cheguei lá ela disse que não tinha o que fazer, a bolsa tinha mesmo rompido, já tínhamos entrado no oitavo mês, esperávamos você só no início do ano, mas naquele momento era internar que você ia nascer. Peguei o carro novamente e fui pro hospital.
- Como assim, mãe - à beira de um colapso nervoso - você estava no consultório, por que foi dirigindo?
- Ué, não tinha por que falar nada, não precisava, eu estava bem, não estava sentindo nada.
- Ah é - já possesso -, a bolsa rompe e você resolve dar um rolê pelas ruas, curtir um trânsito no calor de dezembro nessa cidade?? Isso explica muita coisa! - provocando - Deus do céu, como eu sofri!
- ¬¬ tsc, quando cheguei no hospital, aquela coisa, soro, eu não tinha contração, então me deram algo para provocar isso. Era umas 10h, consegui avisar sua tia, pedi pra ligar pro seu pai. Mas demorou muito, primeiro teu pai e eu estávamos casados há onze anos e nada d'eu engravidar. Depois, um belo dia, tadan, eu estava grávida de quatro meses. Não contente com isso, quatro meses após a notícia, você resolveu nascer, quer dizer, começou, mas em seguida não queria sair mais, levou a manhã inteira pra isso: tá louco, moleque complicado!
- ¬¬
- Quando foi lá pro meio dia, perto do meio dia e meia, você finalmente nasceu.
- Como assim, perto do meio dia, não era três, quatro da tarde?
- Não, não, cruzes, foi na hora do almoço, eu não aguentava mais.
- Putz, eu achava que tinha sido umas 15h30... então não tenho ascendente em áries, tsc.
- ¬¬


    • + Lidos
    • Cardápio
    • Antigos