VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

domingo, 27 de julho de 2014

Acidentalmente

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



Tosse, tosse, tosse. Para, presta atenção. Tosse, tosse, tosse, tosse, tosse. Fecha a torneira. Tosse, tosse. Tia, tá tudo bem? Tosse, tosse. Tia? Abaixa o fogo da panela de arroz. Tosse, tosse, tosse, tosse. Vai ao quarto. Tia? A saliva escorria boca afora. Tia? A boca tinha se virado toda para o lado esquerdo, acompanhando o desenho do corpo, que se inclinava, debruçando-se sobre o mesmo lado. Tia, fala comigo, tia. Os joelhos, que viviam próximos quando ainda levavam os pés, ao caminhar, fazendo das canelas um v de passo demorado, de pé pra dentro, encavalaram-se. A tia acabrunhara-se muito. Revirados, os olhos não viam nada. A tia parou de tossir.

A tia não respondeu. A vizinha deve saber o que é. Vai até a vizinha e a vizinha vem ver o que é que é com a tia. A vizinha diz, ué, melhor chamar um médico, uma ambulância. Chama a ambulância. As pessoas que chegam na ambulância dizem que é grave: é um acidente, mesmo para quem estava parada, sentada, numa cadeira de rodas, assistindo à tv. A tv é grave mesmo. Mas o acidente aconteceu por dentro da tia. Deram um nome completo: vascular cerebral. No hospital, dizem, o médico é quem vai mesmo dizer, ou redizer o já dito, o que está todo mundo vendo. Tá todo mundo vendo desde que a tosse parou, pensa.

Começou foi quando a tia caiu, né, quebrou o fêmur e a bacia. Foi lá, ano passado. Não. Começou quando ela não quis mais sair de casa, parou de trabalhar, ficava só em casa, saía muito pouco, só às vezes, só de vez em quando, ia ao mercado. Foi quando traziam as coisas pra ela, os conhecidos, os vizinhos. Foi aí. Não, foi quando o marido faleceu, lá atrás: ela ficou sozinha. Ah, a solidão faz isso com as pessoas. Mas pessoas que vivem rodeadas de gente também ficam assim. É a solidão de si mesmo, o abandono dos outros e o próprio abandono. Foi isso, foi quando a tia deixou todos pra trás, não quis mais saber dos irmãos, dos sobrinhos, da família. Demorou muito pra ter algum contato depois. Família, não, ah, ela sempre foi assim, como se diz, difícil, mentia, escondia as coisas, não falava, guardou muita coisa, não suportou, era muita coisa ruim dentro de si. A tia foi na direção contrária àquela seguida pelas estrelas que, perto do fim, se expandem antes da explosão que lhes dá cabo, viveu foi nessa direção contrária a tia.

Não, não sabe. Aliás, o não era a palavra que a tia mais repetia. É isso, ficou assim de tanto não. Era não de manhã, não quero sair. Não de tarde, não quero ir pra sala, prefiro ficar no quarto. Não, não vou fazer, já vai começar o programa que ensina a cortar as unhas, já vai começar a novela das seis, a novela das sete, aquele filme agora é que vai passar, não. Durante a noite, repetia em sonho o não, não, não, não, não. Foi assim que no hospital também lhe disseram não: não tem o que fazer. Primeiro não pode ir pra UTI. Depois que vai, não pode sair ainda. Quando sai, não pode ir embora. Não vai levantar da cama, já não tem consciência, não vai voltar a falar, não, não, não.

Não era uma manhã de sexta-feira, mas tanto faz, que dia era mesmo não sabe. Os dias já não fazem diferença. Não sabe o começo dessas coisas, mas sabe o fim, que aguarda, dá assistência ao que não parece fazer diferença à tia. Chega, senta ao lado dela, fala qualquer coisa com ar de naturalidade, como quem dá bom dia, pergunta pelo programa de tv, troca de canal, mexe nas revistas ao lado da cama. Espanta o silêncio. A tia às vezes abre os olhos. Ao lado dela, cochila, sente medo, faz crochê, pergunta-se pelo próprio destino. Percebe que o fim é uma espera que, absurdamente, tem até mesmo um começo, aquele que não é uma escolha, e que perdura na estranha obrigação de não aceitar o inevitável.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Coluna do Leitor - Polícia Militar e a democratização das bombas

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários



ATENÇÃO
 Este texto pode conter doses altas de sarcasmo e ironia. Leia com moderação e ponderação1.



A Polícia Militar do Estado de São Paulo tem sido nos últimos meses um exemplo de democratização e bom uso do dinheiro público. Até meados de 2013, alguns dos artefatos adquiridos pela corporação com dinheiro público há muito tempo estavam estocados nos almoxarifados dos batalhões, empoeirados, alguns até com prazo de validade expirado (conforme verificamos em 2013, quando a PM usou bombas de gás lacrimogênio vencidas). Um verdadeiro desrespeito com o dinheiro público. Milhões gastos em munições não letais, abarrotando os batalhões.


Mas do ano passado pra cá, a corporação passou por um choque2 de gestão – como costuma dizer nosso excelentíssimo Governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin – e muita coisa mudou de lá pra cá. O grande arsenal – até então ocioso – foi democraticamente distribuído à população, marcando um processo de retorno dos investimentos públicos àqueles que, com seus impostos, financiam a ação estatal. E não são apenas as bombas de gás lacrimogênio e efeito moral, balas de borracha e os litros e mais litros de spray de pimenta que estão retornando aos cidadãos. As práticas da PM comumente aplicadas a negros e pobres, como as prisões arbitrárias, tortura, confissões forçadas, flagrantes forjados, agora não são mais uma exclusividade das periferias urbanas. Todos e todas podem ser presos de forma ilegal e injustificada por um policial militar sem identificação.


Observa-se aqui um alargamento da atuação desta corporação que antes restringia sua atuação a alguns aglomerados de pessoas de baixa renda, marginalizados, em especial jovens negros. As Polícias Militares dos estados brasileiros, em especial a de São Paulo e Rio de Janeiro, perceberam o quão antidemocrática era esta restrição de atuação. Afinal, jovens negros e pobres não representam a totalidade da sociedade. É preciso ampliar o escopo de atuação. E para isso, novas formas de atuação foram adotadas pelas corporações, em perfeita consonância com os governadores de seus estados. A ordem agora é: qualquer aglomeração de pessoas terá direito a receber uma cota significativa de munições e artefatos, além é claro das atitudes enfáticas dos policiais militares. Não importa se é preto, se é mulher, se é morador de rua, se é estudante, professor, aposentado, metroviário, criança, black bloc, pacifista, torcedor da Argentina, do Brasil; não importa se você estava ali só de passagem, se estava só esperando o ônibus pra ir pra casa, se está num bloco de carnaval em Campinas ou se é advogado em exercício de sua função. Choque de gestão! CHOQUE! Democratização das bombas e das arbitrariedades policiais é a palavra de ordem do momento.


E este processo de democratização não está restrito às munições “não-letais”3. Nos últimos meses vimos também o uso de armas letais4 quando o objetivo é dispersar qualquer aglomerado de pessoas.


Certamente haverá aqueles que discordam de tal política adotada pelos governos estaduais e das PMs, dizendo que esta democratização é ainda muito restrita, já que não atinge aqueles que pagaram mil reais pra ver um jogo da Copa, ou que, vestidos com seus ternos Armani, se reúnem na FIESP ou no Palácio dos Bandeirantes. Para estes críticos, a PM discrimina este grupo que nunca na vida teve a oportunidade de sentir o cheiro agridoce de um spray de pimenta; que nunca pôde ter os olhos cheios de lágrimas por conta da fumaça tóxica de uma bomba; que nunca sentiu na pele (literalmente) o suave ricochetear de uma macia bala de borracha. Pobres coitados... Nunca terão essa oportunidade.


A PM está democratizando seu arsenal de arbitrariedades, mas não é pra todos. A democracia não é pra todos.


É democracia, mas tem dono.



1 O termo “ponderação” empregado neste caso não faz nenhuma referência ao filósofo das elites coxinhas Luiz Felipe Pondé.

2 Choque mesmo! Batalhão de CHOQUE!

3 Não-letais, mas que podem matar. Deveriam se chamar munições possivelmente-não-letais.

4 Essas são letais mesmo. Sem eufemismos.



Ricardo Normanha de Almeida faz charges e é doutorando do Programa de Doutorado em Ciências Sociais – IFCH / Unicamp. É professor de Sociologia, além de correr de balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, pois não é muito afeito à democratização à moda da Polícia Militar de São Paulo.



 

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