quinta-feira, 21 de agosto de 2014

No estacionamento

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



Saindo do Banco, no estacionamento, o carro não quis funcionar. Tentei, tentei e nada, então liguei pro meu pai. Mas não porque eu não seja capaz de ao menos tentar resolver meus próprios problemas - não tire conclusões precipitadas, por favor. Quando o senhor meu pai, que é mecânico - arrá, qualquer um ligaria logo de cara, porém, eu, teimoso e orgulhoso, ainda tentei sozinho -, chegou, logo depois um outro senhor velhinho e alto se aproximou de nós, ele percebeu que abrimos o capô e falávamos sobre o carro. O velhinho alto então disse que havia uma oficina mecânica no quarteirão de trás. Papai, acostumado com essas situações, digamos, de falha de comunição visual, ou de mal entendido, apenas agradeceu. O velhinho alto se afastou. Fizemos o carro funcionar, quer dizer, papai fez o carro funcionar. O velhinho alto, contudo, aproximou-se novamente, falou qualquer coisa outra vez sobre a oficina mecânica no quarteirão de trás. Papai olhou bem pra ele, por fim, com cara de interrogação, mas, ao mesmo tempo, dirigiu-se a ele num tom receptivo:

- Escuta, cê me desculpe, mas quem é você mesmo? Como é que é teu nome? Você... eu to te reconhcendo...
- Ah, nossa, peraí - no susto de uma lembrança -, agora que eu to reconhecendo também, a tua voz... Nossa Senhora, peraí, você, nossa... e eu ainda falando que tinha uma oficina aqui atrás, mas você é... é você... Ah, teu pai, menino - sendo gentil e virando-se pra mim, que só queria ir embora -, era um terror quando jovem.
- Ah, nossa, é? Hoje ele é só um velho teimoso - fazia o sol mais quente possível.
- hahaha
- Tsc - meu pai voltou-se pra ele -, mas o que foi que te aconteceu, um derrame ou o quê? O teu rosto... - mano, eu pensei, mano, o que você ta falando? eu pensei em silêncio, pois se interrompesse poderia deixar o absurdo daquela fala explícito, enquanto o velhinho alto respondia.
- Ah, não, eu só me tornei um velho gordo e desfigurado ...

Instalou-se um breve silêncio melancólico, dois velhos não se viam há quarenta anos, agora se olhavam somente tentando recordar os nomes, um o do outro.

Entrei no carro e, sozinho, toquei antes que ele apresentasse o mesmo defeito.

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