VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Por que o senhor atirou em mim?

. . Por Caio Moretto, com 2 comentários

A filosofia às vezes me coloca umas perguntas que me deixam fora do ar. De tempos em tempos, por exemplo, releio O mito de sísifo, de Albert Camus, e fico paralisado com a pergunta: “será que a vida vale a pena ser vivida?”. Passo dias apenas perambulando pela minha própria rotina como um observador tentando entender o absurdo que é viver uma vida finita.

Mas esse ano as questões que realmente me tiraram o chão não tiveram nada de filosóficas ou existenciais.

Um pedreiro chamado Amarildo sumiu depois de uma abordagem da polícia. E eu perdi o sono pensando: onde está Amarildo?

Nove pessoas foram assassinadas pela polícia na Maré sem nenhum tipo de enfrentamento ou julgamento. E eu perdi o sono pensando: e se fosse no Leblon?

Um funcionário da Unifesp resolveu não aceitar um insulto de um grupo de policiais. Assassinado na mesma noite por homens encapuzados (não me venha com black blocks), eles me tiraram o sono com a pergunta: quem matou Ricardo?

Hoje morreu um menino chamado Douglas, da idade dos meus alunos, assassinado por um policial. E não há nada que me tire desse estado de merda. Por que se Deus me tirar isso, ele me tira o que resta da minha humanidade. Hoje eu certamente não dormirei de novo, porque um pedaço de mim morreu ali quando o moleque perguntou: por que o senhor atirou em mim?

"Por que o senhor atirou em mim?"

Amanhã eu vou dar minhas aulas normalmente. Vou olhar meus alunos e pensar: podia ter sido eu, podia ter sido um de vocês. Se a rotina, os prazos e as cobranças permitirem, vamos ler a morte do leiteiro de Drummond e ver a Clarice falando como morreu a cada bala levada pelo "bandido" mineirinho. Vamos ficar deprimidos e depois rir de outra coisa qualquer, porque são lados da mesma tentativa de humanização.

Mas no final do dia vai continuar doendo, porque somos todos Douglas. Porque o dia que não doer, nossa resposta a Camus talvez seja definitiva.

Pois é, me engano, talvez sejam essas as perguntas mais existenciais.

"Por que o senhor atirou em mim?"

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A menina mais chata do mundo

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários




Quando eu tinha quatro anos, minha mãe me veio com uma conversa de que eu ganharia uma irmãzinha. Conversa fiada, claro. Ganho nenhum, eu não havia pedido uma irmã, ou irmão, não era presente: eu não havia pedido concorrência. Era sim um grandiosíssimo absurdo, onde já se viu: quem tem como filho a mim, eu, eu mesmo, euzinho, vai lá querer outra criatura?! Não, claro que não, não tinha o menor cabimento. 






Quase vinte e dois anos depois, de maneira igualmente absurda, eu estava assistindo à TV, na sala, e papai virou-se pra mim comentando essa foto acima, mas uma das mãos ele levou ao rosto. Quem conhece papai sabe, ele é referência internacional em dramaticidade. Ele é mimado que só, é chorão, chorão, chorão, muito chorão, papai fala chorando, pede pra passarem o feijão na mesa do almoço e não se sabe se o estão impedindo de comer. Eu mesmo nunca sei se passo o feijão seguido de um lencinho, tamanho drama cotidiano. Papai levava uma das mãos ao rosto se referindo à foto, e disse, "ai, toda vez que olho pra esta foto, me vem até uma coisa, me emociono tanto". Três metros dali, no corredor-salinha-cafofo, o ser que habitava a foto, vinte anos maior, fez um "óinnnn" demorado. Ela já se tornou, mesmo, a menina mais chata do mundo. Eu, que sou muito sensível, oh, continuei trocando de canal na TV, indignado, não tinha desenho animado algum que prestasse.



Na foto, ela parece ter quatro anos, no máximo. Mas eu me lembro que, depois de mamãe me comunicar o "ganho" de uma irmãzinha, eu fiz o que deveria, negociei rapidamente. Lucila, amiga da família, acertou comigo, assim que nascesse Helena, eu lhe daria. Em troca, eu receberia uma incrível mamadeira de leite quente com mel, mais um pão de queijo autêntico. Perfeito, o trato foi selado.



Daí me ferrei, evidentemente, como era de se esperar. Nasceu aquela coisa que a gente carregava em cima de um carrinho. Eu fazia questão de destacar para todo mundo, ela tinha bochechas enormes. Toda vez que eu via Lucila, com quem eu tinha firmado acordo de troca, Santo Deus, que medo eu passava, corria, fugia, escondia o carrinho e aquele serzinho bochechudo. Nunca dei satisfação de cancelamento do trato. Quem sabe ainda hoje Lucila não aceita a pessoa? O problema é que ela ficou grande, e chata, muito chata, enjoada, intrometida, mimada, tornou-se a menina mais chata do mundo. Acho que Lucila não vai querer.

Um dia, poxa vida, eu me lembro bem, ela poderia ter perguntado pro meu pai, ou pra minha mãe, que era mais óbvio, mas não, a chata preferiu perguntar justamente pra mim. Ah, não perdoei. Ela queria saber de onde é que ela tinha vindo. Que pergunta existencial, filosófica. Não vacilei: você foi achada no bueiro, meu pai te encontrou numa boca de lobo. Foi o que eu disse. Pra quê? Minha vó, que Deus a tenha, pessoa mais boa que esse mundo já viu, me deu um sermão de horas, horas. Também, a pessoa de bochechas grandes resolveu chorar e chorar e chorar, só por causa de uma respostinha boba daquelas. Não disse que era chata? Desde pequenina.

Repare na foto, a pequena prendia o cabelo de forma ridícula. O capô do carro estava aberto, era um Chevett 78-79, verde - mas poderia ainda ser aquela Brasília vermelha, 77. Mamãe, de raiva, porque papai não vendia o Chevett por nada, anos depois deu fim no carro, ela o capotou. Juro, tenho pra mim que foi de propósito. A sombra ao fundo é um mistério, não é barrigudinha feito papai, não é fortinha feito mamãe, e é muito alta pra ser eu mesmo àquela época. Muita coisa mudou desde então, a árvore já é outra, a casa de frente também se modificou bastante, o corredor tem outras cores e da bicicleta ninguém sabe o destino. Tinha rodinhas a bicicleta, é verdade, e até hoje eu desconfio se a menina mais chata do mundo sabe mesmo andar sozinha, sem rodinhas. Sabe nada! Quem capturou o instante, atrás da lente, também é um mistério, há uma disputa, todo mundo quer dizer que foi quem tirou a foto. Eu não sei, pode ter sido eu mesmo. De todo modo, pelas redondezas eu estava e, na certa, inclusive, pronto pra chutar as rodinhas por pura atividade circense.

Pra mim, papai diz que se emociona, ninguém acredita nessa foto, porque a criatura foi flagrada em trânsito. Não, digo, não é porque ela estava andando de bicicleta, tsc. É a mais absoluta raridade, no caso, repare, porque ela não está chorando: é um momento único na vida da pessoa. Se não está chorando, porém, repare mais uma vez, por favor, eu insisto, ela está às voltas de um berreiro: ou vinha de choro, ou choraria instantes depois. É o hábito, tal como papai, a menina mais chata do mundo só chora.





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