VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Memórias De Tempos Que Nunca Vieram - FINAL

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários


(final)

(ler antes parte primeira e segunda)



Da mesma forma que nós mais velhos, as crianças e os jovens começaram a frequentar os estabelecimentos de aprendizagem, onde passariam uma parte da vida aprendendo o novo modo de ser. Adaptação. Aprendiam as duas coisas mais importantes do novo padrão: a não existência da propriedade privada e a prevalência do interesse coletivo sobre o individual. Eu entendia que tudo deveria se assim para não haver disputas sobre tudo e todos. Concordava. Adorava. Porém, nem tudo seriam flores. O aprendizado deveria ser estendido à todos, pois sem isso nenhuma igualdade se sustentaria e poucos se tornariam privilegiados. E não só o aprendizado social foi preciso para garantir a comunidade em equilíbrio. Teríamos que nos organizar para coordenar a vida em comunidade. Assim, fomos submetidos a participar ativamente da organização da comunidade. Tínhamos que opinar, escolher e fazer as coisas acontecerem. Pude me sentir, assim, parte de um todo.



Mas talvez a mudança mais drástica aconteceu na produção alimentícia. Qualquer tipo antigo de produção foi abolido. E mesmo o caráter dos alimentos se modificou. Não mais teríamos que engolir as velhas cápsulas de alimentos. Os alimentos eram naturais. E o trabalho deveria ser privilégio de todos, assim como a riqueza dele produzida. Com todos trabalhando, a produção seria maior e sobraria um maior tempo para todos. Tempo utilizado para outras faculdades do prazer e da felicidade. Eu também trabalhava. Como todos. Sentia-me útil para o todo. Até quando foi preciso.



A mudança na produção foi seguida por outras. Eu constituíra uma ordem familiar. Morava com minha mulher e meus filhos numa casa. Contudo, todas as casas eram iguais e nossas roupas também. Não fazia muita diferença. Existiam até casais que eram iguais! Resultado dos velhos tempos. E os velhos tempos chegaram. Não aqueles dos anos passados. Mas as pessoas começaram a avançar suas idades. Não eram mais descartados numa certa idade. E, talvez, por tudo isso foram precisos centros de saúde. Cuidavam dos velhos e dos doentes. Sim. Existiam doentes e as pessoas se propunham a cuidar deles.



E os anos se sucederam um a um. A sociedade estava equilibrada. Tinha conseguido sua estabilidade. Todos pareciam iguais. Mas algo não estava certo. Sentíamos algo ruim. A felicidade era tanta que esses sentimentos não nos aborrecia. Eu era feliz e também não pude fazer nada.



Hoje não me lembro como tudo começara. Passados 53 anos desde a guerra contra os de cima, vivo hoje aqui, observando mais um ciclo de mudança. O novo desenvolvimento da tecnologia é ainda mais ameaçador. Mais violento. Mais rápido. Sem barreiras. Sem tempo. O nosso equilíbrio social fora desmanchado. Não conseguiram deter esse novo desenvolvimento. A racionalidade permanecera intrínseca. Não se modificou. E agora não se sabia para onde tudo iria. Voltaríamos para a velha clivagem? Ou algo seria diferente? Será que esses anos vividos no novo padrão faria as pessoas pensarem diferente? Ou a vida era simplesmente um ciclo: uma vez como tragédia e outra como farsa? E depois tudo de novo? Estou velho e não sei bem o que pensar. Preciso ir.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Domingo, hora a hora

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



Passei os últimos quatro meses, desde que me mudei, tentando conquistar a amizade de Marlene, que faz faxina a cada duas semanas na casa onde vivo. Marlene geralmente chega pela manhã, no horário em que esquento a água, separo o filtro, preparo o café. Eu, que sou um cara muito legal, sabe, sempre puxo assunto e falo bastante com ela. Porém, durante todos esses meses, carregava a sensação de que eu conversava mais com ela do que ela conversava comigo. As palavras que ela me dirigia quase sempre se referiam às outras pessoas da casa, ou que já moraram aqui, ou às pessoas de outras casas em que ela também trabalha. Respondendo como quem não quer papo, nesses momentos, Marlene sempre fora muito evasiva. As outras pessoas na minha casa, pelo que reparo, também pouco conversam com ela. Marlene ainda muitas vezes trocava o meu nome, num dia eu era Bruno, noutro Lucas, quando não Igor, enfim, jamais Hugo.

Marlene tem outro serviço na parte da tarde, e tudo que eu consegui saber sobre isso, durante esses meses, é que é um trabalho de que ela não gosta, mas do qual precisa. Eu acreditava, então, que as faxinas que ela faz somente complementavam a renda mensal.

Todas as vezes, ela chegava em casa enquanto eu preparava o café e o colocava na garrafa térmica. Oferecia-o a Marlene, todas as vezes, e deixava a garrafa na cozinha. Ela nunca bebeu do café. Todas as vezes, nessas manhãs, eu lhe ofereci pães, bolachas, frutas, o que tivesse para comer. Ela nunca aceitou nada, todas as vezes. Todas as vezes, quando eu saía pela manhã, ela reclamava de sua própria vida apressada, dos muitos trabalhos e horários para cumprir, e eu nunca soube o que responder.

Todas as vezes, menos hoje.

Hoje, preparei o café somente na minha xícara. A única coisa engarrafada era minha gentileza, o bom dia, o tudo bem, o a senhora precisa de alguma coisa. Hoje, ela perguntou onde é que estava o café. Ela não disse que queria, mas viu que eu havia feito só pra mim. Hoje, ela disse que estava com fome e me pediu bolachas. Hoje, eu não queria conversa, mesmo assim lhe dei as bolachas, claro. Hoje, Marlene não trocou o meu nome, apenas perguntou como é mesmo que eu me chamo. Hoje, quando eu saía de casa, ela me disse que preferiria vir aos domingos, porque aos domingos tinha todo o dia. Eu disse que achava ruim pra ela, afinal era domingo e os domingos são sagrados ao ócio despreocupado no mundo em que vivo. Mas eu não lhe disse isso, falei apenas que poderíamos conversar, se ela quisesse continuar com a gente... Ela interrompeu, respondeu que sim... Queria continuar, oras, e repetiu que prefere muito os domingos.

Diante do meu silêncio, hoje, Marlene, timidamente, como quem abaixa a voz para dar motivos, insistiu que aos domingos era muito melhor. Ao completar a frase se justificando, soaram, no quadrinho da minha imaginação pobre, violinos e trombones. Continuei sem saber o que dizer, ainda que minha resposta automática me viesse. Para Marlene, era muito melhor trabalhar aos domingos porque ela não tem marido. “Não tenho marido mesmo”, ela disse, de lado, em cicio, virando o rosto e levantando os ombros, envergonhada. “Que ótimo, dona Marlene!”, pensei minha resposta pronta. Era evidente, entretanto, que para dona Marlene não se tratava de sarcasmo como o meu.

Comecei a imaginar, hoje, que Marlene não trabalha, nunca trabalhou. Marlene ocupa as horas todos os dias para não se sentir sozinha.

Tchau tchau, bom dia, foi o que eu lhe disse: como todas as vezes, quando eu saía pela manhã, hoje eu também não tive resposta. Fui logo pra rua, procurei um punkzinho para os ouvidos para não imaginar rasteiramente um solo de sax. Quando me perguntei em que Marlene e eu éramos diferentes, percebi que qualquer pieguice não me traria respostas. Optei pelo barulho do trânsito, por fim.



“O autor deste romance se renova cada vez que pega a pena; a Eterna ensinou-lhe assim. Procede como as chaleirinhas de água postas para esquentar que aprendem de novo a apitar cada vez que as põem no fogo; 
notas diminuídas saltam com grande intervalo depois de um longo silêncio e um tímido apito longo, e no fim de novo o tema.
Assim eu acabo de me lembrar de falar do “guarda-roupinha” do Presidente e de suas corridas para guardar-se nele cada vez que algo não lhe agrada, mas apenas em seus colóquios e relações com a Eterna, quando humilde e triste mas sem irritação, ainda com mais amor, se encaminha para o seu canto.
É absolutamente uma criança sempre para seguir a Eterna segurando sua saia, ou para se afastar dela e se trancar no guarda-roupinha.” 

(Prólogo da chaleirinha e do guarda-roupinha. Macedônio Fernández, Museu do Romance da Eterna)







quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Aaron Swartz e a máfia dos termômetros

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Pouco se noticiou, na mídia tradicional brasileira, a morte do ativista Aaron Swartz, que teria supostamente se suicidado na semana que passou. Será desatenção? Para comprovar a ausência de publicações, utilizo uma ferramenta do próprio Aaron e busco seu nome em uma lista de pouco mais de 100 sites que acompanho diariamente, graças à tecnologia RSS, que ele ajudou a desenvolver quando tinha apenas 14 anos de idade. Em alguns minutos leio algumas poucas matérias interessantes de veículos alternativos e as repetitivas ocorrências do jornalismo de grande circulação que o programa me retorna, não por limitação da ferramenta, mas por falta de informações a serem coletadas.

Swartz desenvolveu diversas ferramentas que visam democratizar a web como o Watchdog, o Open Library e o Demand Progress (bem explicados no post do Rafael Zanatta, aqui). Porém, a maior polêmica que envolveu o sociólogo e ativista, aquela com a qual os leitores deste site devem estar mais familiarizados, talvez seja a perseguição da gigante empresa de artigos científicos JSTOR.

Resumidamente, Swartz teria baixado de um computador público do MIT, 4 milhões de artigos científicos, que, como indicam suas manifestações recentes (Aaron Swartz e o manifesto da Guerrilha Open Acces), seriam distribuídos gratuitamente na rede. Não foram. Após o início do processo Swartz recuou e devolveu todos os arquivos. A perseguição, porém, não parou e a promotoria indicou a condenação de Aaron a 35 anos de prisão e o pagamento de uma multa de 1 bilhão de dólares.

Outro programa menos conhecido do mesmo criador talvez interesse nosso leitor: o atlas de imagens. A ferramenta é simples. O usuário digita uma palavra e o programa retorna imagens encontradas em diversos sites de busca de diversos países. O objetivo (que Aaron explica neste vídeo) é demonstrar de forma visual como os filtros de busca não são neutros. Apesar de ser um pouco mais artístico que os outros projetos, o programa não deixa de ser mais um termômetro para evidenciar a falsa democracia da rede.

E qual será a utilidade dessas ferramentas de medição e de acesso à informação? “Termômetro não cura”, li esses dias em um título de matéria, que me chamou a atenção. A reportagem criticava o excesso de medidas e recursos governamentais utilizados para medir e diagnosticar o problema da educação e a carência de medidas efetivas para solucionar a questão. O título curioso não é, porém, uma verdade universal. Apontar uma contradição, por exemplo, é um passo imensurável no caminho de superá-la.

Imaginemos um número aleatório, por exemplo, 4 milhões de cientistas que acreditem nesse princípio e busquem, através de seus trabalhos, apontar diferentes problemas e investigar suas possíveis soluções. Para ter acesso aos termômetros criados por esses estudiosos o usuário deve pagar a uma empresa que monopoliza essas informações, digamos, a JSTOR. A ruína da nossa biblioteca de Alexandria não é o fogo, são os intermediários. Aaron apontou, dentre outros, esse problema.

Não extrapolarei a metáfora. Não sei se o termômetro faz parte do processo de cura ou não. A questão que Swartz nos coloca, no entanto, é que nem acesso aos termômetros nós temos. E se a simples denuncia da falta de acesso à informação pode ter um fim tão trágico como o de Aaron, talvez seja necessário darmos mais atenção a ela. Parece claro que há, aqui, algo que se pretende ocultar e que nenhum jornal comenta.  Será desatenção? Será por simples desatenção que tentam nos roubar a tinta vermelha, que tentam impedir o uso de qualquer medidor da enfermidade de nossos processos democráticos? Usando a medida de Geoge Orwell, lemos no caso ainda uma derradeira denuncia: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”. Uma lucrativa publicidade da máfia dos termômetros.


Memórias De Tempos Que Nunca Vieram - Parte Segunda

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários


(parte segunda)
(ler antes a parte primeira aqui)


O tempo era esse. As notícias circulavam. Vivíamos um tempo de repentina paz entre as tribos. Todos pareciam estar cooperar. Ajudavam-se. Eu não entendia muita coisa, mas colaborava com tudo aquilo. Eu ainda achava que alguma coisa deveria ser feita. E assim foi. Não demorou muito a acontecer e a guerra dos de cima conta os de baixo começara, sem prévio término.

Claramente éramos inferiores à eles, materialmente, tecnologicamente, e em número. Eles tinham seus clones. Nós, somente nós. Mas tínhamos uma vantagem: conhecíamos nosso território; eles nunca ouviram falar de nós. Além de tudo, conhecíamos, de certa forma, seu sistema e seus cidadãos. Nós éramos imprevisíveis. Guerrilhávamos juntos. Unidos. Apesar de tudo, eu só torcia para não morrer, não ser eliminado. Não entendia como podia chegar ao fim tudo aquilo depois de começado. Eu tinha lido pouco. Não conhecia tudo. Mas tinha esperanças que o fim ia chegar. Sentíamos. Tempos mais breves estavam por vir.

A guerra continuou por tempos a fio. A chuva e a escuridão tornaram-se mais abundantes. Tórridas. O ritmo da guerra me afligia. Não parava. Era como o mundo deles, o tempo não parava. Contudo, sentíamos algo diferente. E tudo aconteceu muito rápido. Num dia a chuva parou. Noutro o céu clareou. Pela primeira vez eu via o fim daquelas enormes pilastras de concreto e ferro. Eram verdadeiramente os de cima. Aquela visão me maravilhou. Nunca vira tamanha luminosidade. Como nos livros: um círculo luminoso que nos aquecia. Aquela visão me apeteceu e me cegou. Dos minutos seguintes à tudo aquilo só me lembro do som dos últimos tiros vindos de cima e o grito caloroso dos de baixo.

Mas nada muda assim tão de repente. As transformações demoram realmente para tomar efeito. A população de cima enfim desceu. Um primeiro contato. Estranhamento. Porém, tudo lentamente foi se encaixando. A produção de cima cessara. Os estoques de cápsulas de alimentação dera para o tempo necessário. Os cidadãos de cima podiam se sentir livres. Não sabiam o que era isso. Estavam perdidos. Algumas decisões foram tomadas.

O mundo habitado tinha acabado por se restringir à essas cidades altamente verticalizadas, contudo, também com alta densidade populacional. Existiam poucas delas no mapa. Os citadinos que não se adaptaram passaram a viver sob essas cidades, no chão. Éramos nós. Foi assim que houve a divisão entre os de cima e os de baixo. Isso pelo menos para nós. As novas gerações que se sucederam no mundo de lá nem mais sabiam da nossa existência. E todo o mundo habitado se restringiu à essas poucas cidades. O resto do mundo ficou sem utilização. Eu não conhecia o resto do mundo, somente encontrava relatos nos livros caídos. Agora o que se via era uma migração de toda a população para essas áreas desabitadas.

As multidões foram divididas em grupos de milhares de homens, organizados em comunidades que se auto-governavam. Esses grupos saíram em romaria à procura desses antigos espaços desabitados. Cidades degradadas onde poderiam recomeçar um novo modo de vida. A ideia era modificar tanto o modo de vida deles, como o nosso. Eu estava muito animado com tudo isso. Tempos bons sempre vem. Nunca demoram a passar.

A adaptação, naquele tempo, não foi fácil. As cidades, primeiro tiveram de sofrer reformas: sanitárias, habitacionais, nas vias de acesso. Todos ajudavam. Para mim a vida tinha recomeçado. Os dias se passavam e os mais velhos tinham palestras sobre o novo. Aprendíamos que depois de tudo reformado todos seríamos iguais, uns aos outros. O engraçado é que existiam alguns que eram mesmo iguais, no sentido literal. Nos divertíamos. Mas o sentido era outro. As diferenças de castas sumiriam. A clivagem inicial desaparecia. Não existiria os de baixo e os de cima. Formávamos uma coisa só. Aprendíamos que tudo aquilo fora causado a partir de uma coisa chamada propriedade privada. Um conceito que me lembro ter lido alguma vezes, mas certamente não compreendia bem. Diziam ser ela a essência das mazelas do homem. Produzia a desigualdades entre todos.

(continua)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ai de mim, Joaquim

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários


Dona Maria, 5 anos de Alzheimer e 93 de vida, despertou em seu quarto frente à imagem de nossa senhora do rosário:


- Ai, minha santinha, me ajuda! Me ajuda a encontrar o Joaquim, minha santinha! Minha santinha, se eu ficar junto do Joaquim agora, eu mando rezar uma missa para a falecida dele, minha santinha!


Mariza, filha de dona Maria, correu rapidamente ao quarto pedindo calma a sua mãe, lhe dizendo que estava tudo bem. Assim passou aquele dia, com dona Maria repetindo o que dizia a nossa senhora do rosário e suspirando sobre Joaquim. 

No dia seguinte, no outro, depois no outro e desde então, as manhãs tem sido como eram sempre, silenciosas. Dona Maria acorda, chama pela filha Mariza, que lhe dá os remédios da manhã, toma um banho amparada pela mesma filha e passa a maior parte do tempo diante da televisão, o dia todo em completo silêncio. Um ou outro remédio, um copo d'água, o almoço, um lanche, um pouco de café, uma sopa e os remédios da noite, que a fazem dormir, é essa a sua rotina. 

O silêncio de dona Maria é cortado às vezes pelo genro. Ele adora as piadinhas de pavê e quer saber, por exemplo, se dona Maria concorda ou sem corda com o aumento da passagem de ônibus. É. Diante de tamanha espirituosidade, dona Maria algumas vezes não resiste, “ah, bonitão! nhá!”; “é, tá ruim, né, é, mas tá bom”; “tá bom, tá bom”. 

Dona Maria já não se equilibra sozinha, o pouco que consegue caminhar, o faz somente com auxílio e, apesar da tevê, ela quase não ouve, quase não enxerga.


Setenta anos atrás Maria e Joaquim namoraram. O velho pai de Maria, no entanto, não quis o moço Joaquim, negro, muito simples, que trabalhava na lavoura da região. Desfeito o namoro, apareceu um rapaz de nome Nazareno, com quem Maria se casou depois. Com muita emoção, durante mais de quarenta anos, dona Maria viveu com o homem que viajou o interior a mando do comitê central, fundou um sindicato e se aposentou em outro. 

Foi a minha sorte, e de alguns outros: dona Maria e seu Nêno tiveram quatro filhos, e o primogênito também é meu pai. De onde eu enxergo o mundo, não me parece possível que, entre os setenta anos passados desde Joaquim, dona Maria não tenha sido, um pouquinho que seja, feliz.


Durante todos esses anos, a casa da família de dona Maria, na capital, permaneceu mesmo depois de sua saída, nos anos 1940. Duas das irmãs mais novas de dona Maria viveram ali até pouco tempo atrás. Joaquim ficou naquela mesma região durante essas décadas, mas ele também se casou, afinal, dona Maria se lembra da falecida. Já no final dos anos 1990, dona Maria, que ainda hoje vive no interior, foi avisada pelas irmãs que Joaquim enviuvara. É tudo que se sabe, pois nem da reação de dona Maria ao saber da morte da esposa de Joaquim se tem notícia.


Dez, quinze anos se passaram e, finalmente, quem recebeu a confissão foi a imagem de nossa senhora do rosário. Tia Mariza, com quem dona Maria vive hoje, ficou surpresa, contou que levou o dia tentando fazer dona Maria deixar o ar ofegante e a repetição sobre Joaquim.


Quem era, quem talvez ainda seja, se estiver vivo, Joaquim? Essa pergunta me consumiu alguns dias. Ninguém soube ir mais do que dona Maria contara anos atrás: um ex-namorado antes do vô Nêno, um rapaz negro que o pai dela não queria. Além disso, o pai de Joaquim também parecia não tratar bem as noras, o que teria reforçado o contragosto do velho pai de dona Maria. Enfim, o namoro acabou, dona Maria se casou com outro, alguns anos depois viajou, deixou a família para trás, porém, cerca de setenta anos após isso, lá estava ela diante de sua santinha pedindo pelo Joaquim. 

Setenta anos depois, dona Maria, quem seria Joaquim?


Dona Maria, enquanto isso, continua sua rotina, em seu silêncio.


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