terça-feira, 26 de novembro de 2013

Entre o amarelo e o vermelho

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários




O semáforo estava na luz amarela, eu vi que não daria pra atravessá-lo, ele ficou vermelho em seguida. Reduzi e, freando, antes de parar o carro, pelo espelho retrovisor do centro, ainda deu tempo de ver que quem vinha atrás de mim não reduzira, então retirei o pé do freio e, na fração seguinte, pow, percebi meu corpo distante do banco ao mesmo tempo que enlaçado pelo cinto de segurança. Minha cabeça fez um sim largo e instantâneo do encosto ao esterno. Eu estava certo. O carro de trás estava errado, o semáforo estava fechado, ele o atravessaria se eu não estivesse na sua frente. Como eu estava ali, ele me acertou, e porque ele me acertou, estava errado outra vez. O acidente – isso que é casualidade e simplesmente acontece – foi causado por ele. 


No playground da monótona existência, eu já ia pedir pra repetir o número do espetáculo e jogar os braços pra trás, queria sentir outra vez toda aquela emoção. Mas mudei de vida – torno pública a minha conversão – agora procuro evitar rompantes. Quer dizer, o mundo segue certinho, quem anda errado sou eu. Em todo caso, foi curioso perceber que o aparelho de som do carro não parou de tocar depois do impacto, mesmo tendo saltado do painel. Coloquei-o no lugar enquanto acompanhava a letra da conhecida música que se iniciava, o ritmo, porém, era outro, por isso preferi desliga-lo, para não me atrapalhar. Encostei o carro no movimento que a batida o fez percorrer  falando assim eu pareço um ninja, todo ligeiro –, e fiquei torcendo pra não ser um playboy, ou um psicopata o responsável pelo volante no carro de trás, afinal, bastava ele estar errado, maluco já era demais. 


Pelo mesmo espelho retrovisor, vi que eram três pessoas dentro daquele colorido e grande carro esporte, eu estava sozinho. Pelo menos, também, o vidro de trás do meu carro, que me permitiu vê-los, não tinha sinal algum de dano. Eu continuava certo. Desci tentando não olhar muito e abandonar a sensação de que meu porta malas estava colado ao meu banco. Não estava, meu carro modelo sedan mantinha até mesmo o tamanho de seu porta malas original. A frente do colorido e grande carro esporte, no entanto, estava muito danificada, como o meu para choque. Meu porta malas não, um pouco menos. O motorista, que estava errado, desceu: 

- Ô amiguinho!
- (...)
- Ô amiguinho, tá tudo bem aí, aconteceu alguma coisa com você?

- Não, cara, não aconteceu nada comigo, tá tudo bem. Tá tudo bem aí também, aconteceu alguma coisa com vocês? – descia a passageira dele, se dirigindo ao meu carro.
- Nossa, não bastasse fazer um estrago assim na frente, tinha que bater num carro desses que sequer amassou direito a traseira – imaginei que tipo de acidente eles esperavam causar sem danos a si próprios e, mais, que tipo de veículo estavam acostumados a acertar pelo mundo afora.
- A senhora tá com algum problema no braço? Quer que te leve no hospital, no pronto socorro?  ela revirava o braço fazendo uma expressão muito semelhante às primeiras palavras dela ao sair do carro.
- Não, não, amiguinho – me interrompeu o motorista enquanto eu insistia, me dirigindo também à moça no banco traseiro, que não descera – Não, a gente já vai indo. Aqui ó, meu cartão, me procura no salão ali, cinco quadras à frente, a gente acerta tudo direitinho depois, fica tranquilo, não aconteceu nada – só faltou ele dizer que estava tudo certo. 


No cartão dele havia o mesmo nome da concessionária que bordava seu uniforme. Em vez da delegacia, de um boletim de ocorrência, o cartão da concessionária os substituiu. Errei. No dia seguinte, fui ao endereço tão próximo do acidente. O motorista era mesmo funcionário e, quando do sucedido, ele havia acabado de vender um exemplar idêntico do colorido e grande carro esporte que guiava à mãe e filha que eram suas passageiras. Voltavam do pátio da revendedora, na saída da cidade. Ele conversava com a mulher, explicava-lhe o painel, falava à filha dela no banco de trás, a mãe tirara o cinto de segurança, pois estavam há poucos metros do destino. Ele virou-se para trás, não viu o sinal, quando percebeu, não teve o que fazer. Foi uma sucessão de erros, na verdade. Com a batida, a mulher foi jogada para baixo do painel e deslocara a clavícula. O carro não estava registrado no seguro da concessionária, então o acidente ficou por conta dele, funcionário, que preferia não ter um boletim de ocorrência em seu nome num veículo da empresa. 


Peguei outro cartão, o do funileiro que ele indicou, levei o meu carro lá. Depois de cinco dias, voltei e vi que o para choque havia sido reformado, pintado. O porta malas, aquele que não havia amassado tanto, conforme a passageira, pois é, estava do jeito que eu deixei lá. Perguntei o que havia acontecido, ouvi que o orçamento não havia sido totalmente liberado e me foi mostrada a frente do colorido e grande carro esporte como justificativa. Só consegui pensar nas palavras da mulher ao descer daquele carro. Eu não tinha um boletim de ocorrência e não poderia deixar mais nenhum dia o carro na funilaria. Peguei as chaves e ouvi a recomendação: vê se presta atenção agora, quando for parar no semáforo. Definitivamente, eu estava no lugar errado.




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