quinta-feira, 25 de julho de 2013

Passarinho da sorte

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários



Não acredito em Deus, não acendo vela e só rezo de vez em quando. De vez em quando, é, não acredito mas adoro assistir a um culto, uma missa que seja. É mais fácil eu aceitar um convite para ir a uma igreja do que para ir ao cinema, juro. Mentira, tudo bem, eu exagerei, mas é quase isso. Se eu não acredito em Deus, no entanto, eu morro de medo Dele. É sério, vejo essas histórias de conversão, de espírito, de castigo, de punição, nossa, vivo caçoando da imagem Dele, imagina se Ele, digamos, me pega pra Cristo – ok, péssima.

Minha família é toda crente, meus pais, minha irmã, tios, vizinhos, primos, papagaios, gatos, cachorros, cada um com a sua crença. A maioria é católico não praticante, uma expressão religiosa absurda, todo mundo sabe, afinal, quem não pratica não é. Eu não entendo, e nem quero. Destituído que sou do órgão metafísico, autista que sou, não me faz sentido ‘vida após a morte’, por exemplo, porque se é ‘morte’, é fim da ‘vida’, cazzo. Assim, eu achava que somente eu mesmo vivia com medo de morrer. Ora, conforme as classificações disponíveis, se eu sou um desses agnósticos, ou ateus, só eu temeria deixar de viver.

Não, não, outro dia eu escutava minha mãe conversando com uma tia dela. Doente, de cama, cheia de dores, a velhinha repetia: ai, eu não quero morrer, eu tenho medo de morrer; ô minha filha, me ajuda, eu não quero morrer. Entre o sorriso desesperador de quem não tem o que fazer e a capacidade de retirar leveza de onde aparentemente nada resiste, senhora minha mãe respondia: peraí, pode parar com isso, que negócio é esse?; cresci ouvindo sermões e frequentando missas com minha mãe e com você, tia, depois veio o Espiritismo: eu nunca vi espírita com medo de morrer!; você é espírita e espírita não pode ter medo de morrer! 

Se Ele existir, que me perdoe, porque eu não segurei o riso ouvindo isso.

Já minha irmã não sabe, mas tenho pra mim que ela mais teme do que confia em Deus, igual a tia da minha mãe. Estávamos numa festa julina, dessas com balão, foguetório, quentão e quadrilha, quando minha irmã me sussurrou: ai, lá vem aquele homem, morro de medo dele. Era o senhor que levava o passarinho da sorte. Todo mundo já viu a gaiola cujo pássaro sai e busca um papelzinho para aquele que comprou sua própria sorte. No pequenino papel há uma mensagem cifrada, enigmática. Faz pelo menos 22 anos é o mesmo homem, talvez não o mesmo pássaro, quem leva a sorte às pessoas nas festas juninas aqui da paróquia.

Vestido de preto, com um bigode grisalho e uma boina também escura, ninguém me tira da cabeça que o homem do passarinho da sorte é como Deus. É, ué. Todo (‘santo’) dia aquele sujeito dobra os papeizinhos com as mensagens, as sortes, as possibilidades da vida de cada um. Aquele homem tem todos os acasos em suas mãos, reordena-os e os distribui na caixinha, todo (‘santo’) dia. Dizem que para Deus nada é impossível, pois bem, então nem tudo para o homem é possível. É Deus quem dá as possibilidades, quem oferece aos homens o que é possível em suas vidas. Justamente como faz o homem do passarinho da sorte. Deus ainda tem uma vantagem: que eu saiba, Ele não tem passarinho e nem cobra pra ler a sorte de ninguém, pelo contrário, já sai distribuindo Seus desígnios, queiram os homens ou não.

Nesta semana, com a visita do Papa, eu confesso, estou adorando esse Natal fora de época. Não tem presente, mas as pessoas estão todas falando de Amor. Uns comedidos, outros mais saidinhos; uns dizem que é preciso reformar as condições de viver o Amor; outros respondem que o Amor é livre, nem vem. Enfim, está bonito, pessoal, porque enquanto existir Amor, está valendo. Agora, se o Amor não existir, hum, aí complica, é melhor correr como se fugisse da PM. Não dizem que Deus é Amor?! – não, sem silogismo com Stevie Wonder, ou trocadilhos dessa vez, por favor. Você pode não acreditar e Ele nem existir, mas é bom ir na igreja. Aliás, vejo entendidos dizendo que Bergoglio mudará os rumos dessa Igreja que habita o século XIII desde Paulo de Tarso, leio que Francisco I brinca, dizendo que Deus é brasileiro, de que é preciso ter fé, celebrar e viver o Amor Dele. 

Deus, enquanto isso...





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