VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Coluna do Leitor - Por uma vida não fascista

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário


Aquele lugar em que o chão é de pó, barro, ou asfalto esburacado. Onde encontro aquela casa insalubre, aquele barraco de madeira e sucata. Sem estrutura, sem saneamento. Sem escola, sem hospital.

Ou aquele lugar em que o caminho é feito de pedras. Pedras de crack, caminhos de escravos. Seu reino pela droga. A morte e vida nos rincões abandonados do centro esquecido da metrópole.

Ou ainda, aquele lugar ocupado por gente cujo sonho era, apenas, um teto. Terra de trabalhadores, de explorados, de famílias cujas raízes já cresciam profundas naquele solo batido.

Aqueles lugares onde alguns talvez jamais ousaram pisar, tamanho medo, tamanho nojo. Mas que, não por menos, não deixaram de ameaçar e destruir.

Assistimos, neste ano que se encerra, episódios dignos de arrepio. As favelas da cidade de São Paulo queimaram. Incêndios, vidas e casas destruídas na “locomotiva” do Brasil. Redutos de gente pobre em áreas de valorização imobiliária. Os barracos paulistanos se tornaram mais propensos à combustão do que em outras favelas do país. Respostas ausentes. Famílias sem destino, sem esperança do que fazer no dia seguinte, sem seu lugar precário e desassistido sob o qual se abrigar da chuva.

Os miseráveis e doentes da Cracolândia também não tiveram sorte. Anos de dedicação de assistentes sociais, ONGs e profissionais de saúde, de árduo trabalho com centenas de dependentes químicos, perdidos por conta de decisões políticas “desastrosas” (talvez “eficientes”, dependendo dos interesses em jogo). Um caso de saúde pública, criminalizado e tratado a base de bala e borracha. E um projeto: uma “nova luz”, caminho aberto ao “progresso” higienizante da gestão municipal da capital.

Que dizer das famílias de trabalhadoras e trabalhadores do Pinheirinho, em São José dos Campos? Quase uma década de ocupação. Pessoas que, simplesmente, reivindicavam e lutavam por um teto. Milhares de pessoas que, mesmo abandonadas pelo poder público, elevaram cada parede, cimentaram cada tijolo. Do outro lado, a repressão policial, pelas ordens de decisões judiciais favoráveis às solicitações de um especulador. A violência como resposta ao desejo de um lugar para viver e dormir.

A vida dos pobres, carentes e doentes não anda fácil. Decerto, nunca foi. Mas percorremos um caminho tortuoso, indigno e aterrorizante: uma trilha de violência e “progresso”. Mesmo sabendo que as populações pauperizadas tendem a ser criminalizadas e esquecidas, e que os viciados são habitualmente tomados por párias e bandidos, a mais explícita demonstração de violência e ação depredatória por parte do Estado, ou por atores cuja identificação não é possível esclarecer a priori, nunca deixa de nos surpreender. Talvez até esperamos que ocorra, mas com uma ponta de esperança de que aquilo seja absurdo demais para se materializar.

Em tempos em que tanto se fala de democracia, direitos e conquistas sociais, a execução de ações violentas em favor de interesses especulativos e de projetos de evidente proposta de “limpeza social”, assim como o aumento de incêndios sem procedência clara em favelas, apontam para uma realidade dura, excludente, desigual e mortífera. Uma realidade de contornos fascistas.

Na Itália das primeiras décadas do século XX, em defesa do fascismo, muito se falou do progresso e da violência. A guerra era uma porta aberta à purificação. Guerra era vida. A violência era o caminho para o progresso. Não assumir uma postura bélica era sinônimo de decadência e morte. O Estado, por sua vez, não negou estes princípios, fortalecendo o culto ao progresso e à violência.

Nos nossos dias, não parecemos ter superado os ideais fascistas. O Estado e a sociedade fundada no consumo desenfreado e na desigualdade de classes se vale, a sua maneira, dos mesmos instrumentos. É preciso livrar as ruas da gente suja para que o “progresso” tome lugar. Quem tem barraco tem que ceder lugar a quem tem dinheiro para pagar um casa “de verdade”. Quem tem habitação “no lugar errado” tem que sair de onde está.

As situações citadas são, apenas, alguns exemplos. O fascismo percorre o país, afetando populações ribeirinhas em Belo Monte, sem-terras assentados em Limeira, indígenas no Mato Grosso do Sul. Atingem movimentos populares na Espanha e na Grécia, e fortalecem ditaduras no mundo árabe.

Contra tudo isto, a resistência. O desejo de mudança e de justiça. A ousadia dos levantes populares contra os poderes estabelecidos. Nossa década se iniciou com o florescer das massas. Em diversos lugares do mundo, a história permanece em constante construção. Recusa-se o “fim da história”. Reivindica-se o “impossível”.

O que temos para o ano que se inicia? O que faremos diante de poderes que cada vez mais ousam legitimar sua violência? O que diremos àqueles que querem destruir o teto e a dignidade dos mais pobres? O que responderemos aos que recusam dar a mão àqueles que o Estado trata como sujeira jogada para debaixo do tapete?

Espero, sinceramente, que no novo ano acenda-se uma luz. Um alerta aos povos. E que eles tomem para si a iniciativa de construir um novo caminho. Uma trilha em que se aterre a violência dos poderosos, se destrua o domínio dos preconceitos e se dissolva as desigualdades que, constantemente, atentam à dignidade humana. Um desejo que muitos podem imaginar irreal, inalcançável, utópico. Mas, afinal, que outra alternativa temos a este fascismo persistente que corrói e perturba as nossas vidas?

Feliz ano novo. Por uma vida não fascista.

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A frase que dá título a este texto é também o título de uma coletânea de trabalhos de Michel Foucault. Admito minha livre apropriação da mesma.  


Sydnei Melo é mestrando em Ciência Política pela Unicamp. É autor do blog "A vida de Sydnei", onde foi publicada essa reflexão de Ano Novo. Cristão, sempre se posicionou sem medo sobre isso. Está sempre por aqui também, e a última vez, inclusive, foi justamente com uma reflexão de Ano Novo,  com "Dona Maria José".

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Superstição Corinthiana

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário


Armando Nogueira, um dos maiores cronistas esportivos de nosso país, vez ou outra evocava Neném Prancha, a quem chamava de “filósofo do futebol”. Era uma ironia. Neném foi roupeiro, massagista, olheiro e até técnico, conhecido por divertir a todos com suas frases sobre o futebol.

A ele é atribuído o aforismo “se macumba ganhasse o jogo, campeonato baiano terminaria empatado”. Soaria mal para os ouvidos de um intelectual, mas de fato, sempre penso nessa frase quando me vejo fazendo algo absurdo pelo futebol.

Em 2009, corinthiano que sou, prometi que assistiria a todos os jogos da Copa do Brasil na televisãozinha chuviscada de meu quarto. Talvez seja parte de uma formação cristã que tive, mas tenho a impressão que sacrifícios são sempre bem vistos pelo acaso. Não deu outra, Corinthians campeão.

Para 2010 era só seguir a regra e finalmente venceríamos a Libertadores da América. Estava tudo dando certo, até que fui chamado para uma entrevista de emprego em São Paulo no mesmo dia das oitavas de final, o fatídico Corinthians x Flamengo. Fui, meio que a contra gosto, mais nervoso pelo jogo do que pela entrevista, e acabei cometendo a heresia de assistir ao jogo na televisão de meu pai.  Tenho pra mim até hoje que se estivesse na minha televisãozinha, aquela falta que o Chicão bateu no último minuto teria entrado. Bom, pelo menos veio o emprego. Guardei a culpa de ter trocado o Corinthians pelo trabalho.

Em 2012, empregado, com uma televisão mais nítida, seria mais fácil cumprir minha superstição. E isso é um problema. Tevê com sinal digital, estava muito fácil, não seria suficiente para o destino nos dar a inédita Libertadores. Lasquei logo mais duas promessas: de que rasparia o cabelo e de que daria uma camiseta oficial do Corinthians pro Zulu, um conhecido andarilho que passa muitas vezes pela Praça Rui Barbosa, em Campinas. Zulu é corinthiano roxo.

No meio do caminho, a tentação. Jogo contra o Santos e sou chamado para um serviço externo. Parados no quarto do hotel em Serra Negra, um de frente pro outro, eu e uma televisão HD de 42 polegadas. A vontade de ligá-la era inenarrável, mas fui bravo e fui ouvindo apenas no radinho enquanto olhava com pensamentos profanos para o controle remoto, intocável até o fim da partida. Minha namorada, palmeirense, tentava me corromper: “Mas nem os melhores momentos?”. Nada me tira que ajudei o Emerson a acertar aquele chutaço no ângulo. Logo depois da final, lá estava eu, careca.

Ontem, véspera da final do mundial de clubes, ainda não havia dado ao Zulu sua camisa. Como o destino gosta de testar, uma tempestade caía. Com medo de descumprir a promessa e arruinar o mundial corinthiano, fui à praça, comércio já fechado, onde estaria meu colega? Sob a marquise do Itaú, um grupo de moradores de rua se espremia para não tomar chuva, e se assustaram quando cheguei. Quando disse que procurava Zulu para dar uma camiseta do Corinthians, vi sorrisos e a informação de que ele “morava” na Renner. E finalmente, lá, com mais alguns amigos, estava ele. Cumpri minha promessa, e o deixei após um abraço sincero.

O Corinthians foi campeão do mundo. Talvez pela minha televisão chuviscada, talvez pelo meu radinho, talvez pela minha careca, talvez pelo Zulu, talvez pela posição que sentei no sofá, pela emissora que escolhi. Ao ler toda essa história, Neném Prancha talvez zombaria de mim, como se o jogo fosse simplesmente resultado do embate entre os que se enfrentam. Tanto faz, afinal, o que é a vida senão a disputa entre o “era pra ser assim” e o “não faz sentido”? Vi alguns tagarelas de redes sociais dizendo que o brasileiro leva 25.000 pro Japão e não consegue colocar 1.000 pra protestar contra a corrupção na Avenida Paulista. Chatos de galocha, não entendem que o futebol em nosso país, longe de ser a alienação do povo, é a manifestação popular que representa a beleza e a tragédia da vida. E nisso, eu e Neném provavelmente concordaríamos.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Memórias de Tempos Que Nunca Vieram - parte primeira

. . Por Fábio Accardo, com 1 commentário




(parte primeira)

“Hegel observa em uma de suas obras 
que todos os fatos e personagens de grande importância
na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes.
E esquece-se de acrescentar: a primeira como tragédia,
a segunda como farsa”.
[Karl Marx. 18 Brumário de Luís Bonaparte.]


Era tempo de mudanças e todos pressentiam isso. Talvez porque as notícias não paravam de circular. Ou boatos, não sei. Mas pressentíamos. A vida escura estava prestes a clarear. Não que eu tivesse muitas reclamações a fazer. Na verdade não as tinha. Fui um dos poucos que conseguiu sobreviver por muito tempo por ali. E talvez esse seja o motivo de eu não reclamar mais. Porém, solidarizava com os mais jovens. Corajosos, dispostos à tudo. Bastava um passo fora e começavam as guerras. Eram tempos difíceis aqueles.

A vida era cinza. Tudo era cinza para nós. Acima de nós era cinza, e ainda por cima caiam coisas daquele lugar. Ficávamos sempre alerta. Muitos morriam esmagados. Nunca tive muita certeza, mas diziam que lá para cima é que a vida fervilhava. O tempo não parava. As pessoas não paravam. O mundo não parava naquele lugar. Lembro que apenas informações marginais chegavam a nós, e não sabíamos de onde vinham. Mas eram tão impossíveis as histórias de lá que até pareciam verdade. Eram? Pareciam? Imagino que sim.

Diziam que os homens eram fabricados em laboratório e produzidos por máquinas. Todos iguais. Iguaizinhos. Eu não podia acreditar. E o que era pior, ninguém mantinha relações com ninguém. No máximo formais e somente no limite de cada casta. Imagine você: ser criado em laboratório, condicionado por máquinas, limitado à sua casta e sem relações pessoais. Que merda de vida! Não que a nossa aqui embaixo fosse muito melhor, mas ainda a preferia. Não tínhamos quem nos mandasse nada. A lei do mais forte prevalecia, mas sozinho não se ia a lugar algum. Tribos, guerrilhas suburbanas, tudo em meio ao caos dos miseráveis.

Lá tudo era asseado. Limpo. Não se conhecia sujeira e notícias nossa, da nossa gente, não chegavam por lá. Quem apenas nos conhecia eram os praticantes da lei. Eram eles que nos atiravam sem perguntar, reprimiam por reprimir. Faziam isso por não terem mais o que fazer por lá. Seus serviços não eram mais necessários. Ficavam ociosos. Nos reprimiam para continuarmos com medo. Vivíamos desse modo: sob o domínio do medo. Mas lembro que eles tinham alguma outra função. Ah! Sim! Queimavam livros. Houve épocas onde chovia fogo por aqui, juntamente com nosso perene garoa diária. Eram livros que caiam do alto e por passarem pela chuva alguns chegavam quase inteiros. Tudo que nos era relegado conseguíamos dessa forma: do céu. E os livros foram sempre bem vindos. Faziam-nos sonhar, questionar, pensar. Mundos impossíveis, nova realidade, mudança. E só podíamos isso, pois éramos, de certa forma, livres para pensar.

O condicionamento humano a que eram submetidos todos de lá, tornava-os reclusos a suas tarefas diárias e nada mais. O condicionamento levava as pessoas a serem felizes no que eram delimitados a fazer, sem a menor possibilidade de pensar sobre isso. Questionar. Bem, isso era impossível, pois não tinham conhecimento sobre outra forma de vida. Suas formas de interação social – na verdade midiática – só serviam para reforçar sua consciência de casta. Ainda existiam os tais comprimidos amarelos, serviam para os momentos mais sombrios da mente e os deixavam mais normais.

Por menos que eu conhecesse tudo isso, não me animava a ideias desse controle das pessoas. Contudo, já estava passando da idade e me acostumava com tal fato. Mas éramos poucos nessa situação. Os jovens, leitores assíduos dos livros reles queimados, começaram a se questionar sobre toda a situação: a vida que levávamos, a condição de vida dos de cima, e essa divisão entre eles e nós, os de cima e os de baixo. Acharam que nada estava certo. Alguma coisa devia mudar.


(continua)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

a moto dos recados

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário




- Bem, não esquece de trazer o remédio, passa no postinho antes do almoço, senão à tarde fico sem meu remédio, tá? - disse a senhora.
- ah, tá bom, Bem, vou deixar um recado, uma anotação na moto pra lembrar – em um pedaço de papel, entre o guidão e o tanque, escreveu “buscar remédio” e pregou com um adesivo entre os outros 179 lembretes que já levava na moto.

antes de chegar para o almoço, então, o Bem passou no postinho, pegou o remédio e estava indo pra casa com a moto, um modelo barulhento e azul, antiquíssimo. numa avenida já próximo de casa, contudo, ele percebeu o trânsito lento e, assim, dirigiu-se para o acostamento. entre os veículos que ultrapassou, havia uma viatura da polícia. de todo modo, não obteve muito sucesso com o desvio, porque alguns metros depois nem a moto passava pelo engarrafamento. mas Bem não quis ficar parado e, ao dar a volta pelo quarteirão, refazendo o desvio, reencontrou a mesma viatura, tendo que a ultrapassar novamente. dessa vez, inclusive, ao realizar a manobra, precisou cruzar a frente do veículo e fez sinal com a mão, já que as lanternas com a seta não funcionavam. a sirene soou e, cauteloso, Bem não arriscou, olhou serenamente, percebeu o gesto do policial e parou a moto em seguida. a viatura também estacionou. o trânsito seguia parado lá adiante, indiferente, enquanto o policial se aproximou do Bem dizendo:


- olá. documentos, por favor, do veículo e do senhor.

- oi. ah, aqui estão, seu guarda.


(enquanto o guarda averiguava os papéis, Bem interrompeu, entre o cinismo, a sonsice e o fofismo)

- ô, seu guarda, o que foi que eu fiz?

(silêncio)


- primeiro fez uma ultrapassagem pela direita, depois deu sinal de conversão com a mão.

- ô, seu guarda, mas não é proibido fazer sinal com a mão agora, é? não pode mais agora, é?

- o senhor não tem lanterna, não?

- ah, ter eu tenho, mas não funciona... e mesmo que eu tivesse, seu guarda, eles – eles, eles, sempre eles – não me respeitam! - com algum ímpeto.

(silêncio)


- ter e não funcionar: o senhor não tem lanterna: os documentos ficam comigo: queira, por favor, me acompanhar até o distrito, sua moto está apreendida.
- ô, seu guarda, eu te acompanho, sim, não tem problema, mas aqui ó – apontava a sacolinha presa ao guidão –, preciso levar esse remédio pra minha mulher. acabei de pegar ali no postinho, sabe, isso não pode ficar fora da geladeira. e olha esse sol, rapaz. vou levar os remédios e depois vou lá no distrito, tudo bem?

(silêncio – o guarda foi até a viatura com os documentos, mas retornou rapidamente)

- vi o recado anotado aí – apontou com o dedo para o papel preso no tanque da moto com um adesivo – “buscar remédio”, é.... olha só, o senhor tá liberado hoje, estão aqui os documentos, mas conserte as lanternas e não me faça mais ultrapassagens pela direita.

dois meses e meio depois disso, o pedaço de papel com “buscar remédio” continuava preso sobre o tanque da moto. afinal, vai quê, né.



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

o homem popopó

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



lá estava ele na manhã do feriado em que eu saía de casa como quem vai à biblioteca, como quem vai esquecido da data. finalmente encontrara um conspirador no flagra, maldita bola de pelo. nanico ainda, aquele gato estava na garagem me olhando fixamente. não, não, não, nada de papinho aqui, nada das brincadeiras de Michel de Montaigne, nada de Jaques Derrida e a existência do bichano que o mirava. 

quando passei a porta, ele estava na frente do portão, do outro lado. dei um passo para a esquerda, ele também, à esquerda dele. segui à esquerda, e ele do mesmo modo. desenhamos um círculo na garagem caminhando lentamente. voltei, dei um passo à direita, ele também foi à direita dele, e outra vez desenhamos mais um círculo na garagem, passo depois de passo. bola de pelo de uma figa, intrépido conspirador, seguia como se me desafiasse para um duelo, faltava a gaita ao fundo. me lembrei de Gancho, captain Gancho. porque mentiram pra mim, não bastasse me perseguirem, conspirarem, eles mentiram pra mim!


Gancho no início não suportava minha voz, ao me ouvir se escondia debaixo da mesa, da cama, corria, desaparecia como os da sua laia bem o sabem fazer. seis anos antes de mim, seis anos antes da casa dela, ela trombou com as estrelas e, por sorte, lhe restou o olho esquerdo, um pedaço do pulmão, alguns dentes e a pata direita, da frente, para lhe fazer coxa. assim ela foi rebatizada como Gancho: a coisa é o nome, o nome dá a coisa. avesso, alérgico, com preguiça de bolas de pelo, eu não fazia por muito, mas ela miava demais, pela manhã e à noite, demais. não houve cabelos brancos que me detivessem, no fim das contas, desenvolvi um plano mirabolante, uma estratégia infalível, ela não teve escapatória. ao ouvir os miados no início da manhã, eu abria a porta do meu quarto decidido, procurava-a, encurralava-a, submetia-a à violência, à brutalidade, aos carinhos brutais. segurava-a, deitava-a onde ela estivesse e percorria as mãos pelo corpo dela. parava sobre a cabeça dela e, com os dedos levemente dobrados, ia mais rapidamente até que ela cerrasse os olhos, prendesse a respiração e até mesmo deixasse de ronronar. instantes depois eu parava e, imediatamente, ela se punha de pé me encarando – Derrida não entendeu nada –, mas em seguida ela deixava o corpo cair de lado. de novo, ela pedia. não, só no final da tarde, quando eu voltasse, eu não respondia – não sou tonto, como Montaigne.


Gancho não nasceu livre, não era pobre, não era independente, muito menos havia lido e levado a sério um tal de Rousseau. me diziam que bichanos não se importavam, que para eles tanto fazia como tanto sempre fez, eles seguiam como melhor lhes aprouvesse. mentira. numa gaiola gigante há quase dez meses, ela nunca escondeu o fastio diante do mundo, que enxergava muito bem das janelas, sejam elas dos quartos, do banheiro, da sala, da cozinha, ou da televisão, o mundo e as pessoas eram mesmo muito esquisitas, nada fazia muito sentido. a despeito dos carinhos brutais, claro.


aquela bola de pelo nanica, contudo, na manhã do feriado, era novata demais pelo tamanho. e ele ainda levava pinta de quem sabe o que quer, pobre diabo. não tive dúvidas, se ele apontava para o duelo, se era o que queria, um confronto ele teria, então. afastei os pés um do outro, deixei de caminhar em círculos, me coloquei de frente para ele, encarei-o, era chegada a hora dele. parti disparado na sua direção, mas com dois saltos o telhado para ele era o céu para mim.


era feriado, caramba, a funcionária da biblioteca estava de folga, oras. ainda dava tempo de pegar um pão de queijo na padaria.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

o homem que nunca viu um filme até o fim

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário




O homem sempre dorme, sempre, por isso jamais conseguiu ver um filme até o fim. Desde criança, ele dorme em qualquer lugar, basta estar parado. De pé ou sentado, não importa, ele cochila, entra em sono profundo e até sonha. Seu apelido desde pirralho, inclusive, é soneca, uma referência ao anão da Branca de Neve, obviamente.  Ele cresceu, mas nada mudou. Não foi diferente, portanto, quando decidiu ser cinéfilo. Alguns minutos diante de uma película e ele já estava entregue à sonolência, não demorava e, ploft, ele dormia. Muitas e muitas vezes foi ao cinema, mas percebeu logo, ainda jovenzinho, que gastava dinheiro à toa. Assim, oras, não tinha cabimento, ele desistiu de ser cinéfilo.


Parte de sua família padece da mesma moléstia, é verdade. Suspeita-se de que o avô materno do homem que nunca viu um filme até o fim seja o pivô de tal pertubação. Dos seis filhos do velhinho, apenas a mãe do homem que nunca viu um filme até o fim terminou acometida pela mesma desventura. 


Almoçar com a mãe aos domingos se tornou, após tantos anos, não apenas mera formalidade, ritual enfadonho e desprovido de sentido para a família do homem que nunca viu um filme até o fim. É um verdadeiro evento social, uma festa praticamente. Todos, familiares, vizinhos, amigos se revezam à mesa com o passar dos meses, aos domingos, para assistir à mulher, hoje uma jovem senhora. Ainda com o garfo e a faca nas mãos, sobre o prato, ela simplesmente viaja atrás de suas próprias pálpebras, em silêncio, por alguns minutos, para em seguida assustar-se consigo mesma e voltar a comer. Que alegria é a cena, especialmente para a juventude, os pequeninos netos.


A felicidade só não é compartilhada pelo velho, o epicentro da moléstia na família, avô do homem que jamais viu um filme até o fim. Um dos filhos diz, em resposta ao silêncio e amargor senil, que em razão de cochilar muitas vezes durante o dia, repetidamente, ao longo de tantos anos, o velho não conseguiu seu grande objetivo de vida: ele não enriqueceu. Enquanto parava dormindo, ficou para trás diante de seus contemporâneos competidores que lutaram para açambarcar moedinhas pelo mundo.


O homem que nunca viu um filme até o fim, contudo, tenta manter o bom humor, afinal, não lhe resta muito. Ele nunca teve muitos amigos, mesmo porque não consegue manter uma conversa aprofundada com ninguém. O simples silêncio, a espera para ouvir alguém já lhe adormece facilmente. Ninguém o suporta, acreditam ser falta de edução, uma verdadeira ofensa. Os tempos são modernos, ninguém também tem tempo para esperar, ver o que está acontecendo, há pressa, as moedinhas estão aí pelo mundo. A única pessoa que parou foi uma mulher, uma vez, em uma viagem ao povoado vizinho. Vejam só, ela tornou-se a esposa do homem que nunca viu um filme até o fim. Que criatura compreensiva, diziam alguns. Para outros, ela não passa de uma tonta apaixonada - perdõe a redundância, leitor apressado -, pois cada vez que o homem que nunca viu um filme até o fim cochila diante de palavras demoradas da mulher, voilà, é evidente o sorriso de amor que se desenha no rosto dela. 


O primogênito do casal, pobrezinho, tudo indica que herdou a enfermidade do pai. Não fosse a curva na estrada que faz o ônibus do povoado à cidade, onde está o colégio mais próximo, o menino não chegaria às aulas, não teria se alfabetizado. Recentemente, ele também virou motivo de comentários rasteiros entre os colegas, foi no fim do ano passado, quando visitou o sítio da família de uma amiguinha próximo à represa da região. Numa tarde quente, já feita a sesta depois do almoço, ele disse a todos que ia à represa se refrescar. O tempo, como é de costume, foi passando, o sol então já havia se posto, fazia horas e todos estavam preocupadíssimos com a ausência do menino. Mas finalmente ele apareceu sorrindo de timidez: havia dormido dentro d'água, sentado num barranco. O barulho de uma capivara no mato, suspeita ele, fizera-o despertar assustado na escuridão, perdido. Desde aquele dia, familiares e amigos se mantém próximo do menino, evitam deixá-lo só em qualquer lugar ermo. É preciso cuidado, é uma suspeita muito forte a de que ele tenha herdado a enfermidade do pai, do homem que nunca viu um filme até o fim.


Todos na família, vítimas ou não da moléstia, já sabem, mais do que qualquer outra pessoa neste mundo, um dia podem não acordar de um cochilo. É por isso que todos guardam respeito aos mais velhos, como ao avô e à mãe do homem que nunca viu um filme até o fim.


O homem que nunca viu um filme até o fim, todavia, está disposto a vencer seu problema. Há alguns anos tem juntado moedinhas entusiasmadamente. Ele quer comprar uma esteira ou uma bicicleta ergométrica, ainda não se decidiu, mas não é para se exercitar. Para isso, claro, ele tem muita preguiça. O plano do homem que nunca viu um filme até o fim é treinar para alugar um DVD, um filme de 2h é a sua meta. Ele já tentou, algumas vezes, ver um filme em casa, sozinho, sem a mulher ou os filhos. Sempre sem que ninguém o veja, já que sente muita vergonha de tal moléstia. Nunca deu certo. Mesmo embebido em café arábico, energético importado que seja, depois dos primeiros minutos, se o filme for de aventura ou de ação, um terror, sequer o clímax às vezes é capaz de despertá-lo, uma lástima. Já tentou, inclusive, assistir a um filme de pé, mas acordou com o abraço da esposa, que lhe pedia para não se importar mais com isso. Persistente, ele cultiva a expectativa de que desenvolva resistência física o suficiente para caminhar, correr ou mesmo pedalar durante as duas horas de um filme e, assim, finalmente ver uma película até o final.


Suerte, pois, ao homem que nunca viu um filme até o fim.



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