VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Pergunte ao Taxista

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários



"A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é na verdade a regra geral." 
(Walter Benjamin)


Em seu livro "Estado de Exceção", o filósofo italiano Giorgio Agamben discute as decisões tomadas durante momentos de questionamentos das instituições do Estado e que continuam vigentes, mesmo após a solução da crise. Ou seja, medidas provisórias e que se tornam definitivas, um instrumento do Estado para manter decisões aparentemente absurdas. Acredito que hoje, a (in)segurança seja o maior motivo pelo qual aceitemos situações e imposições que extrapolam qualquer código ético ou moral.

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Recentemente, fui surpreendido pelo taxista:

- Você viu só aquelas gravações que fizeram dos policiais matando o cara atrás do camburão?

- Vi! Os caras mataram o cara já algemado sem dó nem piedade e depois relataram na ocorrência que tinham achado o corpo numa vala, né? Absurdo!

- Pois é, o cara tinha duas passagens pela polícia, aí os caras matam o vagabundo, e um desgraçado filma tudo e entrega pra globo? Se eu sou da polícia junto todo mundo pra achar o idiota que entregou essa porcaria pra mídia e dou um sumiço no cara!

Fiquei abismado e continuei conversando, tentando convencê-lo de que um assassinato sumário não é, digamos, tão legal... Mas por que raios me indigno? Não é normal que, com a banalização da violência que vivemos, nós sintamos um certo alívio em ver um suposto bandido morto? O olhar do taxista era de desespero, era ele quem teria que circular de madrugada pela cidade, à mercê da própria sorte.

E talvez dentro desse olhar esteja a razão pela qual um personagem autoritário como o Capitão Nascimento, que pela intenção do diretor seria uma espécie de vilão humanizado do vale-tudo da segurança, tornou-se um heroi nacional, assim como o BOPE, e seu quase fascismo interno e externo, que praticamente ganhou um selo de excelência após o filme. Pela mesma lógica, seria possível também que, se tivéssemos hoje algumas pesquisas, por exemplo sobre diminuição da maioridade penal, volta do exército nas ruas, pena de morte, etc., provavelmente teríamos um grande apelo da população por opções políticas mais conservadoras.

Tenso. Nada mais assustador do que pensarmos no quanto estamos dispostos a abdicar quando o medo e desconfiança se apresentam diante de nós. Estamos em guerra, logo precisamos de medidas imediatas, superficiais e impactantes. Bingo!

Pensando bem, a volta da ditadura não seria tão ruim assim, porque no tempo dos militares... Ah, o tempo dos militares! Quase uma Belle Époque brasileira para aqueles que hoje temem perder a vida por causa de um relógio. Naquele tempo, não havia direitos humanos pra presidiário nem auxílio-bandido! Tudo bem, eu quero votar, escolher meu presidente, mas o resto podia deixar como estava. Que tal refundar o Arena?!

Parece piada, mas não é.

Ainda conversando com o taxista, um pouco atormentado por suas convicções, um pouco comovido pelo medo de um trabalhador da madrugada (quem sou eu para julgar seu posicionamento?), não saía de minha cabeça uma crônica de Clarice Lispector, que ela mesma disse ser muito especial, sobre o bandido Mineirinho, morto com treze - isso mesmo, treze! - tiros pela polícia, em 1978:

"(...)Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro"

Veja como seu lamento soa anacrônico. E se não acha, pergunte ao taxista.

domingo, 11 de novembro de 2012

a moçoila e o pentelho

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



o mundo todo é uma grande farsa, trágica ou engraçada, ou tragicamente engraçada, ou engraçadamente trágica. não, eu sei que não é, tudo bem. era só uma frase de efeito inicial pra puxar assunto, mas é mais ou menos por aí. é matemática a coisa, como um gráfico, dá pra ir avaliando a variação entre o divertido e o aterrorizante, e no meio disso aparece o papinho, a conversa de elevador, o chaveco de padaria.

porque anos atrás, o homem ainda era moço, não tinha se desenvolvido enquanto moçoila. ele tinha lá seus 17, por aí, branco, branquelo, branco mais branco que de tão branco que era, era vermelho. ele teve um namorico, coisa de portão e de praça – faz tempo mesmo, sério –, com uma moça negra. a menina era negra negra, preta, não era mulatinha, mulata, morena, era negra. nossa, foi um bafafá, um diz que diz, um zum zum zum. aquela coisa, né, o moço branquelo tinha que ficar ouvindo os amigos (sic), na rua, no trabalho, na oficina, na vizinhança, pra tudo que era lado: “ô, rapaz, você, branquinho desse jeito, metidinho a napolitano, namorando uma negrinha … imagina só aquele bando de urubu no teu pé depois, quando vocês tiverem filhos”. to falando que o mundo é imbecil, assustador, escroto. mas pode ser engraçado, não nego. não neste caso.

quis o destino, deus, o acaso, ou coisa que o valha, que o namorico não vingasse. c'est la vie. o casal não deu certo, mas não foi por causa dos comentários. só não deu certo. o tempo passou, parari parará, o cara branquelo e vermelho conheceu outra, casou-se e teve um filho: um safado(!) esse branquelo vermelho.

lá estava ele no supermercado um dia com seu pequeno de uns três anos. enquanto a esposa preferia comprar as coisas sozinha entre as prateleiras, o homem branquelo e vermelho circulava com o pivete, ia pelo shopping, pelos corredores, dava um jeito de passar o tempo. de repente, o infante sumiu, desapareceu, fugiu! que apuro, que desespero passou o homem branquelo vermelho. depois de quase uma hora buscando pelo nanico, tadan, lá estava ele de mãos dadas com outra criança. naquele momento, então, o homem branquelo e vermelho não soube o que pensar, não sabia se era engraçado ou simplesmente trágico, ele viu na criança ele mesmo anos atrás, era o pai no filho a cena diante de seus próprios olhos. a menina era um pouco maior que o filho dele, ela era negra, de cabelos compridos, trançados. ao homem branquelo vermelho, ela não pareceu assustada, ou desconfortável, ao mesmo tempo, ela não estava completamente à vontade. a menina estava também com os pais, daí o homem branquelo vermelho se aproximou, meio sem jeito, meio que se desculpando, “ô, meu filho, eu estava te procurando”. os pais dela sorriram, pelo menos, enquanto o filho virou-se para o homem branquelo vermelho:

- ô, pai, essa aqui é a menina mais bonita do mundo.
- ah, oi … vamos, Hugo, mamãe está nos esperando já, vamos...
- não, pai, eu não vou, não. eu vou ficar aqui com ela. tchau.
- Hugo …





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