VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

domingo, 28 de outubro de 2012

Coluna do Leitor - Curta Coca-Cola

. . Por Mistura Indigesta, com 5 comentários





Ganhei um tênis Coca-Cola. Parece All Star. Não é. É Coca-Cola. Não é uma estampa da Coca-Cola. Não é um All Star Coca-Cola, nem um Nike, é um tênis Coca-Cola. A Coca-Cola resolveu [desde quando?] fabricar os tênis que desde sempre ela estampava. Está disputando o mercado de tênis. E, claro, como dizem os economistas e outros tipos de marqueteiros do capital, “fortalecendo a sua marca”. Que é o que interessa. Eu sabia que ela fazia bebidas [3.500 bebidas em mais de 200 países]. Eu sabia que ela fazia estampas [para qualquer coisa]. Não sabia que fabricava tênis.


[Bom, não é ela quem fabrica. Quem fabrica são os mesmos escravinhos chineses de sempre. Eles produzem tudo. Tudo é Made in China. Com cara de United States, claro. Antes, uma vendedora de tênis escravizava os chinezinhos, pegava o tênis que eles faziam e chamava de dela. Depois a mesma vendedora fazia algum tipo de acordo misterioso com a Coca-Cola para botar a estampa no tênis. Daí a Coca-Cola resolveu tirar essa vendedora de tênis chineses da jogada e se tornar a sua própria vendedora de tênis chineses. Tênis com cara de United States, claro. Não que isso seja estranho. Era de se esperar. Há muito, inclusive. Mas hoje em dia tá meio demodê essa coisa de mega-empresa vender coisas. Tá mais in vender só o sonho que a marca promete. Anyway, quem disse que o demodê não vende? Como diria aquele outro: “Fazemos qualquer negócio!”. That’s Business, stupid!]


Bom, como eu ia dizendo, ganhei um tênis Coca-Cola. Minha esposa comprou pra ela. Machucou o pé dela. Daí ela o deixou encostado. O pé dela é um pouco menor que o meu. Mas eu precisava de um tênis socialmente aceitável para trabalhar. Experimentei. Não. O tênis não serviu. Já é de um tipo desconfortável. E ficou apertado. Mas o pé do pião aqui já vestiu coisas piores. Estávamos duros. Eu, minha esposa e o tênis. Então resolvi amaciar o tênis. Eu e minha esposa não temos jeito. Ele me fez bolhas. Doeu. Laceou. Já não dói mais. Nem faz mais bolhas. Acomodou-se ao meu pé. Ou meu pé acomodou-se a ele. Não sei.


Meu pessoalzinho tira sarro. Aqueles que têm bom-humor acham tudo isso uma grande piada e um tanto perigosa. Mas os que não o têm, eles ficam me cobrando. Acham que um anticapitalista como eu não deveria usar um tênis do império do mal. Não me dou ao trabalho de responder*. Não acredito em empresa “do bem”. Como diria o da cruz, "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6, 24). Eu concordo com ele, pois não posso me dar ao luxo de não usar um tênis “do mal”. Foi-se o tempo em que eu era livre para andar descalço. Esta, eles venceram.


Eu sou um tipo chato. Fico pensando nesse tipo de coisa. Dá certo mau-humor. É um reclamório um tanto cansativo. Às vezes, tento resolver piadeando. Ajuda mas não resolve. Toca-se o barco. Me lembrei de um texto, é de um ídolo do editor. O editor colocou o linque aqui. É uma crônica meio babaca, mas chega a ser divertida. E é rápida. Direta. Como as boas. E eu aproveito para puxar o saco do escritor e também deste tal site indigesto, tento arrancar um qualquer para pagar o leite das meninas: não é disso que estamos falando? A crônica é de uma coisa que pode vir a ser outra coisa e que, no fim, não é coisa alguma?



um tênis da marca de refrigerante;
que parece aquele outro tênis mas não é;
que eu tenho que comprar pra fazer propaganda dele;
que é produzido pelos escravinhos chineses de praxe;
que aperta;
que machuca;
que laceia e se acomoda ao meu pé;
que acomoda meu pé a ele;
que é aceitado no meu trabalho;
e que supostamente diz pra quem me vê quem eu sou.



Bom, se eu fosse descrever o tal do capitalismo, seria mais ou menos por aí. Não gosto dele. Fazer o quê? Eu sigo andando. Com meu tênis Coca-Cola. O capitalismo agoniza. Talvez morra. Talvez não. Em todo o caso, é melhor eu ter os pés no chão. Se pá ele morre antes de mim. E eu vou continuar andando com meus pés. Machucados. Comendo, bebendo, cantando. Jogando bola e engolindo sapo. Como sempre. Ao rés–do-chão. O horizonte é primaveril e muito menos pessimista do que esse testículo mal-humorado.



pés do Peixe em sua posição típica, voltados pra cima
(por Maíra Sampaio)


Smac




* L.E. (linque do editor)




Thiago Fernandes Franco é o "Peixe", cativo na Coluna do Leitor, mal humorado às vezes, muitas vezes, ou quase sempre, mas chato, sim, sempre. Está sempre sorrindo também. 

sábado, 20 de outubro de 2012

Reencontro com Madiba

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários

"Sonhar é acordar-se para dentro.
(Mário Quintana)



Vi Nelson Mandela novamente, mas dessa vez foi muito rápido, mal pude desfrutar a presença dele e de sua esposa, foi apenas de passagem. O sol já havia cruzado metade de um céu aberto, a luz intensa cansava a vista, deixava o corpo devagar e as sombras mal cresciam para o outro lado de qualquer objeto anunciando a tarde. Meus olhos, há dias, eram como que puxados à minha frente, sufocados em qualquer lugar. Eu ia ao encontro de Bruno, amigo que viveu em Paris e com quem passei alguns dias em Buenos Aires, tempos atrás.

Pela rua, antes de chegar numa esquina, percebi que dois homens carregavam pelos braços e pelas pernas um outro sujeito, alguns metros adiante. Imaginei um acidente, um mal súbito, nada demais, mas não, o sujeito carregado morria. Largado entre a rua e o canteiro, aquele homem tinha os olhos revirados, mãos, braços, pernas e pés contorcidos, girando a cabeça ao redor da boca entre-aberta. Os outros dois homens gritavam “tá morrendo, tá morrendo”, pediam ajuda, que ligassem para uma ambulância, o sujeito precisava ser socorrido, oras. Não me perguntei se era possível driblar o inadiável, não pensei nada, não reagi, não me mexi. Já havia visto mortos, jamais alguém morrendo. “Morreu, morreu”, foi o que guardei do grito quando o corpo do sujeito parou de pulsar e o pescoço decaiu. Sobre o corpo, então, a perna de um velho se estendeu, e assim que os joelhos senis bateram o chão, as mãos enrugadas e juntas golpearam veloz e insistentemente o peito do moribundo. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, e os olhos do sujeito se abriram de novo. Fui embora.

Encontrei Bruno em seguida, ele biografou o músico Johnny Carter, saxofonista, virtuoso homem do jazz que inventava um novo tempo em suas apresentações, como quem, ao mesmo tempo, desdenhava do tempo daqueles que lhe assistiam. Bruno se lembrava de algumas palavras de Johnny:

Nunca he pensado en nada, solamente de golpe me doy cuenta de lo que he pensado, pero eso no tiene gracia, verdad? Qué gracia va a tener darse cuenta de que uno ha pensado algo? Para el caso es lo mismo que si pensaras tú o cualquier outro. No soy yo, yo. Simplemente saco provecho de lo que pienso, pero simpre después, y eso es lo que no aguanto. Ah, es difícil, es tan difícil... (…) Es fácil de explicar, sabes, pero es fácil porque en realidad no es la verdadera explicación. La verdadera explicación sencillamente no se puede explicar. (…) No era pensar, me parece que ya te he dicho muchas veces que yo no pienso nunca; estoy como parado em una esquina viendo pasar lo que pienso, pero no pienso lo que veo.

Bruno me confessava, com isso, a profunda e ressentida inveja que tinha de Johnny. Johnny zombava de toda a fraqueza transbordante de Bruno. Johnny sorria, simplesmente, debochava de qualquer um. Mais, Johnny debocha de si mesmo, nada lhe importava, a não ser sua própria alegria, uma felicidade estúpida como a de quem está prestes a desaparecer, irresponsável. Porém, Bruno ponderava:

Envidio todo menos su dolor, cosa que nadie dejará de comprender, pero aun en su dolor tiene que haber atisbos de algo que me es negado. Envidio a Johnny y al mismo tiempo me da rabia que se esté destruyendo por el mal empleo de sus dones, por la estúpida acumulación de insensatez que requiere su presión de vida. (...) Y todo eso lo sostengo desde mi cobardía personal, y quizá en el fondo quisiera que Johnny acabara de una vez, como una estrella que se rompe en mil pedazos y deja idiotas a los astrónomos durante una semana, y después uno se va a dormir y mañana es otro día.

Era isso, eu dizia a Bruno, era justamente esse o sentimento que gostaria de desfrutar, essa intensidade, tal como Johnny nos apresentava, mas sem o medo que eu sentia. Porque eu tremia, minha palavras vacilavam ao imaginar que poderia apenas cruzar rapidamente com Madiba, como quem dá um bom dia, um oi, tudo bem pelo caminho e segue indiferente. Bruno rebatia, sorria, ele dizia que eu não passava de um idealista, iludindo a mim mesmo, preso a delírios adolescentes. Eu, que vira Madiba algumas vezes antes de o conhecer de fato naquele almoço, insistia com Bruno, lhe dizia que não. Eu confessava, havia sentido Madiba, percebido seu abraço, aquela presença, inclusive o perfume que vinha de Madiba. Nada era igual, nada pode ser igual, eu repetia a Bruno, que sorria largamente.

Eu rejeitava o pensamento de que não mais pudesse ver Madiba, ou de que não mais pudesse estar em sua presença como quem contempla um Miró ou o rabisco entre azulejos na parede da cozinha, como quem esquece o que procurava e se deixa escolher sabores de suco instantâneo na prateleira do supermercado. Dizia isso a Bruno naquela tarde, contando a cena que me ocorrera pouco antes, a caminho de seu encontro. Talvez não houvesse outra oportunidade de estar com Madiba, eu dizia a um Bruno impassível. Me angustiava imaginar que não conseguisse sequer admirar aquele sorriso de Madiba e sua gentileza diante das coisas, de uma vida compartilhada com a senhora sua esposa, entre gestos e olhares que revelavam personagens dele, de palavras firmes, procedimentos duros e cândidos como somente os idiotas podem ser. Madiba era um idiota, eu também sou um idiota, eu dizia, e por fim Bruno reagiu sorrindo um sorriso de deboche que eu não conhecia nele. Bruno delirava, e eu já não o suportava depois daqueles minutos de uma tarde quente. Voltamos a Johnny, nas palavras de seu biógrafo:

Pero no voy a eso, lo que quería explicarme a mí mismo es que la distancia que va de Johnny a nosotros no tiene explicación, no se funda en diferencias explicables. Y me parece que él es el primero en pagar las consecuencias de eso, que lo afecta tanto como a nosotros. (...) a reconocer que quizá lo que pasa es que Johnny es un hombre entre los ángeles, una realidad entre las irrealidades que somos todos nosotros. Y a lo mejor es por eso que Johnny me toca la cara con los dedos y me hace sentir tan infeliz, tan transparente, tan poca cosa con mi buena salud, mi casa, mi mujer, mi prestigio. Mi prestigio, sobre todo. Sobre todo mi prestigio.

Eu sequer havia ouvido falar do músico, tampouco conhecia as canções, o jazz de Johnny Carter, no entanto, diante das palavras daquele meu velho amigo, de um Bruno fora de si, eu não sabia o que dizer, desejava defender Johnny de tamanha crueldade:

Nadie puede ser más vulgar, más común, más atado a las circunstancias de una pobre vida; accesible por todos lados, aparentemente. No es ninguna excepción, aparentemente. Cualquiera puede ser como Johnny, siempre que acepte ser un pobre diablo enfermo y vicioso y sin voluntad y lleno de poesía y de talento. Aparentemente. Yo que me he pasado la vida admirando a los genios, a los Picasso, a los Einstein, a toda la santa lista que cualquiera puede fabricar en un minuto (y Gandhi, y Chaplin, y Stravinsky), estoy dispuesto como cualquiera a admitir que esos fenómenos andan pos las nubes, y que con ellos no hay que extrañarse de nada. Son diferentes, no hay vuelta que darle. En cambio la diferencia de Johnny es secreta, irritante por lo misteriosa, porque no tiene ninguna explicación. Johnny no es un genio, no ha descubierto nada, hace jazz como varios miles de negros y de blancos, y aunque lo hace mejor que todos ellos, hay que reconocer que eso depende un poco de los gustos del público, de las modas, del tiempo, en suma.

Me desesperei diante dessas palavras de um Bruno desprezível, soberbo como o são as minhocas, não pude suportar. Nunca havia visto um homem morrer, já havia visto homens mortos, naquela tarde quente, quando meus olhos me espremiam, matei Bruno.




*Bruno é narrador e personagem de El perseguidor, de Júlio Cortázar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Palhaços

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários


"Enxuga os olhos e me dá um abraço
Não te esqueças, que és um palhaço
Faça a platéia gargalhar
Um palhaço não deve chorar"
(Nelson Cavaquinho - Palhaço)


São muitas as lendas sobre a origem das simbologias do palhaço. A história que eu mais gosto, e pouco importa sua veracidade, remete ao final da Idade Média, quando um soldado chegou cedo demais ao seu posto e, para se aliviar do frio, bebeu muito vinho. De tanto beber, acabou pegando as roupas de um outro soldado, mais alto e mais gordo. Desengonçado, e com as roupas maiores que o corpo, ele tropeçou seguidamente diante de todos, arrancando gargalhadas. Quando o soldado esperava a bronca pelas trapalhadas, o capitão não conteve o riso e o convocou para que no outro dia fizesse a cena novamente, mas desta vez com o nariz pintado de vermelho para parecer bêbado.

Gosto porque, desde ali, o palhaço já era um subversivo que assumia a linha tênue rabiscada entre o riso e o poder. Continha também o germe da malandragem que o acompanha até hoje, afinal, ser palhaço foi, neste caso, uma questão de sobrevivência profissional. Aos poucos, o personagem tomou os contornos dos Bufões, ou bobos das cortes, que zombavam a própria hierarquia estabelecida pelo sistema medieval.

A figura até hoje permeia nosso imaginário. Tanto que, há algum tempo, o longa “O Palhaço”, com direção e atuação de Selton Mello, foi o filme brasileiro escolhido para disputar a indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Nele, o ator interpreta Benjamin, um palhaço em crise. O personagem contém em si toda a essência transgressora da origem de sua figura, mas se vê perdido com a crise de seu circo de lona e começa a questionar suas próprias convicções. Um palhaço tradicional que aos poucos parece perder o encanto com seu próprio trabalho.




Situação semelhante à de Careta, palhaço brilhantemente interpretado por Dagoberto Feliz no espetáculo “Palhaços”, escrito em 1974 pelo dramaturgo brasileiro Timochenko Wehbi e em cartaz desde 2005. No palco, observamos o encontro entre o palhaço e um admirador que o procura após o espetáculo - um homem comum, vendedor, em notável atuação de Danilo Grangheia. Com diálogos que transitam entre o cômico e o ácido, Careta destroi paulatinamente o personagem de nariz vermelho, tão idealizado por todos, rasgando com a visão ingênua de seu fã, e transformando a conversa amistosa em um jogo angustiante.


Tanto Benjamin como Careta, ao se questionarem sobre suas profissões e vocações, expõem o eu banal do ator por trás da maquiagem. A crise que está latente não é o celebre caso da paixão de um palhaço pela trapezista que, por sua vez, foge do circo com o domador de leões. O que se vê é a dor de quem tem a obrigação de sorrir e fazer sorrir. O cansaço de ter que brincar com o prefeito na primeira fila. O esgotamento de argumentos para convencer essa ou aquela empresa de que vale a pena colocar seu dinheiro no circo que chega. A insatisfação em ser visto como o que se atua, não como o que se é. Uma situação que transita entre a descrença individual e a derrocada de um projeto coletivo.

Ambos proporcionam ao espectador uma visão do personagem que contrasta com certa nostalgia romântica que sentimos quando nos deparamos com um palhaço, do qual não esperamos nada mais que a alegria. Mas podemos ir além. O que há de universal nos dois casos é o questionamento sobre a humanidade perdida no dia-a-dia, da maquiagem que passamos na ânsia de cumprir um papel, que muitas vezes não é o nosso, ou que não gostaríamos que fosse nosso. A necessidade de nos levantarmos da cama e produzirmos ao mundo o que ele espera de nós.

Além do nome parecido, a sensação que temos quando saímos do espetáculo ou do filme também é semelhante. Saímos rindo, é verdade, mas um pouco incomodados, nos perguntando quem de fato é o palhaço, o soldado de nariz vermelho que alegra o capitão.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

[Tradução] O Pavilhão Alemão e a Fama

. . Por Fernando Mekaru, com 1 commentário

Você quer ser famoso?

Em 1928, o arquiteto Mies van der Rohe recebeu uma comissão para desenhar um pavilhão que representasse a República de Weimar na Exposição Internacional de Barcelona de 1929. O edifício acabou por ser reconhecido, com justiça, como a mais eloquente definição daquilo que, mais tarde, seria agrupado dentro do Modernismo, [definindo-o como] algo na linha de 'Não apenas fazer muito mais com muito menos, mas tornar-se tão bom nisso a ponto de se poder trilhar um caminho para fora da desorientação e da perversidade que corroem a vida moderna, que fora dessas situações é repleta de conveniência e recompensa sem precedentes'.


O pavilhão foi desenhado para não ter portas e ser feito, em sua maior parte, de vidro. Este edifício era otimista, de quase todas as maneiras que um prédio poderia ser, quanto ao século que gostaria de prever. As evidências de opressão classista que grandes casas possuem, como escadas para funcionários ou cozinhas no porão, inexistiam. Paredes vazias, nas quais evidências de riqueza poderiam ser penduradas, foram substituídas por janelas. A realidade é o objeto com o qual as paredes transparentes forçam um confronto com a sua atenção. O pavilhão até mesmo se despe de conceitos como 'frente' e 'fundos': sem um lado no qual é possível projetar como deseja-se ser visto, a duplicidade [de posturas] é mais complicada do que simplesmente ser honesto. Este prédio espera que, sem nada para esconder-se, as próprias ideias de sigilo e malícia tornarão-se incômodas demais para existir.

Mas mesmo no próprio templo do encanto, havia um local no pavilhão que mostrava uma sombra terrível do século XX: após o salão principal havia um espelho d'água, e no meio do espelho jazia uma estátua de uma mulher nua. A escolha de colocá-la em um local intransponível para todos aqueles que olham para ela é uma definição elegante, assim como todo o resto do prédio, mas aquilo que é definido é hediondo. O fato de que a estátua fora retirada de um ponto central e colocada em uma posição que permite apenas um ponto de vista é um exemplo de algo que nossa era fez em escala industrial: a redução de volumes a imagens. Uma estátua, por definição, preenche um volume, mas limitar nossa perspectiva achata-a, restando somente uma imagem.

O ato de reduzir a liberdade de enxergar sob a perspectiva que melhor se adeque a você a uma única opção é tão antiga quanto o mito [platoniano] da caverna, onde estátuas eram reduzidas às suas sombras. Mas o pavilhão prevê que este processo virá a dominar tudo que a estátua representa: arte, distração, beleza e, eventualmente, as próprias pessoas. Todos nós compraremos, favoreceremos, amaremos e apreciaremos de uma distância intransponível. Seremos segregados de tudo que admiramos e de tudo aquilo que queremos, pois somente imagens nos são apresentadas, e sua natureza plana não permite sua apreensão completa.

Acima de todos os outros exemplos deste processo está a fama. Se somos iludidos pela publicidade a comprar uma ilusão, desejar ser famoso é desejar tornar-se a ilusão. É um desejo que confunde isolamento com raridade, solidão com excepcionalidade, e distância com elevação. É a conquista coroada de uma campanha de cem anos de duração cujo objetivo é corrigir qualquer aspecto de estar vivo que exija uma expressão complexa e irredutível de humanidade.

Então, não. 
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Tradução livre deste texto que parte da análise arquitetônica para chegar a uma discussão sobre as armadilhas existenciais da fama.

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