VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

domingo, 26 de agosto de 2012

[Tradução] Viagens à Lua e Espiritualidade

. . Por Fernando Mekaru, com 1 commentário

"Bem, você obviamente deve odiar a espiritualidade. Esta palavra normalmente se refere a alguém utilizando o mundo espiritual como rejunte para preencher uma falha em si próprio: por exemplo, um cara encalhado de cinquenta-e-poucos-anos, com o rosto parecendo uma moeda gasta, subitamente temendo a própria morte e que por conta disso se matricula em uma aula sobre deusas em uma uniesquina da vida. A espiritualidade não flui dessa maneira. Ela está cagando e andando para você. Estamos no fluxo dela, e mesmo que sonhemos com rodas d'água para controlar este fluxo, não há um porto seguro ao qual se ancorar. Na maior parte do tempo, ignoramos o fato de que rumamos ao local ao qual ela vai. Isto torna a nossa condição invisível para nós mesmos.

Em situações raras, nossa condição se faz visível. Nestes momentos, ficamos desamparados, e irresistivelmente atraídos. O Programa Apollo é um bom exemplo disso.

Todos pensavam que John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon estavam gastando quatro-e-meio porcento do orçamento federal estadounidense anualmente para provar que os Estados Unidos eram donos da Ciência.

Isso tudo é uma ficção.

O Programa Apollo foi uma demonstração elaborada de como mesmo o mais insípido entre nós está sob o jugo do espírito.

A NASA precisava de astronautas para botar uma bandeira na lua. Por razões óbvias, os astronautas eram do tipo mais confiável de homem que os EUA produzem: brancos, héteros, evangélicos caretas, da centro-direita, frutos da união entre ciência e exército. Cada um deles era o coração do coração do povão norte-americano.

Mas então eles foram atirados ao espaço, livrados da gravidade deste planeta, em direção a duzentos e cinquenta mil de quilômetros de vazio, para serem agarrados pela lua após três dias. Dezoito caras fizeram isso; doze deles foram mais a fundo, para descobrirem que poeira lunar tem cheiro de pólvora.

Cada um deles voltou inegavelmente mudado.

Os EUA mandaram os filhas-da-puta mais quadrados que conseguiu encontrar à lua, e a lua devolveu seres humanos. Neil Armstrong tornou-se professor, e depois fazendeiro. Alan Bean tornou-se pintor. Edgar Mitchell começou a acreditar em OVNIs, além de conseguir cristalizar, em texto, a experiência de ver seu próprio planeta de uma vez só:
'Você desenvolve instantaneamente uma consciência global, uma orientação coletiva, uma insatisfação intensa com a situação do mundo, e uma compulsão por fazer algo a respeito disso. Lá da lua, a política internacional parece muito mesquinha. Dá vontade de pegar um político pelas pelancas do pescoço, arrastá-lo duzentos e cinquenta mil quilômetros pra fora e dizer 'Olha isso aqui, seu filho-da-puta'.
(Fonte: People, 08 de Abril de 1974)"
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 Tradução livre deste texto para português, que levanta uma das contribuições mais curiosas que Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na lua e falecido célebre de ontem, trouxe à humanidade.

domingo, 19 de agosto de 2012

O bicho do mato

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário


"Borboleta Azul
ao entrar na cachoeira,
me lembrou que a tristeza
é uma coisa passageira"
(Ouviu-se, um dia, em Amparo)  




O sujeito é um bicho do mato, mesmo tendo crescido na cidade, é Bicho do Mato. Não é taciturno, mas é caladão, não fala muito nem pouco, fala apenas na justes. Bicho do Mato não é antipático nem boa praça, é somente rabugento, tem um mau humor particular,  quase indescritível. É assim, Bicho do Mato. Ele sabe capinar, montar, fazer e refazer hortas, o cuidado dele com um quintal é difícil encontrar. Possui saberes que não estão nos livros, que não se transmitem, que não se guardam, que não se anotam ou se experimentam, ele somente sabe. Talvez ficasse mais bem dito que os saberes é que o possuem, mas há aí metafísica por demais, não combina com Bicho do Mato. Mesmo sem ter aprendido, ele sabe, e não é sabido como eu tento ser, sabe porque é sábio e assim o é.
A última vez que o vi, ele estava diante de um mapa. Sempre querendo ser engraçado, ou pior, acreditando ser, mandei um “que que é Bicho do Mato?, tá pensando em viajar, é?, você já vive viajando!”; “Ó que eu vou hein, rapai! Duro é que é longe... duro vai ser pra muié e pros fio...”. Sim, ele fala com uma simplicidade que dói às vezes. Dói de bonito, nada de sentimento culpa, não. Bicho do Mato conversa como procede, na simplicidade. Simplicidade tão cândida que nenhum João, Antônio ou José lhe cabe.
Bicho do Mato não tem pelos, apesar de seu pai ser árabe, um tipo daqueles bem típico, barbudão, o menino é que saiu praticamente imberbe, nem bigode ele tem. Quando o conheci, Bicho do Mato já passara dos vinte, denunciava a idade maior frente à adolescência dos meus dezessete passados. A idade deve fazer as pessoas ocupadas, porque da primeira à última vez que o encontrei, ele sempre teve muitas coisas a fazer. Era o tempo da faculdade ainda, saíamos mais cedo das aulas, entortávamos o estágio, relaxávamos no emprego mequetrefe anos depois, não importava, Bicho do Mato saía mais cedo do futebol, da cerveja com o pessoal, não esperava a festa, tampouco o samba acabar, dizia sempre ter muito a resolver no dia seguinte. Misterioso é esse meu amigo, quantas vezes estive em sua casa, ou ele na minha, mas o rapaz desperta apenas para estar desperto, eu acreditava. Preconceito meu, claro, afinal, há muito por fazer quando se precisa afinar instrumentos musicais. E Bicho do Mato é músico virtuoso, mestre sem diploma nessa arte. Na cidadezinha onde cresceu, muitas e muitas vezes ele nos contou, fez sucesso com um grupo de pagode.
Se o leitor subestima o gênero, o visual de Bicho do Mato a maior parte desses anos mostra outra de suas faces, pois a coreografia pode ser inspirada no Katinguelê, mas a cabeleira faria inveja ao Robert Plant. Parece impossível conjugar tudo isso, não para Bicho do Mato. Coerência nunca foi seu ponto forte, tantas foram as guitarras, pandeiros, bandolins, cavaquinhos, baquetas e violões que cultivou nesses anos todos. Ah, aquela velha sanfona dos últimos tempos. Muitas vezes, eram instrumentos artesanais caríssimos que, no entanto, da noite para o dia desapareciam, davam lugar a uma bola de Pilates. Exatamente, certa feita Bicho do Mato trocou um violão por uma bola daquelas usadas na prática de Pilates. Queria se exercitar em casa, dizia ele. Apenas Bicho do Mato poderia explicar a equivalência que encontrou entre o violão e a bola. Mas depois descobri que a bola, enfim, deu lugar a um cavaquinho, e Bicho do Mato passou foi por esperto no fim das contas.
Nós, os amigos, nunca deixamos por menos, qualquer coisa dele era motivo de piada. Todavia, para algumas coisas Bicho do Mato não admite brincadeiras. Quando o assunto é música, especialmente, dar risada quando alguém pede Raul Seixas em mesa de botequim é uma coisa, agora trocar a imagem do velho roqueiro que Bicho do Mato leva tatuada no braço pelo Seu Madruga é de o deixar indignado.
A simplicidade também contrasta com a agitação que o rapaz apresenta dia a dia. Quantas vezes não se ouve das pessoas que, de o conhecer rapidamente, dizem ser ele um sujeito tranquilo? Ledo engano. Isso está expresso na forma em que come: pouco, é verdade, mas tantas, muitas e repetidas vezes durante o dia. O arroz com feijão do almoço não é muito, somente proporcional às frutas ou aos pãezinhos que o antecedem ou o esperam em meia-hora.
Acredito que coma bastante pois precise de muita energia. Bicho do Mato é um atleta, só assim para correr tanto. No futebol o avisamos, em tom de galhofa, para que não esqueça a bola, que a pelota é que precisa entrar no gol antes dele. Tem muita sorte, disso eu o invejo, ainda que lhe falte habilidade, ele resiste pela esperteza dos passos rápidos no gramado.
Sorte e alheamento, às vezes, que mistério aquele rapaz. Passou anos com esse jeito calado, como quem está decidida e resignadamente apaixonado sabendo não ser correspondido. Mesmo tendo um coração enorme, só se via Bicho do Mato acompanhado de suas bicicletas. E foram muitas, mais até que os instrumentos musicais. Acho que guardou, por timidez, a expressão de seus sentimentos à pessoa certa que lhe quisesse. Até hoje resiste à cerimônias quaisquer, mas acho que só mesmo a patroazinha que ele encontrou – de novo, talvez fosse melhor dizer o inverso, que foi ela quem o encontrou – para deixar Bicho do Mato feliz de amor.
Antes da patroazinha, uma vez lhe perguntaram se de mulher ele gostava. "Gosto sim, cara", foi a resposta tranquila, como que não entendendo a curiosidade. A comparação que se seguiu, confesso, nunca entendi, porque Bicho do Mato disse exultante, com muito mais ímpeto, que de Maria Joana ele gostava bastante. Não conheci a moça, só ouvia o pessoal comentar que ela passava de mão em mão nas rodinhas das festas. Bicho do Mato ficou de me apresentá-la um dia, parecia que ela realmente fazia a cabeça dele. Combinamos de nos encontrar, eu ia contente por enfim conhecer a moça do coração de Bicho do Mato, mas ele ficou lá no quintal proseando comigo, eu sentado com minha cervejinha enquanto ele separava uns matinhos, preparava seus cigarros, sorria, sorria muito aquele dia, gargalhava à toa, à toa. Maria Joana eu não vi. A patroazinha, contudo, é muito minha amiga.
Mas falo no presente quando, na verdade, o tempo hoje é pretérito. Não, ele não se foi falecido, ou algo assim – o que seria equivalente a desviver? –, não, ele não morreu, basta: ele apenas se mudou. Eu falava do mapa, ele viajou, pois, juntou as tralhas, digo, os instrumentos musicais, as bicicletas, e rumou para o oeste. Há uma controvérsia sem fim sobre isso, inclusive, uns dizem que foi a patroazinha quem lhe deu direção na vida. Outros dizem que não, que foi o bom trabalho que arranjou praquelas bandas, o destino, a vida foi quem lhe guiou. De todo modo, os fio já estão com ele. O casal de vira latas mais simpático que estas terras já viram foi embora. Ah, sim, na contenda sobre a partida, dizem ainda que foi o pulguento macho que levou Bicho do Mato. Sei não, desconfio.





*contribuíram com o texto acima  os Thiagos Aoki e Fernandes Franco, o "Peixe"

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Melô do Bom Contribuinte

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário



- Eu pago meus impostos. Sim, eu pago meus impostos. E o que ganho com isso? Nada, apenas deixo de ser punido pelo Estado caso fosse um sonegador. Agora eu pergunto, pra onde vai esse dinheiro? O que se faz com esse dinheiro? Parece óbvio que o Estado brasileiro não tem condições de gerenciar tanto imposto, trilhões. Olha como é retrógrada a coisa: a agenda do país tem como um dos principais compromissos analisar se fulano torturou sicrano há cinquenta e tantos anos atrás. Deixa isso pra lá, já foi, já morreu todo mundo, era outra época, vamos ocupar nossa política com coisas relevantes, olhar pra frente, projetos que nos torne uma potência. Enquanto isso, quem paga os impostos necessários pro Planalto funcionar? Claro, nós, os contribuintes. É um perfeito exemplo de descaso com o dinheiro público. Há sim o imposto que funciona. Pedágios, por exemplo. Menos morte no trânsito, pistas duplas, segurança, conforto pra quem dirige. Tudo bem, você paga uma quantia lá, mas quando você compra seu carro zero quilômetro, você sorri porque sabe que poderá usufruir de toda sua potência para trafegar com segurança pelas estradas. E parando pra pensar, nem parar no pedágio precisa mais. A tecnologia a serviço do homem.  O imposto que funciona. Fico me perguntando quantas pessoas teriam acesso a telefones se o gestor da telefonia fosse o próprio governo brasileiro. E olha quantos ignorantes não enchiam o saco dia após dia, “vender o país”, como se o país fosse capaz de se administrar. O resultado tá aí, indiscutível. Melhor deixar na mão de quem tem entendimento, know-how, feeling, de quem sabe administrar, afinal, se o dinheiro fosse seu, quem você escolheria para cuidar? Investidores, managers renomados ou o braço estatal? Você pode tentar se enganar, mas no fundo não deixaria ali seu dinheiro. Você trabalhou pra isso, não vai deixar na mão de alguém que não sabe gerenciar nada. Você trabalhou. Não se conformou diante das dificuldades, não aceitou esmola do governo parado, não quis se acomodar no bolsa-miséria como muita gente.  Fez tudo pra vencer. Sabe, tem um filho de uma empregada minha que é assim. Luta, batalha, trabalha de dia, estuda de noite, está quase saindo do curso técnico. Quer ser alguém na vida. Já o irmão dele é um vagabundo. Daqueles que constitui uma família, instituição que já foi sagrada, só para receber o bolsa miséria do governo. Resultado, o rapaz fica encostado dia após dia, faz um bico ou outro, e coincidentemente sempre recebe os “benefícios”, entre aspas, do governo. “Benefícios” que saem da onde? Do dinheiro mal gerido do contribuinte. Onde estão os aeroportos para escoar a produção, a malha ferroviária, a infraestrutura necessária para produção? Viraram cinquenta reais, ou algo assim, no bolso de uma pessoa acomodada, que além de não procurar emprego, sabe-se lá onde vai gastar esse dinheiro. Dá-se o peixe, mas não se ensina a pescar. Mas o governo brasileiro é bom em acomodar as pessoas, estimular o jeitinho. O mais novo jeitinho do século XXI são as cotas. “O mundo tá injusto, vamos nivelar por baixo, vamos colocar pessoas menos capacitadas para pegar as vagas de quem se esforçou mais”. Tenha santa paciência, então vamos lá, pegue a nota do seu filho, que ele se esforçou pra poder receber a mesada, e divida com os amiguinhos. Ou então faça com que na seleção basileira seja obrigado a ter um jogador com mais de 120 quilos, para equilibrar. Até brinquei com minha filha, sugeri que ela intensificasse o bronzeamento artificial que ela faz duas vezes por semana pra ela falar que é afrodescendente, porque nesse país negros merecem mais, onde já se viu. Não sei como eles aceitam. Se eu fosse negro, numa boa, numa boa mesmo, não aceitaria esse atestado de incapacidade. Aí o cara vai lá, entra sem preparo, chega na universidade, atrasa o ritmo da turma, depois querem reclamar da qualidade da educação. Olha, eu mesmo acredito que educação é fundamental, sem mão de obra qualificada jamais chegaremos a algum lugar. Mas veja a bagunça. Não sei quantos dias de greve, daqui a pouco tá no calendário acadêmico dos caras: vestibular para os desqualificados, trote, matrícula, aulas, greve, greve, quebra-pau, aumento, aulas de novo. Meu filho mais velho poderia ingressar em qualquer faculdade, garoto inteligente, esforçado, não é um vagabundo qualquer. Mas eu preferi que ele não passasse por isso. Já pensou, não conseguir entrar por ausência de melanina na pele, ou ter que ficar à toa em casa por greve de baderneiros. Tudo errado... Outro dia um amigo mandou um vídeo no youtube, chamado “Baderneiors em greve”, pode pesquisar. Os caras numa boa fumando um baseado numa rodinha. Agora entendo porque não querem a polícia por lá... Aí a câmera dá uma rodada, tem dois caras se beijando. Isso mesmo, dois caras. Afinal, é uma greve ou pretexto pra não estudar e fazer pederastia? Não que eu seja contra dois caras... sei lá... se beijarem. Mas precisa fazer isso no meio de todo mundo, todo mundo tem que ver isso? Desnecessário. Se fosse só por gostar um do outro não iam querer ficar se exibindo.  Enfim, Deus que me livre. Coloquei logo o moleque em uma instituição privada, e quero que ele faça os dois últimos anos nos EUA, um convênio com um centro de pesquisa ótimo, “Massachusetts Institute of Technology”, referência mundial, não um antro de baderneiros que acham que o fim da universidade – paga com o dinheiro, adivinhem só, do contribuinte – é um baseadinho a mais.  É o tipo de gente que vai se formar e dar trabalho no emprego e quem vai pagar o pato mais uma vez? O empresário que contribuiu todo esse tempo e ainda tem que aturar uma mão-de-obra dessa categoria.  Ciclo vicioso. Quem sabe ele mesmo, meu filho, não seja alguém que mude tudo isso. Que volte ao Brasil com a experiência dos países sérios, chegue às instâncias de poder e mude esse sistema canalha e invertido que temos. Quem sabe ele não faça o justo, possibilite que o esforçado filho de minha empregada seja alguém na vida, talvez um supervisor de obras, um exemplo pro irmão vagabundo, que hoje deve rir por ganhar sem fazer nada. Vai ver que é por isso tanta gente pedindo dinheiro na rua, como se a unidade monetária fosse migalha de pão que se distribua aos pombos... Quem sabe meu filho não cresça e mostre que ninguém tem culpa de ter mais dinheiro, de ter mais terra, de ter um carro de luxo. Que, pelo contrário, ter mais é merecimento, que acúmulo é mérito. Quem sabe ele não inverta a lógica do jeitinho brasileiro e seja um exemplo de integridade. Quem sabe o filho acomodado da empregada não sinta orgulho de ver pela tevê uma figura de sucesso como meu filho, que eleva o nome do país, ou melhor, quem sabe ele não se sinta envergonhado de ter por tanto tempo mamado nas tetas do Estado, se acomodando em ser negro e pobre, com a sorte do destino de viver em uma terra onde a escória tem privilégios. Quem sabe ele não se envergonhe por isso, por não fazer sua parte para o país. A democracia precisa de pessoas dispostas à seguir as regras da liberdade, o capitalismo precisa de pessoas proativas. E o que estamos oferecendo ao mundo? O contrário.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Insônia

. . Por Caio Moretto, com 2 comentários

Acho que grande parte da insônia é só vontade de adiar o dia de amanhã, como se ficar acordado fosse uma forma de compensar a desagradável rotina. A insônia é o protesto silencioso, solitário e involuntário dos covardes, dos que estão insatisfeito com a vida que levam, que tem medo do futuro ou que simplesmente trabalham demais. Respeite a olheira do seu colega. É a tatuagem do orgulho que nos resta. É a greve de sono, o projeto ingênuo e incoerente de vingança que remoemos a noite inteira. É a greve legítima pela vontade de viver, que, impotente, traduzo na irônica contradição: "posso trabalhar 12 horas, mas as 8 de sono eu não engulo não". Afinal, se não for a insônia, que tempo sobra para a gente viver?

(Texto escrito em 18 de maio de 2011, às 1h33.)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Capacetes Coloridos

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários


 Assista antes de ler:

Capacetes Coloridos
Paula Constante (2007) - 32'42''



Cores para diferenciar. Cores para hierarquizar. Branco é quem manda. Quem pensa. O resto? É resto, faz trabalho braçal. O engenheiro se impressiona de ter conseguido fazer ele só aquela obra. O secretário diz que as decisões são muito rápidas, um mês, 15 dias, 15 minutos, uma canetada. Uma empreiteira. Várias terceirizadas. Vários trabalhadores. Muitos capacetes coloridos. Poucos brancos.

O documentário de Paula Constante nos trás a comparação de dois canteiros de obras. Um é o canteiro da ampliação do campus da USP na Zona Leste de São Paulo. Esse canteiro é o da empresa, da empreiteira, que ganhou a licitação, e, sub-contratou diversas microempresas de trabalhadores da construção civil, terceirizando o trabalho. A relação trabalhista mostrada é do maior nível de exploração, física, mental, social e econômica. Geralmente são moradores do entorno da obra que procuram trabalho e se submetem a esse tipo de exploração. As ferramentas são da empresa. São mão-de-obra. Obedecem.

Na outra paralela, o canteiro é da Associação Paulo Freire, ligada à União dos Movimentos de Moradia de São Paulo. A obra é em mutirão autogerido. Mutirão porque é um monte de gente fazendo o trabalho. Autogerido porque é esse monte de gente que discute e decide como será feito o trabalho. Quem está executando a obra de construção dos apartamentos são as mesmas pessoas que vão morar ali. Elas decidiram o projeto, a planta, os materiais, o tipo de construção, quem vai construir, como, quando, em quanto tempo. São as próprias trabalhadoras (pois a maioria é mulher nesse processo) que decidem sobre o seu trabalho. São mãos e cabeças-de-obra.

O paralelo faz sentido quando pensamos sobre o fazer arquitetônico numa sociedade na periferia do sistema capitalista. De um lado o modo “tradicional”, “convencional”, de se fazer, de construção: a universidade pública construída por uma empreiteira, com mão-de-obra explorada, tecnologia convencional. Do outro, a construção de moradias populares: a partir da necessidade das pessoas de terem onde morar, se organizam, reivindicam, ocupam um terreno, conseguem financiamento, e decidem eles próprios, em coletivo, projetarem e construírem suas casas em autoconstrução, em mutirão autogerido.

Num mundo onde o morar é negócio e poucos tem realmente acesso a esse direito, o pensar é, também legado a poucos. A universidade, lócus do conhecimento, onde são fabricados milhares de bacharéis, mestres e doutores, que pensam e comandam o mundo, é construído a base de sangue e suor, dos trabalhadores explorados pela construção civil.

A necessidade do morar leva as pessoas a reivindicarem um espaço, um território nesse mundo cinza da cidades. Se organizam e se movimentam para isso. A organização coletiva dos trabalhadores na luta por moradia é base para o passo seguinte, a decisão de construírem eles mesmos a própria casa. Esse fato modifica as relações de produção envolvidas no processo do fazer arquitetônico e da construção civil. Os trabalhadores não são mais livres mercadorias no mercado de mão-de-obra de desempregados, mas são donos do seu próprio fazer. Reintegram-se com o fazer do seu trabalho a partir do momento em que não estabelece uma relação de mercado, ou alienada, com seu trabalho.

É o trabalhador, ou melhor, a trabalhadora, que decide a sua necessidade. E isso se faz em coletivo. São espaços de experimentação de uma esperança. Esperança de uma nova sociedade. Outro projeto de sociedade. Onde são experimentadas nova forma de trabalho. Relações de trabalho, de companheirismos, de coletividade, de cooperação, que são contrárias as relações convencionais desse sistema que vivemos. Não só contrárias, são relações que negam essa outra forma atual. Não sem contradições e limites, os mutirões autogeridos nos mostram um novo fazer arquitetônico que nega o modo tradicional de construção, e também a autoconstrução individual (modo mais comum nas periferias urbanas – pessoas que constroem as próprias casa, com ajuda de amigos, parentes – tipo favelas, barracos, etc).

De certa forma as técnicas, a tecnologia, os artefatos, estão presentes em todas as etapas da nossa vida. Se apontamos para o novo, para um novo projeto de sociedade temos que apontar, tratar e modificar, essa relação com a tecnologia, que nos domina, e, para além disso, modificar a própria tecnologia. Creio, assim como Sérgio Ferro, que “os canteiros de autoconstrução coletiva, autogeridos pelos trabalhadores, são laboratórios experimentais em que estas coisas podem, devem ser encaradas”. E Sérgio continua, “mais: a autogestão na construção tem repercussões que saem do canteiro, atingem outros níveis da vida social. A cantina, a creche, o posto de saúde coletivos já avançam outras pistas. A surpreendente e numerosa presença das mulheres na construção estremece o machismo tradicional, a ideologia dos sexos. As negociações para obtenção do terreno, de financiamento, de compra, etc., fortalecem a perspectiva socializante destas iniciativas. E etc., etc., etc...”.

O filme nos traz o privilégio visual dessa comparação entre canteiros de obras, o da empreiteira e o do mutirão autogerido. Os textos e prática do Coletivo Usina e escritos de Sérgio Ferro, mostram que a atuação desses arquitetos são uma modificação do fazer profissional, são verdadeiros arquitetos-educadores que optaram por trabalhar com a classe trabalhadora que luta pelos seus direitos, sendo, nesse caso, um dos direitos mais básicos da população, o acesso a habitação. Necessidade que deveria ser a base da Universidade, na educação de capacitados para lidar com as necessidades dos trabalhadores.

A luta lado a lado, desde o início das ocupações de terras, conquista do terreno, até o trabalho cotidiano de uma assistência técnica compartilhada, é capaz de produzir nesses espaços de mutirões autogeridos, novas formas de relações, solidárias, de coletividade, de experiência de um vir a ser, de uma sociedade nova, autogerida. Como João Bernardo que diz que “gerir as empresas e a sociedade é algo que se aprende de uma única maneira: gerindo as próprias lutas. Só assim os trabalhadores podem começar a emancipar-se de todo o tipo de especialistas e de burocratas. E com este objetivo não há experiências simples demais. Por mais modesta que seja uma experiência, os participantes vão se habituando a dirigir a sua atividade e vão aprendendo na prática aquilo que opõe essa solidariedade e esse coletivismo ao Estado capitalista. É esta a única maneira sólida como os trabalhadores podem, no plano prático, reforçar progressivamente a sua capacidade de organizar as empresas e a sociedade e, no plano ideológico, forjar uma consciência de classe”.

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