VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

sábado, 28 de julho de 2012

Como me tornei gastrítico

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários


Os meninos, donos e senhores da casa, 
fecharam portas e janelas,
 e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala.
 Um jorro de luz dourada e fresca feito água
 começou a sair da lâmpada quebrada,
 e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. 
Então desligaram a corrente,
 tiraram o barco, e navegaram com prazer
 entre as ilhas da casa.” 
(A luz é como a água
Gabriel Gárcia Márquez)

Tudo começou quando passei a levar as coisas a sério. Mas isso não foi uma opção minha, uma escolha, ao mesmo tempo, tampouco foi fruto de condições que me foram impostas por outras pessoas ou circunstâncias, uma necessidade obrigatória e inescapável. Só hoje percebo que, simplesmente, a partir de determinado momento, de um período, passei a levar as coisas a sério. É o único comentário que encontro.

Eu devia ter uns 14 anos, ou talvez já estivesse passado dos 27, não me lembro, já faz muito, mas, apesar da diferença entre as datas, minha gastrite deve ter começado nesse intervalo. Ali me encontrei enquanto sujeito, ser humano, como se diz, e não enquanto alface, claro. E se parece absurdo falar de um adolescente para um homem a beira dos trinta indiferentemente, quando tudo isso já passou há tanto não existe diferença alguma. Sabe como são as lembranças, meio imprecisas, embaçadas, esfumaçadas, envolvidas de incerteza. Assim, fica mais difícil ainda falar da minha gastrite, que me acompanha desde então. Nalguns momentos, não percebo mais a respiração pelo movimento do diafragma, ou palpitações que sejam, não penso num conceito importante, ou sequer me ocorre aquela citação precisa, apenas sinto que, por dentro, da altura do umbigo ao queixo, tenho um enorme e vibrante estômago sofrendo.

A primeira recordação me vem de uma namorada, óbvio, que me deixou sem que eu tenha imaginado qualquer esfacelamento, ausência ou perda de encanto. Andávamos pela rua, no caminho da minha casa, quando ela, enquanto eu mordiscava meu pão de queijo, me disse que encontrara outra pessoa, e também sobre como era compreender a condição de nossas vidas: às vezes, para alguns, de estoica solidão. O pão de queijo, carnudo, quente, macio, autêntico, naquele instante, ressecou-se, tornou-se praticamente uma massa de polvilho velha: a saliva eu perdera. Segundos depois, o entendimento, o raciocínio enfim compreendeu o que o corpo, por meio do paladar, já havia entendido. Não era só mais um fora, como se diz hoje, mas o tom cerimonioso fizera daquelas palavras uma ameaça de destino. Levei muitos anos para digerir aquele pão de queijo.

Depois disso, duas coisas me marcaram profundamente o desentendimento.

Estava num ônibus cruzando a cidade para o trabalho e, descendo uma avenida movimentada, ouvimos todos ali dentro, de repente, a sirene esganiçada, como todas o são, é verdade, de uma ambulância. O motorista, como todos nós, assustou-se ao mesmo tempo em que tentou tirar o enorme veículo que dirigia do caminho. No movimento brusco, um rapaz lá no fundo, mais ou menos na mesma direção que a minha, um pouco atrás, gritou que ali não viajavam vacas e bois, não. O motorista não se manifestou, já o cobrador, que ainda naquele tempo era uma profissão, não se conteve. Segundos antes da manifestação do sujeito, o cobrador estava a vontade, esparramado, com as pernas voltadas para a frente do ônibus, o corpo para trás. No entanto, ao reagir, ajeitou-se na poltrona, fez-se imperioso. Aqui não tem vagabundo pra você sair gritando, não, viu, irmão, disse, aqui é tudo pai de família, dobrava as mangas da camisa para trás, erguendo o indicador. Você não viu, não percebeu a ambulância que passou, não, questionou. Sentado, mais ou menos na mesma direção para a qual o cobrador olhava ao falar, não assistia às mangas serem dobradas assustado ou com medo, mas não é coragem minha, confesso. A discussão mudou de tom. Não venha justificar o erro do outro, cara, pela voz, o rapaz transmitia um nervoso soluçar. Esse motorista vem dirigindo assim lá desde baixo, feito louco, completou. Não havia mais mangas e o dedo do cobrador estava decidido a não se abaixar, enquanto ele finalizou. Olha só, aqui ninguém é obrigado a ouvir gritaria, se você quer se queixar, ao descer, anote o número do veículo e ligue no telefone que está ao lado do mesmo número na parte de trás do ônibus, mas não venha gritar com pai de família, rapaz, finalizou o cobrador. Nunca o barulho do trânsito lá fora foi tão alto enquanto aquele rapaz não desceu no ponto que o esperava. A saída mesmo foi espetacular, com mochila sendo jogada no ponto e coreografia improvisada para anotar os tais números. Todos estávamos num silêncio que possibilitou ouvir o arfar do motorista ao arrancar, muito mais veloz do que vinha anteriormente. Talvez fosse o estômago dele reagindo, quem sabe.

Não me vinham por quês, não procurava por explicações, esclarecimentos ou resoluções, não pensava em nada, apenas sentia meu estômago.

Outra vez foi tentando relaxar, fugir do trabalho que colocava o jaleco em mim 24h. Como qualquer menino chorão, corri para os braços de mamãe. Já muito mais esperto diante dessas situações, abraçava o sarcasmo antes que a desfaçatez do absurdo se ajustasse ao conveniente. Em menos de quarenta minutos de estrada, diante das mais de seis horas de viagem que me esperavam, ouvi tapas e pequenos gritos de me devolve, é meu. Quando sai da vigília, os gritos e tapas ficaram mais altos, não eram apenas irmãos ou uma mãe e crianças num entrevero, como eu imaginava sonhar. É bom lembrar,  algumas pessoas usavam músicas altas nos aparelhos celulares naquela época. Então, a mulher pediu para a moça abaixar o volume da música, a moça não abaixou, a mulher tomou da moça o aparelho e foi feito o alvoroço. Quando achei que deveria levantar a cabeça da poltrona e olhar, somente ver mesmo o que já tinha ouvido, o aparelho celular cruzou os ares do corredor do ônibus. O aparelho ainda bateu as costas de uma poltrona lá na frente e caiu no colo de outra moça, esta se levantou como... como tudo aqui desde o começo, que se percebe pobre literária e metaforicamente, em uma película de zumbis lado B. Você está louca, sua gorda, escrota, se esse negócio acerta a minha cabeça eu te estouro. Uau, engoli. A moça, dona do aparelho, tinha uma criança de três anos que àquela altura estava em muitas lágrimas, escondida debaixo da poltrona da mãe. Enquanto isso, seguia a troca de tapas e ameaças ao som de Jesus, Deus, põe Deus no coração, gente, repetidos por uma senhora de voz adocicada. Outros gritos avisaram o motorista: já era tempo de parar aquela viagem. A polícia foi chamada, a briga foi separada, a criança tirada debaixo da poltrona e dos berros. A mulher quase atingida pelo aparelho celular, contudo, ainda se mantinha de pé, retrucou uma das ameaças de agressão, alternava dois passos a frente e um para trás, dois para trás e um para a frente, fazendo esvoaçar a jaqueta longa e ressoar o tamanco no assoalho: ê, você cala a sua boca, sua gorda, escrota, vai emagrecer, faz só dois anos que eu to na rua de novo e a última pessoa que me ameaçou tá morta. Mata, mas sem barulho que eu quero dormir, gente, alguém poderia ter dito.

Essas lembranças não são do pensamento, são do corpo, são dor física, nesses momentos o que eu tenho é um estômago queimando. No ônibus de viagem, foi um período em que eu já não queria uma crença renovada para enfrentar o mundo, reconhecer-me diante das coisas e entender onde eu estava, não, preferia o cinismo, uma franqueza cretina. Eu, que nunca fui um bêbado, que nunca fui de comida gordurosa, que cruzei a infância com fama de menino tranquilo, distraído, alegre, bem humorado, ploft, passei a sujeito preso numa caixa de Omeprazol, com dicas para reconhecer excessos de ansiedade e nervosismo, com exercícios de relaxamento e auto-controle para não enfrentar crises de gastrite. O mundo e as pessoas não eram o que eu queria ou esperava que fossem, me diziam, como se diz aos adolescentes, aos jovens, aos adultos imaturos. Não, mas já naquela época, eu sabia que eu não era nada, que era apenas mais um, e tampouco estive à procura de um caminho, de um lugar para ir, sabia resignadamente que o que nos resta na vida é esmiuçar uma diversão qualquer diante de tudo. Alguns diziam que eu precisava de fantasia e imaginação para o meu realismo fatalista. Nos livros, para eles, eu deveria encontrar um remédio. Que mundo.

Pois bem, hoje pouca coisa mudou, não saio sem comprimidos para o caso de um ataque, mas paro e retiro do real-absurdo que me aparecer as duas palavras que compõem a mesma expressão. Sonho com as coisas, fragmentando-as, até que percam o lastro: como um sobrado azul de portão branco, paredes arranhadas pelo tempo e jardim desgovernado, quando eu tenho um chapéu também azul que me cobre o rosto, uma máscara, enfeites e algum desconcerto, talvez revolta, encerrado aos pés de uma grande árvore que não entende o inverno. Encontro nas paredes do sobrado o número 183, mas queria que fosse o 44, não, o 77, e faço do que vejo combinações que me deem um 4 ou um 7 repetidos. Minto, só queria escrever.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Anti-Soneto ou Cenas de Uma Loja de Eletrônicos

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários


Lendo nos jornais, a realidade parece um soneto métrico e rimado, que não sabe se lindo ou se chato. Mas certamente insuficiente.

Entretanto, a vida urge. A luta de todo homem é ter motivo pra se desafiar. Pode até ser divertido. Deitar nos trilhos com os olhos aberto para ver por debaixo do trem. Usar espelho no sapato para dançar com a moça de saia sem que ela perceba.

E assim, com esse espírito, o senhor que assobia na construção só pensa na morena que conheceu no samba do domingo à tarde. O maluco que vagueia pela rua só pensa em conseguir dinheiro pra pinga. O homem que compra ouro – pelo menos é o que se lê em seu colete azul – pede um pingado na pastelaria, parece apressado. Pelo barulho das lojas se abrindo, é mesmo hora de correr atrás do dourado.

É só mais uma manhã que demarca o início de mais um dia no centro da cidade.

Na televisão do mostruário da loja de eletrônicos é possível assistir à rica socialite lamentando a violência de seu país – “por que não nasci na Europa?”. Deitados no chão da calçada da loja, dois mendigos discutiam para saber quem tem razão sobre a existência de Deus, antes de serem expulsos pelo segurança.

Malandro que é malandro sabe negociar. Ou, como disse o tio do pastel, bamba que é bamba não tem medo de bacharel. Com os raios de Sol, os mais friorentos fogem das sombras, é inverno em julho.

Em poucos minutos já não se vê os mendigos, tampouco a socialite, animais se atacando deixam a tela mais bonita.

Esqueça todas as certezas, compartilhamentos de razões absolutas e lições de equilíbrio proferidas pelos puristas formadores de opiniões. No mundo real, há que se ser dionisíaco, perder a compostura. Escrever torto por linhas retas, buscar o anjo torto que atormenta o poeta. Este, na busca do imensurável, já não mede mais os versos, apenas grita em autodefesa poesias para sobreviver ao gauche destino.

Na vitrine da loja de eletrônicos, ainda embaçada pela neblina matinal, agora se vê uma criança desenhando com sua mão um coração distorcido. E, nesse momento, tanto faz quem inventou o Bóson de Higgs.

- Filho, vamos embora, senão o moço vai brigar com você.

A mãe aponta para o segurança, que não esboça reação enquanto o menino chora escandalosamente. Desconcertada, a jovem tenta ainda contornar a situação enquanto afasta o garoto da vitrine.

- Olha lá, que lindo, o leão correndo atrás do veadinho.

O menino ainda não parece convencido, mas vai se afastando aos poucos da vitrine. Pouco importa, em meio a tudo, ainda é possível ver a esperança na ponta de seus dedos.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Coluna do Leitor - Quem está vendo?

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários


Publicidade é a alma do negócio, diz o ditado popular, e nada é mais verdadeiro em política internacional. Não vamos confundir com propaganda, que tem um cunho muito mais de manipulação, e o pessoal confunde com “publicidade” de um jeito assustador. Mas hoje vamos falar de publicidade mesmo – ou melhor, da falta dela. Enquanto o noticiário internacional se esbalda com a guerra civil na Síria e o morno debate da eleição presidencial dos EUA, temos um monte de questões que passam como nota de rodapé (quando passam). Você sabia que Cuba está passando por uma epidemia de cólera? Ou que o Tribunal Penal Internacional (TPI) sentenciou pela primeira vez um condenado por crimes contra a humanidade? Ou que o Congo está se tornando uma nova Ruanda?
Essas duas últimas estão relacionadas. O tal condenado é Thomas Lubanga, um líder de milícia congolês que mandava crianças para a morte nos idos de 2002-2003. Foi o primeiro julgamento em que saiu uma sentença (de 30 anos), em que vítimas puderam testemunhar pessoalmente contra o réu, e o primeiro em que se conseguiu fazer uma acusação formal contra o uso de crianças-soldado. Como marco, uma vitória simbólica, mas muito pouco perto do que a realidade apresenta por lá. Na semana passada, muita gente ficou chocada com o relato de Marie Nzoli, que mostrou como a situação das mulheres é difícil na região, e que o espectro do conflito ainda paira por lá. Nessa semana começa uma reunião da União Africana em que o tema é justamente o crescimento desses conflitos, mas entre a discussão dos líderes na sala com ar condicionado e as camionetes com guerrilheiros fuzilando a população, estuprando as mulheres e roubando crianças, há um abismo.
A questão é, por que esse tipo de notícia passa longe do noticiário convencional, espremido em 10 ou 20 segundos no jornal do almoço. Talvez seja para não chocar demais o espectador brasileiro, que já enfrenta desgraça demais no cotidiano, certo? Afinal, não tem como fazermos nada pra impedir esse tipo de massacre tão distante. É fácil julgar a mídia, dizer que não mostra por que não dá retorno, mas se formos pensar com frieza, realmente, por mais cruel que pareça, não há muito mesmo a fazer – a não ser que você seja um consumidor regular do mercado de diamantes, um dos motores desses conflitos, e resolva boicotar essa indústria diabólica, em qualquer lugar do mundo, mas não acho que seja o caso. O que podemos fazer? Denunciar, dar voz aos que não têm, e pressionar nossos próprios governantes. Mas, é pouco, e aqui entra o Tribunal Penal Internacional (TPI).
Não é nada animador saber que os responsáveis pela tragédia que se aproxima (ou já está acontecendo) vão ser julgados (se forem) apenas num futuro distante. Mas, essas primeiras vitórias do TPI são um recado aos violadores, de que já não estão 100% impunes, e uma esperança, ainda que pequena, de que no futuro seja uma instituição forte o suficiente para dissuadir esse tipo de massacre. Vai ser uma publicidade negativa danada, podem ter certeza, mas enquanto isso, o Congo e tantas outras nações em crise continuam no rodapé.


Álvaro Panazzolo Neto é mestrando em Relações Internacionais pela Unb e colaborador do Página Internacional.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Asterios Polyp: Arte (d)e Narrativa

. . Por Fernando Mekaru, com 0 comentários



PREMISSA PARA ROTEIRO. Após evento fortuito e inesperado, homem que parece ter tudo na vida perde tudo e, face aos horrores que lhe restaram após a recém-acontecida tragédia, vai para longe, até onde seu dinheiro lhe permite, para viver uma vida que nunca cogitaria viver antes. Ao mesmo tempo em que tenta deixar o passado para trás, homem busca nesse processo de reinvenção o sentido de sua própria vida, em uma mal-disfarçada tentativa de encontrar a si próprio em meio a anseios de redimir-se por erros de outrora que parecem inescapáveis. Homem, após ter de encarar de frente suas angústias, sofrimentos e, princpalmente, o seu próprio orgulho, descobre na mudança da personalidade a solução não de todos, mas de vários de seus problemas.

Vamos convir: essa não é uma premissa das mais originais para se escrever uma história.

Isso não impede, porém, que obras magistrais possam ser desenvolvidas a partir desta proposta, reinventando-a e mostrando que os limites da arte se dão verdadeiramente nas execuções infinitas de uma mesma ideia, bastando apenas uma execução suficientemente criativa dela.

Asterios Polyp (David Mazzucchelli, Cia. Das Letras, 2009, primeira reedição em 2012), um volumoso calhamaço de quase 400 páginas coloridas de quadrinhos, não faz parte do panteão de obras que se propõe a pegar essa proposta de narrativa e reinventá-la. Muito pelo contrário, a fórmula é seguida à risca, com muito pouco espaço para o desenrolar de um certo tipo de história que, com certeza, já vimos antes.

Por que, então, esta é considerada a magnum opus de David Mazzucchelli, mais até do que trabalhos mais conhecidos do mesmo autor como Batman: Ano Um e Demolidor: Renascido, nos quais personagens clássicos tem as suas carreiras reinventadas e suas histórias recomeçadas de um ponto de partida original, que rompe com outras leituras do mesmo? Por que uma das premissas mais recontadas da história, sem nenhum tratamento digno de nota, é reconhecido por diversos veículos como um dos quadrinhos mais inovadores dos últimos anos?


O estatuto concedido a esta obra se dá, principalmente, porque Mazzucchelli arrisca fazer algo que, no passado, muitos artistas falharam tentando: o foco dele é na forma de fazer quadrinhos, e não no conteúdo narrativo contido nos mesmos. Ao contrário do que normalmente acontece, isso não significa que isso desmereça a obra, pelo contrário: ao invés de se colocar somente como um deleite aos olhos e nada mais, a arte de Asterios Polyp é, antes de tudo, um convite a se afundar mais e mais no roteiro, colocando na obra todos os não-ditos, pressupostos, reflexões e demais elementos responsáveis por tornar os personagens profundos e a história, cativante.


A arte opera dessa maneira incrível de várias maneiras: a que mais se sobressai é a estilização de cada um dos personagens, que em primeiro lugar tem todas as suas falas e pensamentos escritos em fontes distintas uma das outras - essa mudança estilística, irrelevante à primeira vista, é um primeiro sinal ao leitor para que a individualidade de cada personagem, por menor que seja, seja estabelecida tanto na narrativa quanto na sua mente. Esta mesma postura de desenvolvimento dos personagens a partir da arte acontece de maneira mais impactante quando a história entra no plano de análise subjetiva de cada um deles: são todos (todos!) desenhados de maneiras distintas, de maneira a ressaltar características psicológicas e personalísticas que, se o único meio utilizado fossem as palavras, não seriam colocadas de maneira tão contundente e chamativa. A arte, nesse sentido, coloca tudo que o texto não coloca sobre a personalidade de cada uma das pessoas com as quais Asterios cruza durante sua jornada de auto-conhecimento: a partir dessa base, a mente do leitor se encarrega de fazer o resto do processo de construção dos personagens.




Mais do que colocar em evidência o pequeno universo artístico que cada personagem carrega em si, Mazzucchelli se utiliza da arte também para colocar uma questão que, com menos sensibilidade, é tratada de maneira simplista e muito pobre: o choque entre visões de mundo de duas pessoas muito diferentes entre si. O contraste visual entre estilos de arte gritantemente diferentes, junto à simplicidade dos balões de fala/pensamento, geram uma maneira de comunicar, durante a narrativa, os momentos de tensão e conflito entre as partes envolvidas, deixando o conflito implícito ou explícito conforme os elementos narrativos de cada página se coordenam entre si para desenhar cada elemento do roteiro.

       

Além de servir como instrumento narrativo, o contraste entre estilos de arte muito diferentes entre si coloca, em diversos momentos, uma questão que gera muitos debates: quando cada um de nós é inescapavelmente único e singular em seu âmago, é possível que essa unicidade/singularidade seja compartilhada, ou até mesmo compreendida, pelos outros seres únicos e singulares que nos cercam? Asterios Polyp dá uma possibilidade de solução para esta pergunta, e também dá pistas para que o leitor chegue às suas próprias conclusões, sem que para isso precise que a graphic novel leve-o pela mão até elas.

                                       

Obviamente, além de questões levantadas pela arte, a graphic novel não se resume ao roteiro-modelo colocado no início desse texto: a história possui alguns outros pontos levantados, a maior parte deles referente à construção da personalidade de Asterios, o personagem principal, mas não é possível falar dos mesmos sem que isso revele detalhes importantes da história. Se a descrição inicial da história sugere falta de profundidade, não se engane: ainda que não seja extremamente complexa e envolva diversos planos de narração, esta história em quadrinhos apresenta uma história sólida e envolvente, que vale muito a pena ser lida.

Em suma, Asterios Polyp reconta uma história que você já ouviu antes, mas dentro dos limites dela, faz coisas incríveis, singelas e bonitas, com alta carga emocional e que invariavelmente se comunicam com histórias que já ouvimos (e passamos) antes. Por conta de sua arte incrível, cada leitura permite novas reconstruções de cada um de seus personagens e eventos, bastando para isso apenas um novo olhar e análise para cada cena que o delicado jogo entre palavras e imagens coloca em cada folha de papel. Na opinião deste que vos escreve, é simplesmente uma história de quadrinhas imperdível, que reafirma o estatuto de arte concedido às histórias sequenciais e escapa de praticamente todas as soluções fáceis que esta forma artística normalmente propõe e não se deixa escapar.

domingo, 1 de julho de 2012

Desavisado*

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



"
Ver você como uma coisa, que eles são capazes de ver você como uma coisa. 
Sabe o que isso quer dizer? É terrível, nós sabemos como isso é terrível enquanto ideia,
 que é errado, e achamos que sabemos todas essas coisas sobre direitos humanos
 e dignidade humana e como é terrível tirar a humanidade de alguém,
 é só isso que a gente diz, a humanidade de alguém,
 mas ver a coisa acontecer com você, ver, e agora você sabe de verdade.
 Não é só uma ideia ou uma causa para ficar todo careta.
 Faça acontecer isso e você terá um gostinho de verdade (...)
 E agora você sabe o poder que isso tem.
 O poder total.
 Porque se você consegue realmente ver alguém como uma coisa
 você pode fazer com o outro qualquer coisa,
 fica tudo de fora, humanidade, dignidade, direitos, justiça - tudo de fora."
(David Foster Wallace)




Meu nome? Inês, doutor. 'Doutor' não? Tá. Senhor me desculpe então, por favor. 'Senhor' também não? Tá. Ainda não é doutor, né – sorri. E 'Senhor' tá no céu, a gente sabe... mas se esquece, né, ou é Ele que se esquece da gente – sorri. Onde é que eu tava nos dias 21 e 22 de janeiro deste ano? Mas isso o senhor já sabe. Ai, me desculpe, 'senhor' não: você, você já sabe. Ah, tá, quer escrever, contar o que aconteceu lá no dia 22, como foi tudo. Olha, vai ser difícil, quase impossível, viu, eu acho. Porque talvez mesmo com aquelas câmeras por todas as ruas e cantos do condomínio da dona Matilde, que eu trabalho aqui em São José mesmo, na saída da cidade, e mesmo que você entreviste a porção de gente que vivia e estava lá, não vai conseguir contar o que meu menino viu e sentiu aquele dia. Disso você já sabe, né, pois só to avisando. Por que falei do menino e não do que eu passei? Porque a gente esperava já, né, esperava era pelo pior e ele veio. Ah, a gente estava lá fazia uns anos, eu mais meu menino e meu marido também, meu segundo marido. A gente veio de Piquiurama, eu nasci foi ali pertinho no Paraná mesmo. Meu menino é do primeiro marido, um desgraçado que larguei, depois foi que arranjei esse outro traste aí – sorri. A gente primeiro foi pra São Paulo, ficou lá um tempo. Norival, meu marido hoje, estava trabalhando pra uma transportadora, mas eu não queria ficar naquela cidade lá, não, Deus que me livre, lá perto daquela estação da Luz, num prédio velho, sem nada. A gente é muito simples, sabe, mas não queria meu menino crescendo pra ver tudo aquilo lá não... Nada por nada, Norival arranjou uma outra transportadora em São José e a gente veio, depois consegui ficar de doméstica numas casas que o pessoal indicou. A gente veio direto pra cá, quer dizer, pra lá, né. Quem foi que falou pra gente de lá? Não, não teve nada de movimento – sorri – de partido político, não. Falaram pro Norival lá na transportadora mesmo, nosso vizinho lá trabalhava com o Norival. Se não tinha partido e movimento lá, organização? Claro que tinha, moço, mas que coisa isso que vocês tem que falar, credo. Tinha pra lá de mil de gente lá, daí umas dez pessoas, to exagerando, vai, era de um partido, outras cinco, de outro, e eles tudo brigavam, né, nossa, só confusão. Vinha lá um pessoal da faculdade, nos fins de semana, faziam reuniões, coisa pequena, mas nunca fui, não, eles passavam avisando todo mundo. Eles faziam trabalhos, cuidavam das crianças, nada demais. Tinha reunião toda semana também, por setor, nestas eu ia às vezes, pra gente saber como é que estavam as coisas. Eles ofereciam uns cursos técnicos até, e não era dos partidos, era da prefeitura, moço, olha o rolo que vocês criaram. Mas o espaço, o terreno era todo bem organizado, isso a gente tem de reconhecer. A gente tinha energia elétrica da prefeitura, vieram os caminhões uma vez e desenharam direitinho as ruas, iam asfaltar, falaram. Todo mundo cadastrado, preocupado com a questão do esgoto. As pessoas falam, aqueles meninos dos jornais, da faculdade, sempre falavam também: os partidos. Nosso partido lá era o da sobrevivência, né. Eles acham que a gente é muito malandro de ir morar lá, é... Malandragem agora é medo de passar fome. Ô mundo esse, viu – sorri. É engraçado isso, as pessoas falam aí, comentam, né, ah, os traficantes, ah, os bandidos, os presidiários. Claro que tinha, tinha de monte, mas daí a dizer que só tinha gente assim é maluquice, né. E por que é que quem um dia foi preso sempre será bandido, me diz? Tanta gente diferente lá, gente trabalhadora, dedicada, respeitadora, era um bairro igual aos outros, moço, só isso. Pra onde é que essa gente vai, onde é que essa gente fica se não tem nada, gente? Acaba assim mesmo. E vem pra onde a gente tá tudo agora, né. É isso. Que que as pessoas pensam? Norival já teve preso também, já roubou, já deu tiro pra fugir da polícia, não é santo, não, eu também já vendi baseado vagabundo, pacotinho de pó quando o medo de faltar comida foi maior que o de encarar uma cama de cimento e um sol gradeado. A gente lá era tudo como se fosse só “ex-” alguma coisa, né, ex-traficante, ex-ladrão, ex-preso, só que aí, como você já sabe, você viu, tem foto, tem vídeo, vocês tudo viram, naquela manhã de domingo a gente virou foi ex-mulher, ex-homem, ex-criança: ex-ser humano. A gente então era sei lá o quê, pior que bicho. A gente já estava alerta fazia tempo, mas no sábado, como todo sábado, mesmo que para alguns todo dia seja sábado – sorri –, a gente tomou uma cervejinha, queimou umas gordurinhas até de noite, pessoal lá tocou música, dormi mais tarde e acordei com meu menino gritando “mãe!!, mãe!!, mãe!!” do meu lado. Os olhos dele estavam do tamanho do barraco, coitado. Eu ainda meio zonza, o Norival foi saindo pra ver o que acontecia. Meu menino dizia que estavam gritando fazia tempo, que parecia que era a polícia, que tava correria. Foi tempo dele dizer isso, eu ficar de pé, o Norival entrou de novo no barraco gritando, e eu, que já ia ralhar com o menino pra parar de repetir a mesma coisa, me assustei também, porque o Norival foi juntando o que viu pela frente, roupa, documento, o que deu mesmo, enquanto dizia que era a polícia mesmo, que era o Choque, que a gente estava sendo posto pra fora. Estava meio escuro ainda, mas no final do corredor dos barracos dava pra ver os escudos juntinho, um do lado do outro, avançando. Os gritos de que era pra gente sair na outra direção iam ficando cada vez mais perto, cada vez mais perto. Norival e os vizinhos, o pessoal lá fora ainda ficou pedindo calma pros Choque, que tinha criança, bebê lá, pra esperar as mulheres saírem direito primeiro. Eles iam avançando. Dava pra ver, vocês viram as fotos, né, policial entrando nos barracos lá na frente, quebrando e derrubando tudo. A gente ouviu tiro, sim, não sei o que era, não, deviam tá atrás de bandido, incriminar alguém, foragido, não sei. Disseram que morreu gente, não vi, não sei, vai ver que sim. Morre tanta gente toda hora. Bateu a raiva só lá fora, sabe, aí eu gritava, xingava, filhos de uma puta. Puta não, né, que puta não tem nada com isso. Desgraçados. Era como se nada do que ficou lá fosse nosso, como se eu não tivesse trabalhado, suado todo dia pra comprar e montar as coisas do nosso barraco. O sol ainda não tinha nascido direito e a gente lá fora foi juntando umas madeiras, tacando fogo, como se quisesse avisar o que estava acontecendo. Mas avisar pra quem, né... Alguém vai dizer, "pros partidos" - sorri. Ah, tá. As crianças ficaram amuadinhas, todo mundo com medo, a gente gritando, um monte de gente correndo, as pessoas foram percebendo que o bairro todo estava cercado. Não tinha o que fazer. Além deles fazerem aquilo, tirar tudo da gente quase na madrugada de um domingo, queriam que a gente assistisse a tudo, de pertinho, sem poder fazer nada, porque crueldade pouca é besteira, né – sorri. Foi muito rápido. Depois a gente foi levado lá praquelas tenda que vocês viram. Era pra triagem, diziam. Triagem, gente, se a gente era tudo cadastrado lá... A gente não é boi, não. Aí foi esperar, né, esperar o dia passar, acabar todo aquele inferno. Minha vó, mãe da minha mãe, dizia que não podia falar essas palavras porque atraía, não podia falar 'desgraça', não podia 'câncer', não podia, atraía coisa ruim. Vai ver ela estava certa, mas não foi a gente que atraiu, não, porque a desgraça, o inferno já está aí antes da gente, e ele vem sem nem a gente chamar. Tá tudo errado, né, desde o começo. Meu pai errou quando se juntou com minha mãe, os pais do Norival a mesma coisa, eu também, quando me juntei com aquele primeiro desgraçado, mas a gente quer acertar, né, e carece é de sorte. Agora é ver até quando vai durar essa bolsa aluguel que a gente tá recebendo, e tanta gente ficou sem... Com o dinheiro, a gente tá num quarto nesse cortiço aqui atrás, sabe. To lá na dona Matilde, o Norival na transportadora fazendo os bicos de sempre, o menino tá no colégio: vê se estuda, né, é melhor. Quero mais filho não, gosto do menino, sei o que é ter um monte de irmão, é bom, mas é duro também. Passei lá no Pinheirinho outro dia, vi que não fizeram nada, teve corrida de carro lá, né, na terra, mas teve gente que foi morar lá de novo, fez barraco e tudo e foi despejado de novo também, né. Tem que ir atrás do dono daquele lugar lá, moço, porque tá feio lá, viu, abandonado, fiquei com medo, estava parecendo as noites lá perto da onde a gente morava em São Paulo. Os nóias, uns coitado que nem consegue para em pé direito, tudo sujo, jogado, ziguezagueando. Não é medo deles, sabe, é também, é estranho, é dó, um clima que dá medo, sabe. Daqui a pouco, aquele lugar vira sei lá o quê, ou a gente mesmo acaba voltando pra lá, né...


*texto ficcional, fruto dessa história de desafio no blog: foi proposto pela leitora Lais Fraga, indigesta por aliança

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