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domingo, 3 de junho de 2012

Almoço com Madiba

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário



“... convém lembrar que quando cores brilhantes
como o azul e o amarelo
se mesclam aos nossos olhos,
apagam um pouco nossos pensamentos...
(Virginia Woolf)


Em maio passado, almocei com o ex-presidente sul africano Nelson Mandela. Uso a expressão 'maio passado' como se ela fosse suficiente para me dar a distância e o autocontrole que só a passagem dos dias poderiam me trazer. Como se, também, o acontecimento repousasse na memória tranquilamente e eu o pudesse controlar, transmitindo-o sem tremer.

No dia daquele almoço com Mandela, Beatriz me acompanhava, como se dizia no passado, dessa vez bem mais distante, eu a tutelava. Beatriz é filha de um senhorzinho que conheci também faz muito - nota-se, há saudosismo demais aqui, mas apenas por enquanto.

Seu Mário – por favor, sem piadas infames –, dez anos atrás, já vivia num asilo na cidade em que nasci, quando nos conhecemos. Ele dizia que para lá fora mandado por suas ideias, que não condiziam com o regime político de seu país – ele é estrangeiro –, com a moralidade da época, tampouco com a paciência de amigos e familiares. Era apaixonado o Mário, um desses idiotas completos que jamais se entende, que não dá explicações de nada, saltita de frase em frase como se fizesse poesia e, inutilmente, esperamos dele uma conclusão resolvedora. Graciela, sua esposa, mãe de Beatriz, meses depois de eu ter estabelecido amizade com Mário no asilo onde ele estava, e que eu frequentava, bem, que eu frequentava por esporte, me dizia que preferiram o asilo a qualquer outra instituição que soasse... que não soasse bem. Talvez Mário tivesse razão, era a moralidade da época.

O asilo se chamava Casa Liberdade. Beatriz ali tinha em torno de dois anos e, desde que me mudei da cidade, mantive maior contato com Graciela, que muito mais me contou sobre Mário. Ela e a filha se mudaram para um país vizinho - não o identifico, pois há conspiradores, sabe -, onde nasceram todos, e elas vem às vezes passear, visitar Mário e outros amigos.

Eu ficara com Beatriz no dia em que almocei com Nelson Mandela. Graciela tinha duas entrevistas de emprego e guardava expectativa de retornar ao Brasil, já que as condições de vida por aqui, lhe pareciam, estão melhores. Beatriz mal fala português, dos nem dez anos de vida que tem, ainda não aprendeu a se sentir envergonhada, não para um segundo sequer de papear, apontar o mundo ao redor e dizer alguma coisa, alguma coisinha ela há de dizer. Me diverti com a falta de discrição dela o dia todo, lhe ensinava as palavras em português que ela mais falava em espanhol, palavras de coisas que ela via pela rua, em casa, ou que simplesmente sua imaginação lhe trazia.

Quando entramos no restaurante, Beatriz dizia:
- Este país no es el mío pero me gusta bastante. No sé si me gusta más o menos que mi país. … Una de las diferencias es que en mi país hay cabayos y aquí en cambio hay cabaios.
- Não, Beatriz, é 'cavalos' que se diz aqui – eu sorria.
- Este país es más grande que el mío, sobre todo porque el mío es chiquitísimo. … En este país viven mi abuelo Rafael .... Y también otros millones. Es muy agradable saber que una vive en un país con muchos millones. Cuando Graciela me lleva al Centro, pasan montones de gente por la calle. Es tanta tanta tanta gente la que pasa que me parece que ya debo conocer a todos los millones de este país.
- Que exagero, Beatriz! – eu sorria mais, me lembrando do Mário...

O restaurante em que estávamos fica num edifício diferente, muito grande e alto, e como tudo ao redor, o prédio chamou a atenção de Beatriz:
- El singular se escribe rascacielos y el plural también se escribe rascacielos.
- Se diz 'arranha-céu' aqui, Beatriz, mas, veja, há singular para a palavra.
- Los rascacielos son edificios con muchísimos cuartos de baño. Eso tiene la enorme ventaja de que miles de gentes pueden hacer pichí al mismo tiempo.
- Xixi, Beatriz – e eu gargalhava dessa vez.

Desde Saint-Exupéry, diz-se que marcado um encontro, com data e horário definidos, começamos a vivência-lo e, emaranhados na expectativa de seu acontecimento, somos felizes. Mentira, ou meia verdade. Ainda que eu estivesse certo de encontrar Eddie Vedder naquele dia, ninguém tiraria de mim a euforia, a alegria, a mesquinha felicidade, a confusão completa, as dúvidas que as aulas de história que se passaram na minha cabeça, não mais que de repente, me deram: Beatriz escolhera uma mesa de frente para Nelson Mandela, o Madiba, e a esposa dele. Madiba é a forma carinhosa pela qual Mandela é conhecido. É uma referência ao povo Thembu e ao clã dos Madiba. Quando sentamos, Beatriz e eu, o casal já comia tranquilamente, indiferenciados no salão, e Beatriz seguia:

- Los rascacielos poseen además otras ventajas. Por ejemplo tienen ascensores con mareos. Los ascensores con mareos son muy modernos. Los edificios viejísimos no tienen ascensores o sólo tienen ascensores sin mareos y la gente que vive o trabaja allí se muere de vergüenza porque son muy atrasados.
- Beatriz?! 'Vômito', 'enjoo', elevadores com 'enjoo'?! Que maldade! Vamos, coma! – era ela quem sorria agora.

Aquele homem que vivera 27 anos em uma prisão – tal como o pai de Beatriz –, estava ali diante de mim, mastigando vagarosamente a comida simples de um restaurante popular. Madiba e sua senhora observavam o movimento ao redor, de todos que pegavam a comida, procuravam uma mesa e, muito diferente deles, apressadamente engoliam tudo e se iam mundo afora. Como eles comiam devagar. A sra. Mandela em algum instante, o único em que Beatriz ficou quieta, creio, desde que nascera, virou-se para o marido e, de boca cheia, balbuciou algo. Não entendemos, nem Beatriz nem eu, nada, talvez fosse uma língua dentre as raras e muitas que eles falam no interior da África. Ou talvez fosse simplesmente o fato dela estar falando de boca cheia - cruzes, até Beatriz ficou sem jeito.
Eu queria dele alguma eloquência, alguma palavra, algum gesto, algo, qualquer coisa, mas ele mastigava a comida, só. Pois, sim, aquele homem inspirado por Ernest Henley mantinha um rosto sereno:

“In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.”

[Na garra cruel da circunstância,/ Eu não recuei nem gritei./ Sob os golpes do acaso/ Minha cabeça está em sangue, mas ereta.]

“Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.”

[Além deste oceano de lamúria,/ Somente o Horror das trevas se divisa;/ Porém o tempo, a consumir-se em fúria,/ Não me amedronta, nem me martiriza.]

Só poderia ser isso mesmo, um homem que não se importa com a coisa mais trivial e assustadora que é a passagem do tempo, mastiga pacientemente o almoço. Eu o imaginava dizer, depois da última colher de sobremesa:

“I am the master of my fate;
I am the captain of my soul.”

[Eu sou o senhor de meu destino;/ Eu sou o comandante de minha alma.]

Que heresia a minha, é verdade: uma vida inteira dedicada à suas ideias, ao fim do apartheid, e eu com pensamentos grandiloquentes e debochados. Mas Beatriz não me deixava esquecer los rascacielos:

- Cuando hay un apagón en los ascensores de rascacielos cunde el pánico. En mi clase cuando llega la hora del recreo cunde la alegría. El verbo cundir es un hermoso verbo.
- 'Espalhar-se', é como se pode dizer aqui, Beatriz, e é bonito mesmo.
- Los rascacielos altos hacen mucha sombra, pero es una sombra distinta a la de los árboles. A mí me gusta más la sombra de los árboles, porque tiene manchitas de sol y además se mueve. En la sombra de los rascacielos cunden las caras serias y la gente que pide limosna. En la sombra de los árboles cunden los pastitos y los bichitos de San Antonio.
- 'Esmola', Beatriz, aqui as pessoas também pedem esmola na sombra dos prédios... É, tem razão, eu também prefiro as árvores! – impossível não se encantar com essa menina.

Depois que eu terminei de comer, aguardei Beatriz. Entre uma história, uma reflexão linguística e do uso que as coisas no mundo ao redor possuíam, ela por fim almoçou quase tudo. Nosso ilustre casal ainda comia, em silêncio, observando todos. Beatriz, claro, percebeu que eu os observava, perguntou quem eram e eu disse que não sabia, oras. Se eu lhe explicasse, provavelmente ela diria ser loucura minha. Mas ela desconfiou e, mesmo assim, emendou uma conversa em seguida. Rascacielos, rascacielos, ela repetia como quem decorava a tabuada do sete, denunciando-se como quem ainda não aprendeu a esconder o leve corar do rosto por uma surpresa, ou quem não consegue transformar a necessidade de falar com palavras e mais palavras e mais palavras, incessantemente, em vez de fazer disso exclamações, exclamações de gestos, de sorriso, de olhar. Ou exclamações serenas de quem mastiga o almoço com calma, como Madiba.

*Beatriz está em Primavera con una esquina rota, de Mário Benedetti.

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