VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

ZOOM IN - ZOOM OUT

. . Por Fábio Accardo, com 0 comentários

REC. Como todo jantar que se preze, a refeição estava atrasada. Muitos eram os motivos. Melhores eram os vinhos. Acompanhavam diversas palavras. Não muito mais que pequenas frases. Diálogos que se findavam mui rapidamente. Costume desses tipos de encontros, onde velhos casais de amigos se visitam para uma comida e creem que a amizade e o papo levam a mesma dinamicidade de 30 anos atrás. Ainda que insistam, quando não se tem muito mais o que assuntar, comentam o passado, num rasgo de saudosismo de tempos compartilhados.

A luminária pendia do teto até próxima à mesa de jantar - de madeira maciça, talhada a mão -, iluminando os traços frutados de vinhos chilenos. Do balcão, que ligava a cozinha à sala de jantar, sugere o anfitrião que as moças escolham um dos discos da coleção de vinis. Das caixas inicia o som estéreo do ao vivo de Elis, Transversal do Tempo, compondo a trilha sonora daquela conversa, embevecidos pelo aroma delicioso do forno.

Entre queijos, azeites, vinhos e memórias, o paladar finalmente foi agradado, ao apreço de Fascinação. Nada muito elaborado. Entre Saudosa Maloca e Boto, a anfitriã, guiada por traços de ameixas, se levanta, caminha até o marido da amiga, tremula os braços em movimento circular, dobra o corpo, abaixa a cabeça, estica a mão e convida-o a uma bela valsa ao som de Cão sem Dono. Momento sublime e de constrangimento para o casal que ainda se encontrava na mesa. Olhares trocados. Convite feito.

Os dois casais a deslizarem pelos tacos da sala. Risadas ao ar. Noite calma. Ritmo temporariamente quebrado pelo som das diversas fitas, CDs e DVDs que no chão caem. Esbarrão dos primeiros dançarinos na pilha de vídeos. Cópias de diversos trabalhos do cinegrafista grisalho anfitrião. Nada que esmoreça o alvorecer dos instintos taninos daquela balada memorialista de tempos pesados.

...entretem-se na troca de casais e embarcam no sambinha de Querellas do Brasil. Sentimento nacionalista exacerbado. Algumas lágrimas controladas. Símbolo da memória corporal dos dias de liberdade arrancada. Como canção de anunciação, Cartomante surge.
Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
Filhos bem cuidados. Já moços. Alguns casados, outros na faculdade. Tranquilidade......nos dias de hoje.
Não ande nos bares, esqueça os amigos
Não pare nas praças, não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não ponha o dedo na nossa ferida
Analepse. Como se lhe trocassem o filme no projetor. Sai rolo realidade. Uma imagem recente lhe vem a cabeça. Mãos para cima, com dedo médio em riste. De cima do palco a visão era nítida. O público fazia igual e cantava em coro - foda-se vocês; foda-se suas leis (...). A batida sampleada comandando o ritmo. Rap. Sente o peso da câmera no ombro com a vibração do palco. Uma prisão ao final do espetáculo.




Chacoalhar de cabeça. Aperto no peito. Angústia. Sente-se logo aliviado. Nos passos embalados por Elis, dança. Sorrisos. Antes que pudesse esquecer a imagem anterior, dor. Sente a pisada. Aquela unha encravada. Câmera na mão, olhar vidrado naquele que falava. Prédio. Gente. Centro. Mais de cinco anos que ali vivem. Grava.


Realidade. De supetão.
Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai não fica nada
Suor. Tensão. Caído. Percebe, do chão, as três cabeças em sua direção. Preocupados o ajudam a levantar. A dor não é na unha. Dói o estômago. Registros. Muitas filmagens. Difícil digestão de uma vida atrás da câmera.

Em tempos de comissões, as verdades aparecem. Sua incapacidade de se envolver mais do que o registro. Trabalho. Era isso. Só isso. Agora, cantar e dançar. Trilha de uma época que abraçou causas. Tempos de fronte à mira. No foco da câmera. Crimes. Censura.
É só um pensamento, bote no orçamento
Nosso sofrimento, mortes e lamentos,
Forte esquecimento de gente em nosso tempo
Visto como lixo, soterrado nos desabamento
Em favela, disse marighella. elo
Contra porcos em castelo
O povo tem que cobrar com os parabelo
Porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo
E é vítima, agressão de farda é legítima.
Barracos no chão, enquanto chove.
Meus heróis também morreram de overdose,
De violência, sob coturnos de quem dita decência.
Homens de farda são maus, era do caos,
Frios como halls, engatilha e plau!
Carniceiros ganham prêmios,
Na terra onde bebês, respiram gás lacrimogênio.

...seus dois mais recentes trabalhos. Filmar. Gravar. Vinhos chilenos. STOP.



_desafio sugerido por Thiago Aoki, indigesto chinês.

domingo, 20 de maio de 2012

Quem/o que você quer ser quando crescer?

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário


Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo irmão.
Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca.
E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos.”

(O operário no mar, Carlos Drummond de Andrade)

Que espelho cruel é um homem sem a sorte que eu tive. Penso nas pessoas que não têm nada e me desprezo a seus olhos. Quase não tenho coragem de pensá-las no singular. Dói menos pensar na miséria do que em um único miserável. Minha melancolia gauche não suporta um indivíduo singular. Que fiz eu para merecer tão mais que ele?

Tento ser feliz por culpa. Olho para minha tristeza, para meus problemas: problemas pequenos de um coração pequeno. Minha tentativa é matá-los de vergonha, por serem fúteis, por não serem nada: que são os meus problemas perto dos problemas de um desafortunado? Eu tive sorte. Fico feliz por um instante. Não seria justo ser triste. O mínimo que devo ao miserável é ser feliz. Será que ele se imagina em meu lugar? Serei eu um espelho menos cruel? Se a felicidade não está em mim... Com meu salário ele seria feliz? Quantos espelhos quebraria? Será que me olharia nos olhos? Não, pensar que no meu lugar ele seria fraco como eu não me redime.

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos”
(O sentimento do mundo, Carlos Drummond de Andrade)

Não sou livre. Vejo as pessoas e vejo seus problemas. Vejo milhões de pedras no meio do caminho. Não pego nenhuma. Tenho medo da avalanche? Não. Elogio a avalanche. Mas não movo uma pedra. A metáfora é fraca. As palavras são fracas. Não são pedras, são pessoas. O mundo não tem problemas. Tem pessoas com problemas. Que são problemas sem pessoas? Pedra sou eu, que as vejo e não faço nada. Que poderia fazer eu com sonhos burgueses em frente ao espelho? Em frente ao operário?

Sim, meu coração é muito pequeno. Só agora vejo que nele não cabem os homens.”
(Mundo grande, Carlos Drummond de Andrade)

Quero ajudar o próximo, mas faço contas. Meu coração empresa não admite o prejuízo.

Quem eu quero ser quando crescer? Penso que quero uma casa, um emprego, um carro; que não quero problemas, quanto mais os do outro; penso que quero sossego. Mas não sei se é verdade. Que faria eu com o sentimento do mundo e sonhos tão burgueses? Mais escravos? Problemas pequenos de um coração pequeno. Sossegar um coração pequeno pode ser fatal.

Leio em Antônio Cândido que a ideia de escravo em Drummond é a de um homem privado dos meios de humanizar-se. Pode um burguês humanizar-se? Posso eu?

Quero ser livre de escravos. Quero libertar-me, mas poesia não me basta; o lirismo não me redime mais que a cerveja; e viver bêbado tampouco me liberta. É tudo anestesia, coragem artificial, fuga momentânea da coerência para poder olhar um irmão nos olhos.

Me libertará o amor? O amor me inspira e me dá coragem, mas começo a achar que só existe amor verdadeiro onde existem problemas, ou melhor, que só percebo o amor quando percebo os problemas dos outros. Acho que o eu quero mesmo é poder olhar nos olhos.

Nada de anormal no espelho, se aquele era mesmo eu”. (
O opositor, Luís Fernando Veríssimo)

Levanto o rosto e me procuro no operário, no cortador de cana, no menino de rua, no cobrador de ônibus, no alcoólatra, no mendigo. Enxergo apenas meu vulto, uma imagem de mim que ainda não se encontrou com suas próprias ações. Que espelho cruel que é alguém sem a sorte que eu tive: se nele não me vejo, que sou eu? Eu quero me humanizar.

De que me vale a coerência dos que trocam de espelhos? Eu quero é poder olhar o homem nos olhos. Qualquer homem. Quero problemas que não sejam meus. Mas meu coração ainda faz contas. E eu tenho medo.


*Texto-desafio proposto por Thiago.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Os Saltimbancos*

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Estava em um bar, sozinho, e sozinho o balcão é sempre mais confortável do que a mesa. Isso porque na mesa, as cadeiras vazias, a cada minuto que não são preenchidas, aumentam nosso desconforto com a solidão. Já no balcão, o inverso acontece, pois a qualquer momento alguém pode sentar do nosso lado, mesmo que não troque uma palavra. E se mesmo assim ninguém aparecer, temos o garçom que sempre é um ombro em potencial para uma cabeça que há tempos não é afagada. Optar entre mesa e balcão, em menor escala, é o mesmo que optar entre o privado e o público. E quem vai sozinho a um bar, ainda que normalmente possua os motivos mais privados para estar ali, sempre acaba preferindo o ambiente mais público para se aportar.

Escolhi whisky com algumas pedras de gelo. Além de refrescar o calor, a luz baixa do bar batendo no gelo criava uma imagem que, conforme o álcool subia pra minha cabeça, ia ficando mais surreal. Num momento de devaneios, pensei que, se as ciganas vissem aquilo, não escolheriam mais a borra de café para fazer suas previsões, trocariam por um belo whisky em um bar à meia luz.

Já tinha tomado alguns copos - alguns não, muitos – quando olhei para trás e reparei no ambiente. Deve ter sido a bebida, mas senti-me como em um metrô, tentando descobrir o destino e as histórias dos passageiros.

Vi dois casais de namorados que, em duplas, disputavam sem seriedade uma partida de sinuca, e a cada rodada que se entreolhavam, deixavam escapar um pouco de pecado no olhar trocado.

Vi duas amigas sentadas em uma mesa, olhando para uma mesa com dois amigos.

Vi uma mulher discutindo nervosa com seu par. Acusava-o de olhar para a bunda da mulata que rumava o banheiro. Pudera, bela bunda era.

Vi então três moças dançando sozinhas, enlouquecidamente felizes. Eram as únicas na pista de dança improvisada entre as mesas. O som foi diminuindo e, mal chegado o silêncio, uma delas correu até o antigo jukebox que ditava o som ambiente. Tirou do bolso da calça uma ficha, colocou-a na máquina, apertou alguns botões e voltou sorrindo, enquanto as outras amigas aguardavam com curiosidade para descobrir qual a música que começaria.

Para surpresa das três e de alguns que, como eu, assistiam à cena, uma voz feminina terna em ritmo cadenciado começou

“Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram”

- Nooooossaaa, aquela música que a vó colocava pra gente quando a gente era pequena? – uma das garotas reconhecera.

-Puta que pariu, de onde você desenterrou isso, menina?! – a outra também lembrara.

Deviam ser primas ou irmãs e, pela minha idade, eu podia ser o avô. A terceira moça, aquela que escolheu a música, não respondeu, apenas pegou a garrafa de cerveja vazia e usou de microfone, passando por todas as mesas, a essa altura sem a mínima vergonha, dançando e cantando sensualmente engraçada, abusando de seu vestido vermelho, feito musa de cabaré

“O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé...de gato
Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim”

No estado latente de minha embriaguez, acabei não resistindo. Destrambelhado, derrubando whisky por toda minha camisa, levantei do balcão com meu copo na mão, fui até elas e, como se fôssemos íntimos, cantamos juntos, berramos juntos, brindando o refrão

“Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás”

Sabia que ali, a canção tinha significados diferente. Para elas, uma retomada da recente ingenuidade perdida, extrapolada no refrão. Um símbolo de algo que tinham em comum, de um resquício familiar. Para mim, a lembrança de uma longínqua juventude em um país politicamente sombrio, uma época em que eu, um futuro advogado caro de São Paulo, quem diria, desafiei a ordem.

Não importava, ali estávamos juntos, bêbados, abraçados, berrando o refrão de uma música. Não importava se seríamos barrados na portaria de nossas casas, sem filé ou almofada por conta da louca serenata. Não importava. Naquele momento, naquele exato momento, estávamos livres.

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* "Os Saltimbancos" foi o tema gentilmente sugerido pelo indigesto Caio Moretto

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A marca de batom

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários


Eram quase sete, porque o ônibus estava marcado para sair às sete e dez daquela manhã de segunda-feira após um feriado qualquer, então o motorista deve ter chegado pouco mais de dez minutos antes para pegar todos, inclusive aquela marca de batom estorvo que aparecia no meio de todos, empilhar as malas e ainda coser uns instantes antes de partir. Talvez tivesse passado um dia santo, uma comemoração importante da nação, mas seguramente não passara o Carnaval, o que tornava tudo muito estranho, mais ainda aquela marca de batom, que após uma quarta de cinza teria razão. O Carnaval estava próximo, sim, então não fazia sentido estar frio como estava. O frio também impedia, como era óbvio, que as roupas fossem tão coloridas, já que não era Carnaval, é preciso insistir, numa manhã de segunda-feira fria, porque se as manhãs são de segunda-feria, são cinzentas, mesmo que não sejam as cinzas de uma quarta que anuncia o fim do Carnaval, que ainda não havia chegado, oras. Era uma segunda fria por dentro e por fora, e se de frio, também não deveriam ter tantas cores, ou no máximo três ou quatro que vão do cinza ao negro nas roupas de frio. O dia era muito claro, com luz intensa ainda tão cedo, e frio, não ventava, mas era claro e frio, era impossível para aquela cidade que está num buraco no meio do mapa. Era verão, só que fazia frio, sem vento e com muita luz, impossível. Tamanha confusão assim não ia embora enquanto não batesse sete e dez e o ar condicionado estivesse ligado para as quatro horas seguintes pela rodovia, e também enquanto aquela marca de batom vermelho não desaparecesse da vista.


Apesar de já pensar no frio incômodo que então proviria do ar engarrafado que passaria a circular com o movimento sonolento do ônibus, sempre encontro alívio quando lembro que as poltronas dos ônibus de viagem, por enquanto, não se inspiram naquelas dos vagões de metrô ou de ônibus circular, com suas poltronas viradas, de lado, ou que nos deixam de costas para o sentido que segue a viagem. Tranquilo por deixar aquela marca fora de lugar longe dos olhos, me atormentava imaginar aquela viagem de costas, pois em poucos instantes nessa posição fico enjoado. Janelas, corpos, tudo ao redor começa a flutuar como se eu estivesse numa piscina de perfume muito adocicado. Talvez esse fosse um mal, não um mal qualquer, mas um mal do qual muitos sofremos, o mal de paralaxe. De costas para o sentido da viagem, é como se tudo nos corresse, tudo nos fugisse, nos deixasse, nos abandonasse. De frente, o mundo vem ao nosso encontro. Sentado onde estamos, a paisagem e o movimento nos procuram, nós somente esperamos, intransitivamente, é mais cômodo. É o mal de paralaxe egocentrado, dirão os cientistas. Cuidado, não se identifique, ou você será aprisionado num esquema qualquer – o que é mais assustador ainda – no qual estará encerrado, sem razão para estar como quiser ou puder, você sobretudo será algo definido, pronto, acabado, resumido, e um eufemismo lhe restará, com um gênio irônico cujo santo não bate pelo mundo afora.


Droga, aquela marca no rosto que estorvava tudo enquanto o ônibus não chegava, droga, estava agora ao meu lado, tinha rosto, corpo, se protegera da luz com a cortina cinzenta da janela à esquerda, mas estava ao meu lado, droga, eu tinha que dividir o braço da poltrona com ela, droga. Trocar de poltrona, caramba, era só trocar de poltrona. Inclusive, na poltrona de trás e logo à direita, colada no corredor, estava aquele homem, como era mesmo o nome dele? Ficara famoso há anos, não famoso, famoso, mas reconhecido por tanta gente, foi parar na tevê, no programa de domingo, era pai daquele menino que estudou com minha irmã. Como era mesmo o nome do menino? Eu poderia dizer-lhe que me lembrava dele, que ele era mesmo muito corajoso por fazer tudo que fez, mas o que foi mesmo que ele fez? Sim, ficara minutos, muitos minutos debaixo d'água, sem respirar, quebrara algum recorde importante. Ou teria sido no gelo, ele teria ficado numa câmara resfriada muitos graus abaixo de zero, apenas com uma roupa de baixo, durante horas? Não, talvez ele tivesse ficado muito tempo debaixo de água muito muito gelada, e também sem respirar, ultrapassando os limites... os limites... do corpo e da mente, da mente sobre o corpo. Era um ícone, tinha os olhos assustados e parecia muito concentrado nas músicas que alimentavam seu fone de ouvido. Ele bem poderia ser o narrador dessa história também, um narrador em terceira pessoa que não me entregasse, como agora, na primeira do singular. Sendo ele o narrador, eu me livraria de um possível interrogatório com os porquês e os pra quês da história, da escrita, do sentido, da construção, da discussão. Porém, do lugar dele não era possível sequer ter uma vaga noção da marca despropositada no rosto da moça ao meu lado. Aquela marca de batom estava na face para o lado da janela, só mesmo quem estivesse onde eu estava podia perceber. Se ao menos o Google Street View, além de possibilitar saber o tráfego nos quilômetros seguintes, fosse capaz de dar a visão que eu tinha sentado ao lado da moça, ao mesmo tempo que deslocado para a poltrona do homem que foi para o livro dos recordes. A tecnologia não me ajudava, então eu poderia fingir ser o homem dos recordes e contar essa história. Pronto, sendo o homem dos recordes sentado na poltrona logo atrás, já sabendo da marca de batom vermelho da moça que estava ao meu lado, a história poderia enfim transcorrer e o fado por um texto como este, que não se desanuvia, estaria abandonado. Não, se o homem dos recordes decidisse ir embora, descendo antes do destino final do ônibus? A história não terminaria, seria roubada por uma decisão mesquinha do homem dos recordes, não.


A marca de batom vermelho não era grande como se não fosse possível não percebê-la, nem pequena o suficiente para somente reparar quem perscrutasse a moça com o olhar. O vermelho da marca é que era vermelho demais, não como o vermelho do rubor de uma criança flagrada cometendo um pequeno delito, mas vermelho como são as luzes fluorescentes de uma sinalização na estrada noturna, um vermelho que não cabia em vermelho. Talvez fosse o caso de dizer que era um vermelho Almodóvar, mas isso seria um clichê, ainda que o fosse aquele vermelho, clichê e Almodóvar. A moça chegara antes de mim na poltrona e, embebida de sono, imagino, logo se ajeitara, quando cheguei apenas encontrei novamente a marca de batom, que agora tinha o rosto dela, enquanto ela já parecia dormir. Em alguns minutos, e já na rodovia, eu sabia os movimentos que ela faria nas próximas horas, dada a repetição, reservando-se a apertar os braços estendidos contra o corpo, ou mesmo empurrando com uma das mãos a blusa de lã que levava aberta sobre a camiseta roxa justa por baixo. Os pés se mantiveram sobre o encosto para as pernas, e estas também ficaram esticadas pelo jeans. Os pés eram feios, a sandália também, mas não eram os pés feios pelo formato, eram feios pela sandália velha e feia, e pelo pouco cuidado que aparentavam da moça com seus próprios pés, rachados, muito mais velhos que o rosto que dormia. A moça era pequena, franzina não de fraqueza, apenas de pequenina. Os cabelos é que pareciam muito longos, longos demais para uma moça pequena, produzindo uma espécie de descompasso entre o caminhar de uma moça pequena com o cabelo tão comprido, eu imaginava. Descompasso nada comparado ao da marca de batom em seu rosto.


Quem seria capaz de usar um batom como aquele em plena manhã de uma segunda-feira fria e, além do mais, beijar com tamanho entusiasmo o rosto de uma moça pequena e de cabelos tão compridos? Tenha bons modos ao imaginar uma resposta, leitor. Apesar do sono que a moça aparentava, ela não saíra de uma festa na madrugada que se encerrou pouco antes, seguramente, tampouco teve como companhia alguém de extravagância pouco preocupada com a moralidade vigente para que se imaginasse qualquer despudor.


Nas minhas mãos, Orlando ficou esquecido, e na rodovia que conheço tão intimamente, já que vai para quase duas décadas a nossa relação constante, não encontrei a árvore arregalada e enorme à direita do asfalto depois da quinta cidade e do lago intimidado pelo canavial. A moça apertava os braços contra o corpo e empurrava com uma das mãos a blusa de lã em direção a cintura enquanto dormia. Sequer fui capaz de ser levado a meados do século XIX pelo casarão branco de uma antiga fazenda de café, encrustado num morro à esquerda, mais ou menos próximo da penúltima cidade antes do fim da viagem. Entre palmeiras que não são da região, mas que caem bem ao cenário extemporâneo, às cercas baixas e ao portão enferrujado, a fazenda e sua sede se perdem a seguir diante das indústrias, favelas e pobreza igualmente desenvolvidas na região mais progressista do país. Não dormi, não conseguia ler, a marca de batom da moça me incomodava sobremaneira. Mas também sempre tive muita dificuldade para dormir em viagens, somente consigo sacolejar com o balanço, com o movimento do veículo, não avanço o estado de vigília. É como se estivesse o tempo todo acordado, vivendo em um corpo grande demais para mim, vagueando e esbarrando em quinas e cantos imaginariamente absurdos, assistindo ao mundo que passa, de maneira desinteressada para mim, que não reconheço meu corpo e sorrio de desdém diante de um reflexo que me identifique. A moça seguia apertando os braços estendidos contra o peito e com uma das mãos puxava a blusa de lã para baixo. Tentei lhe imaginar, sem sucesso, como aquela menina que quase corria empurrando sua bicicleta num fim de tarde, quem sabe feliz pela chegada de uma noite bonita, quem sabe pela expectativa de uma viagem tão esperada que logo se realizaria, mas que de todo modo trazia nos olhos, em pequenos gestos e em cada linha do rosto, um sorriso discreto. O rosto com aquela marca de batom, não.


Como podia aquela marca? As mãos pequenas dela ainda denunciavam, ao lado dos cabelos longos, ela pouco se importava com cremes hidratantes, unhas coloridas, cutículas ou lixas. Louvável. Sim, era isso, ela só poderia mesmo ser muito religiosa, de uma ordem demasiado fechada, rigorosa, controladora, moralista, repressora de algo que beirasse a exibição pública de sensualidade. Provavelmente, era de uma daquelas igrejas em que se é obrigado a pagar todo mês para crer e ter fé em Deus. Não, mas a blusinha roxa por debaixo da de lã era justa, em v, ela continuava contraindo os braços contra o corpo, levando a lã do casaco fino em direção ao colo. No sono, conforme ela se contraia, os seios cresciam de maneira imprópria para qualquer igreja, imagino. Não eram largos, nem proporcionais ao tamanho dela, tão pequena, mas ela, numa ordem religiosa dessas, não poderia usar uma blusa assim, que desse aquele movimento aos seios. Sim, ela era de uma ordem dessas, de uma religião em que o corpo dela não existia senão para a reprodução, em que sua exposição ou toque estava reservado a sociedade dos homens, para o marido, obviamente. 

Ao acordar, ela era quase como dormia, mas cobriu completamente o peito escondendo a blusa roxa, enfim, ficou contraída por inteiro. O quadril pouco mais largo que o corpo delgado dela, enterrara-se ao fundo da poltrona, quando antes estava entregue ao conforto despreocupadamente. Os braços cruzavam a cintura, ela talvez tivesse mesmo muito frio, e os olhos, semi franzidos, denunciavam a seriedade, ou apenas o contragosto de um sono atrapalhado no fim da viagem. Do rosto pouco consegui ver enquanto ela estava sentada ao meu lado, já acordada, mas enquanto dormia, levava os traços abertos, redondos, suaves. Os olhos, no entanto, entre o verde e o castanho claro, não foram capazes de me encarar enquanto lhe tentava puxar assunto, para dizer, como com surpresa minha, que havia uma marca de batom no rosto dela. Coisas banais como o tempo claro lá fora e a viagem tranquila e rápida não a fizeram movimentar o pescoço, apenas assentir com os olhos e manter-se em sua posição. Talvez fosse mau humor, talvez não, talvez eu a tivesse assustado enquanto a observava, mas ela dormia. E se me sentia uma espécie decadente de galanteador parecendo, na verdade, um sujeito estranho e babaca, o terror a assaltou quando, já com o ônibus muito próximo da plataforma de desembarque, com a ponta dos dedos toquei  o braço dela colado ao corpo lhe dizendo que havia uma marca de batom em seu rosto. Pela última vez ela comprimiu os braços, levando uma das mãos à face para limpar impetuosamente a marca, os seios não existiram nesse momento. Não sem algum sarcasmo, lhe disse para ter calma, que estava bonito assim. Ela parou, franziu ainda mais as sobrancelhas, e só me encarou quando eu, já de pé, resgatando a mochila acima para sair, me virei para o fundo do ônibus. Ela em seguida desviou o olhar.


Já na plataforma, eu era acometido não pelo arrependimento de ter gastado aquelas quatro horas em absolutamente nada, ou pela aversão ao ser que eu a mim me apresentava, com todos aqueles pensamentos. Me amedrontava imaginar rever aquela pequenina criatura só não feia enquanto dormia, ou enquanto a imaginação alheia lhe procurava alguma beleza. Quando agarrei minha outra mochila no maleiro debaixo do ônibus, senti que me olhavam, só poderia ser ela. Era. Por fim, encontrava o século XIX, os cabelos lhe tocavam uma das mãos nos braços que se mantinham comprimidos ao longo do corpo. Só que os olhos então transmitiam uma absurda clareza, e não fugiram novamente ao me encontrar, a testa não se fechou, pelo contrário, os lábios deixaram um ao outro lentamente para abrir um sorriso faceiro, gostoso. Ela já não tinha a marca de batom vermelho.









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