VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A caçada de Schrödinger

. . Por Caio Moretto, com 4 comentários

para Thiago Aoki
A realidade não precisa de explicação. Ela é. Mark Twain escreveu que a única diferença entre a realidade e a ficção, é que a ficção precisa ser crível. Não se deixe iludir, se essa história parece absurda é porque não foi necessário inventar seus nexos: ela simplesmente aconteceu. Assim como a simetria costuma denunciar a ficção, a falta de sentido deste causo é a maior prova de sua realidade.
Estávamos no sítio do meu avô. Não sei onde ficava. Chamava apenas de “sítio” e me bastava. Eu tinha doze anos, meu avô pouco mais. Os números, principalmente das idades, não faziam muito diferença naquela época. Pensar no futuro era imaginar como eu seria no ano 2000, não como um adulto que projeta seus passos, mas como uma criança que inventa sua própria personagem. A morte, da mesma forma, era uma imaginação distante, que não provocava mais angústia do que a lição de matemática. Nesse dia, porém, eu senti medo.
Vô Bauer se irritou com minha mãe por causa do meu minigame. Como eu já havia fechado os dois jogos que tínhamos não me importei muito quando o meu avô jogou o aparelho no chão, mas fiquei um pouco apreensivo quando ele me pegou pelo braço e me levou para a floresta. “Filho,” – mesmo aos netos, ele sempre chamava assim – “hoje você vai aprender a caçar”.
Vovô me deu um revólver. Hoje sei que era um 38 e tenho minhas dúvidas se servia para caçar, mas na hora eu não pensei nada disso. Como ele pegou uma espingarda, imaginei apenas que minha arma era para crianças e a dele, maior, era dos adultos. Ele já estava bem mais calmo e me ensinou a atirar com bastante paciência. Segurou meus braços para que eu não me machucasse com o recuo da arma e me disse como deveria mirar e esperar a hora certa para atirar. Matamos duas codornas.
Sem balas, meu vô falou para voltarmos. Assim que fizemos meia volta vimos uma pantera. Estava abaixada e nos encarava. “Erwin, estatua e vaca amarela, agora. Quantas balas você tem?”. Eu tinha uma. Achei que vovô ia me pedir a arma, mas não foi isso que ele fez. “Você está vendo as duas?”. Só então reparei na mãe do bicho, em um galho acima de nossas cabeças, com o dobro do tamanho da outra que já me assustava. Lentamente ele tirou uma faca de sua bota e me disse: “eu vou atacar a mãe com a faca, você atira na filha e corre para casa”. “Não, vô, me dá a faca”, respondi. Eu não sei porque meu vô obedeceu, mas acho que na próxima frase você também já não se importará com esse detalhe. Com a mão esquerda, segurei a faca em frente à arma, com o corte virado para mim. Usando-a como mira, apontei entre as duas feras e apertei o gatilho. A bala atingiu a faca e se dividiu em duas: metade acertou o pescoço da mãe, metade o peito da filha. Nós corremos para casa e nunca soubemos se elas sobreviveram ou não. Na correria perdi a faca, mas nunca esqueci essa história.
O leitor pode pensar que se trata de causo de pescador. Não se deixe enganar. Como num poema de Manuel de Barros, asseguro que apenas dez por cento é mentira. E todas as mentiras contadas aqui são cem por cento reais. Só que a história não é minha. Erwin Schrödinger foi um físico austríaco, que viveu até 1961 e nunca teve um gameboy. Essa história é a adaptação de uma de suas memórias, que nunca foi escrita por falta de alguém que a inventasse. Você pode não acreditar, mas eu sou o melhor ghost writer do mundo. “Digo e garanto. Só não assino embaixo.” É meu slogan. Olhe meu cartão de visitas contra a luz qualquer dia. O Budapeste do Chico Buarque, por exemplo, pode ser meu. Ele só não desmente a falsa autoria por que tem senso de humor. Quando o homem atinge o auge da fama, o humor é tudo que lhe resta. Depois do reconhecimento consensual em sua área de atuação, só o senso de humor pode transformar o homem em lenda. Uma carta daqui a 50 anos revelará se o livro é meu ou do Chico e pelo menos um de nós vai dar muita risada. Até lá, o texto é meu e não é.
Erwin_sig2
.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Opinião Pública e Democracia Privada

. . Por Thiago Aoki, com 7 comentários

Fico pensando como seremos conhecidos daqui a 100 anos. Com a proliferação de dispositivos - tablets, redes sociais, gadgets, aplicativos - que se disseminam feito praga, a era da informação está em xeque. Digo isso pois havia um mito quase iluminista, profetizado nas escolas e na mídia, de que estaríamos em uma época onde quem tivesse acesso à informação estaria fadado a uma vida de sucesso. Hoje, com essa complexa rede de informações que se forma, e que inclusive tem ajudado a formar uma relação mais crítica com a própria mídia “oficial”, é possível perceber que divergências sobre fatos são mais do que aceitáveis e que as informações são construídas socialmente. Talvez o que vivemos seja a era da opinião.

Infelizmente, ao contrário do que um ingênuo web-entusiasta pode argumentar, isso não significa que caminhamos para um mundo de tolerância às culturas e saberes. Ou que estejamos a criar fontes saudáveis de debates e redenções intelectuais. Ou muito menos que caminhamos para uma mídia alternativa, desligada do poderio econômico. O que se vê são indivíduos ávidos por formarem opiniões sobre algum tema polêmico (ou falsamente polêmico) e fazer delas um espetáculo particular – ou, como prefere o facebook, compartilhá-las. Contemplar e ser contemplado.

Por um lado, mesmo que haja um questionamento sobre a relevância temática dos “trending topics”, é positivo que todos estejam em busca de formar sua opinião sobre os “temas do momento”, inclusive sendo obrigado a ler opiniões contrárias em seu “timeline” ou “feed de notícias”. Mas por outro temos aqui um poderoso mecanismo de manutenção da democracia meramente representativa.

Ao cravarmos nossa opinião sobre a polícia na USP, sobre a moça que matou o cachorro, sobre o estupro no big brother, sobre o massacre de Pinheirinho, sobre as fraudes do ENEM, sobre a construção de belo monte, criamos uma falsa ideia de que neste momento fazemos um papel de cidadão ou até de ativismo, quando na verdade, apenas expomos opiniões para nossos amigos, torcendo por compartilhamentos, comentários e cliques no botão curtir. É a reprodução de uma passividade vista nas sociedades que se dizem democráticas, mas onde o limite de nossa ação política é a possibilidade de nos posicionarmos sobre um tema sem sermos presos. É a possibilidade de fazermos parte de uma parte, vitoriosa ou não, da opinião pública – como se essa fosse capaz de, por si só, transformar algo.

E lá estamos, a apoiar “causes” e mais “causes”. É justamente quando me pergunto o que de fato fizeram por Pinheirinho os 3.528 que curtiram o “Somos todos Pinheirinho”. Ou em qual movimento de defesa dos animais militam todos os que colocaram a hashtag #CamilaDeMouraPresa.

Assim, consolida-se uma visão cada vez mais hegemônica segundo a qual participar de um movimento ou partido político é um descrédito. E ganha cada vez mais corpo aquele intelectual cujo único propósito coletivo é participar de um grupo de estudos, e escrever artigos influentes. Ou aquele que sabe tudo sobre tudo, mas virtualmente, sem relações orgânicas ou lutas por um ideal.

E aí, nós que criticamos as crianças de hoje por trocar a rua pelos video-games reproduzimos a mesma relação, em uma rede contemplativa onde sobram opiniões e faltam experiências.

Claro, algo já brotou daí pro mundo: um churrascão, um Sakamoto, um Malvados, um Wikileaks, um Anonymous e, há quem diga, até uma primavera árabe. E claro, também, que este Blog e sua disseminação inserem-se nessa rede. Mas cabe perguntar o que, em nossa vida a cada dia mais virtual, reflete-se em nossas práticas e em nossas lutas do dia a dia. O que, afinal, não se dissolve na roda viva onde a contemplação e o espetáculo são vias de mão dupla de uma mesma rua, a inércia.

A violência das Leis

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

“As notícias de Pinheirinho são de revirar o estômago”

– Hugo Ciavatta

“Porque a legalidade nem sempre está ao lado da moralidade”

-Thaís Soares

Separar filhos dos pais e ameaçar a perda da guarda por causa da falta de moradia (que o próprio governo acabou de tirar); usar ação policial violenta dentro dos alojamentos criados pela própria prefeitura como solução emergencial à desocupação; usar farda sem identificação para atos de violência; não permitir o registro e sequer a entrada da imprensa no local; dizer que está tudo sendo feito para cumprir a lei e que não houve confronto quando há vídeos que provam o contrário. Que democracia é essa?

Relatos e imagens da ação policial no Pinheirinho.

A Polícia Militar já provou que o Selo Pinochet de Direitos Humanos foi um prêmio merecido. A Folha de S. Paulo publicou esta semana que um em cada cinco mortos em São Paulo é vítima da PM. E todo mundo já percebeu que, mesmo assim, a receita de Kassab para governar a capital paulista é colocar o maior número possível de militares no comando das subprefeituras. Isso tudo sem falar da mal planejada e violenta ação na cracolândia.

Mas este não é mais um texto sobre a injustificável violência das recentes ações policiais. Quero falar de uma outra forma de violência menos comentada (como já escrevi em outro post, é dificil falar de outra coisa quando a barbárie arromba a porta) que se evidenciou na tentativa alckimista de se isentar da responsabilidade sobre a ação violenta no Pinheirinho, passando a bola para o judiciário e para a inevitabilidade do cumprimento da lei. Cortando as palavras difíceis, Alckmin diz que não havia o que ele pudesse fazer, pois era preciso cumprir a lei e que abusos serão investigados. Como se a brutalidade de nossa polícia não bastasse, o governador nos alerta, assim, sobre a violência impessoal de nossas leis.

Boechat sobre a desocupação da Favela do Pinheirinho.

As comparações de Alckmin com Hitler se multiplicaram na internet, obedecendo a lei de Godwin. Apesar do uso exagerado desse recurso, acho importante que a comparação esteja sempre à mente. O nazismo foi talvez o pior episódio de nossa história e devemos organizar todos nossos esforços enquanto sociólogos e enquanto seres humanos para impedir que ele se repita. A referência, porém, está desgastada. Assim, associamos rapidamente a comparação nazista à violência policial, mas não paramos para pensar nas outras formas de opressão que caracterizam um regime ditatorial. Por isso, apesar de toda análise carregar direta ou indiretamente uma proposta de transformação, acho que é interessante, em alguns momentos, tentar separar os métodos de militâncias, que valorizam mais a caricatura, dos métodos de estudo, que valorizam mais a análise.

Leo Strauss chamou de reductio ad Hitlerum a manobra de tentar invalidar um argumento dizendo que o mesmo era utilizado por Hitler. Nas palavras do sociólogo “é preciso evitar a falácia que nas últimas décadas tem sido frequentemente utilizada em substituição ao reductio ad absurdum: o reductio ad Hitlerum. Uma opinião não é refutada pelo fato de ocorrer que ela tenha sido compartilhada por Hitler”.

Não gosto de citar Marx, por motivo semelhante: não gosto de dividir o público por seus preconceitos acadêmicos. Sempre que Marx é citado, corre-se o risco de perder o interesse ou o foco leitor, que se distrai com discussões sobre a validade ou não do marxismo e a tentativa de rotular o escritor de marxista ou não-marxista, como se esses fossem os dois únicos carimbos que possuísse. Enfim, Marx rouba a atenção da discussão que se propunha originalmente – no nosso caso, a crítica ao argumento legalista na defesa da reintegração de posse no Pinheirinho. Por isso, antes de fazer a próxima citação, peço que todos nos empenhemos em evitar um possível reductio ad Marxium. Se mesmo assim o leitor não conseguir ler a citação com alguma dose de imparcialidade, substitua-a por algum trecho da mais anarquista e antropológica Origem da desigualdade entre os homens, de Rousseau, ou procure outro pensador. O argumento que quero mostrar aqui não é exclusivo nem original de Marx e não quero abordar as propostas de ação por ele propostas. Portanto, não precisamos ser marxistas (seja lá o que isso signifique hoje) para concordar com a ideia de que a lei não é neutra e não garante a igualdade entre os homens. A citação do 18 Brumário de Luís Bonaparte, contudo, traz sutilezas interessantes e é a única à qual minha pouca erudição foi capaz de recorrer neste momento.

O inevitável estado-maior das liberdades de 1848, a liberdade pessoal, as liberdades de imprensa, de palavra, de associação de reunião, de educação, de religião etc., receberam um uniforme constitucional que as fez invulneráveis. Com efeito, cada um dessas liberdades é proclamada como direito absoluto do cidadão francês, mas sempre acompanhada da restrição à margem, no sentido de que é ilimitada desde que não esteja limitada pelos “direitos iguais dos outros e pela segurança pública” ou por “leis destinadas a restabelecer precisamente essa harmonia das liberdades individuais entre si e com a segurança pública. (...) A Constituição, por conseguinte, refere-se constantemente a futuras leis orgânicas que deverão pôr em prática aquelas restrições e regular o gozo dessas liberdades irrestritas de maneira que não colidam nem entre si nem com a segurança pública. E mais tarde essas leis orgânicas foram promulgadas pelos amigos da ordem e todas aquelas liberdades foram regulamentadas de tal maneira que a burguesia no gozo delas, se encontra livre de interferência por parte dos direitos das outras classes. (...) Como resultado, ambos os lados invocam devidamente, e com pleno direito, a Constituição: os amigos da ordem, que ab-rogam todas essas liberdades, e os democratas, que as reivindicam. Pois cada parágrafo da Constituição encerra sua própria antítese, sua própria Câmara Alta e Câmara Baixa, isto é, liberdade na frase geral, ab-rogação da liberdade na nota à margem. Assim, desde que o nome da liberdade seja respeitado e impedida apenas sua realização efetiva – de acordo com a lei, naturalmente – a existência constitucional da liberdade permanece intacta, inviolada, por mais mortais que sejam os golpes assestados contra sua existência na vida real.

A estratégia de buscar na necessidade do cumprimento das leis a justificativa e a isenção moral para a brusca retirada dos moradores do Pinheirinho de suas casas é colocada em xeque com a simples pergunta: “e o direito à moradia?”. O argumento foi resumido criativamente com as seguintes palavras de ordem: “quando morar é um privilégio, ocupar é um direito”. Eis o centro da questão. Há direitos que valem mais do que outros. Por que o governo não se vale do mesmo empenho utilizado na retirada das famílias para garantir a moradia digna àqueles que acusa de invasores e ocupantes? Os dois lados poderiam, como vimos no trecho citado, invocar a Constituição com pleno direito. Os retirados já não o fazem, pois sabem na prática que a lei não é neutra. O direito de moradia é liberdade genérica e não vale nada.

Cumprir a lei e investigar os abusos seria uma resposta bastante satisfatória numa situação ideal. Numa situação de desigualdade garantida por lei, ela é inaceitável. Como disse Boechat, “a lei está errada!”. A lei não é aqui senão o próprio abuso, a solidificação das desigualdades. A violência do Estado é manifesta em suas leis tanto quanto em suas ações violentas.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Mal de Van Gogh

. . Por Hugo Ciavatta, com 3 comentários

"Todo destino, por longo e complicado que seja, compreende na realidade um único momento: aquele em que o homem descobre, de uma vez por todas, quem é" (Borges, em "Biografia de Tadeo Isidoro Cruz", El Aleph)

Nunca, sem desmedida, havia me sentido daquela forma. Quando criança, o mais próximo que passava por uma situação assim era quando meus pais me levavam para hospitais, médicos, exames, clínicas, e lá estavam outras tantas pessoas esquisitas. Mesmo assim, era mais do que comum, sem perder a curiosidade, ver as mesmas esquisitices alheias: desejos por formas e novas caras, bocas, curvas, ou a ausência delas. Gente nova, velha, criança, homem, mulher, não importava, era uma esquisitice normal pra mim. Hoje, vejo aquilo como um encontro inusitado de estatísticas na sala de espera, pelo menos ali, naqueles espaços e naquela época, certa cumplicidade era compartilhada silenciosamente, mesmo que entre nós não existisse a mesma condição, já que alguns haviam escolhido estar ali, outros nem tanto, talvez alguém mais próximo tivesse escolhido por eles. O sentimento confuso, no entanto, me acometia depois dessas salas de espera, quando ouvia as mesmas perguntas, "tá ouvindo? tá sentindo? e agora?", e os mesmos pedidos, "vire a cabeça; dobre o pescoço; tente movimentar do mesmo jeito, só que agora do outro lado". Enfim, cresci e pode até ser divertido fazer e ouvir isso tudo de novo.

Ah, devo lembrar, claro, aquela vez em que caminhando pela rua, já na faculdade, fui parar no hospital. A surpresa até hoje é um mistério, porque eu estava andando até o aniversário de um amigo quando um inseto - dragão, duende, jacaré, leão, dinossauro, nunca vou saber - mordeu, picou minha perna. Doeu muito na hora, pulei, me virei e não vi nada. A marca logo atrás e abaixo do joelho foi crescendo, crescendo, até que no final da tarde eu já não conseguisse colocar o pé no chão. No corredor do pronto (sic) atendimento, enquanto eu era transferido de sala de espera em sala de espera, e depois de passar pela vagarosa sala de recepção, na primeira passagem daquela moça, não vou me esquecer, depois confirmamos, já havíamos nos reconhecido. Restava aquela pequena dúvida boba, "mas será mesmo?...?", coisa que um simples cruzar de olhos resolveria em seguida. Na terceira vez em que ela passou, não resistiu, como trabalhava ali, parou pra me perguntar, "viu, e o que você está esperando aí?". Enquanto ela pronunciava cada uma das sílabas da frase, nossos olhos se espelhavam: ela era eu, eu era ela. Já havia presenciado cenas de ciúmes, mas a que causamos foi uma das mais constrangedoras pra mim até hoje. Ela parou pra perguntar o que eu esperava, emendou o que ambos já sabíamos e em poucos minutos éramos íntimos um do outro. Tínhamos pequenas diferenças em nossa absurda convergência, mas nada demais, e ríamos justamente disso quando outro rapaz, que pra mim só poderia ser o namorado dela - e mesmo que fosse o marido, seria pior, que cara chato -, chegou amarrando a testa. Estávamos em um hospital, oras, é bom lembrar, eles trabalhavam ali, eram aprendizes de doutores, mas a insistência dele em colocar-lhe a mão, em lhe apertar, repetir gestos de abraços, carinhos, tentativas de beijos foi tão grande que ele conseguiu, sai de perto logo: muitos gravemente enfermos no corredor não precisavam saber que "ela era dele", mesmo porque, que sujeito infeliz, ela jamais iria ser. Depois de atendido por um especialista em casos que desafiam a medicina, ganhei uma receita para ir a farmácia, fui dispensado e, por fim, ela e eu nos encontramos na saída, mas apenas nos despedimos entre um sorriso e um aceno.

Só que naquele dia, já fazia muito tempo desde essa última vez, havia acordado com um barulho estranho nos ouvidos, não sabia se vinha de fora, do trânsito nas ruas, afinal já era claro o dia e mais do que rotineiro haver muito barulho seis andares abaixo, ou mesmo se era um susto qualquer vindo de um sono intranquilo, outra das coisas comuns que me acontecem. Não, não podia ser taquicardia, era cedo demais pra que já o corpo estivesse reagindo ao excesso de um vício besta como o de café, que ainda sequer tinha imaginado fazer. Tampouco poderia ser a repetição da voz daquela moça pronunciando meu nome ao preencher um formulário atrás do balcão. Era uma moça no caixa, por favor, eu jamais voltaria a vê-la, que tolice romântica, era a mais absurda obsessão tomando conta de mim, não poderia ser, claro. Alguns segundos e a confusão de pensamentos deu lugar a certeza de que, sim, era um despropósito começarem uma reforma no piso superior às sete da manhã. Tanto melhor, minutos depois eu já pensava, pois precisava mesmo trabalhar, e muito. O computador me esperava e com ele veio um dia nada produtivo, que na escala das coisas a serem feitas conseguiu atingir uma marca negativa. O tempo, obviamente, não retrocederia, e um prazo para entrega de um trabalho já tinha ficado para trás.

Caminhar pelas avenidas ao redor, no bairro, sair de casa pelo menos me ajudaria, imaginava, a fazer com que a passagem de pessoas, de automóveis, de cores, o vento, enfim, que o movimento lá fora me desanuviasse. Não me imagino um coitado, se percebo que me tratam assim fico irritado, se percebo que me tratam com certo apreço que não sei nomear, como se eu fosse "diferente" mas não inferior, também me contrario, não quero ser nada além do que sou, ponto. Infelizmente, às vezes reparo, e percebi, há uns bons metros de distância, que aquele homem lá na frente, no meio de um monte de gente, não tinha a mão esquerda. O esmalte da mulher à minha esquerda também não combinava com o vestido. Não fiquei olhando, não vejo nada demais em olhar, não me incomodo quando acontece comigo, se fosse me incomodar, também, convenhamos, estaria enrascado, só não sei o que as outras pessoas, cujos esmaltes não combinam, podem pensar. Ainda bem. Mantive o passo, não mudei de direção, quando estávamos próximos senti que o rapaz sem a mão também percebera. Confirmei rapidamente, como quem confere se vem carros do outro lado da rua pelo canto dos olhos, ele me olhava.

É engraçado, às vezes, nos reconhecemos muito longe um do outro e encontros desse jeito acontecem a toda hora. Logo percebo um desvio de rima labial mais acentuado, nas maças do rosto ou nas sobrancelhas. Em algumas situações, é desconcertante não saber se se é analisado, observado, ou apenas olhado (des)pretensiosamente. Contudo, não soube nomear - por que precisava? pois assim faço o que se faz por aí afora, pela comparação descabida me autoelogio -, então achei que era a casualidade mais banal possível, o encontro de duas estatísticas novamente, como no corredor do hospital naquela outra vez, ou nas salas de recepção da infância. Nesta, na esquina seguinte a do rapaz sem uma das mãos e da mulher de esmalte errado, o susto daquele homem virando a esquina e tendo apenas a mim diante de si, e eu a ele diante de mim, mesmo em meio a centenas de pessoas ao longo da avenida, revelava o Mal de Van Gogh nos nossos olhos. Este é um mal que ainda carece de investigações na literatura médica de botequim para ser melhor representado, mas que por enquanto tem apenas no nome uma identificação que diz o suficiente para aqueles que por ele são acometidos. E somos muitos, é verdade, mas nenhum dos meus encontros com um deles havia sido tão chocante até então. Naquele mesmo instante, o Thiago coçava a cabeça na frente do computador, o Fernando dava de ombros e balançava a cabeça em afirmação à pergunta da estagiária, o Fábio desenhava e apagava e desenhava de novo no meio da reunião, e o Caio, ah, ele tinha a quinta ideia brilhante do dia. Seguramente, também, naquele momento nascia uma nova Amélie. Nunca o tinha visto, nem quero mais voltar a perceber a presença daquele homem. Foram os segundos mais terrificantes de nossas vidas. Ele era eu, eu era ele. Ele tinha óculos desajustados, roupa social velha, amarrotada e - me perdoe, Adriano - era careca. Não era gordo nem magro, era barrigudinho. Carregava um livro nas mãos, tinha a mesma estatura que eu e, também, levava o rosto embexigado. Ele viu, mais ou menos vinte anos e pouco mais de um metro nos separavam. Era sua orelha direita, era a minha esquerda, nos complementávamos. O semáforo para pedestres iria se fechar, não podíamos parar, mas não importa para que lado eu vá, o que quer que eu faça a partir daquele momento, ou daqui por diante, pois eu serei ele, um dia, ele também foi como eu.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A cidade dos (quase) invisíveis

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

“O mundo era tão recente que

muitas coisas careciam de nome

e para mencioná-las se precisava

apontar com o dedo”

(Gabriel García Márquez)



Segundo dados do Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas, publicado em 2003, o século XXI ruma para a generalização das favelas no mundo urbano. The Challenge of Slums [O desafio das favelas] diz ainda que a pobreza urbana se tornaria “o problema mais importante e politicamente explosivo do século”.

Na cidade de São Paulo, em 1973, 1,2% da população do município vivia em favelas. Já em 1993, esse número havia subido para 19,8%, e na mesma década o crescimento dessa população era estimado em 16,4% ao ano.


A história de Los Angeles mostra a ligação entre arquitetura, urbanismo e a conformação do Estado no país, nos anos de Ronald Reagan e George Bush. O exemplo do investimento estatal em segurança e o consequente esvaziamento e destruição dos espaços públicos aparece no termo “pessoa de rua”: “Para reduzir o contato com os intocáveis, a reincorporação urbana converteu ruas de pedestres, antes vitais, em canais de tráfego e transformou parques públicos em receptáculos temporários para os sem-teto e miseráveis” (escreveu Mike Davis). A cidade também promoveu a “contenção” – termo oficial – dos sem-teto num submundo ao longo da rua 50 a leste da Broadway, transformando sistematicamente o bairro numa favela a céu aberto. A região tornou-se possivelmente uma das mais perigosas do mundo, habitada por “maníacos de canivete” e “perseguidores noturnos”: emergia o consumo de crack, nos anos 80, elevando a taxa de homicídio na cidade.

O exemplo da cidade de Los Angeles é ainda mais emblemático. O aumento vertiginoso das favelas periféricas na cidade de São Paulo se deu no início da década de 80, portanto, na mesma época. Antes disso, no centro da cidade paulista, de antigos casarões de famílias ricas originaram-se cortiços onde pessoas mais pobres viviam em quartos alugados. Entretanto, já no final dos anos 80, a capital paulista assistia ao surgimento, tal como na Califórnia, da “era do crack”. Isso só não aconteceu como na cidade estadunidense: não foram nas periferias pobres que os usuários de crack se instalaram, ou foram confinados. Foi o mesmo centro da cidade brasileira quem viu a formação da região que até os dias de hoje é conhecida como “Cracolândia”, onde circulam pessoas de muitas regiões, de muitas classes sociais. Mas 77% dos frequentadores da cracolândia moram nas ruas e 20% estão nesta situação há mais de dez anos e, talvez, a maior parte desta população seja composta por usuários de droga, como a cola e o crack.

Em entrevista para uma revista de São Francisco, na década de 80, Harry Edwards afirmava a transformação pela qual L.A. passou, social e politicamente. Edwards, que fora organizador de protestos do Poder Negro durante os jogos olímpicos de 1968, que também havia sido ministro da propaganda do Partido dos Pantera Negras, era então professor de Sociologia da Universidade da Califórnia, quando, enfim, duvidava de outra atitude que não fosse a remoção daquela juventude, de meninos e meninas das ruas da cidade. À pergunta sobre como “recuperar” um menino que vende crack nas ruas, ele diz não existir possibilidade. Evidentemente, Edwards não era um terapeuta, ou mesmo um assistente social, para responder a questão, no entanto, não deixa de ser significativa a afirmação que questiona a própria condição de humanidade de usuários de crack, também “pessoas de rua” muitas vezes, ainda que nem sempre. De qualquer maneira, como “recuperar”, ou "reinserir" socialmente essas pessoas?

Meninos e meninas também em situação de rua em São Paulo, muitas vezes, circulam em locais diversificados, por instituições prisionais e de assistência social, entre idas e vindas de sua residência de origem e para a rua novamente. Adquirir, manipular, articular recursos de sobrevivência, como praticar pequenos furtos, é uma forma de se comunicar e se posicionar frente à cidade e aos personagens desta, como a Polícia Militar, órgãos governamentais, fundações de assistência e demais cidadãos (como escreveu Maria Filomena Gregori). Assim tem vivido homens, mulheres, jovens e crianças que, às vezes, também são usuários de crack. Ao circular constante e diariamente, ainda, eles não estabelecem relações permanentes, tampouco se fixam em algum sítio durante muito tempo. Falamos de uma forma de estabelecer relação com as pessoas muito diferente da qual nós estamos habituados.

Desde o início deste mês, contudo, os governos municipal e estadual, em ação conjunta mal planejada - conforme o Ministério Público Paulista -, e executada precipitadamente pela Polícia Militar, colocam em prática a "Ação Integrada Centro Legal", especificamente na "Cracolândia". Pelas declarações públicas, o primeiro intuito da Ação é "dispersar" usuários e combater o tráfico. Depois desta primeira fase da operação concluída, entrariam agentes de saúde, assistentes sociais e agentes comunitários para procurar os usuários da região e levá-los a um centro de tratamento, bem como a outras unidades de saúde já existentes, onde seriam internados. Por fim, nesta última etapa, começaria a recuperação destes usuários.

(Foto: Nilton Fukuda, Agência Estado)


Difícil acreditar nesta ação governamental, justamente porque se a lógica que marca a relação daquelas pessoas no centro, na Cracolândia, é da circulação contínua, algo que os faz "dispersar" parece apenas reforçar a condição em que eles se encontram. Assistentes sociais, terapeutas, profissionais de saúde pública tem repetido que o trabalho de recuperação daqueles sujeitos, nas ruas, dependentes químicos, leva anos. E muitos trabalham naquela região há mais de dez anos, acompanham as trajetórias de muitos ali, sabem o nome, se tem família e quais os motivos que os levaram para aquela situação. Esses profissionais tem relações pessoais, tentam criar algum tipo de vínculo afetivo com aquelas pessoas. Agora, a Polícia Militar chegou com a primeira etapa da Ação para "dispersar" todos. Utilizando balas de borracha, bombas de efeito moral, o trabalho de anos pode ter se perdido.

A “Cracolândia” é uma favela que não está na periferia. Sem barracos, muitos ali se abrigam em edifícios abandonados, ou ficam pelas calçadas. E aqueles que ali se encontram não são tratados como cidadãos. Todos pareciam não existir, ou somente ganharam existência na medida em que não devem estar ali. Homens e mulheres que trabalham fazendo "bicos", que estão desempregados, grávidas, senhoras a procura de filhos e netos perdidos, crianças sem famílias, ex-presidiários, pequenos traficantes, vítimas de violência familiar, dependentes químicos, enfim, são muitos problemas sociais condensados num único espaço. Aquelas pessoas estão expostas, diariamente, há mais de vinte anos, e não vimos, não quisemos, preferimos não ver.

Ao lado disso, temos ignorado outro problema crescente. Todas as vezes em que se tentou discutir publicamente os inúmeros imóveis abandonados e vazios do centro da cidade de São Paulo, a mesma dificuldade que se enfrenta ao pronunciar a expressão "Reforma Agrária" assola ouvidos. Os movimentos sociais por moradia continuam sendo tratados como invasores e delinquentes. Assim como sua irmã do campo, a "Reforma Urbana" passa longe do imaginário da política brasileira.

Pobreza e dependência química tem andado junto no centro de São Paulo, e não é possível ignorar que aquela região da "Cracolândia" está inserida num processo de "revitalização" urbana cujo sentido aponta, em especial, para a retirada das pessoas miseráveis da região. Dispersar, retirar, expulsar, os verbos não mudam a situação, enquanto aquelas pessoas não tiverem possibilidade de deixar a realidade que enfrentam, voltarão, continuarão incomodando, circulando, e elas são milhares.


Ver
Mike Davis. Cidade de Quartzo. São Paulo: Editora Página, 1993.
_________. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2006.

Maria Filomena Gregori. Viração: experiências de meninos nas ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Coluna do Leitor - Adeus

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários

A nossa relação não fugia do padrão visto por aí. Passamos e superamos juntos inúmeras fases: algumas eu te dando mais liberdade do que em outras. Se por um tempo eu te controlava e manipulava diariamente e por outro eu te dei liberdade ampla e irrestrita, atualmente havíamos encontrado o meio termo razoável em que você podia expressar sua essência sem afetar a minha. O importante era que sua presença me dava confiança e mesmo com os reveses nunca deixamos sucumbir a nossa parceria incondicional.

O tempo foi passando e você, aos poucos, me deixando. No começo eu negava e achava que era só uma fase, afinal não havia motivos para um fim assim tão repentino. Porém as suas ausências aumentavam: bastava ver as fotografias, cada vez menos aparecíamos juntos. Toda manhã, na minha cama ou no banho, apenas rastros do que você foi outrora.

Era uma questão de lógica. Mais do que isso, era uma norma: as pessoas mais experientes sempre me indicaram que nossa relação não seria eterna. Mesmo assim, contrariado dessa fatalidade, nutria em mim a esperança de que com a gente duraria mais. No fundo eu tinha a certeza de que conosco seria diferente assim como aqueles velhinhos que conseguem manter a relação firme até o último suspiro.

Infelizmente a escolha não era minha e a sua decisão de me abandonar era um fato consolidado. A minha vida não era mais igual, até atividades mais ordinárias não tinham a mesma graça sem você. Tive que mudar meu vestuário. Passei a sair menos e até mesmo me esconder por sua culpa. Sentia vergonha, confesso.

Ainda não sei se era covardia sua ou preocupação com a minha reação, mas ao invés de sair por completo da minha vida você foi progressivamente se ausentado na espera que eu tomasse a iniciativa. Hoje, finalmente determinado, rompi por definitivo as nossas amarras e mesmo que nostálgico posso dizer: adeus cabelo, foi bom enquanto durou, pelo menos agora sei que a calvície me acompanhará para sempre.

Adriano Godoy é mestrando em Antropologia pelo IFCH/UNICAMP, parceiro de boteco no Beco Livre, escrevendo também em Livres Escritas. Mas Adriano não tem dificuldade, como muitos de nós, de admitir: está careca!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Tipicamente argentina

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Depois do abacate tipicamente chileno, eu achei que já estava acostumado com esse troca-troca gastronômico de nacionalidades. Afinal já acumulava vastos conhecimentos na área: sei que o pão francês, assim como o copo americano, é bem nosso, e que aquele sushi empanado que chamamos de hot roll não tem nada de japonês. Mesmo assim, a Argentina conseguiu me impressionar.

Logo no primeiro dia em Buenos Aires descobri, com muito entusiasmo, que uma das comidas mais típicas da cidade é a Milanesa. Não sei se você já teve esse estalo, mas a expressão à milanesa significa que algo é feito da maneira como se faz em Milão, na Itália. Da mesma forma, o queijo parmesão e a expressão à parmegiana deveriam referir-se à cidade de Parma. Sei que em São Paulo chamamos a pizza com parmesão de Napolitana. Mas tudo bem. Afinal, nada impede o ingrediente de ser de uma região e a tradição de outra.

Então a milanesa é tipicamente argentina. Até aí, sem crise. Sei que houve uma forte imigração italiana na Argentina, tudo ainda poderia ser explicado. E, meio turistas meio antropólogos, ficamos sempre nos divertindo no limite entre o exótico e o mal-explicado. Fomos, então, jantar em uma magnífica rede chamada El Club de la Milanesa.

Mas, che, o futebol não é mais inglês. E já no nome os porteños deixavam claro que lutariam pela receita italiana. Numa faixa abaixo do logo, sem muitos dribles, estamparam que o novo nome do prato agora é Argentinadas. Faltou fair play? Faz parte do jogo, pensei.

milanesa-napolitana2No cardápio, porém, o item mais pedido desafiava qualquer lingüista ou geógrafo. Estava lá, debaixo de meus olhos, num controverso gol de mão, o prato mais pedido: a argetiníssima milanesa napolitana, um tenro bife à milanesa com molho vermelho e queijo. Uma delícia. Igualzinho ao parmegiana brasileiro, só que argentino milanês e napolitano.

Era tão boa que saí arrasado. Quis voltar cinco vezes, para não sair por baixo e passar uma mensagem. Mas éramos turistas. Respeitamos a casa e voltamos só três.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Coluna do Leitor - Dona Maria José

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Alguns amigos acompanharam o périplo que fiz para chegar a Aracaju a fim de comemorar as festividades de final de ano com minha família. Havia perdido meu voo, e após passar a madrugada no aeroporto de Guarulhos, consegui finalmente embarcar em um voo rumo a Salvador, onde me dirigi a rodoviária local para comprar uma passagem de ônibus que chegaria à capital sergipana. Só sairia no início da tarde. Então fui ao shopping Iguatemi, que ficava nas proximidades, almocei, descansei, e me dirigi por volta das 12:45 à rodoviária, para esperar o ônibus, que sairia às 14. Aproveitei todo esse tempo para finalmente concluir uma tarefa que há alguns anos procurava fazê-lo: concluir a leitura integral da bíblia sagrada.

Era isto que eu fazia quando uma senhora, por volta dos seus sessenta anos, se aproximou de onde eu estava sentado. Porém, logo em seguida, precisou voltar ao guichê da empresa de ônibus onde havia comprado sua passagem. Não queria carregar suas coisas até lá, e então solicitou que eu observasse suas coisas e guardasse sua cadeira no setor de espera, para que finalmente resolvesse seus problemas. O que, tranquilamente, não objetei.

Passaram-se cerca de 30 minutos até ela retornar. Tempo bastante demorado, por sinal. E eu, naturalmente, estava preocupado: "Ela vai retornar?"; "e se der meu horário, o que que eu faço?". Preocupações desfeitas com seu regresso...

Após se sentar, a senhora aguardou um tempo, observou-me, e resolveu perguntar-me a respeito do capítulo de Apocalipse, que eu estava lendo. Começamos, desta forma, uma conversa agradável, conde falávamos sobre nossa fé, o que entendíamos a respeito das traduções da bíblia, qual era melhor, qual era pior, sobre como agir na vida, sobre agradecimento, etc.

Neste tempo, aquela senhora, cujo nome eu ainda não sabia, resolveu me fazer uma confissão.

Ela contou pra mim que estava muito preocupada pelo problema com a passagem. E como precisava acertar aquilo, mas não sabia o que fazer com suas coisas, acabou confiando a mim, um garoto qualquer com o qual ela nunca tinha conversado, seus pertences. Disse que confiou no fato de eu estar com uma bíblia no colo, lendo-a. Confiou em uma ética e retidão de caráter que ela associou ao fato de eu estar com minha bíblia em mãos. Acho que não preciso dizer que, mesmo em uma circunstância como essa, tal procedimento não costuma ser o adotado por qualquer pessoa. Pra ser sincero, eu mesmo não agiria assim...

Quando ela resolveu o problema, ela se dirigiu equivocadamente ao setor de desembarque da rodoviária de Salvador, que é bastante parecido com o setor de embarque, onde eu me encontrava. Daí sua demora. Ficou procurando aquele garoto com a bíblia na mão, pensando onde, afinal, ele estaria. "Escafedeu-se? Sumiu com minhas coisas?", ela pensou. Depois de um tempo me procurando, finalmente descobriu que estava no lugar errado, e aliviou-se ao me encontrar sentado na mesma cadeira de espera de antes.

Depois deste relato, ela olhou pra mim e disse que falava aquilo em tom de confissão, pedindo perdão a mim e a Deus por ter pensado qualquer coisa que desconfiasse da minha moral, daquele garoto que podia colocar a perder sua imagem de um rapaz de fé por ter feito qualquer coisa contra ela. Que estava feliz por ter me encontrado, e desculpando-se por ter, em determinado momento, desconfiado de minha retidão.

Aquelas palavras me deixaram profundamente emocionado, e era extremamente difícil para mim encontrar um chão. Ela nunca havia me visto. Ela não havia feito nada contra mim. Não havia me criticado. Ela poderia simplesmente deixar a história passar, e seguir feliz pra sua casa, com suas coisas. Mas não. Ela confessou um "pecado" para mim e para Deus!

Eu poderia terminar o meu ano orgulhoso das conquistas e dos aprendizados que tive, de cada batalha à qual a vida me conduziu. Mas todos os motivos, todos os ensinamentos e vitórias pelos quais posso agradecer neste ano dificilmente superam este aprendizado que apareceu de surpresa e cicatrizou o meu cotidiano. Antes de qualquer possível vanglória, Deus dava um tapa na cara do meu orgulho, me conduzindo a reflexões de horas, dias, a respeito daquele momento. Me fazendo pensar onde estavam meus planos, minha postura frente às pessoas e aos acontecimentos. Para onde eu estava destinando o meu caráter e os meus esforços.

Descobri que seu nome era Maria José. E agradeci: "foi um prazer conversar com a senhora, dona Maria José".

Se há algum desejo que eu deva fazer para o ano novo que vem por aí, o faço para ela, bem como para todos vocês, familiares, amigos, leitores: a possibilidade de refletir frequentemente sobre o destino que se deseja assumir para sua própria vida, e no que isto vai implicar. O quanto de vitória, de perdão, de gratidão, de luta, de união, estarão presentes na sua rotina. E olha que o mundo anda realmente carente destas coisas...

Feliz ano novo.

---

Sydnei Melo é sociólogo, autor do blog "A vida de Sydnei", onde foi publicada essa reflexão de ano novo. Cristão crítico, sempre se posicionou sem medo sobre todos os assuntos. Participou anteriormente da "Coluna do Leitor" com o texto "Um laicismo equivocado".

    • + Lidos
    • Cardápio
    • Antigos