quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

o homem que nunca viu um filme até o fim

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário




O homem sempre dorme, sempre, por isso jamais conseguiu ver um filme até o fim. Desde criança, ele dorme em qualquer lugar, basta estar parado. De pé ou sentado, não importa, ele cochila, entra em sono profundo e até sonha. Seu apelido desde pirralho, inclusive, é soneca, uma referência ao anão da Branca de Neve, obviamente.  Ele cresceu, mas nada mudou. Não foi diferente, portanto, quando decidiu ser cinéfilo. Alguns minutos diante de uma película e ele já estava entregue à sonolência, não demorava e, ploft, ele dormia. Muitas e muitas vezes foi ao cinema, mas percebeu logo, ainda jovenzinho, que gastava dinheiro à toa. Assim, oras, não tinha cabimento, ele desistiu de ser cinéfilo.


Parte de sua família padece da mesma moléstia, é verdade. Suspeita-se de que o avô materno do homem que nunca viu um filme até o fim seja o pivô de tal pertubação. Dos seis filhos do velhinho, apenas a mãe do homem que nunca viu um filme até o fim terminou acometida pela mesma desventura. 


Almoçar com a mãe aos domingos se tornou, após tantos anos, não apenas mera formalidade, ritual enfadonho e desprovido de sentido para a família do homem que nunca viu um filme até o fim. É um verdadeiro evento social, uma festa praticamente. Todos, familiares, vizinhos, amigos se revezam à mesa com o passar dos meses, aos domingos, para assistir à mulher, hoje uma jovem senhora. Ainda com o garfo e a faca nas mãos, sobre o prato, ela simplesmente viaja atrás de suas próprias pálpebras, em silêncio, por alguns minutos, para em seguida assustar-se consigo mesma e voltar a comer. Que alegria é a cena, especialmente para a juventude, os pequeninos netos.


A felicidade só não é compartilhada pelo velho, o epicentro da moléstia na família, avô do homem que jamais viu um filme até o fim. Um dos filhos diz, em resposta ao silêncio e amargor senil, que em razão de cochilar muitas vezes durante o dia, repetidamente, ao longo de tantos anos, o velho não conseguiu seu grande objetivo de vida: ele não enriqueceu. Enquanto parava dormindo, ficou para trás diante de seus contemporâneos competidores que lutaram para açambarcar moedinhas pelo mundo.


O homem que nunca viu um filme até o fim, contudo, tenta manter o bom humor, afinal, não lhe resta muito. Ele nunca teve muitos amigos, mesmo porque não consegue manter uma conversa aprofundada com ninguém. O simples silêncio, a espera para ouvir alguém já lhe adormece facilmente. Ninguém o suporta, acreditam ser falta de edução, uma verdadeira ofensa. Os tempos são modernos, ninguém também tem tempo para esperar, ver o que está acontecendo, há pressa, as moedinhas estão aí pelo mundo. A única pessoa que parou foi uma mulher, uma vez, em uma viagem ao povoado vizinho. Vejam só, ela tornou-se a esposa do homem que nunca viu um filme até o fim. Que criatura compreensiva, diziam alguns. Para outros, ela não passa de uma tonta apaixonada - perdõe a redundância, leitor apressado -, pois cada vez que o homem que nunca viu um filme até o fim cochila diante de palavras demoradas da mulher, voilà, é evidente o sorriso de amor que se desenha no rosto dela. 


O primogênito do casal, pobrezinho, tudo indica que herdou a enfermidade do pai. Não fosse a curva na estrada que faz o ônibus do povoado à cidade, onde está o colégio mais próximo, o menino não chegaria às aulas, não teria se alfabetizado. Recentemente, ele também virou motivo de comentários rasteiros entre os colegas, foi no fim do ano passado, quando visitou o sítio da família de uma amiguinha próximo à represa da região. Numa tarde quente, já feita a sesta depois do almoço, ele disse a todos que ia à represa se refrescar. O tempo, como é de costume, foi passando, o sol então já havia se posto, fazia horas e todos estavam preocupadíssimos com a ausência do menino. Mas finalmente ele apareceu sorrindo de timidez: havia dormido dentro d'água, sentado num barranco. O barulho de uma capivara no mato, suspeita ele, fizera-o despertar assustado na escuridão, perdido. Desde aquele dia, familiares e amigos se mantém próximo do menino, evitam deixá-lo só em qualquer lugar ermo. É preciso cuidado, é uma suspeita muito forte a de que ele tenha herdado a enfermidade do pai, do homem que nunca viu um filme até o fim.


Todos na família, vítimas ou não da moléstia, já sabem, mais do que qualquer outra pessoa neste mundo, um dia podem não acordar de um cochilo. É por isso que todos guardam respeito aos mais velhos, como ao avô e à mãe do homem que nunca viu um filme até o fim.


O homem que nunca viu um filme até o fim, todavia, está disposto a vencer seu problema. Há alguns anos tem juntado moedinhas entusiasmadamente. Ele quer comprar uma esteira ou uma bicicleta ergométrica, ainda não se decidiu, mas não é para se exercitar. Para isso, claro, ele tem muita preguiça. O plano do homem que nunca viu um filme até o fim é treinar para alugar um DVD, um filme de 2h é a sua meta. Ele já tentou, algumas vezes, ver um filme em casa, sozinho, sem a mulher ou os filhos. Sempre sem que ninguém o veja, já que sente muita vergonha de tal moléstia. Nunca deu certo. Mesmo embebido em café arábico, energético importado que seja, depois dos primeiros minutos, se o filme for de aventura ou de ação, um terror, sequer o clímax às vezes é capaz de despertá-lo, uma lástima. Já tentou, inclusive, assistir a um filme de pé, mas acordou com o abraço da esposa, que lhe pedia para não se importar mais com isso. Persistente, ele cultiva a expectativa de que desenvolva resistência física o suficiente para caminhar, correr ou mesmo pedalar durante as duas horas de um filme e, assim, finalmente ver uma película até o final.


Suerte, pois, ao homem que nunca viu um filme até o fim.



1 palpites:

sabe...o mesmo comentário do post anterior vale aqui. Porém, com um adendo:

a forma é a mesma. Para isso, dê um tempo de distância entre um post e outro.

Do filme até o fim à mulher mais bonita do mundo...dê pelo menos uns três posts...ai dá pra gente até sentir vontade mais uma vez de ler um conto tão gostoso!

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