sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

o homem popopó

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



lá estava ele na manhã do feriado em que eu saía de casa como quem vai à biblioteca, como quem vai esquecido da data. finalmente encontrara um conspirador no flagra, maldita bola de pelo. nanico ainda, aquele gato estava na garagem me olhando fixamente. não, não, não, nada de papinho aqui, nada das brincadeiras de Michel de Montaigne, nada de Jaques Derrida e a existência do bichano que o mirava. 

quando passei a porta, ele estava na frente do portão, do outro lado. dei um passo para a esquerda, ele também, à esquerda dele. segui à esquerda, e ele do mesmo modo. desenhamos um círculo na garagem caminhando lentamente. voltei, dei um passo à direita, ele também foi à direita dele, e outra vez desenhamos mais um círculo na garagem, passo depois de passo. bola de pelo de uma figa, intrépido conspirador, seguia como se me desafiasse para um duelo, faltava a gaita ao fundo. me lembrei de Gancho, captain Gancho. porque mentiram pra mim, não bastasse me perseguirem, conspirarem, eles mentiram pra mim!


Gancho no início não suportava minha voz, ao me ouvir se escondia debaixo da mesa, da cama, corria, desaparecia como os da sua laia bem o sabem fazer. seis anos antes de mim, seis anos antes da casa dela, ela trombou com as estrelas e, por sorte, lhe restou o olho esquerdo, um pedaço do pulmão, alguns dentes e a pata direita, da frente, para lhe fazer coxa. assim ela foi rebatizada como Gancho: a coisa é o nome, o nome dá a coisa. avesso, alérgico, com preguiça de bolas de pelo, eu não fazia por muito, mas ela miava demais, pela manhã e à noite, demais. não houve cabelos brancos que me detivessem, no fim das contas, desenvolvi um plano mirabolante, uma estratégia infalível, ela não teve escapatória. ao ouvir os miados no início da manhã, eu abria a porta do meu quarto decidido, procurava-a, encurralava-a, submetia-a à violência, à brutalidade, aos carinhos brutais. segurava-a, deitava-a onde ela estivesse e percorria as mãos pelo corpo dela. parava sobre a cabeça dela e, com os dedos levemente dobrados, ia mais rapidamente até que ela cerrasse os olhos, prendesse a respiração e até mesmo deixasse de ronronar. instantes depois eu parava e, imediatamente, ela se punha de pé me encarando – Derrida não entendeu nada –, mas em seguida ela deixava o corpo cair de lado. de novo, ela pedia. não, só no final da tarde, quando eu voltasse, eu não respondia – não sou tonto, como Montaigne.


Gancho não nasceu livre, não era pobre, não era independente, muito menos havia lido e levado a sério um tal de Rousseau. me diziam que bichanos não se importavam, que para eles tanto fazia como tanto sempre fez, eles seguiam como melhor lhes aprouvesse. mentira. numa gaiola gigante há quase dez meses, ela nunca escondeu o fastio diante do mundo, que enxergava muito bem das janelas, sejam elas dos quartos, do banheiro, da sala, da cozinha, ou da televisão, o mundo e as pessoas eram mesmo muito esquisitas, nada fazia muito sentido. a despeito dos carinhos brutais, claro.


aquela bola de pelo nanica, contudo, na manhã do feriado, era novata demais pelo tamanho. e ele ainda levava pinta de quem sabe o que quer, pobre diabo. não tive dúvidas, se ele apontava para o duelo, se era o que queria, um confronto ele teria, então. afastei os pés um do outro, deixei de caminhar em círculos, me coloquei de frente para ele, encarei-o, era chegada a hora dele. parti disparado na sua direção, mas com dois saltos o telhado para ele era o céu para mim.


era feriado, caramba, a funcionária da biblioteca estava de folga, oras. ainda dava tempo de pegar um pão de queijo na padaria.

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