segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

a moto dos recados

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário




- Bem, não esquece de trazer o remédio, passa no postinho antes do almoço, senão à tarde fico sem meu remédio, tá? - disse a senhora.
- ah, tá bom, Bem, vou deixar um recado, uma anotação na moto pra lembrar – em um pedaço de papel, entre o guidão e o tanque, escreveu “buscar remédio” e pregou com um adesivo entre os outros 179 lembretes que já levava na moto.

antes de chegar para o almoço, então, o Bem passou no postinho, pegou o remédio e estava indo pra casa com a moto, um modelo barulhento e azul, antiquíssimo. numa avenida já próximo de casa, contudo, ele percebeu o trânsito lento e, assim, dirigiu-se para o acostamento. entre os veículos que ultrapassou, havia uma viatura da polícia. de todo modo, não obteve muito sucesso com o desvio, porque alguns metros depois nem a moto passava pelo engarrafamento. mas Bem não quis ficar parado e, ao dar a volta pelo quarteirão, refazendo o desvio, reencontrou a mesma viatura, tendo que a ultrapassar novamente. dessa vez, inclusive, ao realizar a manobra, precisou cruzar a frente do veículo e fez sinal com a mão, já que as lanternas com a seta não funcionavam. a sirene soou e, cauteloso, Bem não arriscou, olhou serenamente, percebeu o gesto do policial e parou a moto em seguida. a viatura também estacionou. o trânsito seguia parado lá adiante, indiferente, enquanto o policial se aproximou do Bem dizendo:


- olá. documentos, por favor, do veículo e do senhor.

- oi. ah, aqui estão, seu guarda.


(enquanto o guarda averiguava os papéis, Bem interrompeu, entre o cinismo, a sonsice e o fofismo)

- ô, seu guarda, o que foi que eu fiz?

(silêncio)


- primeiro fez uma ultrapassagem pela direita, depois deu sinal de conversão com a mão.

- ô, seu guarda, mas não é proibido fazer sinal com a mão agora, é? não pode mais agora, é?

- o senhor não tem lanterna, não?

- ah, ter eu tenho, mas não funciona... e mesmo que eu tivesse, seu guarda, eles – eles, eles, sempre eles – não me respeitam! - com algum ímpeto.

(silêncio)


- ter e não funcionar: o senhor não tem lanterna: os documentos ficam comigo: queira, por favor, me acompanhar até o distrito, sua moto está apreendida.
- ô, seu guarda, eu te acompanho, sim, não tem problema, mas aqui ó – apontava a sacolinha presa ao guidão –, preciso levar esse remédio pra minha mulher. acabei de pegar ali no postinho, sabe, isso não pode ficar fora da geladeira. e olha esse sol, rapaz. vou levar os remédios e depois vou lá no distrito, tudo bem?

(silêncio – o guarda foi até a viatura com os documentos, mas retornou rapidamente)

- vi o recado anotado aí – apontou com o dedo para o papel preso no tanque da moto com um adesivo – “buscar remédio”, é.... olha só, o senhor tá liberado hoje, estão aqui os documentos, mas conserte as lanternas e não me faça mais ultrapassagens pela direita.

dois meses e meio depois disso, o pedaço de papel com “buscar remédio” continuava preso sobre o tanque da moto. afinal, vai quê, né.



1 palpites:

já leu uma revistinha mensal chamada "Seleções"? Lá tem uma parte que chama "Rir é o melhor remédio".

A revista circula desde quando guaraná ainda tinha rolha, e a seção existe desde lá.

É lugar dos leitores enviarem as suas peripécias cotidianas e contá-las ao público. Coisa de tiozão, sabe? Então...

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