domingo, 11 de novembro de 2012

a moçoila e o pentelho

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



o mundo todo é uma grande farsa, trágica ou engraçada, ou tragicamente engraçada, ou engraçadamente trágica. não, eu sei que não é, tudo bem. era só uma frase de efeito inicial pra puxar assunto, mas é mais ou menos por aí. é matemática a coisa, como um gráfico, dá pra ir avaliando a variação entre o divertido e o aterrorizante, e no meio disso aparece o papinho, a conversa de elevador, o chaveco de padaria.

porque anos atrás, o homem ainda era moço, não tinha se desenvolvido enquanto moçoila. ele tinha lá seus 17, por aí, branco, branquelo, branco mais branco que de tão branco que era, era vermelho. ele teve um namorico, coisa de portão e de praça – faz tempo mesmo, sério –, com uma moça negra. a menina era negra negra, preta, não era mulatinha, mulata, morena, era negra. nossa, foi um bafafá, um diz que diz, um zum zum zum. aquela coisa, né, o moço branquelo tinha que ficar ouvindo os amigos (sic), na rua, no trabalho, na oficina, na vizinhança, pra tudo que era lado: “ô, rapaz, você, branquinho desse jeito, metidinho a napolitano, namorando uma negrinha … imagina só aquele bando de urubu no teu pé depois, quando vocês tiverem filhos”. to falando que o mundo é imbecil, assustador, escroto. mas pode ser engraçado, não nego. não neste caso.

quis o destino, deus, o acaso, ou coisa que o valha, que o namorico não vingasse. c'est la vie. o casal não deu certo, mas não foi por causa dos comentários. só não deu certo. o tempo passou, parari parará, o cara branquelo e vermelho conheceu outra, casou-se e teve um filho: um safado(!) esse branquelo vermelho.

lá estava ele no supermercado um dia com seu pequeno de uns três anos. enquanto a esposa preferia comprar as coisas sozinha entre as prateleiras, o homem branquelo e vermelho circulava com o pivete, ia pelo shopping, pelos corredores, dava um jeito de passar o tempo. de repente, o infante sumiu, desapareceu, fugiu! que apuro, que desespero passou o homem branquelo vermelho. depois de quase uma hora buscando pelo nanico, tadan, lá estava ele de mãos dadas com outra criança. naquele momento, então, o homem branquelo e vermelho não soube o que pensar, não sabia se era engraçado ou simplesmente trágico, ele viu na criança ele mesmo anos atrás, era o pai no filho a cena diante de seus próprios olhos. a menina era um pouco maior que o filho dele, ela era negra, de cabelos compridos, trançados. ao homem branquelo vermelho, ela não pareceu assustada, ou desconfortável, ao mesmo tempo, ela não estava completamente à vontade. a menina estava também com os pais, daí o homem branquelo vermelho se aproximou, meio sem jeito, meio que se desculpando, “ô, meu filho, eu estava te procurando”. os pais dela sorriram, pelo menos, enquanto o filho virou-se para o homem branquelo vermelho:

- ô, pai, essa aqui é a menina mais bonita do mundo.
- ah, oi … vamos, Hugo, mamãe está nos esperando já, vamos...
- não, pai, eu não vou, não. eu vou ficar aqui com ela. tchau.
- Hugo …





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