quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Nem isso

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário

Em 2008, lembro que a Ciência garantia a segurança de todos frente ao que deveria ser o maior experimento realizado na Terra. O LHC (Large Hadron Collider), cujo custo estimado era de cerca de US$ 8-10 bilhões, entrava em funcionamento naquele ano. O objetivo principal dele era investigar uma das questões fundamentais da ciência: a origem da massa. Que belo pretexto para tantos bilhões!
Conforme a física moderna, a matéria seria formada por pequenos corpúsculos indivisíveis, as partículas elementares. O colisor nada mais seria do que uma máquina gigante, construída nos subterrâneos próximos a Genebra, que aceleraria essas partículas atômicas provocando choques de umas contra as outras, só que com velocidades semelhantes à da luz. Nas colisões, então, a energia de movimento das partículas seria transformada, segundo Einstein, com E = m c², em outras partículas. Tal fato possibilitaria o estudo da composição da matéria por meio das diferenças de massa entre as partículas.

Mas -  tinha que haver um mas - em meio às possíveis descobertas, as colisões poderiam ainda criar mini buracos negros. Ora, buracos negros não são aqueles trens que podem ser fruto da morte e explosão de estrelas?? E esses buracos negros não concentram enormes quantidades de matéria em seus centros, núcleos estes que emitiriam sinais de radiação e que, literalmente, sugariam tudo quanto é corpo celeste ao redor, tendo uma gigantesca força gravitacional?? Não existiriam buracos negros, inclusive, cujo diâmetro seria equivalente à distância do Sol a Saturno??
Desse modo - ah, que primor de raciocínio lógico -, o LHC, ao produzir buraquinhos negros em seu interior, com energias incríveis, destruiria o mundo??? Madre mía de mi alma!! Partículas se chocam, os físicos entendem a matéria, criam-se mini buracos negros, tudo ao mesmo tempo, e o mundo se acaba: Genebra engole o planeta!! O genebrino mais famoso do mundo não ficaria muito contente, imagino, coitadinho do Rousseau.

Não. A energia liberada pelas colisões seria equivalente ao voo de um bando de mosquitos. “O Segredo” do LHC, portanto, estaria em concentrar energia em uma escala submicroscópica. Ora, ora, ao espantar pernilongos, ninguém cria buracos negros por aí. E os mini buracos negros teriam existência muito efêmera, em questão de instantes eles desapareceriam, pois suas massas são infinitamente pequenas para atrair qualquer outro objeto. Não custa lembrar, são escalas. Adicione ao seu vocabulário de graus, metas, focos, estimativas e investimentos: escalas!

Ainda em 2008, todavia, no Hawaii, dois malucos entraram na Justiça - sei lá em que instância, talvez divina -, para impedir o funcionamento do novo brinquedinho da Física, do mesmo LHC. Não há dúvidas quanto a isso, é um belo pretexto para entrar na justiça: o mundo iria acabar!

Nos nossos trópicos, no início do século passado, afe, isso tudo já tinha virado samba. Assis Valente, um baiano que no Rio de Janeiro teve uma vida bastante atribulada, compôs uma música até hoje muito conhecida. A canção ele fez por causa do anúncio da passagem do cometa Halley, em 1938, quando surgiram boatos de uma colisão com a Terra e o consequente apocalipse. Carmem Miranda gravou:

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso minha gente lá de casa começou a rezar...
E até disseram que o Sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada”.

Enquanto uns constroem um trem com não sei quantos bilhões para dizer como se constitui a massa dos corpos, da matéria, não contentes em perceber que os corpos simplesmente existem, vejam só, outros entram na justiça para evitar o fim do mundo. Porém, muito mais inteligente é fazer samba com isso!

Mas - tinha que haver outro mas - em julho último, quatro anos se passaram, nem a Justiça hawaiana ou divina pode deter, o LHC continuou seus trabalhos e, num dia como outro qualquer, ou não, ta-dan, o mega aparelho encontrou a partícula que originou as demais partículas. Sim, o Bosón de Higgs, previsto pelo físico Peter Higgs na década de 1960, e ainda apelidada de “partícula Deus” por outro físico, Leon Lederman, enfim, existe. Quer dizer, há uma chance muito, muito pequena agora dessa partícula, que teria se formado em seguida ao Big Bang, não existir, conforme os cálculos feitos a partir dos experimentos no LHC. Quem sabe o Bóson de Higgs não tenha levado a alcunha  em referência ao Deus de René Descartes, para quem o mundo não teria por que não houvesse uma Razão, “Deus”, quem sabe. 

Bom, talvez coubesse uma conclusão indignada, como quem vocifera contra a Ciência inútil, culpa a política elitista e o sistema – ah, o sistema – diante de tantos desesperos e misérias humanas. Uu, fico com Manoel de Barros, para quem a arte e a poesia são igualmente inúteis. Há gente que acredita em Deus, há gente que acredita, digo, calcula a partícula, o Bóson de Higgs, ou os dois. Há gente que não acredita em Deus, que não se importa com a matéria atômica. Há gente que acredita e faz tanta coisa. Não vem ao caso, que preguiça, mas algumas coisas são mais importantes que outras, não nego.
No fim das contas, são todos bons pretextos pra seguir por aí. Fato é que com a “descoberta” do LHC o mundo não acabou, pelo menos por enquanto, uma pena para alguns, um alívio para muitos. Pior, não houve samba, ninguém cantou, ninguém dançou, que triste, que chato. Um pretexto, é uma questão de pretexto apenas, mas nem isso foi suficiente.

1 palpites:

Quantos bilhões valem o Bóson de Higgs? Alguém tinha que afirmar que porra toda deu certo, não?

Ahh! Agora estou tranquilo - a ciência explicou tudo...mas (mais um!) no dia 21 eu vou é aproveitar. Se o mundo não acabar, a única coisa que tenho certeza que vou ter é ressaca...

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