sábado, 28 de julho de 2012

Como me tornei gastrítico

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários


Os meninos, donos e senhores da casa, 
fecharam portas e janelas,
 e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala.
 Um jorro de luz dourada e fresca feito água
 começou a sair da lâmpada quebrada,
 e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. 
Então desligaram a corrente,
 tiraram o barco, e navegaram com prazer
 entre as ilhas da casa.” 
(A luz é como a água
Gabriel Gárcia Márquez)

Tudo começou quando passei a levar as coisas a sério. Mas isso não foi uma opção minha, uma escolha, ao mesmo tempo, tampouco foi fruto de condições que me foram impostas por outras pessoas ou circunstâncias, uma necessidade obrigatória e inescapável. Só hoje percebo que, simplesmente, a partir de determinado momento, de um período, passei a levar as coisas a sério. É o único comentário que encontro.

Eu devia ter uns 14 anos, ou talvez já estivesse passado dos 27, não me lembro, já faz muito, mas, apesar da diferença entre as datas, minha gastrite deve ter começado nesse intervalo. Ali me encontrei enquanto sujeito, ser humano, como se diz, e não enquanto alface, claro. E se parece absurdo falar de um adolescente para um homem a beira dos trinta indiferentemente, quando tudo isso já passou há tanto não existe diferença alguma. Sabe como são as lembranças, meio imprecisas, embaçadas, esfumaçadas, envolvidas de incerteza. Assim, fica mais difícil ainda falar da minha gastrite, que me acompanha desde então. Nalguns momentos, não percebo mais a respiração pelo movimento do diafragma, ou palpitações que sejam, não penso num conceito importante, ou sequer me ocorre aquela citação precisa, apenas sinto que, por dentro, da altura do umbigo ao queixo, tenho um enorme e vibrante estômago sofrendo.

A primeira recordação me vem de uma namorada, óbvio, que me deixou sem que eu tenha imaginado qualquer esfacelamento, ausência ou perda de encanto. Andávamos pela rua, no caminho da minha casa, quando ela, enquanto eu mordiscava meu pão de queijo, me disse que encontrara outra pessoa, e também sobre como era compreender a condição de nossas vidas: às vezes, para alguns, de estoica solidão. O pão de queijo, carnudo, quente, macio, autêntico, naquele instante, ressecou-se, tornou-se praticamente uma massa de polvilho velha: a saliva eu perdera. Segundos depois, o entendimento, o raciocínio enfim compreendeu o que o corpo, por meio do paladar, já havia entendido. Não era só mais um fora, como se diz hoje, mas o tom cerimonioso fizera daquelas palavras uma ameaça de destino. Levei muitos anos para digerir aquele pão de queijo.

Depois disso, duas coisas me marcaram profundamente o desentendimento.

Estava num ônibus cruzando a cidade para o trabalho e, descendo uma avenida movimentada, ouvimos todos ali dentro, de repente, a sirene esganiçada, como todas o são, é verdade, de uma ambulância. O motorista, como todos nós, assustou-se ao mesmo tempo em que tentou tirar o enorme veículo que dirigia do caminho. No movimento brusco, um rapaz lá no fundo, mais ou menos na mesma direção que a minha, um pouco atrás, gritou que ali não viajavam vacas e bois, não. O motorista não se manifestou, já o cobrador, que ainda naquele tempo era uma profissão, não se conteve. Segundos antes da manifestação do sujeito, o cobrador estava a vontade, esparramado, com as pernas voltadas para a frente do ônibus, o corpo para trás. No entanto, ao reagir, ajeitou-se na poltrona, fez-se imperioso. Aqui não tem vagabundo pra você sair gritando, não, viu, irmão, disse, aqui é tudo pai de família, dobrava as mangas da camisa para trás, erguendo o indicador. Você não viu, não percebeu a ambulância que passou, não, questionou. Sentado, mais ou menos na mesma direção para a qual o cobrador olhava ao falar, não assistia às mangas serem dobradas assustado ou com medo, mas não é coragem minha, confesso. A discussão mudou de tom. Não venha justificar o erro do outro, cara, pela voz, o rapaz transmitia um nervoso soluçar. Esse motorista vem dirigindo assim lá desde baixo, feito louco, completou. Não havia mais mangas e o dedo do cobrador estava decidido a não se abaixar, enquanto ele finalizou. Olha só, aqui ninguém é obrigado a ouvir gritaria, se você quer se queixar, ao descer, anote o número do veículo e ligue no telefone que está ao lado do mesmo número na parte de trás do ônibus, mas não venha gritar com pai de família, rapaz, finalizou o cobrador. Nunca o barulho do trânsito lá fora foi tão alto enquanto aquele rapaz não desceu no ponto que o esperava. A saída mesmo foi espetacular, com mochila sendo jogada no ponto e coreografia improvisada para anotar os tais números. Todos estávamos num silêncio que possibilitou ouvir o arfar do motorista ao arrancar, muito mais veloz do que vinha anteriormente. Talvez fosse o estômago dele reagindo, quem sabe.

Não me vinham por quês, não procurava por explicações, esclarecimentos ou resoluções, não pensava em nada, apenas sentia meu estômago.

Outra vez foi tentando relaxar, fugir do trabalho que colocava o jaleco em mim 24h. Como qualquer menino chorão, corri para os braços de mamãe. Já muito mais esperto diante dessas situações, abraçava o sarcasmo antes que a desfaçatez do absurdo se ajustasse ao conveniente. Em menos de quarenta minutos de estrada, diante das mais de seis horas de viagem que me esperavam, ouvi tapas e pequenos gritos de me devolve, é meu. Quando sai da vigília, os gritos e tapas ficaram mais altos, não eram apenas irmãos ou uma mãe e crianças num entrevero, como eu imaginava sonhar. É bom lembrar,  algumas pessoas usavam músicas altas nos aparelhos celulares naquela época. Então, a mulher pediu para a moça abaixar o volume da música, a moça não abaixou, a mulher tomou da moça o aparelho e foi feito o alvoroço. Quando achei que deveria levantar a cabeça da poltrona e olhar, somente ver mesmo o que já tinha ouvido, o aparelho celular cruzou os ares do corredor do ônibus. O aparelho ainda bateu as costas de uma poltrona lá na frente e caiu no colo de outra moça, esta se levantou como... como tudo aqui desde o começo, que se percebe pobre literária e metaforicamente, em uma película de zumbis lado B. Você está louca, sua gorda, escrota, se esse negócio acerta a minha cabeça eu te estouro. Uau, engoli. A moça, dona do aparelho, tinha uma criança de três anos que àquela altura estava em muitas lágrimas, escondida debaixo da poltrona da mãe. Enquanto isso, seguia a troca de tapas e ameaças ao som de Jesus, Deus, põe Deus no coração, gente, repetidos por uma senhora de voz adocicada. Outros gritos avisaram o motorista: já era tempo de parar aquela viagem. A polícia foi chamada, a briga foi separada, a criança tirada debaixo da poltrona e dos berros. A mulher quase atingida pelo aparelho celular, contudo, ainda se mantinha de pé, retrucou uma das ameaças de agressão, alternava dois passos a frente e um para trás, dois para trás e um para a frente, fazendo esvoaçar a jaqueta longa e ressoar o tamanco no assoalho: ê, você cala a sua boca, sua gorda, escrota, vai emagrecer, faz só dois anos que eu to na rua de novo e a última pessoa que me ameaçou tá morta. Mata, mas sem barulho que eu quero dormir, gente, alguém poderia ter dito.

Essas lembranças não são do pensamento, são do corpo, são dor física, nesses momentos o que eu tenho é um estômago queimando. No ônibus de viagem, foi um período em que eu já não queria uma crença renovada para enfrentar o mundo, reconhecer-me diante das coisas e entender onde eu estava, não, preferia o cinismo, uma franqueza cretina. Eu, que nunca fui um bêbado, que nunca fui de comida gordurosa, que cruzei a infância com fama de menino tranquilo, distraído, alegre, bem humorado, ploft, passei a sujeito preso numa caixa de Omeprazol, com dicas para reconhecer excessos de ansiedade e nervosismo, com exercícios de relaxamento e auto-controle para não enfrentar crises de gastrite. O mundo e as pessoas não eram o que eu queria ou esperava que fossem, me diziam, como se diz aos adolescentes, aos jovens, aos adultos imaturos. Não, mas já naquela época, eu sabia que eu não era nada, que era apenas mais um, e tampouco estive à procura de um caminho, de um lugar para ir, sabia resignadamente que o que nos resta na vida é esmiuçar uma diversão qualquer diante de tudo. Alguns diziam que eu precisava de fantasia e imaginação para o meu realismo fatalista. Nos livros, para eles, eu deveria encontrar um remédio. Que mundo.

Pois bem, hoje pouca coisa mudou, não saio sem comprimidos para o caso de um ataque, mas paro e retiro do real-absurdo que me aparecer as duas palavras que compõem a mesma expressão. Sonho com as coisas, fragmentando-as, até que percam o lastro: como um sobrado azul de portão branco, paredes arranhadas pelo tempo e jardim desgovernado, quando eu tenho um chapéu também azul que me cobre o rosto, uma máscara, enfeites e algum desconcerto, talvez revolta, encerrado aos pés de uma grande árvore que não entende o inverno. Encontro nas paredes do sobrado o número 183, mas queria que fosse o 44, não, o 77, e faço do que vejo combinações que me deem um 4 ou um 7 repetidos. Minto, só queria escrever.

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