sexta-feira, 11 de maio de 2012

A marca de batom

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários


Eram quase sete, porque o ônibus estava marcado para sair às sete e dez daquela manhã de segunda-feira após um feriado qualquer, então o motorista deve ter chegado pouco mais de dez minutos antes para pegar todos, inclusive aquela marca de batom estorvo que aparecia no meio de todos, empilhar as malas e ainda coser uns instantes antes de partir. Talvez tivesse passado um dia santo, uma comemoração importante da nação, mas seguramente não passara o Carnaval, o que tornava tudo muito estranho, mais ainda aquela marca de batom, que após uma quarta de cinza teria razão. O Carnaval estava próximo, sim, então não fazia sentido estar frio como estava. O frio também impedia, como era óbvio, que as roupas fossem tão coloridas, já que não era Carnaval, é preciso insistir, numa manhã de segunda-feira fria, porque se as manhãs são de segunda-feria, são cinzentas, mesmo que não sejam as cinzas de uma quarta que anuncia o fim do Carnaval, que ainda não havia chegado, oras. Era uma segunda fria por dentro e por fora, e se de frio, também não deveriam ter tantas cores, ou no máximo três ou quatro que vão do cinza ao negro nas roupas de frio. O dia era muito claro, com luz intensa ainda tão cedo, e frio, não ventava, mas era claro e frio, era impossível para aquela cidade que está num buraco no meio do mapa. Era verão, só que fazia frio, sem vento e com muita luz, impossível. Tamanha confusão assim não ia embora enquanto não batesse sete e dez e o ar condicionado estivesse ligado para as quatro horas seguintes pela rodovia, e também enquanto aquela marca de batom vermelho não desaparecesse da vista.


Apesar de já pensar no frio incômodo que então proviria do ar engarrafado que passaria a circular com o movimento sonolento do ônibus, sempre encontro alívio quando lembro que as poltronas dos ônibus de viagem, por enquanto, não se inspiram naquelas dos vagões de metrô ou de ônibus circular, com suas poltronas viradas, de lado, ou que nos deixam de costas para o sentido que segue a viagem. Tranquilo por deixar aquela marca fora de lugar longe dos olhos, me atormentava imaginar aquela viagem de costas, pois em poucos instantes nessa posição fico enjoado. Janelas, corpos, tudo ao redor começa a flutuar como se eu estivesse numa piscina de perfume muito adocicado. Talvez esse fosse um mal, não um mal qualquer, mas um mal do qual muitos sofremos, o mal de paralaxe. De costas para o sentido da viagem, é como se tudo nos corresse, tudo nos fugisse, nos deixasse, nos abandonasse. De frente, o mundo vem ao nosso encontro. Sentado onde estamos, a paisagem e o movimento nos procuram, nós somente esperamos, intransitivamente, é mais cômodo. É o mal de paralaxe egocentrado, dirão os cientistas. Cuidado, não se identifique, ou você será aprisionado num esquema qualquer – o que é mais assustador ainda – no qual estará encerrado, sem razão para estar como quiser ou puder, você sobretudo será algo definido, pronto, acabado, resumido, e um eufemismo lhe restará, com um gênio irônico cujo santo não bate pelo mundo afora.


Droga, aquela marca no rosto que estorvava tudo enquanto o ônibus não chegava, droga, estava agora ao meu lado, tinha rosto, corpo, se protegera da luz com a cortina cinzenta da janela à esquerda, mas estava ao meu lado, droga, eu tinha que dividir o braço da poltrona com ela, droga. Trocar de poltrona, caramba, era só trocar de poltrona. Inclusive, na poltrona de trás e logo à direita, colada no corredor, estava aquele homem, como era mesmo o nome dele? Ficara famoso há anos, não famoso, famoso, mas reconhecido por tanta gente, foi parar na tevê, no programa de domingo, era pai daquele menino que estudou com minha irmã. Como era mesmo o nome do menino? Eu poderia dizer-lhe que me lembrava dele, que ele era mesmo muito corajoso por fazer tudo que fez, mas o que foi mesmo que ele fez? Sim, ficara minutos, muitos minutos debaixo d'água, sem respirar, quebrara algum recorde importante. Ou teria sido no gelo, ele teria ficado numa câmara resfriada muitos graus abaixo de zero, apenas com uma roupa de baixo, durante horas? Não, talvez ele tivesse ficado muito tempo debaixo de água muito muito gelada, e também sem respirar, ultrapassando os limites... os limites... do corpo e da mente, da mente sobre o corpo. Era um ícone, tinha os olhos assustados e parecia muito concentrado nas músicas que alimentavam seu fone de ouvido. Ele bem poderia ser o narrador dessa história também, um narrador em terceira pessoa que não me entregasse, como agora, na primeira do singular. Sendo ele o narrador, eu me livraria de um possível interrogatório com os porquês e os pra quês da história, da escrita, do sentido, da construção, da discussão. Porém, do lugar dele não era possível sequer ter uma vaga noção da marca despropositada no rosto da moça ao meu lado. Aquela marca de batom estava na face para o lado da janela, só mesmo quem estivesse onde eu estava podia perceber. Se ao menos o Google Street View, além de possibilitar saber o tráfego nos quilômetros seguintes, fosse capaz de dar a visão que eu tinha sentado ao lado da moça, ao mesmo tempo que deslocado para a poltrona do homem que foi para o livro dos recordes. A tecnologia não me ajudava, então eu poderia fingir ser o homem dos recordes e contar essa história. Pronto, sendo o homem dos recordes sentado na poltrona logo atrás, já sabendo da marca de batom vermelho da moça que estava ao meu lado, a história poderia enfim transcorrer e o fado por um texto como este, que não se desanuvia, estaria abandonado. Não, se o homem dos recordes decidisse ir embora, descendo antes do destino final do ônibus? A história não terminaria, seria roubada por uma decisão mesquinha do homem dos recordes, não.


A marca de batom vermelho não era grande como se não fosse possível não percebê-la, nem pequena o suficiente para somente reparar quem perscrutasse a moça com o olhar. O vermelho da marca é que era vermelho demais, não como o vermelho do rubor de uma criança flagrada cometendo um pequeno delito, mas vermelho como são as luzes fluorescentes de uma sinalização na estrada noturna, um vermelho que não cabia em vermelho. Talvez fosse o caso de dizer que era um vermelho Almodóvar, mas isso seria um clichê, ainda que o fosse aquele vermelho, clichê e Almodóvar. A moça chegara antes de mim na poltrona e, embebida de sono, imagino, logo se ajeitara, quando cheguei apenas encontrei novamente a marca de batom, que agora tinha o rosto dela, enquanto ela já parecia dormir. Em alguns minutos, e já na rodovia, eu sabia os movimentos que ela faria nas próximas horas, dada a repetição, reservando-se a apertar os braços estendidos contra o corpo, ou mesmo empurrando com uma das mãos a blusa de lã que levava aberta sobre a camiseta roxa justa por baixo. Os pés se mantiveram sobre o encosto para as pernas, e estas também ficaram esticadas pelo jeans. Os pés eram feios, a sandália também, mas não eram os pés feios pelo formato, eram feios pela sandália velha e feia, e pelo pouco cuidado que aparentavam da moça com seus próprios pés, rachados, muito mais velhos que o rosto que dormia. A moça era pequena, franzina não de fraqueza, apenas de pequenina. Os cabelos é que pareciam muito longos, longos demais para uma moça pequena, produzindo uma espécie de descompasso entre o caminhar de uma moça pequena com o cabelo tão comprido, eu imaginava. Descompasso nada comparado ao da marca de batom em seu rosto.


Quem seria capaz de usar um batom como aquele em plena manhã de uma segunda-feira fria e, além do mais, beijar com tamanho entusiasmo o rosto de uma moça pequena e de cabelos tão compridos? Tenha bons modos ao imaginar uma resposta, leitor. Apesar do sono que a moça aparentava, ela não saíra de uma festa na madrugada que se encerrou pouco antes, seguramente, tampouco teve como companhia alguém de extravagância pouco preocupada com a moralidade vigente para que se imaginasse qualquer despudor.


Nas minhas mãos, Orlando ficou esquecido, e na rodovia que conheço tão intimamente, já que vai para quase duas décadas a nossa relação constante, não encontrei a árvore arregalada e enorme à direita do asfalto depois da quinta cidade e do lago intimidado pelo canavial. A moça apertava os braços contra o corpo e empurrava com uma das mãos a blusa de lã em direção a cintura enquanto dormia. Sequer fui capaz de ser levado a meados do século XIX pelo casarão branco de uma antiga fazenda de café, encrustado num morro à esquerda, mais ou menos próximo da penúltima cidade antes do fim da viagem. Entre palmeiras que não são da região, mas que caem bem ao cenário extemporâneo, às cercas baixas e ao portão enferrujado, a fazenda e sua sede se perdem a seguir diante das indústrias, favelas e pobreza igualmente desenvolvidas na região mais progressista do país. Não dormi, não conseguia ler, a marca de batom da moça me incomodava sobremaneira. Mas também sempre tive muita dificuldade para dormir em viagens, somente consigo sacolejar com o balanço, com o movimento do veículo, não avanço o estado de vigília. É como se estivesse o tempo todo acordado, vivendo em um corpo grande demais para mim, vagueando e esbarrando em quinas e cantos imaginariamente absurdos, assistindo ao mundo que passa, de maneira desinteressada para mim, que não reconheço meu corpo e sorrio de desdém diante de um reflexo que me identifique. A moça seguia apertando os braços estendidos contra o peito e com uma das mãos puxava a blusa de lã para baixo. Tentei lhe imaginar, sem sucesso, como aquela menina que quase corria empurrando sua bicicleta num fim de tarde, quem sabe feliz pela chegada de uma noite bonita, quem sabe pela expectativa de uma viagem tão esperada que logo se realizaria, mas que de todo modo trazia nos olhos, em pequenos gestos e em cada linha do rosto, um sorriso discreto. O rosto com aquela marca de batom, não.


Como podia aquela marca? As mãos pequenas dela ainda denunciavam, ao lado dos cabelos longos, ela pouco se importava com cremes hidratantes, unhas coloridas, cutículas ou lixas. Louvável. Sim, era isso, ela só poderia mesmo ser muito religiosa, de uma ordem demasiado fechada, rigorosa, controladora, moralista, repressora de algo que beirasse a exibição pública de sensualidade. Provavelmente, era de uma daquelas igrejas em que se é obrigado a pagar todo mês para crer e ter fé em Deus. Não, mas a blusinha roxa por debaixo da de lã era justa, em v, ela continuava contraindo os braços contra o corpo, levando a lã do casaco fino em direção ao colo. No sono, conforme ela se contraia, os seios cresciam de maneira imprópria para qualquer igreja, imagino. Não eram largos, nem proporcionais ao tamanho dela, tão pequena, mas ela, numa ordem religiosa dessas, não poderia usar uma blusa assim, que desse aquele movimento aos seios. Sim, ela era de uma ordem dessas, de uma religião em que o corpo dela não existia senão para a reprodução, em que sua exposição ou toque estava reservado a sociedade dos homens, para o marido, obviamente. 

Ao acordar, ela era quase como dormia, mas cobriu completamente o peito escondendo a blusa roxa, enfim, ficou contraída por inteiro. O quadril pouco mais largo que o corpo delgado dela, enterrara-se ao fundo da poltrona, quando antes estava entregue ao conforto despreocupadamente. Os braços cruzavam a cintura, ela talvez tivesse mesmo muito frio, e os olhos, semi franzidos, denunciavam a seriedade, ou apenas o contragosto de um sono atrapalhado no fim da viagem. Do rosto pouco consegui ver enquanto ela estava sentada ao meu lado, já acordada, mas enquanto dormia, levava os traços abertos, redondos, suaves. Os olhos, no entanto, entre o verde e o castanho claro, não foram capazes de me encarar enquanto lhe tentava puxar assunto, para dizer, como com surpresa minha, que havia uma marca de batom no rosto dela. Coisas banais como o tempo claro lá fora e a viagem tranquila e rápida não a fizeram movimentar o pescoço, apenas assentir com os olhos e manter-se em sua posição. Talvez fosse mau humor, talvez não, talvez eu a tivesse assustado enquanto a observava, mas ela dormia. E se me sentia uma espécie decadente de galanteador parecendo, na verdade, um sujeito estranho e babaca, o terror a assaltou quando, já com o ônibus muito próximo da plataforma de desembarque, com a ponta dos dedos toquei  o braço dela colado ao corpo lhe dizendo que havia uma marca de batom em seu rosto. Pela última vez ela comprimiu os braços, levando uma das mãos à face para limpar impetuosamente a marca, os seios não existiram nesse momento. Não sem algum sarcasmo, lhe disse para ter calma, que estava bonito assim. Ela parou, franziu ainda mais as sobrancelhas, e só me encarou quando eu, já de pé, resgatando a mochila acima para sair, me virei para o fundo do ônibus. Ela em seguida desviou o olhar.


Já na plataforma, eu era acometido não pelo arrependimento de ter gastado aquelas quatro horas em absolutamente nada, ou pela aversão ao ser que eu a mim me apresentava, com todos aqueles pensamentos. Me amedrontava imaginar rever aquela pequenina criatura só não feia enquanto dormia, ou enquanto a imaginação alheia lhe procurava alguma beleza. Quando agarrei minha outra mochila no maleiro debaixo do ônibus, senti que me olhavam, só poderia ser ela. Era. Por fim, encontrava o século XIX, os cabelos lhe tocavam uma das mãos nos braços que se mantinham comprimidos ao longo do corpo. Só que os olhos então transmitiam uma absurda clareza, e não fugiram novamente ao me encontrar, a testa não se fechou, pelo contrário, os lábios deixaram um ao outro lentamente para abrir um sorriso faceiro, gostoso. Ela já não tinha a marca de batom vermelho.









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