domingo, 15 de abril de 2012

O ladrão de nariz

. . Por Hugo Ciavatta, com 3 comentários

Gordo, ele era gordo, não era imenso, não era um pouco, mas era gordo como se é, gordo. Gordo de calvície gorda, de cara gorda, de pescoço gordo, de bigode escasso e... gordo. Gordo de nome, como era conhecido, “o Gordo”. Gordo de mãos gordas, dos pés gordos nos sapatos da sapataria do Gordo que então levava nos fundos da casa dele. A sapataria antes ficava a alguns quilômetros e ele ia com um fusca, um carro adequado para a sua estatura, e mais adequado ainda porque é um carro, como se percebe, gordo. Mas o trabalho, que como qualquer outro sempre foi, e sempre será, um passatempo, perdeu a aura de obrigação, era mais do que nunca só uma forma de ocupar as mãos e a cabeça naquela época, depois que o mais novo dos filhos, já com emprego fixo, casara-se. O Gordo se aposentou.

A formalidade talvez o levasse a se apresentar como Otávio, mas a derivação que logo se seguia era pouco óbvia, ainda que os ós no nome, de saída e término, já dissessem o que se via, era gordo. Seu Otávio também não era muito a cara dele, que para a maioria da família, talvez por ser pequeno na altura, como deixava claro mais uma vez o automóvel, ficou como o-Tavinho. Já para os mais próximos, nada mais apropriado que a derivação do Gordo, o Gordinho, o-Gordim. Com os filhos sempre fora bastante sério e responsável, com a mulher, às vezes, até duro: um mistério, porque, a despeito destes, ninguém o levava a sério, talvez nem ele mesmo.

Me lembro de sua voz, meio rouca, dizendo “Ô, véia, traz a menina pra eu ver”. Minha irmã tinha poucos meses e ficávamos na casa d'O Gordo quando minha mãe precisava ir ao centro da cidade. Naqueles meses ele não saía do quarto, só ficava na cama, diziam que a perna não estava boa.

O-Gordim era um ladrão e minha mãe, ingênua, não suspeitava. Não sei, não há relatos ou qualquer indício de que isso fosse uma prática recorrente antes. De todo modo, senti na pele os furtos dos quais ele era capaz, antes dessa época que ele ficava no quarto. Me chamava, com a mesma rouquidão, “Ô, menino, vem cá!”. Sentado naquela poltrona toda acolchoada, de ferro, mas cujos braços eram de madeira, debaixo da janela da cozinha. Até hoje, ao me lembrar, vem aquela sensação pegajosa, o Gordo costumava bagunçar o cabelo da gente, cutucar as orelhas, pentelhar, ele dominava como ninguém a arte de pentelhar. Quando eu me aproximava, ele me segurava com uma das mãos, dobrava os dedos da outra formando um “dois”, como um V, e me levava o nariz. No instante seguinte, sua mão voava em direção à janela e eu ouvia, tentando me desvencilhar, que o meu nariz estava no galinheiro do terreno nos fundos da casa. “Mentira, mentira, mentira: tá aqui ó!!”, eu dizia, enquanto mostrava-lhe que entre os meus olhos nada mudara. “Ouve só, vai lá ver então, no galinheiro, a festa que tá com esse seu nariz aí, mané”; “Não to ouvindo nada... aí ó”; “Vai lá perto então”. 

A porta dos fundos que dava acesso ao galinheiro não se fechava, emperrava-se, e com um pouco de jeito, coisa que alguém de cinco anos tem de sobra, era aberta aos solavancos e puxões suaves, abrindo com um rangido interminável. Sim, dava certo cala frio abrir aquela porta e ver o alvoroço das aves atrás da tela, enquanto imaginava meu nariz sendo alvo da algazarra. Não era possível, “aqui ó”, eu repetia, com a mão no rosto. 

Só com a mulher do Gordo se podia conversar de igual para igual: “Ô vó, o meu nariz tá no galinheiro?!”; “Ah, menino, deixe de dar confiança pra esse velho!”. Eu voltava para a cozinha disposto a resolver aquilo tudo de uma vez! “Pow, pow, pow!", mas era atingido por almofadas e mais almofadas, e uma batalha, uma guerra se iniciava! Atrás da mesa, nada me servia de armamento, tinha que desviar dos ataques, esperar, pegar as almofadas e contra-atacar. Tudo isso se repetiu umas quatrocentas e setenta e quatro mil vezes.

Naquela cozinha, durante aqueles anos e muito tempo depois, entre a porta que dava acesso ao quintal e aquela para a sala, estava o Morumbi, o Maracanã, ou apenas o Santa Cruz. Talvez o Gordo preferisse o Palma Travassos. Naqueles anos, também, já estava anunciado, nem eu, ou qualquer outro primo seria engenheiro, ou arquiteto, não passaríamos das construções de Lego. Era a vó mesma quem fazia as bolas de meia, porém, qualquer tampa de plástico ou algo que deslizasse o piso branco manchado de marrom era suficiente para fazer cadeiras, janelas, persianas, mesa, porta e armário tremerem feito traves e arquibancadas. Muitos craques desfilaram ali. Neymar ficaria com inveja.

O Gordo não viu. Imagino que aqueles homens vestidos de branco que o levaram do quarto um dia, quem sabe, tivessem razão. Um ladrão não poderia ficar assim, à solta. Minha mãe me veio com uma conversa dias depois, dizendo que eu ia ficar em casa com uma prima muito alta durante aquela noite. O galinheiro depois disso sumiu. Ficou o pomar no quintal. O-Gordim, bandido, na certa deve ter levado tudo ao fugir. Mas ele perdeu a guerra, mané, e eu ainda tenho meu nariz.

A poltrona pelo menos ficou, foi para a sala. De lá, via-se também as janelas dos quartos, e o mundo sim era muito grande lá fora.

3 palpites:

Muito bom hugo, parabéns.

Muito bom, Hugão. Gostei do começo, gostei do fim, gostei muito do Gordo. E adorei essa frase: "Mas ele perdeu a guerra, mané, e eu ainda tenho meu nariz". Abração!

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