VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

sábado, 26 de novembro de 2011

Na esquina de uma cidade

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Na esquina de uma cidade, o encontro entre ruas distintas. Beirando a quina, pessoas trocam olhares, informações, decifram-se sem palavra alguma. Por que aquela velhinha não atravessa na faixa de pedestre? Meu Deus, onde está a mãe daquele garoto? Pra onde vai aquele japonês? Será que ela estava olhando pra mim?

Na esquina de uma cidade, as mesas pra fora do bar indicam fim do expediente do cliente, início do expediente do garçom. O primeiro gole do chope, experiência única do dia, libertação, finalmente se vive! É hora de discutir futebol, olhar as pernas das moças, falar mal do chefe, fazer amizade com o garçom na utopia de uma saideira gratuita. É hora de sentir o por-do-sol, que não queima ardido, mas é suficiente para não deixar a alma congelar.

Na esquina de uma cidade, são tantas buzinas, tanta pressa pro fim, que o melhor a fazer é incorporá-las à paisagem. Buzina de sinal abriu, buzina de vai logo, buzina de seu lerdo, buzina de oi - esta cada vez mais rara. Têm aqueles que quando dirigem, ligam o som bem alto, acho que para ausentar seus ouvidos da buzina alheia, ou, quem sabe, para reagir ao trânsito parado da única maneira possível: movimentando o corpo a dançar de dentro do carro.

Na esquina de uma cidade, a praça fica em frente ao bar e nela, em pé sobre bancos, missionários disputam atenção, cada qual com seu Deus, que dizem ser de todos. Há também aqueles deitam nos bancos e cujo único Deus é a cachaça, esses já não sabem o dia, a hora e o local. Têm dificuldade em articular sujeito-verbo-predicado e, deitados, sentem o sol acariciar a futura ressaca.

Na esquina de uma cidade, guardas observam a tudo e todos: japonês perdido, velha imprudente, garoto sem mãe, o gole de cada chope, motoristas dançantes, missionários, bêbados, buzinas. Difícil saber o que pensam, mas é fácil reparar que todos que passam olham para as suas cinturas, admirando as suas armas, ainda que sob temor.

Na esquina de uma cidade há um prédio, e dentro desse prédio, vivo sozinho num andar mais ou menos alto. Daqui, gosto de observar toda a gente a viver no por do sol, agentes de minha paisagem. E é nesse horário, todas às sextas feiras, que vejo uma loira, atrás de uma árvore da praça beijando - um longo beijo - a boca de um jovem rapaz. Tímida, olhando pros lados, vez em quando olha pro meu prédio, pro meu andar, até criar coragem para se despedir do moço.

Na esquina de uma cidade, choro um pranto resignado, mas é tarde, sempre foi tarde. Ela não sabe que tenho binóculos, nem que os coloco por entre a persiana na sexta-feira, nem como me machuca carícias tão ternas ao por do sol. Mas já é hora de abrir as persianas, guardar lágrimas e binóculos. A qualquer momento a porta há de se abrir e ela - loira, sorridente e dissimulada - entrará em nossa casa perguntando como foi meu dia, beijando-me os lábios.

Na esquina de uma cidade, minha vida é aguardar o dia em que, tomado por uma coragem que inexiste em mim, responderei com sinceridade absoluta à essa pergunta.

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Misturas Relacionadas:

Esquinas, Caixas e Luzes

terça-feira, 22 de novembro de 2011

[Tradução] Nos Divertindo Até A Morte

. . Por Fernando Mekaru, com 3 comentários

Discussões sobre o impacto midiático, sobre o comportamento e o pensamento humanos e da chamada media ecology (tradução grosseira: ambiente midiático) ocorrem com certa frequência atualmente: em geral, tratam-se de discussões e ensaios que buscam expor, de uma maneira ou outra, como os grandes instrumentos de veiculação de informações (em especial a internet) podem colocar tanto um brilhante futuro de democratização cada vez mais massiva e efetiva dos meios de informação das pessoas, ou então como a decadência dos antigos instrumentos de veiculação (em especial a mídia impressa) conjuntamente aos problemas ignorados dos novos veículos, que acabarão por gerar uma sociedade em que a quantidade de informações é mais importante que sua qualidade, o que resulta em uma sociedade onde todos tem conhecimento, mas muito pouco dele.

Independente da visão que esses debates procuram colocar, a impressão que fica é que esse tipo de discussão só surgiu após o advento da internet, que evidenciou em escala exponencial as potencialidades positivas e negativas de um veículo midiático relativamente barato e de fácil acesso: com tamanho impacto sobre a sociedade, fica difícil não surgir um sem-número de análises que procuram dizer se o impacto da internet sobre o mundo dá a ela o papel de messias ou de precursor do fim-do-mundo.

Este debate, porém, é mais antigo do que se pressupõe: o título de "veículo midiático que mudou o mundo e a maneira de se relacionar com as informações que possuímos" não é exclusividade da internet. Mais: as questões que ele coloca continuam praticamente as mesmas, apesar da passagem do tempo.

Abaixo, segue a tradução livre de um dos textos pioneiros sobre essa discussão: ele é da autoria de Neil Postman, um dos discípúlos de Marshall McLuhan - pai da máxima "o meio é a mensagem" e importante guru dos estudos de mídia e comunicação social. O texto foi escrito como um prefácio do livro Amusing Ourselves to Death (Nos divertindo até a morte), que se dedica a descrever duas possibilidades disópicas em relação ao impacto que a televisão poderia ter sobre a sociedade com base nos olhares de Aldous Huxley e George Orwell, mas o texto envelheceu muito bem e pode ser considerado como um olhar interessante sobre a sociedade atual.

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Estávamos prestando atenção em 1984. Quando ele chegou e a profecia não se concretizou, americanos pensativos se deram o direito de elogiar a si mesmos calorosamente: as raízes da democracia liberal se mantiveram firmes e, enquanto terrores aconteciam em outros lugares, os EUA ao menos não haviam sido visitados por pesadelos orwellianos.

Nos esquecemos, porém, que além da visão sombria de Orwell, havia outro ponto de vista - ligeiramente mais antigo, ligeiramente mais obscuro, mas igualmente assustador: aquela colocada por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo.

Ao contrário do que o senso comum dita até mesmo entre os mais intelectualizados, Huxley e Orwell não descreveram a mesma coisa: Orwell alerta que seremos subjugados pela opressão imposta de maneira externa, mas na visão de Huxley o Grande Irmão não é necessário para privar as pessoas de sua autonomia, maturidade e história. Na visão de Huxley, as pessoas acabarão por amar seus opressores e adorar as tecnologias que desfazem as suas capacidades de pensar.

Orwell temia aqueles que desejavam banir livros; Huxley temia que não haveria razão para banir livros, já que não haveria ninguém desejoso de lê-los.

Orwell temia aqueles que desejavam privar as pessoas da informação, enquanto Huxley temia aqueles que nos dariam tanta informação que seráimos reduzidos à passividade e ao egoísmo por conta disso.

Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós; Huxley temia que a verdade fosse sufocada em um mar de irrelevâncias.

Orwell temia uma cultura que é refém constante de uma única pessoa, enquanto Huxley temia uma cultura trivial, obcecada com entretenimento, hedonismo e lazer.

Como Huxley comentou na edição revisada de Admirável Mundo Novo, os movimentos pela liberdade e intelectuais que estão sempre alertas para se opor à tirania não levaram em conta o apetite quase infinito dos homens por distrações.

Em 1984, Huxley comentou, as pessoas são controladas pela administração da dor; em Admirável Mundo Novo, elas são controladas pela administração de prazer.

Em resumo, Orwell temia que aquilo que odiamos seja a causa de nossa ruína; Huxley temia que aquilo que amamos seja a causa de nossa ruína.

Este livro é sobre a possibilidade de que Huxley, e não Orwell, tenha acertado.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Meu estranho vizinho

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

Bom dia, vizinho

Acho que você não me conhece. Esquisitas são as nossas vidas, porque na cidade dos meus pais, por exemplo, que não é nenhum fim de mundo de pequenina, todos na rua, no quarteirão, se conhecem, senão amigos, pelo menos de cumprimentos rotineiros. Já aqui, por outro lado, neste lugar tão pequeno, nós, eu, que estou aqui há quase um ano nesta rua, nunca sequer vi você entrar ou sair de casa. Se pelo menos houvesse um elevador para nos encontrarmos, casualmente, como em geral acontece nos condomínios verticais, mas não há, são apenas nossas casas, uma de frente para a outra.
Bom, mas quem sou eu, que te escrevo agora? Sou um estudante, divido a casa aqui com uma amiga - e o namorado dela, que sempre está presente, é verdade, mas pelo menos ele faz café de vez em quando, ainda que economize pó pra isso, céus! -, saímos todos os dias para passear com a cachorrinha aqui de casa, você já deve ter reparado. Não, eu não sou aquele de barba e cabelos desgovernados. Uso óculos também, mas são maiores que o meu rosto, e se pareço desengonçado e atrapalhado, acertou. Só não sou eu também quem pára sempre com uma das mãos na altura da cintura, nas costas, e com a outra fica coçando o queixo. Tsc tsc. Conheço poucos vizinhos neste quarteirão, alguns sei apenas quem são, poucos eu cumprimento. Sabe como é, frequento a padaria aqui perto, na rua de trás, então alguns eu vejo com mais regularidade. Sua casa pra mim antes era apenas mais uma no cenário da rua, agora não, mesmo sem nunca ter posto os olhos em você, sei quem vive aí nesta casa. É.
Há uma semana, havia acabado de escurecer nesse horário de verão, e eu, que chegava em casa, vi um furgão enorme da Polícia Militar na frente da sua casa. Você já deve ter visto, era um carro daqueles da base local. “Comunitária”, se eu não estiver enganado, é a palavra que está escrita na lateral do veículo. Seis policiais estavam na calçada de sua casa. As luzes da sirene estavam ligadas, girando, e pelo menos não tinha aquele apito, só mesmo as luzes informavam a urgência. Mais do que curioso, fiquei assustado, muito, mesmo. Imaginei que fosse um assalto, um roubo, pela minha cabeça passaram ainda estupro e morte, coisas que, infelizmente, tem sido comuns mundo afora. Três mulheres, duas senhoras e uma moça estavam junto aos policiais, e todos olhavam para sua casa escura, fechada.
Não, não, não fiquei preocupado por serem tantos policiais, não acredito que eles sejam todos maus por natureza, profissão ou condição social, ou que sejam todos iguais, como autômatos treinados única e somente para bater, prender e matar, mesmo que diariamente encontremos exemplos de violência policial, abuso de autoridade, corrupção etc. São funcionários públicos, pelo menos por enquanto, cidadãos comuns, bem informados, formados e mal pagos. Só que muitos são pessimamente preparados, é verdade, porém, os problemas que envolvem a polícia são sociais, de organização e administração pública, são problemas políticos. Nem passa pela minha cabeça, também, que policiais agem da mesma forma em outros bairros da cidade, infelizmente, pois deveriam sim agir, tal como fizeram aqui, em todos os lugares. A realidade é outra, bastante cruel. Aliás, seria ingenuidade minha ainda imaginar que eles agissem aqui da mesma forma que agem quando sobem o morro de uma favela, mesmo que, paradoxalmente, no fim das contas, a minha vontade mais recôndita, naquela noite, fosse essa.
Digo isso porque sei que você deve ter reparado que desde semana passada o noticiário falou bastante da polícia, com tudo que tem acontecido no campus da USP Butantã, e agora na Rocinha carioca. Ficou tudo muito estranho na USP, a polícia já estava lá há muito tempo, José Grandino Rodas é quem não deveria estar, ser o Reitor, já que não foi eleito pela maioria no processo eleitoral discutível dali, mas o governador é quem manda. E Alckmin disse que os estudantes precisavam de aulas de democracia por protestarem... puxa, há muitos erros, equívocos nisso tudo, e eu também tenho minhas discordâncias e reticências quanto a muitas das ações dos estudantes, enfim, divago, mas para dizer o mínimo, se respeitássemos sempre o Estado de Direito (nem sempre) Democrático, continuaria tudo como está, e não está tudo bem. Aceitar as regras do jogo não significa não exigir que elas mudem ...
Mas sem saber o que estava ocorrendo na porta de minha casa, sem nunca ao menos ter te visto, vizinho, corri para minha casa, deixei as sacolinhas do supermercado e voltei imediatamente para a rua. Perguntei à moça que mais próxima estava o que acontecia ali. Mais apreensivo fiquei com o intervalo das palavras e com os olhos dela. Atrás daqueles óculos fundos, eles estavam encharcados, e a voz dela também soluçava. Meu Deus - como pode um agnóstico repetir tantas palavras religiosas? - era o terceiro dia, e ela descobrira então, finalmente percebera, morando na rua de trás, e tendo a própria casa dela como fundo da sua, vizinho, o que estava acontecendo. O gato de estimação dela, já bastante velho, tinha sido preso por você, que não o alimentava nesse período. O animal, contudo, começou a grunhir de desespero, pedindo socorro. Ouvindo o bichano, só a sua casa, vizinho, poderia ser o paradeiro dele, pois no terreno baldio ao lado o gato não estava, nem na casa da outra senhora, do outro lado, a mulher é amiga da moça e da mãe dela.
Acionada no final da tarde, a polícia militar – a PM(!), vizinho – enviara o furgão da base comunitária, e todos os soldados estavam na calçada com algumas lanternas tentando iluminar sua casa. A moça me dissera que, quando os policiais chegaram, você apagou as luzes e fechou a janela do corredor também. Você se escondeu. A mãe da moça gritava, ela te xingou bastante, vizinho, mas não se preocupe, se fosse num estádio de futebol, nada ali seria um xingamento, aquela senhora, da liga das carolas, só estava nervosa demais. Ela queria que os policiais pulassem o muro, batessem na porta, nas janelas. Todas elas queriam que os policiais fizessem você aparecer. Não queriam que você explicasse algo, convenhamos. Um dos soldados repetia que não, que não poderia entrar ali, que ele não possuía mandado ou qualquer ordem oficial para realizar algo nesse sentido. Educação e polidez incríveis se comparados aos colegas de profissão que atuam em outros bairros. Quando se ouve os relatos vindos da Rocinha então, invejáveis os soldados daquela noite na sua porta. No final, não entendi por que eu mesmo não fiz isso tudo: por que não pulei o muro e bati nas suas portas e janelas naquele momento? Voltei para minha casa.
Agora, espero, profunda e imensamente, que eu nunca cruze com você por qualquer desgraça que seja. Espero, também, que você tenha matado o gato, mas que não tenha esperado a morte dele por inanição. Não acredito, não consigo acreditar, que a sua covardia e estupidez tenham te levado à assistir a morte lenta do bicho, tampouco a devolvê-lo, soltando-o, confirmando sarcasticamente o que você fez. Não há arrependimento, também, que possa mudar o fato de você ter torturado um animal, deixando-o sem comida e preso. Você deveria ser processado, condenado e preso sem direito à fiança. Te desejo muito mal, vizinho, aliás, nem sei por que te escrevi um bom dia no início ...


Hugo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pode ou não pode?

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

- “Chegar atrasado? Não acredito... Bom, depois conversamos...” – e desligou o telefone na minha cara.

O carro estava quebrado, chuva forte, isolado na estrada, sem poder nem abrir os vidros pra tomar um ar. Se a bateria funcionasse, poderia ouvir uma música para relaxar. Trinta minutos pra chegar o guincho, poderia estar lendo algo, trabalhando. Mas não, apenas meu mau-humor, e pensamentos sobre a impotência diante do fato: nada poderia fazer.

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O que pode e o que não pode. Desde que nascemos, é a esta indagação que respondemos. Não pode colocar o dedo na tomada. Pode abraçar o amigo. Não pode jogar bola dentro de casa. Pode comer toda a comida.

Parece simples, mas o "pode-não-pode" complexifica-se ao longo do tempo, principalmente quando pensamos em situações coletivas. Pode pegar um atestado médico falso para descansar do trabalho? Pode matar para se defender? Pode prender um político? Pode guerrear com um país vizinho? Talvez por isso as disputas de “poderes” são consideradas como um dos principais combustíveis de nossa história. A maioria das sociedades exalta, em suas trajetórias, os homens e as poucas mulheres que possuíram o direito de dizer aos demais o que "pode" e o que "não pode".

A democracia que vivemos no Brasil e na maioria do mundo, ao contrário da intenção de seu discurso, não se configura como um espaço onde a maioria da população tem a possibilidade de participar da decisão do que "pode" e do que "não pode". O que há é uma votação onde se escolhe quem serão os responsáveis por tal decisão. E, por uma série de motivos, essa responsabilidade tem sido, historicamente, legada às classes que se beneficiam dessa estrutura social. E assim, como time que tá ganhando não se mexe, com um ajuste aqui, outro ali, a coisa se mantém como está.

Ocupar uma reitoria, uma praça pública, participar de uma manifestação ou mesmo contestar as micro-relações do dia-a-dia não é promover uma baderna, mas a criação de um espaço e momento onde se para de ouvir o que "pode" o que "não pode", para pensar coletivamente o que poderia ser. Não é uma questão de moralismo, pois tão violento como romper uma suposta legalidade, é manter uma lei que amarra harmonicamente todo o ciclo vicioso de reprodução do "poder" e "não poder". E também não é questão de ter ou não dinheiro. É questão de ter ou não possibilidade de participar da construção do mundo.

Frases de outrem chegavam à minha memória. “Daqui a pouco ele amadurece”. “Isso é coisa de juventude”. “Quando ele trabalhar vai ver só”. Pensava nas todas tantas pessoas que dizem diariamente "podeis" ou "não podeis". E de como, a obediência necessária para as coisas que sempre foram assim continuarem a serem assim faz com que percamos a cada dia a capacidade de nos indignar, aceitando o básico. Crescer é isso, saber aceitar? Quão exorbitante será a diferença, terrível diferença, entre o tamanho de nossas asas e a altura de nossos sonhos?

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Foi neste momento que minha cabeça, que estava em algum lugar longe, voltou, assustada com um barulinho do meu lado. Toc Toc Toc. Olhei instintivamente, já havia parado a chuva e um passarinho de cor diferente bicava o vidro do carro com força. Às vezes, embrutecidos pela rotina, não conseguimos enxergar além do que vemos, e por muitas vezes em minha história, a cena fora envolta por certa obviedade: um passarinho, que, sem saber o que é o reflexo de um espelho, ataca o vidro do carro. Fossem esses dias, sorriria de lado, um pouco com pena da ternura de sua tolice. Mas naquele momento, entendi que no fundo somos todos como este passarinho inconformado, procurando por si mesmo em diferentes espaços, tentando decifrar a imagem no espelho, insistindo, insistindo, insistindo.

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