VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A pequena múmia

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários

Quando assisti ao “A Culpa é do Fidel”, uma produção francesa, há mais de dois anos, pensei que era apenas mais um filme sobre ditaduras latino americanas, como a chilena que ali era acompanhada na França retratada pelo filme, a do início dos anos 70, e pelo olhar de uma criança. Há tantos filmes nesse sentido, como aquele brasileiro que ficou bastante conhecido, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, muito semelhante ao “A Culpa...”, pois também traz o olhar infantil para o contexto político da época. Outro exemplo, mais próximo ainda ao “A Culpa...”, é “Machuca”, filme chileno sobre a ditadura daquele país e, da mesma forma, com uma belíssima leitura a partir da vida de duas crianças, quase adolescentes.
É, “A Culpa é do Fidel” talvez seja apenas mais um filme. Acontece que com as manifestações, os protestos no Chile a respeito da Educação Pública, com o criação da Comissão Nacional da Verdade pelo legislativo brasileiro, com a minha descoberta de um grupo de Resistência Nacionalista em São Paulo, e também com o mais recente Occupy Wall Street, enfim, essas coisas quase sempre me remetiam ao título e, por que não, ao filme: a culpa é do Fidel!! Então achei melhor revê-lo, e foi só assim que reparei que a diretora, Julie Gavras, é filha de outro cineasta, Constantin Costa-Gavras, um militante de esquerda na França, e exatamente desde os anos 70. Costa-Gavras se destacou pelo trabalho político, denunciando as atrocidades das ditaduras mundo afora. Se a protagonista de “A Culpa...”, Anna, uma criança de nove anos, acompanha a vida de militância dos pais - como não notei antes? -, o filme é, nesse sentido, autobiográfico!



Além disso, se a cineasta de fato não fez do filme, também uma adaptação do livro Tutta Colpa di Fidel, de Domitilla Calamai, uma autobiografia completamente, ou um pequeno recorte de suas memórias de infância, encantado que sou pelo filme, comecei a torná-lo, percebi o quão ele me é autobiográfico, de qualquer modo. Não, eu não cresci na França dos anos 70, meus pais não eram militantes de esquerda e tampouco fui educado em um colégio católico. Muitos, mas muitos, centenas, milhares de pessoas pelo mundo podem encontrar suas narrativas pessoais ali naquele filme. Fui apenas mais um que ficou brincando de trocar a personagem Anna por si próprio, ou por meu pai, no caso. Justamente por que foi meu pai quem viveu aqueles anos, os 60 e os 70, como filho de um ex-militante comunista.

E pior que comunista só mesmo um ex-comunista, dizem. Não é um caso – ainda bem – como o do Corvo da política brasileira, Carlos Lacerda, porém, Nazareno Ciavatta, meu avô, já havia deixado o Partido Comunista Brasileiro em meados dos anos 50 quando foi preso, logo depois do Golpe Militar de 1964. Um funcionário da Prefeitura de Ribeirão Preto, militante no máximo de um burocrático e esvaziado sindicato de servidores públicos, preso como agitador comunista... Ainda falta a Woody Allen conhecer a história brasileira daqueles anos. Porque depois as coisas mudam muito, é verdade, e o que poderia soar como piadinha infame aparece de maneira obscura, absoluta e profundamente obscura para este país que ainda hoje sabe pouco sobre sua própria memória política... Chegariam o final dos anos 60 e a década de 70, ambos para dizer que não havia nada de engraçado. “A Culpa...” é de quem? Do Fidel, claro!
Mas se aquele coroa, já com mais de cinquenta anos em 64, fora preso por ter, de fato, militado intensamente nos anos 50, não deixou ao seu primogênito qualquer inspiração política. Meu pai, tenho eu a sensação, passou ao largo de qualquer proximidade com aquilo divide o meu mundo: esquerda x direita; revolucionário x reformista; liberal x conservador. Com ele ficou a velha divisão cristã entre o bem e o mal vinda de minha avó, senão uma carola tradicional, uma católica heterodoxa, digamos, que benzia e orava com as mais diferentes combinações do interior paulista. A ausência da figura paterna, em meu pai, só em anos recentes deu lugar a uma espécie de "herói" tardio, agora com algum romantismo, mas que antes era lembrado apenas, da maneira como vejo, como um sujeito duro, polêmico, machista, capaz de violências simbólicas marcantes para qualquer criança ou adolescente. “A Culpa...” é de quem? Do Fidel, claro!
É assim que reencontro a personagem da menina Anna, comigo, quando me pego lembrando da confusão que era imaginar que meu avô fora um comunista... o que é, afinal de contas, para uma criança, para um adolescente egresso do fim da Guerra Fria, um comunista?? Como meu pai se tornara proprietário, veja bem, proprietário(!) de uma oficina mecânica sendo filho de um comunista? Pois um proprietário seria um capitalista? Um burguês, um explorador? Como assim? Ele também é um mecânico, vende sua força de trabalho, portanto, ainda é proletário: que contradição! Não, é um pequeno burguês, um profissional liberal: eis a classe média! Que horror... Maldito Fidel!!!

No Chile dos anos 70, os que foram contrários a Salvador Allende ficaram conhecidos como “momias”. Assim, irônica e carinhosamente, era Anna chamada pelo próprio pai e pelos amigos militantes da família: “la pequeña momia”. Pois mais do que ser contra ou a favor, ou ser ou não ser de uma bandeira, ela parece dizer, de cara doce e emburrada ao longo do filme, que o mundo e as pessoas são malucas e estúpidas. Que, muitas vezes, não faz diferença ser de direita ou de esquerda, ateu ou crente, afinal, como uma criança, importante é só ser curioso e desconfiado.

Julie Gavras e Nina Kervel durante as gravações de "A Culpa é do Fidel"

Hoje, pra quem apoia e incentiva coisas pra frentex, de esquerda colorida e descolada, como lembra o Thiago Aoki sempre, ainda é difícil dialogar com falas comuns sem reproduzir estereótipos, ou maniqueísmos. Mas algumas falas saem do comum, não são somente opiniões, são agressões assustadoras, e difícil passa a ser recolocar qualquer margem para um debate entre iguais. Ouvir, por exemplo, que vivemos numa “democracia burguesa ilusória”, de uma “grande mídia dominada pelo capital transnacional”, pra mim, é de um totalitarismo simbólico tão desanimador quanto imaginar a validade dos argumentos de grupos de skinheads.
Lembro sempre de um tiozinho no busão que, em meio a qualquer onda de denúncias de corrupção na política brasileira, dizia que bom mesmo era no tempo “deles”, enquanto movimentava uma das mãos sobre os ombros aludindo às estrelas presentes na farda militar. Ao início de comédia pouco usual da ditadura brasileira, acredito, ele não fazia referência, mas sim aos anos de maior repressão. Sentado no ônibus, em poucos segundos recordei as histórias de quem havia sido interrogado pelo delegado Sérgio Fleury, e do que passou a ser o DOPS... não poderia esquecer das pilhas para o meu MP3, é verdade, e antes que escapasse pelo canto dos olhos a foice e o martelo do meu DNA, saltei do ônibus sussurando: bendito Fidel...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Coluna do leitor - Sobre a ocupação do Anhangabaú

. . Por Mistura Indigesta, com 5 comentários

Em 15 de outubro de 2011, atendendo ao chamado global de mobilização puxado por indignados de todo o mundo, me uni ao que na época era um pequeno grupo que ocupou o vale do Anhangabaú em São Paulo, mais precisamente a área em baixo do viaduto do chá. Estamos acampados a mais de 10 dias e não somos mais tão poucos. Somos muitos e muito plurais. Somos punks, índios, anons, moradores de rua, estudantes, trabalhadores, professores, permacultores e muito mais do que isso.



Nosso movimento tem sido visto com certa desconfiança, pois não nos enquadramos direito em antigos padrões da esquerda. Tal desconfiança se traduz na nossa proposital dificuldade em responder certas perguntas como: "por que nos unimos?", "por que aqui e agora?" e "aonde pretendemos chegar?". Neste texto não pretendo responder a tais perguntas, mas arriscar uma explicação de porque temos tanta dificuldade em respondê-las.

Não custa mais uma vez repetir que este texto corresponde à minha visão como alguém que vivenciou a acampada, conversou e aprendeu com diversos outros tantos acampados por mais de uma semana, mas que de maneira nenhuma pretende representar a opinião destes.

Nosso movimento é bastante plural e, apesar de termos um manifesto consensuado, nossas pautas são muito amplas e difusas para servir de explicação sobre os principais motivos de porque nos unimos. Isso é muitas vezes colocado em forma de crítica: como um movimento pode sobreviver se não tem pautas firmes comuns? Ao meu ver o motivo real que nos une nos fornece uma excelente pista para responder a essa pergunta.



Compreendo que o que nos une, não só nós em São Paulo, mas também no movimento em Wall street, em Madri e em diversos outros pelo mundo, é uma insatisfação com a estrutura da representação política. Assim, me parece que nossa dificuldade em elaborar reivindicações claras é consistente com nossa principal bandeira "democracia real/direta". Não estamos firmes em nossas reivindicações porque no fundo sabemos que não é uma questão de reivindicar (pra quem reivindicamos se esses não nos representam?), mas de construir todo um novo sistema. Dessa forma, é muito mais consistente que nossas pautas sejam construídas e reconstruídas constante e coletivamente. Isso não significa, porém, que não estamos firmes em certos princípios. Nos enxergamos claramente como um grupo anti-capitalista, apartidário, não-violento, cujas decisões são tomadas de forma dialógica por consenso e que busca a democracia real/direta.



A segunda pergunta também costuma chegar em tom de crítica: não há crise no Brasil agora, logo não há contexto e, portanto, o movimento não deverá durar. Primeiro, não é verdade que não há contexto, o movimento se insere tanto em um contexto internacional de lutas (Espanha, Grécia, Egito, Nova Iorque etc.) como em um contexto local (diversas marchas contra o aumento da tarifa de ônibus, marcha da maconha, marcha da liberdade etc.). Em relação a não estarmos em crise, compreendo que isso é mais uma benção do que uma maldição. A maioria dos movimentos de esquerda até hoje tenderam a ser reativos, ou seja, uma resposta a algum tipo de crise. O fato de nosso movimento não ser reativo, mas construtivo, o abre para uma infinidade de novas possibilidades. Um movimento construtivo não precisa ter pressa para dar respostas. Um movimento construtivo não é necessariamente pautado por um determinado contexto que uma vez mudado dita o fim do movimento. Um movimento construtivo é livre para seguir seu próprio rumo em seu próprio tempo. "Ele não tem limites, não começou aqui e agora e vai terminar ali e mais tarde. É exatamente o que não se constitui nem tem contornos e, assim, incomoda e agride o poder constituído. Ele não tem um dentro, um o que somos e o que queremos. O movimento já está fora, já nasceu como um fora. Ele é a própria membrana entre dentro e fora."

Algumas vezes somos confundidos com movimentos direitistas contra a corrupção. Evidentemente que somos contra corrupção, mas esse tema nem surge em nossos manifestos ou meios de divulgação. Quando gritamos "Não nos representam!" não é que um ou outro político não nos representa, mas que o sistema político não é capaz de nos representar. Soma-se a isso a compreensão de que a corrupção é inerente ao sistema capitalista, ela é apenas uma face do capitalismo mais frequente em países periféricos. Dessa forma, a luta contra a corrupção entra somente como efeito colateral daquilo pelo que lutamos.



De forma alguma acredito que buscamos solucionar questões pontuais do capitalismo. Muito pelo contrário. Brandamos por democracia direta/real. Nossa concepção de democracia direta, apesar de difusa, certamente não é reformista. Buscamos uma mudança profunda na forma de representação política e temos consciência de que isso é impossível dentro do sistema vigente. Neste sentido, compreendo tal movimento construtivo como muito mais radical do que qualquer movimento pautado em determinada crise pontual.

Por fim, não acredito que precisamos ter um objetivo fixo, pois este está sendo construído no próprio movimento. Esse é um excelente indício de que estamos indo na direção do que quer que compreendemos por democracia real. A partir do momento em que nos tornarmos previsíveis seremos presas fáceis frente ao sistema.

Há quem diga que somos lunáticos lutando contra tudo e contra todos. Acho mais honesto dizer que lutamos contra tudo e, se não com todos, com 99%. Estamos decretando o fim do fim da história. Estamos fabricando tinta vermelha.



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Marcio Moretto Ribeiro (@marciomoretto) é doutor em ciências da computação pela USP, pós-doutorando em lógica pela Unicamp e indigesto por parentesco. Esteve acampado durante os últimos dias no Vale do Anhangabaú (@AcampaSampa) e compartilha aqui suas primeiras considerações.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Considerações sobre o senso comum...

. . Por Thiago Aoki, com 6 comentários

Ter o pensamento social como objeto de nossa profissão, significa viver, dia-a-dia, um dilema. Quase sem querer somos levados a uma certa arrogância, pensando que fomos um dos poucos iluminados que tivemos a capacidade de sair da redoma de dominação dentro da qual o resto do mundo está trancafiado. Por eufemismo, trocarei o termo “arrogância” para “dificuldade em lidar com o senso comum”.

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Situação 1:

O acadêmico está em uma livraria lendo manuscritos inéditos de Dostoievski quando escuta por de trás da prateleira:

- Esse livro deve ser bom. “Seja um vencedor”. Um amigo leu, disse que foi ótimo para ele superar suas dificuldades e ser alguém na vida. Quero comprar, talvez me inspire pra conseguir um novo emprego, uma vida nova.

Nesse momento o acadêmico já está mordendo a camisa, suando a mão, costurando com os pés. É quando ele não aguenta vai ao outro lado e desabafa sereno:

- Meu querido, sinto muito, mas a desilusão que você vive é fruto de um problema estrutural da sociedade capitalista e mesmo suas ideias, costumes e preferências refletem a sua posição dentro dessa estratificação social. Portanto, não será com pensamento positivo e figas que você sairá dessa lástima. Melhor você tentar entender o processo de luta de classes instalado na atual conjuntura econômica...

Situação 2:

O acadêmico está tomando seu café sem açúcar na padaria que usa grãos árabes quando escuta da mesa ao lado:

- Uma coisa que não admito é pirataria. Vai saber o que você não está financiando quando compra um filme pirata: assassinatos, drogas, crimes. Deus me livre. Quem hoje em dia não tem 5 reais pra alugar um filme? Eu mesmo já passei fome, mas corri atrás, estudei, aprendi a investir na bolsa e hoje estou aqui. Pra mim, pirataria é coisa de vagabundo.

É quando se escuta o tilintar um pouco mais forte da xícara sobre o pires. Olha-se pro lado e o acadêmico, já em pé, voicifera:

- Você sabe quantos milhões giram em torno da indústria cultural? Quantas expressões artísticas são deixadas de lado, quantas padronizações são feitas em nome dessa indústria? Qual a autenticidade da arte perante sua mercantilização? Além disso, parabéns, você venceu na vida e faz uma coisa “digna”, jogar na bolsa de valores. Se você tivesse investido nas ações daquela marca de roupa espanhola que usa mão-de-obra escrava, será que saberia o que estava por trás dessa ação limpa e pudica?

Situação 3

O acadêmico está em um ônibus lotado quando se percebe um enorme trânsito. Logo alguém diz que professores estão fazendo greve e fechando a passagem na rua. Ao saber disso, um tiozinho brada:

- Por isso que digo, melhor mesmo é na época dos militares, pelo menos esses vagabundos não faziam baderna.

Um sujeito solta-se do apoio e cambaleia, quase caindo no chão do ônibus, é o acadêmico. Que se recompõe, respira fundo, conta até 10 e lá vai:

- O senhor tem mesmo noção do que acabou de dizer? Que um sistema que torturava e matava pessoas sistematicamente, proibia a expressão de manifestações políticas e repreendia nossas referências culturais é realmente melhor? Além disso, sabe qual o salário de um professor da rede pública? O caminho da emancipação humana perpassa uma educação crítica que transforme a apatia das pessoas e, para isso, os professores têm sim que ser bem remunerados. O que você chama de baderna, eu digo que é uma justa manifestação social da classe trabalhadora!

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Em resumo, a bolha acadêmica corre muitas vezes paralelamente ao mundo. É normal incomodar-se com comentários conservadores de um almoço em família e ao mesmo tempo é um saco ficar se policiando a cada situação para encaixar o que se pensa com o que é aceitável. Também não é o caso de culpar-se por preferir Gramsci a Augusto Cury, tampouco de compará-los. Mas, convenhamos, os grandes pensadores socias, foram aqueles que, sem abdicar de seus ideais, tiveram a capacidade de se distanciar da situação e dialogar com o senso comum, com plena consciência de que estavam também inseridos nessa roda viva. Nas ciências humanas, por outro lado, somos sempre estimulados a criticar o senso comum, mas esquecemo-nos de que, para isso, é necessário conhecê-lo e, para conhecê-lo, é preciso experimentá-lo. Sair pro mundo que existe e, confessemos em voz alta, independe de nós. Pior do que estar no senso comum é isolar-se dele. Não sintamos raiva ou pena de quem não possui a mesma lente que a nossa para enxergar o mundo, não façamos do embate de ideia um massacre de sete pedras sobre o gato, mas uma possibilidade real de troca. É preciso a coragem necessária para se contaminar. Abaixo os puristas.

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Misturas Relacionadas:

Entrevista com MC Leonardo

O Meta-Intelectual

domingo, 16 de outubro de 2011

É velho, é novo, é clássico, é louco, é absurdo

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário

- Como é que é, “Ulisses”?
- Isso, já ouviu falar, o livro?
- Claro, já li até, escrito por James Joyce, mas entendi nadinha, bulhufas daquele calhamaço...
- Sim, mas falo de outro, do Ulisses da “Odisséia”, de Homero. De qualquer modo, Joyce se refere a Homero, mas de outra forma, num contexto completamente diferente, e mesmo parodiando, por assim dizer, aquela obra clássica. Porém, falo daquele da grécia antiga mesmo.
- Humm... não conheço.

Não, não desista logo agora que mal começaram estas linhas. Ou não se fruste se não vai encontrar uma discussão sobre teoria literária e personagens que atravessaram séculos. É quase lá, já que a conversa é sobre quem já passou muito tempo por aí afora, sobre quem parece que o Tempo (Deus, ou sabe-se lá o que...) não levou (ainda), porém, está deixando viajar pelos anos. Porque se, por exemplo, no dia 15 de dezembro de 1939 estreara um dos maiores clássicos do cinema mundial, “E o vento levou”, ele então completava no mesmo dia 32 anos, podendo ser assim considerado um homem maduro. Para época, casado, pai de uma filha, formado e trabalhando em seu escritório, sua vida seria, digamos, exatamente a mesma nos próximos muitos anos. Muitos... sim.

Imaginei, inclusive, que ele fosse o personagem de Borges em “El Inmortal”. O escritor argentino que mais que adorava a mitologia clássica, portanto, bem poderia ter roubado a história dele e o transformado magnificamente no narrador da novela que encontrara filósofos para quem estender a vida dos homens era equivalente a prolongar a agonia e multiplicar o número de mortes de todos eles. O mesmo narrador também encontrara a secreta Cidade dos Imortais: “tan horrible que su mera existencia y perduración (…) contamina el pasado y el porvenir y (…) mientras perdure, nadie em el mundo podrá se valeroso o feliz.” Pois a simples menção à imortalidade é desesperadora, ainda que a morte possa ser, para muitos, razão de infortúnio sem fim. Ser um "imortal", enquanto um vivente secular que se aproxima da previsibilidade de tudo que pode acontecer, torna a vida diária uma banalidade absurda, inconcebível, e para todos os outros viventes, contudo, a morte cotidiana os faz raríssimos: “éstos conmueven por su condición de fantasmas; cada acto que ejecutan puede ser último; no hay rostro que no esté por dibujarse como el rostro de un sueño. Todo, entre los mortales, tiene el valor de lo irrecuperable y de lo azaroso. Entre los inmortales, em cambio, cada acto (y cada pensamiento) es el eco de otros que en el pasado lo antecedieron, sin principio visible, o el fiel presagio de otros que en el futuro lo repetirán hasta el vértigo. No hay cosa que no esté como perdida entre infatigables espejos.” (Borges, em El Inmortal)

Tendo nascido tão logo engatinhava o século passado, parecia que assistir a duas guerras mundiais poderia ser suficiente para qualquer um, o que o XX não negou a nenhum daqueles que o atravessaram, e foram muitos, é verdade, mas veio a Guerra Fria, um mundo divido e o Brasil e a América Latina encobrindo-se de histórias que até hoje não nos foram publicizadas... Eu já estaria satisfeito, e no lugar dele hoje bradaria aos céus, ao inferno, ao diabo que fosse o responsável pelo meu esquecimento em vida...

Qual será a experiência temporal desse homem, se para muitos de nós o que importa é a pressa, o instante, os minutos contados para cada coisa? Se parece cada vez mais impossível ter direito à contemplação e preservar horas dentro de nós, como pode ele administrar o peso de tantos anos, de tantos eventos, acontecimentos, pessoas, sentimentos, pensamentos, mudanças, perdas, conexões, velocidades, transformações?

Jorge Luis Borges insiste e perturba, porque lembrando da Odisséia de Homero, com seu personagem Ulisses, com circunstâncias e mudanças compostas ao longo de uma viagem tão larga, impossível não seria a composição de tantos reajustes ao longo de uma trajetória qualquer, afinal, todos compomos nossas Odisseias, nossas viagens. No entanto, o simples fato de todos mortais serem mais um pelo mundo, quaisquer, indiferentes, constrói, com isso, uma imagem do oposto, de um suposto homem imortal quase como uma aglutinação de todos os homens, tal o alargamento de sua composição, de sua trajetória, de sua viagem pelo tempo. Um tal homem imortal, assim, é deus, é herói, é filósofo, é demônio, é o próprio mundo e, por fim, não é, é nada. A própria imortalidade parece levar ao absurdo, conduz quase que naturalmente à ideia de morte e, ao fim, à indiferença, já que um imortal pode ser todos, ao mesmo tempo, não é nenhum deles. Ele torna-se todos devido a previsibilidade das composições de sua viagem pelo tempo, ao passo que, paralelamente, é como se morresse para todos os outros homens. Viver mais de um século, especialmente quando pensamos no XX e no XXI, parece fazer um ser imortal. Ser esquecido pela própria morte, também, o que acaba por pintar a vida como a mais cruel assassina, contínua, diária e persistente de Oscar Niemeyer.

- E daí, hoje não é dia 16 de junho? Não foi hoje que aconteceu a história de Leopold Bloom, do tal romance de Joyce, aquele monstro de páginas não acontece todo num dia só: 16 de junho?? Que ficou conhecido depois como o Bloomsday??
- E daí, e daí?? Como assim? É um absurdo, cara, imagina Oscar Niemeyer, hoje com 103, se resolvesse escrever um autobiografia a lá James Joyce e seu “Ulisses”?!?! São dois absurdos, duas loucuras que não se encontram, viver mais de um século beirando o infinito, e inventar um mundo quase infinito em um único dia!

Fácilmente aceptamos la realidad, acaso porque intuimos que nada es real. (Borges)

sábado, 1 de outubro de 2011

Coluna do Leitor - As aventuras de Gardenal, o último homem livre - Parte II

. . Por Mistura Indigesta, com 2 comentários

Papai e mamãe que me desmintam, mas poucas vezes na vida alguém tem tanto poder como quando escolhe o nome de uma criança.
Tem basicamente dois jeitos de dar nome: o primeiro é ver com que se parece o pequeno ser: coisa meiga, nome meigo; coisa bruta, nome maiúsculo: por isso é difícil conhecer uma pitibul chamada Lilica, por exemplo. Mas – cá entre nós – ainda bem! Imagine agora se essa prática fosse usada em humanos, a quantidade de “inhos” que pululariam dessa coisa chamada apelido por diminutivo! Céus, quantos “fofinhos” e coisas do tipo não apareceriam?? Cê sabe daquele tipo que teima em atribuir apelido às pessoas, naquelas do “ora, não é que parece mesmo??”, imagina então se se faz isso com o nome?? Fora que poucas coisas são mais absurdas que dizer que um recém-nascido “parece com” ou “tem mesmo uma cara de”... Ainda que não sejam todos iguais, vai, mas pra daí dizer que “já” se parecem com??
O segundo jeito também não é muito melhor, embora – é verdade – seja muito antigo. É quando você deseja que seu pimpolho atraia pelo nome determinada característica da qual você gosta. Aí então vai abrir aquele livro da saudosa Tia Cotinha, “Os Significados dos nomes”, procurando alguma luz, alguma força oculta que possa impregnar aquela frágil criancinha. Assim – o que é uma pena – você acaba chamando seu filho de qualquer nome da moda, sem se dar conta de que as características desejadas são socialmente desejadas, no fim das contas, justamente porque todo o mundo quer. Você não é o único que gostaria de ter um filho iluminado ou guerreiro.
Por exemplo, não se tem registro das qualidades futebolísticas do camarada nascido no México em plena Copa de 70, e que recebeu de seu esperançoso papai a alcunha de Felix Carlos Piazza Everaldo Gerson Clodoaldo Pelé Rivelino Jair Tostão. Não, você não entendeu errado: a equipe do técnico Zagallo, então bicampeã mundial, deu nome a um sujeito. [Pelo menos é o que reza a lenda, e se for mentira... tanto melhor!] Exato, estes onze nomes, um depois do outro, compuseram a ópera de batismo do pobre menino. Mas – convenhamos – tudo leva a crer que o pimpolho não fez jus às expectativas do progenitor. Pelo menos não que eu saiba. Ainda bem, de novo! Se com um nome conseguíssemos atribuir características desejadas aos pequerruchos, onde a gente iria enfiar toda a grana que se injeta em programas de cientistas que querem criar brédpitis e giselebinchens?? E para colocá-los num catálogo, a preço tabelado – santa maria madalena! –, pra serem escolhidos pelos papais e mamães que não querem herdeiros feios??? Imagina a baita crise que não ia ser...
Mas o Patrique – se você não lembra quem é o Patrique, não tem problema, porque ele não é importante pra nossa história, mas se você for curioso mesmo, releia a parte I das “Aventuras de Gardenal – o último homem livre” –, que não tem nada com isso, estava lá tentando escolher o nome da criatura em seu quintal. Primeiro alguém – acho que foi a Rô – sugeriu o nome Tobias, que era simples e na moda, afinal, tinha um bonitão de novela que se chamava Tobias. Aí veio a rapaziada – provavelmente o Babá – com a idéia de botar o nome "Bola de Fogo" (♫ ♫ piririm piririm piririmsou eu Bola de Fogo, e o calor tá de matar...” ♫ ♫ lembra? o da “Atoladinha”?). Foi vetado pela ala radical do feminismo, a tradicionalista, claro, a mesma ala que acha que o fanque carioca é a mercantilização do corpo da mulher (a palavra é meio complicada mesmo, mas sabe como é essa gente intelectual). Só que aí a ala feminista prafrentex disse que o fanque, na verdade, é uma arma da libertação sexual da mulher que dá o corpo pra quem ela mesma quiser e portanto é uma tentativa de afirmação da mulher enquanto sujeita na sociedade opressora e blábláblá e bláblábli numa interminável (todas são) assembléia de gente chata.
Por fim, ufa!, alguém – tanto faz quem – se deu conta de olhar praquela criaturinha ali e descobriu, com algum espanto, que, indiferente a qualquer tentativa de lhe botarem um rótulo, ele já tinha um nome. Não como um pedigrí, que vira-lata não é dado à frescura, mas, assim, como que seu. E talvez não seja fortuito o peculiar gosto por filmes de ação daquele aprendiz do Bruce Lí, o tal do Txãqui Nóris. Rola assim, como que uma identificação... um reconhecimento... sei lá, entende?
O nome dele é Gardenal. E ninguém que o conheceu jamais duvidou que este nome lhe cai como uma luva. Há quem diga que foi a escolha do nome que fez com que ele ficasse assim, como dizer, desajustado. Francamente, acho que é prepotência demais. Para mim, Gardenal – que nasceu homem livre – escolheu seu próprio nome. O nome de um desajustado. O nome de alguém que não cabe exatamente no esquema. Alguém “esquisito” e que, portanto, bagunça a cabeça alheia. Alguém que não hesita em viver o que as outras pessoas acham loucura.
Agora, quem duvidar, quem achar que foi o nome que deixou ele meio lelé: que o prove! Mas sem muito blábláblá, pois eu também não tenho muito saco pra isso, né?!
Em tempo, vi que um leitor disse, na primeira parte dessas aventuras, que Gardenal, além de homem livre, é nietzscheniano... Pois então, meu caro, isso eu já não sei dizer, não. Inclusive já mo disseram que ele seria kantiano, hobbesiano, muçulmano e até marciano, veja só! Mas como para filosofia eu não tenho inclinação, e como também não é do meu feitio cometer exagero algum em qualquer prosa que seja, só posso afirmar que o camarada que pensa que é dono do Gardenal tem um gosto, assim, como eu poderia dizer... excêntrico – talvez ele mereça um série de textículos a serem publicados aqui, mas isso, definitivamente, não vem ao caso agora... – e embora tenha mesmo esses troço de filosofia germânica lá na biblioteca dele, eu nunca vi o Gardenal tentando lê-la, não! Nem o jornal que o pobre botava pro Gardenal se aliviar em cima este quis... Ele sempre foi mais chegado mesmo é num matinho, viu... Assim, mais natural, sabe... mais simples... Coisa de gente livre.

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Thiago Fernandes Franco é o Peixe, compete na ala dos leitores mais encrencas que se tem notícia.

Hugo Ciavatta, sim, contribuiu aqui e ali neste texto.

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