VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

sábado, 27 de agosto de 2011

Chamam-na educação. E não é.

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

As manifestações estudantis chilenas já duram mais de três meses. Os estudantes reivindicam uma educação pública, gratuita e de qualidade. Quando a repressão começou a ficar mais violenta, professores e um grande número dos pais desses alunos se uniram em apoio aos jovens. Há alguns dias os trabalhadores entraram em greve geral (não sem suas bandeiras particulares, tudo bem, mas) ao lado dos manifestantes e a situação anda bem tensa. Nessa sexta-feira, atingido por uma bala perdida (ponto que a mídia tem focado bastante) morreu um garoto de 16 anos, Manuel Gutiérrez Reinoso.

A notícia me pegou meio de surpresa. Tentei continuar com o que estava fazendo e até escrevi outro texto, mas não consegui publicar. Um poema de Brecht não me deixava.

Palavra inocente é tolice.
Uma testa sem rugas indica insensibilidade.
Aquele que ri apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Há momentos em que não é possível seguir adiante. A ruga é necessária, nem que seja apenas para lembrança, para garantir que não perdi a sensibilidade.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?

Não acho que seja necessário ser sério, nem que seja proibida a poesia numa hora dessas. Muito pelo contrário, contra uma notícia dessas é válido tudo aquilo que me humaniza. Resolvi, então, me entregar ao assunto. Li e reuni as matérias que encontrei. Uma me chamou a atenção: “Transição democrática no Chile ainda não foi completada” escreveu o Financial Times. De fato não foi. Assim como a norte-americana e a brasileira. Não acredito que nenhuma transição democrática tenha sido completada. Chamam-na democracia e não é. Democracia é um conceito bastante elástico. Seu significado depende do quanto exigimos dele.

O que o Chile está exigindo de sua democracia?

O que preocupa um garoto de 16 anos?

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* Trechos do poema Aos que deverão nascer, de Bertolt Brecht.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sob o Signo da Precariedade

. . Por Fernando Mekaru, com 4 comentários

Em tempos de crises políticas em Londres, Chile, Espanha e muitos outros locais, o adjetivo "orwelliano" é evocado para dar força ao comentário político: nas situações de exceção que se colocam, os governos acabam por tomar ações totalitárias e antidemocráticas que, invariavelmente, carregam o ranço das distopias totalitárias criadas por Eric Blair (o nome verdadeiro de Orwell) em obras como "1984" e "A Revolução dos Bichos", nas quais o controle sobre os indivíduos em nome da manutenção e perpetuação do sistema em que todos se encontram é levada às últimas consequências. A atualidade de Orwell, nesse sentido, é assustadora: diagnósticos feitos pelo escritor há mais de 50 anos continuam atuais e cheios de vigor, conseguindo explicar a nossa realidade tão bem quanto explicavam a realidade de Orwell na primeira metade do século passado.



O problema é que a fama e a presença de "1984" e "A Revolução dos Bichos" acabou por eclipsar o autor de maneira terrivelmente grande: o vínculo entre Orwell e totalitarismo é praticamente automático, e muitas vezes isso acaba deixando à sombra trabalhos dele que são igualmente brilhantes e possuem tanta atualidade e relevância para os dias de hoje quanto os dois pesos-pesados que são responsáveis pela maior parte da procura pelo autor atualmente.

Dentre esses livros, Na Pior em Paris e Londres é, talvez, o que receba menos atenção de todos. O primeiro livro publicado de Orwell e um dos três de sua produção literária que não cai no ofício pelo qual ele é mais conhecido - ficções que gritam muito sobre incongruências e monstruosidades bem reais que as pessoas não gostam muito de olhar - é uma autobiografia romanceada, que conta as desventuras de um jovem Eric Blair nas duas capitais européias acima citadas.



A primeira metade do livro passa-se em Paris, e dedica-se a contar como Orwell, após ter praticamente todo seu dinheiro roubado por um dos moradores do albergue em que residia, sobrevive a cada dia com quantidades vergonhosamente pequenas de dinheiro (e dignidade) após ser jogado na pobreza. A fome, a sujeira e a decadência são companheiras constantes do jovem inglês que roda o submundo francês e tenta tirar seu sustento das mais variadas maneiras possíveis, até encontrar um emprego como plongeur (lava-pratos) no restaurante do Hotel X, um local de renome de Paris. Uma fonte de renda fixa e a garantia de uma refeição decente por dia transformam-se no grande sonho do jovem inglês naquele momento. Mais tarde, Orwell acaba sendo empregado em um outro restaurante chique de um amigo, em uma posição semelhante a de lava-pratos: de qualquer maneira, uma fonte de renda estava assegurada e ele não é mais obrigado a viver do dinheiro advindo de roupas pessoais penhoradas, o que foi uma grande mudança no seu estilo de vida.

É quando Orwell sai das ruas e deixa de ser um indigente, passando a fazer parte da classe D parisiense, que um dos lados menos conhecidos dele surge: a crítica social potente, que não se aplica apenas ao totalitarismo e faz com que elementos da sociedade entrem em questionamento.

A riqueza e luxo do Hotel X e do restaurante são somente aparências, apesar dos preços altíssimos sugerirem o contrário: por trás das portas em que somente funcionários entram, a sujeira e a desordem imperam, em claro contraste à assepsia e ordem imponente do hotel e do restaurante. Esta impressão de luxo é mantida pelos plongeurs e outros trabalhadores menores do restaurante e do hotel, que levam uma vida praticamente escravizada com salários de fome para assegurar que todos os pequenos luxos, como poder jantar às três da manhã, tomar café-da-manhã na cama ou o ambiente impecável e acolhedor, possam acontecer para todos os clientes desses estabelecimentos. O tempo livre disponível nesse tipo de rotina é tão pequeno que o trabalhador não tem tempo nem de se indignar com a situação na qual se encontra: o próprio Orwell diz que sua vida, nesse momento, resume-se a trabalhar feito um escravo, dormir, começar a beber no sábado de manhã e parar somente domingo de madrugada, para então descansar e poder voltar ao ponto inicial.

A crítica do autor à estrutura que permite e incentiva que exista um "mercado do luxo" ao mostrar os prejuízos humanos que são necessários para que ele seja viável é feita de maneira crua, sem meias palavras: em resumo, uma camada inteira da sociedade é relegada a um estilo de vida simplesmente desumano para que uma série de serviços que no máximo possam ser descritos como extravagâncias possa ser oferecida a uma camada social privilegiada e restrita. Não é um diagnóstico leve, e ele é válido até hoje para uma série de atividades e serviços cuja finalidade é igualmente questionável.

Orwell poderia parar por aí, tendo já elaborado uma potente crítica contra a desigualdade na sociedade contemporânea, mas o livro continua.



Na segunda parte, após receber a oferta de um trabalho melhor em Londres através de um amigo, o autor deixa a capital francesa. Porém, chegando em Londres sem um tostão no bolso, ele descobre que deverá aguardar a família para quem trabalharia voltar de uma viagem para conseguir o referido emprego. Completamente destituído de todos os seus fundos após atravessar o canal da Mancha, Orwell volta à situação de pobreza extrema que conhecera na França, mas com um agravante: ele não encontra um subemprego que garanta uma ilusão mínima de dignidade material à sua vida, e mergulha de maneira inescapável na mais miserável mendicância enquanto espera os seus futuros empregadores voltarem.

Se a vida parece ruim enquanto parte da grande massa dos semiescravos parisienses, o autor faz questão de mostrar que a vida de mendicância nas ruas londrinas simplesmente não possui caráter de redenção algum: graças ao pouco gentil inverno inglês, Orwell é obrigado a dormir em abrigos e albergues de mendigos, mas é obrigado a andar muitos quilômetros em busca de novos abrigos a cada noite graças a uma lei inglesa que prende aqueles que se hospedam no mesmo albergue mais de uma vez por mês. Além disso, há o problema dos albergues abrirem somente em horário predeterminado, o que faz com que a massa de pedintes e destituídos simplesmente não tenha outra opção a não ser esperar, da maneira que for possível, para que possam se abrigar.

Perdendo quase todo os seus dias entre esperas para os abrigos abrirem, caminhadas longas e extenuantes em busca do próximo albergue e do próximo resquício de alimentação e dinheiro que pode encontrar, com o desgosto dos cidadãos menos miseráveis e a violência policial aparecendo como eventuais temperos para o tédio da vida mendiga, Orwell acaba conhecendo praticamente um sem-número de outros mendigos, todos eles representando um lado extremamente cruel e desesperador da sociedade moderna: um exército humano de incontáveis pessoas, todas mantidas em um estado de extrema precariedade porque é muito menos custoso para as sociedades que eles se mantenham assim do que empreender um esforço hercúleo de tirá-los das ruas e reinseri-los na sociedade. Frente a esta situação, o autor não tem pudor nenhum em dizer que qualquer um nesta situação simplesmente não consegue sentir gratidão por qualquer coisa que receba daqueles que querem ajudá-lo, e que a falta de atividade desses homens é plenamente compreensível: quando a sua vida se resume a caminhar quilômetros a pé em busca do próximo abrigo, todas as suas últimas refeições foram pão com margarina e chá dados de graça nesses abrigos e ninguém parece minimamente interessado em retirá-lo dessa vida para sempre, dispõe-se de muita pouca energia para além do instinto de sobrevivência, e é difícil sentir qualquer tipo de identificação com aqueles que não estão nessa situação.

O que Orwell mostra em "Na Pior em Paris e Londres" não é aquilo que o tornou famoso, mas sim algo muito pior e muito mais próximo de nós do que disopias onde o indivíduo vale menos que o sistema: ele mostra que as sociedades bem reais em que que o homem contemporâneo vive só prosperam sob o signo da precariedade humana, já que se estabeleceu um sistema em que milhares de indivíduos valem pouco mais do que nada e ainda por cima são simplesmente ignorados ou esquecidos frente àquilo que sua miséria concede em termos de riqueza material e/ou social aos que não estão em situação humana precária.

Perto de uma realidade dessas, que ainda existe e não dá sinais de desaparecer nunca conforme a urbanização corre desenfreada pelo mundo, o Grande Irmão e o governo do porco Napoleão são pouca coisa: ao contrário daquilo que é descrito em "1984" e "Revolução dos Bichos", o inferno humano que Orwell descreveu é bem real, e fingimos que ele é uma ficção a todo momento para não ter de encarar a sua dolorosa existência.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Coluna do Leitor - Luto, Melancolia e certa Nostalgia

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários



Nos dois últimos fins-de-semana tive a oportunidade de assistir a dois filmes que entraram em cartaz nos cinemas: Melancholia, de Lars Von Trier, e Super 8, de J.J. Abrams. Ao primeiro, reservei certa dose de expectativa, não só porque o tema da melancolia me interessa diretamente, mas também por se tratar de mais uma obra do famoso e controverso cineasta dinamarquês. Bem, acabei vendo a película de Von Trier e, no fim das contas, saí do cinema pensando que o filme trata de alguns bons temas (além de ser, em termos de fotografia, muito bonito), mas da tal da melancolia pouco se fala. É certo que, se fosse necessário, à personagem de Kirsten Dunst poder-se-iam atribuir características melancólicas; no entanto, creio que a criação de uma situação fictícia da perspectiva de um choque interplanetário que, sem muita discussão, daria fim ao nosso planeta, deve necessariamente inclinar a crítica no sentido de colocar em suspenso a efetividade deste tratamento a um tema tão caro à nossa época.
Em tempo, diga-se que, apesar da figura do melancólico acompanhar a história das civilizações há muitos séculos, foi com o texto de Freud “Luto e Melancolia” que se cristalizaram os contornos modernos daquilo que se entende por melancolia. A saber, tratar-se-ia de um estado anímico que em muito se aproximaria do luto, com uma leve, porém essencial, diferença: trata-se do luto pela perda de um objeto de amor cuja existência é dificilmente localizável. Em um movimento textual elegante e sutil - caro aos textos do autor austríaco -, Freud demonstra como, por uma artimanha narcísica, a mente melancólica desloca o topos da perda do objeto para o próprio Eu. Desta maneira, ao contrário do luto normal - no qual se tem algo como um esvaziamento do mundo, que se torna cinza sem a presença do objeto amado -, o melancólico guarda em sua totalidade a ambigüidade do investimento amoroso em um constante e persistente ataque contra o seu próprio Eu: deste modo, ao ‘esconder’ o real objeto de sua paixão e, sobretudo, ao elidir a natureza da decepção sofrida, por meio de um furioso investimento contra uma parte de si próprio, o melancólico escapa daquele que é o fatídico fim de todo processo de luto: a aceitação de que aquilo que tanto amamos se perdeu.
Pois bem, no filme de Lars Von Trier supostamente se tem uma melancólica. Justine, na primeira parte da obra, luta para levar a cabo o seu casamento; esforça-se para lidar com uma família disfuncional e não assistir em primeira mão ao próprio desmonoramento de seu Eu; de forma trôpega tenta manter-se fiel às formalidades que um evento como este exige etc. Não é necessário dizer que, ao fim, acaba se tratando de uma tentativa em vão: o ritual fracassa com toda a pompa que lhe foi reservada. Na segunda parte do filme, tem-se maior atenção à questão da possível colisão do planeta Melancholia com a Terra. E, neste ponto, quem entra em cena é a irmã neurótica de Justine, que, ao mesmo tempo em que se mantém lúcida a respeito da verdadeira probabilidade de que encaremos a morte com um evento catastrófico, tenta encontrar subterfúgios para evitar esta verdade: mecanismo de auto-sabotagem que somente nós - os neuróticos - conhecemos tão bem.
À primeira vista, a idéia de botar o nome de um planeta em rota de colisão com a Terra de Melancholia me pareceu algo bastante interessante: tal qual dizer em alto e bom som acerca da capacidade do nosso tempo de nos fazer confrontar com a morte sem possibilidade de luto, a morte daquilo que, na fase mais avançada do capitalismo, se tornou seu bem mais precioso: a promessa de felicidade. Penso ser por isso que o filme de Von Trier ganha particular força em sua segunda metade: é neste momento em que, dizendo de maneira bem esquemática, a melancólica anuncia sua vitória sobre a neurótica. E por isso Justine assiste à destruição da vida como conhecemos com um sorriso irônico no rosto, diante das tentativas vãs da irmã de encontrar abrigo para este destino inevitável.
Mas é também aí onde mora, a meu ver, a fraqueza do roteiro: não só porque o manjadíssimo esquema ‘radical’ de destruição da Terra como forma de causar mal-estar pode servir tanto para a abertura de uma larga brecha ao heroísmo (vide a tendência inaugurada pelos filmes de catástrofe da década de 90) como também, exatamente por sua incontornabilidade, pode ocultar as próprias formas que o constante luto pela derrocada da promessa abrigada em Shopping Malls e condomínios fechados podem adquirir. Ou seja, ao contrário da tristeza melancólica, nutrida pela modernidade, na qual a libido se agarra morbidamente a qualquer promessa de gozo farto e vazio, real e fantasmático, o motivo da nossa desgraça, no filme de Von Trier, é facilmente localizável. Isto é, trocando em miúdos, Melancholia não se parece, para mim, com um filme feito sob a perspectiva do melancólico pelo simples fato de a ameaça vir de fora e não deixar qualquer fresta para sua superação. Ao fazer-se valer de um sádico desfecho, a obra de Lars Von Trier esquiva-se de adentrar a (possivelmente) complexa mente de Justine e, com isso, evita de tocar na ferida do melancólico que existe em todos nós. O que resta, ao fim, é um frustrante sentimento de que nem mesmo o luto nos é legado como possibilidade de lidar com o castelo de decepção que, em nosso tempo, guardamos com tanto zelo.
Se é possível traçar algum tipo de relação entre Melancholia e Super 8, filmes de extrações tão diversas, ela deve passar precisamente pela centralidade que este tema da decepção exerce em ambos. O filme de J.J Abrams inicia-se desta forma: sua primeira seqüência nos informa da morte da mãe de Joe Lamb, um garoto beirando os seus 13 anos, habitante de uma cidadezinha no interior do estado americano de Ohio. O filme constrói-se como uma clara homenagem/retomada das já clássicas produções de aventura da década de 80, a maioria delas encabeçadas por Steven Spielberg: Contatos Imediatos do Terceiro Grau, ET, The Goonies e o tardio Jurassic Park. Para quem cresceu vendo estes filmes e, posteriormente, assistiu à completa subversão do gênero de ação nos anos 90 - nos quais, se é possível dizer, acompanhou-se a tendência à vitória dos efeitos especiais sobre os dramas humanos -, Super 8 traz o reconfortante sentimento de um equilibrado filme de aventura, no qual o mistério que acomete a pequeníssima cidade se desvela ao mesmo passo em que seus personagens juvenis - todos atravessando a difícil passagem da infância para a adolescência e lidando com o duro ‘princípio de realidade’ que inevitavelmente acompanha este processo - encontram maneiras de realocar suas fantasias, dores e desejos.
De fato, a grande interrogação que se enraizou na minha mente após sair da sala de cinema na qual foi exibido Super 8 foi a seguinte: o que há de tão fascinante em filmes de aventura encenado por pré-adolescentes? É claro que, neste caso, não posso negar a identificação que estabeleci com os garotos do filme: também, nos anos mais difíceis da minha juventude, recorri ao hobby de produzir filmes caseiros igualmente toscos, previsíveis, mas que mobilizavam uma grande carga de energia criativa (por isso o nome Super 8, alusão ao tipo de película que os garotos utilizam para filmar as cenas de seu inocente e engraçado filme de zumbi). Mas, para além disso, este gênero tem algo de especial, algo que só me veio à consciência após ter visto este filme que, lançado em 2011, parece iluminar retrospectivamente todas as produções de aventura da década de 80. Este ‘algo a mais’ é o trabalho sobre o luto. De certo não é o tipo de filme que, na feliz expressão de um amigo, faz você sair da sala de cinema com um ‘bolo preto’ para se digerir durante a semana. O seu tratamento fantástico e, de certo modo, o acabamento dado pelos clichês de aventura, impedem que o luto seja encarado de frente, e, com isso, evita que o espectador acabe sobrepondo a tristeza ao entretenimento. Contudo, o luto acaba sendo uma espécie de sujeito oculto em todos estes filmes, muitas vezes obscurecido pelas sombras dos próprios monstros que ele erige para sua superação.
Este é um filme no qual a afirmação ‘uma coisa só é monstruosa porque está próxima demais’ ganha ares muito verdadeiros. Com efeito, ao contrário da tendência atual - que se carrega desde a década de 90 - de localizar nos monstros uma alteridade radical (que muitas vezes só serve para afirmar uma também radical e autoritária identidade), cujo desígnio não é outro senão destruir aquilo que mais amamos (nosso precioso cotidiano), o monstro de Super 8 encara nos olhos o menino enlutado e afirma, tal qual uma superfície especular: ‘eu sou você, meu desejo é o seu’. Assim, construindo-se sobre esta fascinante ambigüidade, o filme de J.J Abrams (produzido por Spielberg), inevitavelmente guarda um parentesco com a produção de 1986 Stand by me (em português, Conta comigo), o clássico filme estrelado por River Phoenix que gira em torno da busca de alguns garotos de uma também minúscula cidade americana pelo corpo de um garoto atropelado por um trem. Como manda o consagrado esquema dos filmes de aventura, toda sua carga dramática se aloca no percurso dos meninos que, sem exceção, debatem-se no seio de famílias que colapsaram sobre a própria promessa de felicidade. E, ao fim, também neste filme dos anos 80 o que se revela é que o objetivo da saga (encontrar o corpo do garoto morto) vale menos do que a busca em si. Em outras palavras, a grande descoberta destes rapazes é a de olhar para o corpo já putrefato e também ouvir dele: ‘eu sou vocês’, amarga lição que coincide com a entrada na idade adulta.
Portanto, não é por acaso que estes filmes trazem um delicioso respiro de nostalgia para todos aqueles que já passaram ou passam por um processo de luto. É certo que todas estas obras encerram um falso conteúdo ideológico, cristalizado por seus finais mais ou menos harmoniosos. Mas, se é possível amenizar esta acusação, eu diria que a o efeito de ilusão criado por tais filmes é de fundamental importância para trazer aquele que a eles assiste ao ponto no qual, ao se deixar enganar, se é confrontado com sua própria verdade. De fato, é quase possível afirmar que tais filmes operam com o tema luto de uma forma mítica: ao mesmo tempo em que elidem sua raiz na violência da separação, deslocando o monstro para outro lugar que não nós mesmos, eles não negam que bebem nesta fonte: pelo contrário, o efeito inebriante que é lançado sobre o espectador o joga em meio a esta torrente juvenil de dúvidas, dores, esperanças, medos e desejos, enfim, tudo aquilo que nos faz identificarmo-nos tanto com a saga destes garotos em busca de compreender a sua própria dor. Talvez seja este o grande trunfo de Super 8 se o compararmos a Melancholia: de um planeta ausenta-se qualquer possibilidade de humanização. Desta feita, o que posa como destino, no último, é apenas a culpa marcada em pedra, sadicamente tecida pelas mãos do diretor. Já a dor do luto, nos filmes de aventura, apenas aponta para um novo uso do amor: no fundo o grande monstro que, dentro de todos nós, exige e espera, urra e agride, destrói o lar para onde passamos a vida tentando voltar.

Felipe Bier Nogueira é palmeirense, mas ninguém acerta sempre, é verdade! Apesar disso, ele se defende bem com Oito Mãos, e está a salvo em Nowhere Land!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A. A. de Padaria

. . Por Hugo Ciavatta, com 9 comentários

Na cozinha de casa tem um sofá. Esquisito. Que nada. Quem passa pelo pequenino portão de grade branca sempre aberto – encostado, às vezes, mas nunca trancado –, descobre que há duas portas antes de entrar aqui. Passada a primeira de ferro e vidros horizontais, é obrigatória a espera debaixo da samambaia para depois cruzar a segunda, de madeira, e então descobrir a sala. Sendo um destemido visitante, não dará bola à vigilante barulhenta e seus latidos mequetrefes. É preciso atenção, caso contrário, nem se nota que no alto e à esquerda, sobre a estante de livros e a mesa do computador, está a morada de nosso santo padroeiro: aquele que jamais nos deixa perdidos nessa vida, que pra tudo que perdemos, nos é solícito e pronto atende à nossa procura. São Longuinho mira e protege toda a residência de sua posição estrategicamente calculada. Pois bem, depois de conhecida a sala, os amigos já podem se sentar no sofá, que está na cozinha logo em frente. Nem Ap, nem kitnet, é uma casinha como outra qualquer. É preciso compreensão, também, pois é dever ainda dividir o espaço do sofá com um dromedário e um tucano. Ambos são de pelúcia, claro. E se a cozinha é o lugar mais legal de uma casa, da conversa solta e desordenada por encontros casuais, preparos de cafés, almoços ou jantares, ora, nada mais agradável do que ter um sofá ali, unindo a intimidade da cozinha ao aconchego de um sofá!
Porque estranha mesmo é a geladeira, que tem um daqueles imãs, imãs de geladeira mesmo, com três desenhos reproduzidos dois a dois, e três vezes seguidas, uns ao lado dos outros. São os símbolos de sanitários masculino e feminino em geral, dois homens, uma mulher e um homem, e duas mulheres, respectivamente. Na parte de baixo do desenho, com fundo colorido, está escrito “love is love”: aí, sim, esquisito. Porque todas as manhãs enquanto procuro alguma coisa na geladeira, percebo que a minha preguiça venceu o meu vício. Fico envergonhado de dizer essas coisas, sabe, não pelo choque que isso possa causar, mas pela trivialidade da minha condição, que afinal pouco importa. Também pois, ultimamente, ao abrir o jornal e ligar a TV, tenho visto muitas coisas que fazem do meu problema, novamente, uma coisa muito boba, não há dúvida que com o meu desatino sofro eu, óbvio.
Só que como a minha geladeira padece de misterioso e crônico vazio, aproveito pra pegar o jornal no portão e já corro na padaria que fica duas quadras atrás de casa. O seu Fernando já me conhece, quando é ele quem está atrás do balcão, apenas confirma: “é o de sempre, menino?”. Aceno com a cabeça e sorrio de canto pelo “menino” que ignora meus cabelos brancos. Precoces, é bom que se diga. Mas, outro dia, um homem, novo no atendimento e que nunca tinha me visto ali, me trouxe o tradicional expresso e pão de queijo depois do meu pedido. Foi só aí que me dei conta da tragédia, quando provei a xícara: o café estava adocicado. O rapaz ficou horrorizado, coitado, mesmo assim lhe disse pacientemente que apenas não gosto de açúcar no café, mas que não importava, iria tomar aquela xícara sem problemas. É uma questão de convivência, né, o sujeito não está acostumado com pessoas como eu, digamos, não viciados... em açúcar no café! Mal sabe ele que a ausência do açúcar é compensada pelo amarelar dos dentes, cafeinados por xícaras e mais xícaras ao longo dos dias, e pela obsessão, pela compulsividade em torno dessa porção de queijo mais polvilho feita no forno que me atormenta diariamente: o pão de queijo, a minha perdição. Já reparei, inclusive, que algumas garotas arqueiam somente uma das sobrancelhas quando eu, ao invés de as convidar para uma festa de gente com topete, luzes e roupas coloridas, ou para um jantar com macarrão iugoslavo ao molho prussiano, pergunto apenas se elas aceitam um pão de queijo. É tão mais direto, simples, só um pão de queijo quentinho e macio, se acompanhado por um cafézinho então... hum... sem açúcar, claro.
O professor Houaiss é que dá uma porção de jeito de falar o que quer dizer vício: defeito ou imperfeição são duas das primeiras palavras. Qualquer deformação que altere alguma coisa também é outra forma. Só com essas duas definições, por exemplo, apenas com as palavras imperfeição e deformação, não é por nada não, mas eu não preciso me manifestar, escrever uma palavrinha sequer, porque está estampado no meu rosto, literalmente: sou um deformado, digo, um viciado, em café e pão de queijo.
Mas enquanto a TV do seu Nando mostrava as manifestações em Brasília contra a criminalização da homofobia, ao mesmo tempo em que se comentava a aprovação do Dia do Orgulho Hétero pela Câmara de vereadores de São Paulo, tudo era muito estranho pra mim. Eu pensava que estávamos todos perdidos, que não havia sofá na sala ou São Longuinho que desse jeito nesse mundo confuso entre o que é estranho e o que não é.
Porque se um sujeito não conseguia entender o fato de alguém tomar café sem açúcar, o que há de fazer com que pessoas aceitem que “amor é apenas amor”, e que não há nada mais besta e trivial do que isso? Já sei, já sei, na certa faltou a Mário de Andrade ter notado o equívoco no título de seu romance, Amar, verbo intransitivo (intransitivo: 1. Adjetivo: que não se pode transmitir ou passar a outrem; intransmissível; 2 Rubrica: gramática. Adjetivo ou substantivo masculino: diz-se de verbo que não aceita complemento verbal; p.ex.: a criança caiu; o gato miou... Houaiss). É isso, claro, porque pra ser contra tornar crime uma violência, uma agressão a outra pessoa que Ama outra pessoa, só mesmo acreditando que Amor é um verbo concedido, restrito, ou então, justamente, que Amar só pode ser um verbo proibido.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Ainda sem nome

. . Por Fábio Accardo, com 7 comentários



Olhamos para a história não para vermos os tempos idos. Esses nunca esquecidos são os balizes e as respostas aos erros do futuro.

Nessa tal de história observamos em diversos momentos levantes do povo diante de um poder maior que parece representá-lo. Muitas são as variáveis que podem explicar tais insurgências. Para tais acontecimentos, poucas são as explicações capazes de compreender a totalidade dos fatos. O povo, enfim, pega em armas, ocupa os espaços públicos e avança enfrentando todo e qualquer poder por mudanças gerais na sociedade que tanto os oprime.



Os protestos que se iniciaram na Tunísia, em dezembro do ano passado, alastraram-se pelo mundo. Países como Egito, Líbia, Síria, Grécia, Espanha, Portugal e, mais recentemente, Chile, Israel e Inglaterra, vivem verdadeiros dias de insurgência civil. Esses levantes iniciam uma onda de protestos e denúncias de uma realidade que não mais dá conta de responder as angústias desses povos (ou mesmo desse mundo que se construiu em bases não muito sólidas).

Diversos foram as motivações que levaram milhões às ruas contras seus governos locais. Uma coisa em comum se observa: as manifestações abriram possibilidades de repensar os caminhos do mundo; trouxeram às mentes aquilo que se parecia perdido: a possibilidade de sonhar. Sonhar com um mundo diferente e vivenciar a possibilidade de construí-lo.

Exatamente nesta mesma data, há um ano, vários alunos (junto com movimentos sociais) de uma universidade pública do estado de São Paulo decidiram por bem ocupar um espaço público que estava inutilizado - uma cantina desativada. Durante quase quinze dias ficaram ali "ocupados" com o espaço, realizando diversas atividades culturais, tentando criar um espaço autônomo de sociabilidade e convivência. O resultado fora o mesmo de muitas outras manifestações - demoliram a cantina ocupada; se utilizaram da força para reprimir o "movimento".

Outro exemplo, há quase quatro meses, no Chile, estudantes estão em greve, ocupando universidades, colégios e escolas, tudo isso como protesto à mercatilização da educação no país. Essa situação é resultado de reformas feitas no governo do ditador Pinochet, e que até hoje não foram rediscutidas. Na última quinta-feira as manifestações se incendiaram, foram presas quase 800 pessoas. No último final de semana, até mesmo parentes desses estudantes em greve resolveram apoiar, todos saíram às ruas para denunciar os abusos policias.

Quase como resposta a reportagem de capa da última Carta Capital, e antecedendo ao editorial da Folha de São Paulo do último domingo, o MST ocupou nesse sábado (06-08-2011) terras da União griladas pela Usina Ester em Americana, interior do estado de São Paulo. Para aqueles que diziam estar o movimento em marcha a ré ou quase morto, centenas de famílias estão mobilizadas e acampadas lutando pela oportunidade de trabalhar, se organizar e tirar seu sustento.

Enquanto vivemos numa ilusória realidade que nos querem fazer acreditar como verdadeira e tranqüila, o mundo retumba os corações dos milhões de aflitos, daqueles que se rebelam e se dão a possibilidade de sonhar.

Fecho com uma frase de Vladimir Safatle que saiu hoje na Folha de São Paulo:
"Essas milhares de pessoas dizem algo muito mais irrepresentável, a saber, todas as respostas são de novo possíveis, nada tem a garantia de que ficará de pé, estamos dispostos a experimentar algo que ainda não tem nome."




Ilustração de Batata para a música inicial desse post - pode se ver no blog da Revista Miséria



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A ditadura exumada - Aversão oficial

. . Por Caio Moretto, com 4 comentários

allende
Quando ouvi pela primeira vez a notícia que os chilenos queriam exumar o corpo de seu ex-presidente Salvador Allende, achei incrível. Nós não conseguimos nem falar sobre a nossa história e eles estavam, literalmente, desenterrando a deles. Fiquei animadíssimo. Isabel Allende, parente mais influente do morto (que não tem nada a ver com a escritora) coordenou a ação, que deveria descobrir de uma vez por todas se o falecido se matou ou foi assassinado.

Estive no Chile na semana do veredicto. Além de estar curioso para saber o final da história, essa era uma das poucas notícias recentes que sabia sobre o país. Então, na primeira oportunidade que tive de puxar assunto com um chileno, achei que seria adequado trazer a questão. Perguntei à motorista do ônibus. Achei que ela ficaria feliz de saber de meu interesse sobre sua terra e de saber que estávamos acompanhando o antifuneral até no Brasil. Mas, sem querer falar muito a respeito, ela me respondeu grosseiramente: “Allende se asesinou”. Se asesinou? Como assim? Quis perguntar pelo menos se ele se asesinou sozinho ou se a armada ajudou, mas tive vergonha. Descontente com meus ambíguos conhecimentos de portunhol, passei o dia sem entender a resposta.

No dia seguinte fizemos um Free Walking Tour pelo centro de Santiago. Em frente ao Palácio de la Moneda, sede do poder executivo, paramos para ouvir algumas explicações dramatizadas por nosso guia em inglês. O idioma estrangeiro não chegava a nos denunciar, mas parados em praça pública na hora do rush... Até o mais analfabeto dos chilenos sabia que éramos turistas. Os apressados nos espiavam e, com o canto do olho - da direita ou da esquerda -, verificavam o que se dizia com tantos gestos sobre seu país. Até que, sem que eu precisasse perguntar, o guia resolveu comentar sobre o morto. “Salvador Allende committed suicide”, contou. Desta vez em inglês claro e pausado, praticamente for dummies. Tentou engatar a contar sobre a perícia, as armas e as balas encontradas na cena do crime, mas, do outro lado da rua, um grito o interrompeu: “Es mentira!”. Com a credibilidade questionada, contentou-se em dar uma risada e dizer que esta era apenas a versão oficial, não necessariamente aceita por todos.

Neste dia, frustrado com o sentimento de que a história não passa de um apanhado de versões oficiais, fiquei pensando sobre o caso brasileiro. Sempre fui pela abertura dos arquivos da ditadura no Brasil. Porém, começo a ponderar que, dependendo do presidente, talvez eu prefira um bom lacre numerado.
Só se exuma um corpo uma vez. E, por mais que mude o governo, conta-se apenas uma versão oficial. Um governo se diz diferente do outro, mas o medo de que uma crise política possa ser mal vista internacionalmente e virar uma crise econômica impõe silenciosamente uma série de regras de conduta. Essa é uma delas. Portanto, se exumarmos a ditadura, teremos uma única chance a uma única versão oficial. E, com o oficial errado, podemos acabar passando a vida do outro lado da rua, gritando, como bêbados, que é tudo mentira.

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GASPARI, Elio. A ditadura exumada. Santiago: Mistura Indigesta, 2011. (Es mentira!)

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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Divulgando - 2º Festival Flaskô Fábrica de Cultura

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários



Colocar a arte em uma vila operária é também dessacralizá-la. Há em alguns setores do meio artístico e da "intelectualidade", ainda que não se admita, certo receio com este tipo de ação ousadamente proposta e realizada pela Flaskô. O medo dessa parcela de pessoas, em geral, é o de que pessoas "comuns" não estão preparadas para a fruição artística, agregando ao adjetivo "cult", um valor de mercado ou diferenciação que deve ser exclusividade dos iluminados que têm "capacidade" de absorver tais linguagens artísticas.

Definir arte, por si só é uma tarefa contraditória. Para mim, não necessariamente a arte tem uma função social, que levará diretamente a uma suposta mudança social - como boa parte dos artistas dos anos 60 chegaram a se pautar - tampouco um caráter meramente conceitual, quando um artista conversa apenas com seus pares, caso de parte da produção contemporânea. A mesma lógica do sujeito ter que saber o processo de formação de uma cerveja para ter "capacidade" de apreciá-la é a utilizada por "especialistas" para definir o que é arte e a qual o grau de "capacidade" deve ter o espectador para fruí-la.

Pelo contrário, a arte é viva, imaginativa, não caberia em linhas, por mais prolixas e compridas que fossem. Deve, acima de tudo incomodar, provocar, fugir da normalidade para que ela seja questionada, trazendo à tona anseios de uma época, ainda que sem essa intenção. Mesmo que seja para pensarmos "por que chamam isso de arte?". Neste sentido, a Flaskô , ao tirar o teatro do teatro, os esportes do clube, a exposição do museu, os universitários da universidade é, em menor escala, fazer o mundo sair de sua zona de conforto. A síndrome que a democracia vive e a arte, bem como seu mercado, parece caminhar: transtorno obsessivo contra a mudança.

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Não perca:

12/08 - 20h - A Brava, com a Brava Companhia.

Um dos grandes destaques do teatro de rua, a Brava companhia, que estorou na cena do teatro nacional com o fantástico "Este lado para cima" (2010), leva ao festival da Flaskô, "A Brava", que conta a história de Joana D'Arc, sendo o primeiro trabalho impactante da companhia, fruto de pesquisa no teatro de rua, modalidade característica do grupo..

13/08 - 20h - Conjugado, com Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes.


O grupo venceu a categoria especial do Prêmio Shell, o oscar do teatro nacional, mas fizeram questão de manter suas convicções. Na hora de receber o prêmio, um dos atores declamou um texto que dizia frases como "crianças iraquianas explodem", enquanto outra atriz jogou óleo preto no trofeu, simbolizando os estragos da empresa que patrocina a premiação.

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Mas se você já conhecia esses espetáculos, vale uma visitinha guiada pela fábrica, gerida desde 2003 pelos seus próprios trabalhadores, que seriam demitidos após a falência da empresa e que agoram arriscam-se, com sucesso em uma nova produção, a cultural.



Que a arte, assim como a vida, não se mumifique...

A programação completa pode ser encontrada aqui.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Coluna do Leitor - As aventuras de Gardenal, o último homem livre - primeira parte

. . Por Mistura Indigesta, com 11 comentários

Pensa num cachorrinho bem fofinho, com carinha de coitadinho que te dá vontade de fazer bilú-bilú e levar pra dormir na sua cama. Assim, uma Fifi. Agora pensa num cachorro grandalhão, bobão, bem desastrado; mas que, no fim das contas, quando destrói todos os mil e trinta e nove bibelôs que você ostentava na sua sala de visitas, te olha com aquela cara de “eu sou assim... veja só...” e você acaba pensando lá com os seus botões: “Puxa vida, até que ele não é tão mal... debaixo de 58 quilos de destruição mora um coração bom...” Assim, tipo o Marley. Pensou? Agora esquece. Abandone todos os seus modelos preconcebidos pra tentar compreender o quê, afinal de contas, é o Gardenal.
Gardenal é um vira-lata assalsichado totalmente avesso a qualquer tipo de frescura; daqueles que andam com quadril balançando para um lado e para o outro empinando o nariz de modo a ostentar um ar que teima em escapulir a todas as tuas tentativas de compreender o que, afinal, se passa naquela cabeça ímpar. Jamais tente dar uma ordem ou impor a sua vontade sobre a dele. Não que ele seja totalmente hostil ou desobediente, mas contra todas as idéias que você julga ser as do bom-senso, Gardenal, com o seu gosto todo peculiar, faz o que quer, na hora em que quer. Ou melhor: dá um jeito de, no final, fazer o que quer; te sacaneando a ti, que te ilude de lhe querer o melhor. Não por filhadaputagem, ou por um particular desejo de te sacanear. Não. Não é nada pessoal contratigo. É que ele é do tipo independente mesmo. Que ri por último e, portanto, ri melhor. Mas por que, afinal de contas... por que diabos ele deveria respeitar logo a tua autoridade? – ou a de qualquer outro, claro!
Gardenal foi criado por Patrique, que jura por deus – contra todas as evidências – que ele é que é o dono do Gardenal; e que o Gardenal não é o dono dele.
Patrique gostava de levá-lo para passear na sua escola e eu mesmo – que morei com eles – costumava – contra todas as regras do bom-senso – levar o dito cujo lá para aquelas bandas. Ou era ele que me levava?
E foi numa dessas que o pequeno apareceu mais sua parceira Pintadinha num dia de Pagode do Souza. Cheirando à carniça. É claro que o Patrique ralhou, mas vai lá você explicar para um espírito livre que o feitio dele não condiz com os nossos, escravos que somos do gosto alheio? Rá! O bichinho cismou de deitar e rolar na bendita todos os dias. Patrique, coitado, morria de vergonha e tratou de acordar todos os dias cedinho cedinho e – em vez de, como de costume, ter mais tempo para fazer nada – dar banhos caprichadíssimos no pobre do Gardenal e deixá-lo com o delicioso e refrescante cheiro do sabão de pedra. Cortou as unhas, penteou os pelos, escovou os dentes; deixou nosso bravo Gardenal com aquela carinhazinha de cachorrinho de madame. Acabou-se o seu amor-próprio. Acabou-se a sua identidade de macho-vira-lata.
Aí é que ele se enfezou e tratou de ir lá rolar na carniça. De novo. De novo. E de novo. Até que Patrique desistisse.
Vai dizer: até tu que é mais besta ia!
Ou não ia?


Thiago Fernandes Franco é o Peixe, um leitor Chá Verde, pois contra qualquer "mistura indigesta" nessa vida, já dizia vovó-Peixe: chazim de boldo, meu filho!

Hugo Ciavatta, o mesmo de sempre (ou não!), contribuiu pontualmente com o texto, fez sugestões e algumas críticas em leitura ao lado de Peixe, este por isso pediu (sic) gentilmente (sic) sua parceria. E antes que alguém o condene por fazer "séries", logo avisa, a ideia é do Peixe.

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