VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Luci

. . Por Hugo Ciavatta, com 7 comentários

Assim que Luci e eu nos conhecemos, senti que eu seria apenas mais um na vida dela. Há quase seis meses, eu acabara de chegar de mudança, abria a porta com duas malas e uma mochila e ela não fora nem um pouco receptiva. Antes tivesse me ignorado, assim a paixão facilmente se encarregaria de mim. Pelo contrário, ela deixou claro o contragosto com a minha chegada, então, não me restava outra alternativa, eu a teria que conquistar. Minha reação foi imediata e avassaladora, deixei as malas, soltei a mochila, me abaixei um pouco e, ainda trêmulo pelo encontro dilacerante, estendi o braço, minha mão a tocou e, pronto, ela se entregou a mim, se atirou sobre meu corpo, enfim, ela tinha parado de latir. Depois descobri que ela faz isso com todos... entretanto, desde então somos felizes para sempre. Ou quase.
Eu que antes não tivera um animal de estimação por tanto tempo, a não ser que a Sra. Minha Mãe me contradiga, hoje estou com a cachorrinha Luci. Desde os primeiros dias, minha rotina se modificou completamente, antes ranzinza e insensível no dia a dia, agora pratico o bom mocismo e a politesse falsificadas. No início, ao amanhecer, abria a porta e lá vinha ela, deixava a caminha dela na sala e se enroscava nas minhas pernas, atrapalhava o passo até o banheiro, se jogava no chão e esperava pelo chamego no peito enquanto erguia as patinhas. Fofa. Algumas semanas depois e eu já estava de bode: pô, que cachorra mais folgada! Mentira. O meu café é acompanhado por ela, sempre atenta às frutas e ao pãozinho. Ela não curte muito maçã, por exemplo, mas se a ração já está na tigela, não há problemas, somos companhia um para o outro somente, e sem os olhares dela com uma das orelhas arqueadas e o focinho ligeiramente virado, numa posição entre o “que coitadinha que eu sou” e o “cadê minha comida??”. E comida não é problema para Luci, pois ração pode tardar, mas jamais falta, além do mais, imagino, ela é um raro objeto de estudo para a psicologia veterinária. Ela tem dois "complexos" animalescos distintos, o primeiro é felino, não há quem a convença de não ser uma gata, pois vive se lambendo o dia todo, das patinhas ao peito nada escapa do contorcionismo dela. Inclusive, nenhum outro cachorro do mundo gosta tanto de se esfregar pelos cantos, especialmente na manta do sofá e nas barras de todas as calças de quem quer que seja feito Luci. Autocarinho também é uma prática rotineira. Já o outro "desvio" é de origem anfíbia, não, ela não gosta de banhos, adora é uma terrinha mesmo, não pode ver aqueles montinhos na praça e logo já se joga toda, mas o complexo se manifesta quando aparecem mosquitos, moscas em geral: Luci pensa que é um sapo. Sem o alcance da língua de girinos adultos, no entanto, as moscas são alvo de saltos e abocanhares a torto e a direito. Há controvérsias se ela, de fato, já obteve sucesso, digamos, tentando "comer moscas", porém, ela não desiste.
Mas falava dos montinhos de terra na praça, porque quando não é a dona de Luci, minha vizinha de quarto na casa, sou eu quem passeia com Luci na pracinha mais próxima de nossa casa. Nada pode ser mais aventureiro, desbravador e emocionante que o passeio com Luci pela praça. Se ela está de bobeira pela casa, sem dar atenção, o mero toque na coleira a faz a mais alegre das criaturas da galáxia. Céus. Ingenuamente, logo que cheguei na casa, eu justo queria que o sobrenome de Luci fosse “in the Sky”, por motivos óbvios, porém, entre risos a dona dizia que não, que melhor era o “Quebra Barraco” mesmo. Na praça Luci se revela, chega tímida, farejando pelos caminhos e deixando suas marcas fisiológicas pelo amplo gramado. Abençoadas são as manhãs sem motoqueiros e destituídas de velhinhos com poodle, ou qualquer cachorro grande e bobo. Porque só sendo um cão muito bobo pra dar atenção aos latidos da pequena vira-lata Luci, encrenqueira. Em dias tranquilos, Luci até fica sem a coleira por lá, volta sozinha pra casa que fica a menos de cinquenta metros dali. Todavia, em dias agitados, cheios de gente pela praça, pela rua, e recheados pela pressa de quem a acompanha, meu Jesus Cristinho, ela faz um drama, pára quando percebe que é hora de voltar para casa, empaca, abaixa o focinho e levanta o olhar em reprovação. Não é fácil convencê-la. Se isso acontece, ao chegar em casa resmunga pelos cantos, esnoba a ração e, pior, senta de costas para a sala na caminha dela, fica de frente para a parede e ignora quem quer que seja na casa. O aparente castigo a que ela se submete é a forma de dizer ao mundo inteiro... "eu-fui-con-tra-ri-a-da".
Ah, mas nada como a ausência da dona por algumas horas para torná-la um ser efusivo novamente, com o reencontro. Admito, às vezes tenho ciúmes, mas só um pouco, principalmente quando ela chora horrores na porta do quarto, na caminha, ou onde quer que seja pela ausência repentina da dona, é de cortar o coração. Nesses momentos, mais do que nunca, vale uma boa conversa com Luci, um bom au-au-au-au compassado e ela fica se perguntando o que está acontecendo, em seguida, com um pouco de paciência, é só soltar um auuuuu uuuuuu auuuuu uuuuuu largo e ela te acompanha: está feita uma verdadeira sinfonia de uivos. É uma graça!
Com os dias mais frios, ultimamente, às vezes nem a dona dela consegue tirá-la da caminha de manhã, afinal, convenhamos, carisma é carisma, frio é frio, né?! Mesmo porque não adianta forçar a amizade, muitas vezes Luci demonstra que obediência não é o forte dela. Pedir pra que ela não faça barulho, pra que pare de latir quando não há necessidade, no meio da madrugada, se for por causa de um ruído tão longe na rua, não importa, lá está ela se esguelando. Mesmo depois de fortes reprimendas ela ainda insiste, mas é malandra, abaixa o focinho, mal abre a boca e manda apenas pequeninos bufos que saem abafados, teimosa.
Agora, enquanto eu mal digito estas letras no teclado do computador, ela está aqui sentadinha atrás de mim – pausa para conferir –, ou melhor, está deitada, de costas pra mim, bem no batente da porta, mantém o focinho entre as patas como se vigiasse a passagem, guarda o silêncio e atenta para a sala a frente dela, me faz companhia. Voltamos de um passeio tranquilo, ameno, minutos atrás, com todo o tempo que ela quis. Mas não me iludo, amanhã, talvez depois de passear e ter uma volta contra a vontade dela, sei que preferirá a caminha na sala, e vai me esnobar o restante do dia. Ou antes até, daqui a pouco a dona chega e perco meu status de celebridade de casa vazia.

Desenho de Fábio Accardo

domingo, 26 de junho de 2011

Imagens de Refrigerante

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários


Em muitos lugares do interior, o refrigerante vinha dentro de um saquinho. Era legal assoprar no canudo pra fazer bolha, à revelia de minha mãe. Mas na escola, propositalmente deixava de pedir o refrigerante, gostava de pensar que a menina que me propunha um golinho no recreio estava oferecendo mais que a tubaína. A primeira vez que descobri que deixava de ser criança foi quando percebi que já era mais comum levar o copo à boca do que abaixar a cabeça para que a boca chegasse ao canudo.

Hoje, minha vida é inventar motivos para sabe-se lá o que. Só sei que corro, corro, corro. Socorro: chuva de cacos, e eu me esquivando, um por um. Lá longe, sob um toldo vermelho, homens sem cabeças dividem uma coca-cola esperando a chuva passar. Parecem dar gargalhadas.

No fast food,um velho gordo come compulsivamente, já são três copos de refrigerante vazios em sua mesa. “Não é fome”, penso comigo. Na outra mesa, dois garotinhos discutem, um zomba do outro por ter dinheiro pra comprar o sorvete mais caro, ao contrário do amigo, que logo retruca e aponta com o dedo: “Nem ligo... Quando você for velho, vai ficar como aquele velho gordo”. A mãe, tia, irmã, ou coisa que o valha que acompanhava os meninos não consegue segurar a gargalhada e engasga-se com a coca-cola, que chega a sair pelo nariz. Se dissesse que não pensei “bem-feito”, mentiria.

Lá estava ela, bebendo uma latinha de refrigerante em uma das mesas, sozinha. Segurava o canudo com dois dedos: forte o bastante para não escapar dos lábios e suave o suficiente para não atrapalhar o fluxo do líquido. Entreguei uma florzinha que encontrei no meio do caminho e ela sorriu. Mas só acreditei que gostou de verdade do presente quando deixou a latinha inacabada sobre a mesa e saímos. Em uma mão ela carregava a flor, na outra me carregava.

terça-feira, 21 de junho de 2011

postagem em Debate

. . Por Fábio Accardo, com 2 comentários

Há pouco tempo um dos indigestos me encontrou postando em outro blogue uma charge que eu havia feito. Naquele momento, tal indigesto me presenteou com sua inquietação sobre o fato d'eu estar postando o desenho naquele blogue e não neste. Disse que havia feito a charge e que me parecia que ela se encaixava melhor para o outro blogue.

Passado alguns dias tal indigesto me enviou a sua angústia, que parecia transbordar, por e-mail. Não o respondi e resolvi colocar a polêmica para o coletivo do MI. Ali também as posições se polarizaram. Me abstive. Pensei por alguns bons dias e tive a brilhante idéia: leitores o que vocês acham?




quinta-feira, 9 de junho de 2011

Coluna do Leitor - Um Laicismo Equivocado

. . Por Mistura Indigesta, com 3 comentários




Iranianas choram por conta da decisão da FIFA pela preservação de um
espaço público laico e democrático


Foi com pesar que soube da notícia de que a seleção iraniana feminina de futebol havia sido desclassificada das eliminatórias para a próxima edição dos jogos olímpicos, que acontecerão em Londres, em 2012. E o mérito não é o futebol desta equipe, que nunca vi em campo. A eliminação é decorrente do fato de elas terem entrado em jogo, contra a seleção jordaniana, cobrindo suas cabeças com o véu (vestimenta mais do que conhecida, e comum na cultura dos países de maioria muçulmana).

A FIFA, entidade máxima do futebol mundial (a despeito de todos os casos de corrupção que a envolveram nestas últimas semanas), estabeleceu protocolo para que nos jogos de futebol sejam proibidas quaisquer manifestações de caráter ideológico, pessoal, comercial e, como se vê, religioso.

Discussão semelhante, a respeito de manifestações religiosas, surgiu na Copa de 2010, por conta de críticas a jogadores que, em suas entrevistas ou em comemorações de gols, faziam vistosas exibições de textos com referências a figura de Jesus Cristo, ou declarações em que enfatizavam seus agradecimentos a Deus.

Esta busca por um terreno laico para o exercício do esporte, como algumas autoridades do mundo da bola, principalmente europeus, tem procurado afirmar, parece estar em um âmbito bastante equivocado. Eu poderia dizer até, perigoso.

Sempre fui crítico deste tipo de política de contenção de manifestações. No primeiro momento em que surgiram as críticas aos jogadores cristãos a respeito de seus proselitismos dentro das quatro linhas, sempre concordei que qualquer exagero deveria ser discutido e trabalhado em outras esferas que não o da proibição pura e simples. O futebol, como principal esporte mundial, envolve diversas identidades culturais, inclusive religiosas. Portanto, sempre entendi que atitudes sensatas deveriam trabalhar o esporte como espaço democrático de manifestação de idéias e identidades, sob a égide da tolerância e do diálogo.

Agora, a proibição da seleção feminina iraniana de participar das próximas olímpiadas, por conta do uso do véu, é evidência maior de que, não apenas a FIFA não se dispõe à construção de um diálogo internacional a respeito das diferentes identidades culturais, como demonstra que sua decisão bebe da mesma fonte das políticas de intolerância secular que ascendem em um número significativo de países europeus, baseadas no discurso de que o espaço público laico deve ser preservado de qualquer interferência de fundo religioso, e que todos os cidadãos, a despeito de suas crenças e valores, deve submeter-se em última instância à tutela do Estado nacional e isento de valores religiosos.

É necessário observar, porém, que tais políticas inserem-se em um contexto agudo de emergência de uma nova direita nacionalista, temerosa com o ingresso de contingentes de imigrantes, sobretudo vindos de países de predominância muçulmana - os mesmos países que, em época anteriores, foram sugadas por estes Estados europeus, antigos impérios coloniais que interferiram (e até hoje interferem) na soberania destes povos.

Em tempos de debates acalorados sobre a inclusão de novos atores sociais na cena política, de um necessário revigoramento das discussões a respeito do multiculturalismo, e de um novo ascenso do movimentos democráticos (no mundo árabe, e que já bate à porta dos países europeus), a política de intolerância à identidade religiosa só possibilita afirmar que o laicismo, como eixo organizacional do Estado e da sociedade contemporânea, necessita assumir um novo significado, pelo qual não seja capaz de construir (e nem mesmo de tangenciar) discursos de exclusão de identidades culturais, sobretudo religiosas.

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Sydnei Melo é sociólogo e misturou-se com a “gente diferenciada” deste blog logo na faculdade. Cristão crítico, sempre se posicionou sem medo sobre todos assuntos.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Não me dê conselhos

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

- Oi, meu nome é Caio e estou a 12 dias sem beber.

- Pô, de novo? Você não consegue engatar um mês sem recair? Pensa na Mari pelo menos!

- Falou o senhor-bom-moço! O que você está fazendo aqui, então, mané?

Existe uma regra nos grupos Alcoólicos Anônimos que é bastante simples: ninguém comenta o problema do outro. Você vai, fala dos seus problemas e, se tudo der certo, dos seus progressos. Ouve o depoimento dos outros e pensa a respeito do que foi falado. Ninguém dá conselhos.

O conselho tem um poder perverso. Tira o foco de nós. É simples. Quando o outro fala você pode pensar no que ele está fazendo errado ou o que você está fazendo errado. E ver o problema do outro é muito mais fácil.

É engraçado isso. A gente só enxerga a nossa fraqueza no outro, quando não pode apontá-la nele.

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olhar_para_si_(ESCHER)Li esses dias o projeto de mestrado do Hugo, Esmeralda – Por que não dancei: autobiografia como exercício etnográfico e um pensamento ficou me perseguindo, me desconcentrando e me desconcertando a cada linha:

- Se toda crítica é autobiográfica. Por que não o contrário?

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Levei o texto do Hugo e essa pergunta para caminhar comigo por outras leituras e acabamos nos encontrando com esse texto do Luís Fernando Veríssimo sobre Fellini.

“Sendo o mais narcisista, Fellini é o mais italiano dos diretores italianos. E o mais divertido. O narcisismo italiano não implica introspecção ou exagerada auto-analise. Nem um fascínio exclusivo com o próprio umbigo. Ao contrário, é tão expansivo e abrangente que requer um espelho do tamanho da Itália.”

Um espelho do tamanho da Itália é uma autobiografia, uma crítica ou um exercício etnográfico?

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Querido Hugo, sua companhia em meus pensamentos ligou vários pontos. Acreditei ter entendido provisoriamente tudo sobre o mundo e sobre mim.

Essa separação entre crítica e autobiografia que me tirou o sono e me encurtou as unhas é absurda. É impossível falar de si sem falar do mundo e ingênuo achar que fala do mundo sem falar de si. Mas que bobagem, não?

“Parece-me um paradoxo crucial. Para existir plenamente como indivíduos, temos de nos inscrever numa narrativa mais ampla que a nossa.” (Jonathan Nossiter, Gosto e Poder)

Claro que hoje eu acordei com mais perguntas. Mas eram outras.

Obrigado,

Caio

P.S.: Peço apenas um favor. Só por hoje, não me dê conselhos, que eu estou em construção.

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“Isso de querer ser exatamente o que agente é, ainda vai nos levar além” (Paulo Leminski)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Amai-vos uns aos outros

. . Por Fábio Accardo, com 2 comentários

Ao que me toca a memória, nas brincadeiras infantis, de rua, havia uma que chamava polícia e ladrão de fácil explicativa: quem é polícia tem que "pegar" o ladrão. Jogo simples baseado num fato social onde a polícia é vista como agente da segurança e da ordem social e que deve prender o ladrão, aquele agente que causa desordem.

Lembranças me vêem a mente sobre o fato de nossa bandeira nacional ter algo de positivo quanto a ordem na sociedade. Uma professora de um colégio católico no qual estudei, acho que de geografia (ou história), lembrava que a ordem era princípio básico para o progresso de um povo.

Lembro-me de há tempos ter visto um filme em que bombeiros não serviam mais para apagar fogo, resgatar pessoas, salvar bichos, etc Essas coisas não mais existiam. As pessoas, naquele filme, viviam de pastilhas coloridas e "apreciavam" muito a televisão. Mas haviam os rebeldes que liam livros. Essas para o sistema podiam pensar e por isso poderiam ser diferenciadas e causar alguma desarmonia na sociedade. Bombeiros, então, serviam para colocar fogo nos livros. Incendiá-los. Numa busca interminável pela ordem na sociedade.

Bombeiros e policiais, são agentes da ordem. A nossa bandeira diz que a ordem leva ao progresso.

Policiais prendem bombeiros.

Bombeiros são agentes da desordem?

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