VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Questões para os Novos Movimentos

. . Por Thiago Aoki, com 18 comentários

Nos últimos meses, diversas manifestações e agitações políticas – locais, nacionais, globais – apareceram subitamente, como espinhas nos rostos juvenis. Só para citarmos algumas: greve dos servidores municipais/crise de corrupção na prefeitura em Campinas, churrascão da gente diferenciada, marcha pela liberdade, ocupação das praças espanholas, aumento do patrimônio do Palocci, escândalo sexual de um diretor do FMI, conquistas LGBT etc... Levanto aqui alguns pontos a serem (re)pensados.



- Os principais movimentos não têm a assinatura única de um partido, mas de coletivos amplos, que trazem variadas ideias e novas práticas.

- Nenhum partido é confiável.

- Os movimentos que deram mais certo, não determinaram suas ações sob a hégide da divisão de classes, mas a partir da necessidade de expressão de diferentes identidades e atores sociais.

- Os movimentos de massas reproduzem a falha da democracia representativa. É preciso pensar na possibilidade de cada indivíduo ser sujeito do coletivo.

- A prática é tão ou mais importante do que a teoria. Não é necessário um conhecimento formal elevado para propor novas práticas e as novas práticas levam a novas ideias.

- Os movimentos que deram mais certo, não necessariamente buscam a tomada de poder. E não necessariamente buscam alguma coisa. E mesmo assim podem ser mais eficiente do que movimentos de ideologias, objetivos e direções rígidas ou pré-determinadas.

- O movimento que mais incomoda a política externa norte-americana não tem como líder um sindicalista ou sociólogo, mas um hacker.

- O termo “companheiro” está obsoleto.

- A palavra “pelego” está obsoleta.

- A palavra “liberdade” permanece nobre.

- Um dos principais cartazes de Madrid possuía uma hashtag: “Ninguém espera a #revoluçãoespanhola”

- É mais interessante, sob todos os aspectos, cantar um pagode do que gritar palavras de ordem dos anos 60.

- É mais interessante, sob todos os aspectos, um flashmob ou uma intervenção urbana do que uma assembléia.

- O facebook é mais efetivo, sob todos os aspectos, do que um megafone.

- Um tweet de até 140 caracteres é mais efetivo, sob todos os aspectos, do que um manifesto.

- Um militante engraçado é mais eficiente, sob todos os aspectos, do que um militante intelectualoide (chato).

- O termo churrasco é mais interessante, sob todos os aspectos, do que o termo “luta de classes”.

- O bom humor, o exagero e a provocação devem ser pressupostos inalienáveis

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(E o último ponto explica também esta postagem.)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Olhos insuficientes

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

O FBI, o filé mignon da polícia americana, aquele grupo de policiais, especialistas e atores de Holywood, que tem acesso a praticamente qualquer informação ou método controverso graças ao Patriot Act, está pedindo ajuda.

A instituição divulgou recentemente na internet duas cartas encontradas no bolso de vítimas assassinadas que contém códigos não decifrados.

Não sei se o código será solucionado. A carta testamento do pirata La Buse continua indecifrada até hoje, apesar de seu código parecer simples. Há ainda a possibilidade cética de não haver lógica alguma nas letras aleatórias das cartas e a possibilidade hollywoodiana de ser um inusitado processo seletivo para o CSI.

De qualquer forma, eis uma questão interessante para qualquer campo de conhecimento: vale mais ter um time de especialistas ou informação aberta?

A Lei de Linus, formulada pelo hacker Eric S. Raymond é a base do Linux (aquele sistema operacional gratuito desenvolvido a mil mãos e que dificilmente trava ou pega vírus) e responde à questão da seguinte maneira: “Given enough eyeballs, all bugs are shallow”. Dados olhos suficientes, todos os erros são triviais.

O dream team da polícia está pedindo mais olhos.

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Quer tentar?


quarta-feira, 25 de maio de 2011

O outro, esse desconhecido - Shakespeare

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários


Nove ossos e uma grande suposição feita de gesso. É assim que Mark Twain descreve Shakespeare ao compara-lo ao brontossauro que ajudou a construir no Museu de História Natural. Ele escreve: “não tivesse acabado o gesso, poderíamos colocar o Shakespeare de Stratford e o dinossauro lado a lado e ninguém, senão um especialista, poderia dizer qual é a maior mentira”.

Não importa o quanto a gente conheça uma pessoa, é impossível apreende-la em sua totalidade. Há uma parte do outro que permanece sempre desconhecida. Há inclusive um pedaço do outro que não está nele, uma parte que só existe quando ele se relaciona. Tem gente que quer se conhecer com um aperto de mãos, batendo as anteninhas como formigas e seguindo seu caminho. Sai dessa, tamanduá.

Claro que a impossibilidade de conhecer totalmente o outro é o que dá grande parte da graça aos relacionamentos. Porém, reconhecer essa condição não é aceitar essa distância. É exatamente o contrário. Ao entender que o outro será sempre um desconhecido, a única atitude aceitável é a busca constante pela comunicação e pelo entendimento. É preciso identificar o gesso para não deixa-lo secar em preconceitos.

Eu não conheci minha avó. Já escrevi isso aqui no Mistura Indigesta. Convivi com ela por mais de 20 anos, mas não a conheci. Nunca perguntei sobre seus medos, seus sonhos ou seus segredos. Não sei o que a fazia rir, nem o que a fazia se sentir viva. Não sei como ela era com suas amigas e não sei como ela se apaixonou pelo meu avô. Simplesmente porque nunca perguntei.

Em seu livro Caderno H, Mario Quintana descreve um diálogo que teve com uma professora. Faço desta a minha provocação para que a gente comece a se conhecer.

- Que devo ler para conhecer Shakespeare?
- Shakespeare.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Coluna do Leitor - Crítica: "No Chão Sem o Chão", de Rômulo Fróes

. . Por Mistura Indigesta, com 8 comentários

De um mundo aberto a uma concretude falhada No Chão Sem o Chão.

Ou uma topografia.


A IDEIA

O álbum No chão sem o chão (2009), - é, eu sei, estou super atrasado para o tempo ultra-acelerado cotidiano -, apresenta uma passagem entre oposições: do alto ao baixo, do possível lógico ao concreto falhado, do impopular para a tentativa de se ser popular, da arte já feita/consumada para a possibilidade ou fundamentação dessa própria arte-poética. Essas passagens – que eu resumiria como passagem ao mundano – não são cristalinas, e é exatamente aí que reside a beleza da coisa: a passagem é tortuosa até o fim. (O caso exemplar é o final do segundo CD, na passagem de Astronauta para Saiba ficar quieto).

Ao longo do álbum, o ouvinte que aceitar o desafio proposto logo na primeira música (Quem tem tempo pra perceber/ Tempo pra perder/ Vai chegar ao Fim/ Do tempo de esperar por mim) verá que as guitarras, o naipe de metais, os ruídos, os barulhos e os efeitos sonoros vão sendo aos poucos deixados de lado (ou são depurados) em favor de um som mais limpo, culminando num melancólico violão acústico com três acordes finais que mais abrem o caminho para o ponto do cão do que propriamente encerram qualquer experiência estética. É um final no qual o dito é agora dito pelo não-dito; o violão se encarrega de ser o poeta. (A música então não é solidária a falha da poesia?)

Trata-se de um longo processo de depuração para chegar a uma realidade, a uma concretude, ao mundano despido de tudo que for supérfluo, um mundano desencantado, que desde o inicio – ou desde o fim – já trazia em si a ideia e a semente do fracasso do projeto estético, pois ninguém teria tempo de seguir o poeta ao longo do álbum (do ponto do cão [quem vai ter tempo para segui-lo?] e para quem me quer assim [quem me seguir na lama não se engana] e para fazer sucesso [sou um projeto que odeio]). A origem do fracasso é dupla: ninguém mais tem o tempo necessário para fazer essa experiência estética - e o Romulo Fróes sabe disso -, assim como ele se sabe distante do popular, tentando retornar a um popular falhado, imaginado.

AS PERGUNTAS

É o processo de caminhar para o começo, de se despir. Começa-se já sabendo do fracasso, já fadado ao fracasso. Mas é o fracasso da própria música ou da poesia? Há uma vingança do não dizível ou da música contra o poeta? Ou a música é solidária, intimamente solidária da impossibilidade do cantar? De qualquer maneira, a música também padece desse encolher.

IDÉIAS DISPERSAS

Os próprios nomes (dos CDs e das músicas) são emblemáticos - como, por exemplo, 'no chão, no fundamento, sem o próprio fundamento; no chão, no amparo, sem o chão, sem amparo, desamparado'. Ou, iconograficamente (veja a capa do álbum), do alto não dado (em aberto, fora do campo de visão mas implicado pelo contexto da foto) para o rés do chão, que é aqui a morte, todavia uma morte ambígua, porque se tira da morte sua concretude de carne - é a morte de uma pomba dourada, de uma pomba que existe só no alto do mundo de possibilidades. Talvez a pomba seja a imagem do próprio fazer estético que sempre se choca contra as possibilidades do material dado; por sua vez, o material dado é a própria condição do fazer estético.

No álbum é clara a relação entre a construção da obra e sua possibilidade: é uma relação tensa, que sempre remete ao silêncio (do poeta) e a morte (que é o silêncio supremo e eterno); veja: a pomba da capa, saiba ficar quieto, cala boca ja morreu, melhor é o silêncio da dor cega (trecho da última música do álbum), etc.

Enfim, a beleza do álbum é a quantidade quase infinita de relações de significado que ele carrega. Infelizmente não darei conta de quase nenhum.

O MATERIAL DO FAZER ESTÉTICO

Do ponto do cão, lógico, sim e não, para o chamamento do negativo de uma musa (a anti-musa). O que é esse negativo, se não o contrário de uma musa idílica e campestre? Se não uma musa concreta (uma avó, por exemplo). Uma musa mundana e concreta, não romântica.

O material da música-poesia é esse sentimento do que passou e deixou algo, essa dor. O álbum é melancólico e sempre aponta para a falha, esse sentimento de se chocar e não sobreviver. Mas a possibilidade do fazer poético é a felicidade no alto, ali, não aqui! A casa do poeta-música fica ali e ninguém passa, inclusive o próprio poeta! O alto é o dia, a felicidade, é casa do fazer poético, mas ninguém passa (Minha Casa). Assim como quem quiser bem o poeta, o colocará na nota mais alta do flautim – diga-se de passagem, é um instrumento bem agudo. (Para quem me quer assim).

OUTROS APONTAMENTOS

Desconfio que a relação com o sujeito amado vai mudando de uma cd para outro seguindo essa ideia geral, mas não vou desenvolver esta ideia.

Outro lado que não posso explorar é a clara relação entre as imagens do encarte com os respectivos CDs. No primeiro cd, temos imagens de uma construção imaginária e de carros de boi fora de lugar, ou seja, um mundo de possibilidades em construção, mesmo que canhestramente; no segundo cd, vamos direto de encontro ao mundano mais estilizado e elitista possível, tirado de seu contexto por vidros. (sofás, mesas chiques).

EM RESUMO

O álbum parte de um mundo, de um alto abstrato, aberto, feliz, que é a morada inalcançável do poeta, esse mundo só é dito pelo contexto do não-dito (da música) e de referências na letra (quem olha para o poeta tem quatro saídas: uma sim, uma não). Enfim, a imagem desse mundo de possibilidades só referido, mas não realmente dado, é a imagem da capa do álbum: a pomba dourada morta, que remete ao alto, lugar de excelência da pomba, mas ao alto imaginário ou não real, ou simplesmente abstrato.

Esse processo de ir ao concreto falho e falhado, porque incompleto, se mostrar no desaparecimento dos efeitos sonoros na música, e na letra pela temática mais mundana, digamos.

O álbum é uma contradição, pois o final nega toda a possibilidade do próprio álbum inteiro, já feito.

MINHA CULPA, SÓ MINHA CULPA.

Não vou tratar da questão que maior parte das letras é do Nuno e do Clima e que em geral as músicas são do Romulo. Assumo o álbum abstratamente como o produto de um poeta-músico único, que se justifica em grande parte pela relação estreita entre o trio de artistas.

Para ouvir: http://www.myspace.com/romulofroes

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Olavo Antunes é filósofo (bom, pelo menos é o que atesta o diploma chancelado pela Universidade Estadual de Campinas: 'Formado em bacharelado em Filosofia'). Surdo de um ouvido, gordo, gosta de colas coloridas, calvo precocemente e entende absolutamente nada de música, artes ou o caralho-a-quatro, mas mete sua colher onde não é chamado. Aliás, odeia cozinhar - "Que gordinho sem-vergonha!", gritam os ratos. "Hemos de devorá-lo!"

domingo, 22 de maio de 2011

"Mundo, mundo, vasto mundo..."

. . Por Hugo Ciavatta, com 6 comentários

"Odeio as viagens e os exploradores. E eis que me preparo pra contar minhas expedições (...) esse gênero de relato encontra aceitação que para mim continua inexplicável. A Amazônia, o Tibete e a África invadem as lojas na forma de livros de viagem, narrações de expedição e álbuns de fotografias em que a preocupação com o impacto é demasiado dominante para que o leitor possa apreciar o valor do testemunho que trazem. Longe de despertar seu espírito crítico, ele pede cada vez mais desse alimento, do qual engole quantidades fantásticas. Ser explorador, agora, é um ofício; ofício que não consiste, como se poderia acreditar, em descobrir, ao cabo de anos de estudo, fatos até então desconhecidos, mas em percorrer elevado número de quilômetros e em acumular projeções de fotos ou animadas, de preferência em cores, graças às quais se encherá uma sala, vários dias seguidos, com uma multidão de ouvintes para quem as trivialidades e as banalidades parecerão milagrosamente transmutadas em revelações, pela única razão de que, em vez de produzi-las em sua terra, seu autor as terá santificado por um percurso de 20 mil quilômetros" (...)
"Hoje, quando ilhas polinésias afogadas em concreto se transformam em porta-aviões solidamente ancorados no fundo dos mares do Sul, quando a Ásia inteira ostenta o semblante de uma zona enfermiça, quando as favelas corroem a África, quando a aviação comercial e militar avilta a candura da floresta americana ou melanésia antes mesmo de poder destruir-lhe a virgindade, de que poderia a pretensa evasão da viagem conseguir outra coisa que não confrontar-nos com as formas mais miseráveis de nossa existência histórica? Esta grande civilização ocidental, criadora das maravilhas de que desfrutamos, certamente não conseguiu produzi-las sem contrapartida. Como a sua obra mais famosa, amontoado onde se elaboram arquiteturas de uma complexidade desconhecida, a ordem e a harmonia do Ocidente exigem a eliminação de uma massa extraordinária de subprodutos nocivos que hoje infectam a terra. O que nos mostrais em primeiro lugar, viagens, é nossa imundície atirada à face da humanidade."
"Então, compreendo a paixão, a loucura, o equívoco das narrativas de viagem. Elas criam a ilusão daquilo que não existe e que ainda deveria existir, para escaparmos da evidência esmagadora de que 20 mil anos de história se passaram. Não há mais nada a fazer: a civilização já não é essa flor frágil que se preservava, que se desenvolvia a duras penas em certos recantos abrigados de um torrão rico em espécies rústicas, talvez ameaçadoras por sua vivacidade, mas que permitiam também variar e revigorar as sementeiras. A humanidade instala-se na monocultura; prepara-se para produzir civilização em massa (...)."
(Claude Lévi-Strauss. Tristes Trópicos)

Em meados do século passado, as recordações de Lévi-Strauss, que viera ao Brasil, entre outros intelectuais, para a fundação da Universidade de São Paulo, não haviam encontrado temporalmente a primeira experiência humana pelo espaço, fora da órbita terrestre. Experiência esta que alterou, que redimensionou a aventura humana no universo. Fatalista, desesperançada, pessimista são talvez alguns dos adjetivos que podem caber às palavras do etnólogo. Ao mesmo tempo, uma visão suficientemente realista diante da destruição, da miséria humana pelo mundo. No entanto, não imagino quais teriam sido as palavras de Lévi-Strauss diante das imagens abaixo, uma recriação feita pela Estação Espacial Internacional da viagem de Yuri Gagarin. É uma nova filmagem combinada com o áudio, a gravação do primeiro homem a ver o planeta pelo espaço, e com uma incrível trilha sonora. A miséria dos vasto mundo criado pelos homens contrastada aqui pela poética de imagens do mundo que, de alguma forma, serve aos mesmos homens.




(ao amigo Arthur Saraiva - o Cão -, quem me indicou o vídeo)

domingo, 15 de maio de 2011

Os Idiotas de Nelson Rodrigues

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Por muito tempo, sob uma ótica simplista e infantil, cometi – assim como muitos sociólogos – o pecado de impedir que meu pensamento relacionasse a obra de Nelson Rodrigues com qualquer teoria social, isolando-o “apenas” como um gênio do teatro e da literatura. Afinal, como poderia alguém que fazia questão de se dizer conservador e apoiar a ditadura militar ser uma referência social?

Logo esse preconceito com a diferença de opinião foi se desfazendo em minha cabeça junto com outros paradigmas que caíam em minha vida. Lendo sua obra, e com artigos de estudiosos, comecei a perceber que havia nos escritos do dramaturgo embriões da sociedade brasileira contemporânea.

Engraçado, mas uma das expressões que mais me impressionam por sua atualidade vem de suas crônicas esportivas e diz respeito ao modo como ele chamava os jornalistas esportivos de sua época: “idiotas da objetividade”. Para Nelson Rodrigues "em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num corner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural".

A arrogância da expressão “idiotas da objetividade” é, na verdade, a demonstração de uma autocrítica radical com relação aos seus pares. Hoje, no tempo da grande mídia, o corporativismo cada vez mais forte impede qualquer possibilidade de um jornalismo (auto)crítico e independente – tanto na direita como na esquerda. Pensemos no que aconteceu com Heródoto Barbeiro, quando apertou o então candidato à presidência José Serra em uma entrevista no Roda Viva e dias depois fora afastado do programa, que sofreu uma reformulação “global”, literalmente. Ou então Maria Rita Khel, demitida após escrever, no Estadão, uma crônica ácida questionando o posicionamento da classe média brasileira frente aos programas de distribuição de renda.

É como se, desde a época de Nelson Rodrigues, tivesse se acentuado o conceito jornalístico que tem como referência os “idiotas da objetividade”. Basta ver os cadernos de economia, esporte, mundo, Brasil. Estão cada vez mais permeados por “técnicos especialistas”, com menos cronistas e sem espaços para discussões ou pluralidade/multidisciplinaridade de opiniões - embora sempre tenha uma pagininha para essa mea culpa, uma hipocrisia. Nesta semana, ficou evidente como temas polêmicos e ricos - a morte de Bin Laden, a união estável homossexual, a disputa pelo metrô de Higienópolis – foram tratados de modo dicotômico e simplista. A ilusória busca da verdade, como se ela fosse uma só, una e indivisível.

Para os editorias de jornais, revistas e noticiários televisivos, o mundo divide-se em bandidos e mocinhos, radicais e conservadores, machos e fêmeas, direita e esquerda, pobres e ricos, patrocinadores e público alvo Falta no jornalismo, assim como na educação, o distanciamento crítico, ou como nos mostrou Nelson, enxergar a “complexidade shakespeariana” e o “evidentíssimo do sobrenatural” que há por trás de cada notícia.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Cartas da Vó, Cartas de Henfil

. . Por Caio Moretto, com 4 comentários

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O pessoal gostou da senhora, .

Eu não vou te amolar, não. Só queria me sentir um pouco na pele do Henfil, aquele cara de pau que escrevia para a mãe dele e destrinchava tudo quanto era problema do Brasil. A Dona Maria respondia preocupada com o Henfil, mas deram sumiço foi no seu irmão, o Betinho.
Também, vó. Que idéia, né? Escrever umas verdades no jornal.
Isso é passado. Ninguém mais faz isso, vó.
É como os LPs de dois lados. A Marisa Monte tentou adaptar e fazer um CD duplo. Lado A: Infinito Particular. Lado B: Universo ao Meu Redor. Só o primeiro vende, entende vó?
Saudades,
Caio
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Natal, 12 de abril de 1978.
Mãe,
Fiquei muito alegre quando os dubladores entraram em greve. Hah, sim, lembrei. Isso não é do tempo da senhora. Dubladores são aqueles que fazem a voz no lugar dos outros. Por exemplo, a voz da Kelly, uma das henfil_e_donamariapanteras, quem faz é a Neuza Amaral. A da Farrah, é a Marilisi….
A greve é justa, questão trabalhista. Ponto final.
Eu estou satisfeito é porque, depois do advento dos dubladores, nunca mais ouvimos a voz real do Kojak. Ficou chatíssimo ver filme de TV. Tanto faz ser John Wayne, Woody Allen ou Baretta. A voz é sempre a mesma do mesmo dublador. E a aflição que dá ver o Marlon Brando movendo os lábios assim, e a voz saindo assado?
Talvez o desespero que toma conta da gente, quando vê um filme dublado, seja apenas identificação. Nossa situação é a mesma, mãe! Nunca notou que a minha voz, a voz da senhora, do Carlito, da Regina, do Alfredo, da Jane, da Nelma, do Humberto, do Ivan, a voz de 110 milhões de brasileiros é feita pelo mesmo dublador?
Eu quero ouvir a minha voz!
Um beijo do seu filho,
Henfil
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Pouco antes de sua morte Henfi escreveu, dirigiu o filme Tanga – Deu no New York Times, a história da fictícia ilha de Tanga. Isolada do resto do mundo, toda notícia do exterior chega ao povo de Tanga por meio de uma única fonte, um exemplar do periódico The New York Times, lido apenas por seu ditador e depois queimado. História que em nada se assemelha ao episódio midiático internacional envolvendo a morte de Osama bin Laden. “Está declarada a democracia”.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O outro, esse desconhecido – A avó

. . Por Caio Moretto, com 6 comentários

Quem a conheceu sabe bem do que eu falo. Minha avó era uma personagem de ficção que escapou para a realidade, uma figurinha única e inesquecível, de temperamento forte e comentários afiadíssimos.

A Mari, minha noiva (sim, escrevi essa passagem só para dizer que estou noivo mais uma vez), passou pelo teste logo no primeiro dia. Íamos ao teatro na companhia de meus pais e aproveitamos a viagem a São Paulo para fazer uma visita aos avós. Dirigindo a palavra à minha mãe a vó perguntou: “mas pode ir de jeans?”. “Vó, essa de jeans é a Mari, minha namorada”. Não respondi assim, mas a história foi mais ou menos essa.

foto_voAntes de entrar no ciclo que tirou toda sua saúde, minha avó teve um período de recuperação. Lembro que estávamos todos em sua casa e ela conseguiu se sentar na cama para nos receber, o que já era um ótimo sinal de progresso. Todos conversavam. Ela ouvia mais do que falava. Até que juntou forças e entrou com um comentário certeiro. Uma patada, de leve, em meu avô. Algo do tipo “Vai esperar eu sair dessa maca e servir alguma coisa para eles comerem?”. Meu avô já estava fragilizado com a situação e ficou nitidamente sentido com o comentário. Seus olhos marejaram um pouco, ele virou para nós e confessou, com uma saudade alegre e doída:

- Essa é a Cema que eu conheço.

Acho que é dos defeitos que a gente tem mais saudade, daquele pedacinho do outro que faz a gente sentir que o conhece de verdade, que a gente identifica por trás da máscara e da etiqueta.

Eu nunca conversei muito com minha avó. Apenas ouvia suas histórias, na maioria das vezes sobre os outros, e tinha um carinho incondicional de neto. Dessas frases que a gente guarda no canto da memória, no baú do “como minha avó dizia...”, tenho apenas duas. A primeira ela seguia ao pé da letra. “É mais gostoso dar um presente do que receber”. Lembro do calendário na sala com todos os aniversários e de atualização que ela fazia a cada virada de ano. A segunda eu acho que ela disse uma única vez, mas a memória da gente tem dessas coisas, grava o que quer gravar. “Ainda bem que ninguém consegue ouvir o que gente pensa”, ela me disse.

Ainda bem, vó.

Pena que a gente pergunte tão pouco.

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