VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

De onde vem a calma?

. . Por Thiago Aoki, com 6 comentários

Li críticas sobre o cinema de Sergio Bianchi, segundo as quais, em seus filmes, a obsessão do diretor pelo argumento atrapalha a trama. Depois do fantástico “Cronicamente Inviável” e do bom “Quanto vale ou é por quilo?”, tive a oportunidade de assistir, sem muitas expectativas, ao “Os Inquilinos”, que passou quietinho por 2010. Bianchi não é sociólogo, mas suas películas são aulas de sociologia, que precisam ser revistas algumas vezes para se notar tantas entrelinhas.

Não entrarei no mérito do filme, que tem passagens marcantes e outras nem tanto, mas trago-o aqui pois em uma de suas cenas, lá estava a linda poesia de Carlos Drummond de Andrade, “A morte do leiteiro” (confira na íntegra clicando aqui), interpretada por Cassia Kiss.



Drummond traz na poesia, sua visão sobre o falecimento de um leiteiro, morto por engano durante a madrugada.

Na Bienal de Artes 2010, um dos vídeos fazia menção a uma entrevista de Clarice Lispector, em que diz sobre os enigmas de seus escritos e menciona um texto escrito sobre o bandido Mineirinho, “morto por treze tiros, quando apenas um bastava”.



A crônica, escrita em 1978 (confira na íntegra clicando aqui), traz o seguinte trecho:

“(...)a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”

Havia me lembrado deste vídeo quando aconteceu o massacre de Realengo, e me veio à tona novamente enquanto ouvia a triste saga do leiteiro.

“Primeiras Estórias”, de Guimarães Rosa, é um livro no qual praticamente todos os contos falam sobre uma solidariedade mágica que em momentos únicos compõem os laços humanos. Uma família levada ao hospício, um pai que foge pro meio do rio, o enterro de uma menina abençoada. No conto “Irmãos Dagobé”, outro exemplo interessantíssimo. Liojorge, cansado de ser humilhado por Damastor Dagobé, mata-o. O tempo inteiro a tensão da possível vingança dos três valentes irmãos de Damastor, que matariam do pior modo possível o assassino. Até que Liojorge faz o anúncio que participaria do enterro e que ajudaria a levar o caixão. Para a surpresa de todos no arraial, os irmãos aceitam a ajuda e nenhuma morte acontece.

Drummond mostra-se quase íntimo de um entregador de leite que sequer conhecia e Clarice diz que o horror com o bandido, fez dela própria uma vítima. Os irmãos Dagobé entendem a humilhação passada por Liojorge e este é perdoado, mesmo matando um dos irmãos. Tragédias, catástrofes, pena, culpa. O que tira, da escuridão do baú, a possibilidade de nos colocarmos no lugar do outro?

É a dúvida que incomoda a professora do filme. “De repente, por causa de um barulho, tudo acontece. Depois acalma de novo. Nasce o dia, mas aí já é diferente...”

Eu complementaria: estamos mansos, individualmente mansos, novamente.

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Mistura Relacionada - Esperança Equilibrista

terça-feira, 26 de abril de 2011

Vinho: embriaguez

. . Por Fernando Mekaru, com 1 commentário

Sempre esteja embriagado.
Só ísso.
É a única questão.
Para não sentir o terrível fardo do Tempo,
que fere seus ombros
e que te joga à terra,
embriague-se sem cessar.

Mas de que se embriagar?
De vinho, de poesia, de virtude, à sua escolha.

Mas embriague-se,
E se em algum momento,
nas escadarias de um palácio,
sobre a verde grama de um fosso,
ou na morna solidão de seu quarto
você despertar,
a embriaguez já diminuta ou ausente,
pergunte ao vento,
à onda,
à estrela,
ao pássaro,
ao relógio,
[...]
pergunte que horas são,
e o vento,
a onda,
a estrela,
o pássaro
e o relógio responderão:
'É hora de embriagar-se!
Para não ser um mártir escravo do tempo,
embriague-se,
embriague-se sem cessar!
De vinho, poesia ou virtude, à sua escolha.'

~ Charles Baudelaire, "Enivrez-vous", tradução livre.


Charles Baudelaire já dava a dica no século XIX: não são os aromas de carvalho, cravo, baunilha ou couro que nos atraem no vinho, muito menos o seu potencial para realçar sabor de carne vermelha ou relacionamentos com pessoas que acham que vinho é combustível do romantismo - o grande atrativo das uvas fermentadas em formato líquido é o entorpecimento e a embriaguez, dois termos que entre muitas coisas descrevem o estado de espírito em que, normalmente, o tempo é a última preocupação dos homens.

Desprovidas do desagradável sentimento de estarem a cada momento mais próximos da não-existência e dos problemas que se colocam conforme as coisas não ficam paradas, as pessoas acabam ficando com mais tempo para atividades prazerosas e sublimes que seriam de difícil execução quando sóbrias - como por exemplo a expressão de seus sentimentos e ideias mais interiorizados e de mais difícil expressão a partir do que se convencionou chamar de "arte".

[Nota: muitas pessoas preferem fazer essa expressão daquilo que está interiorizado e reprimido sob camadas de racionalidade e reflexões bem-construídas a partir dos conhecidíssimos "diálogos/declarações/ações de bêbado". Estes costumam ser muito mais comuns e devastadores do que a expressão artística no que diz respeito a passar mensagens e expressar sentimentos, mas infelizmente não são o foco deste blog.]

Não é difícil entender o porquê da arte estar tão ligada ao vinho e outros produtos da atividade humana que se liguem à embriaguez e outras atividades que deformam a percepção normal de uma pessoa: às vezes, é somente a partir de uma percepção do real deformada pelo álcool e outras coisas que conseguimos enxergar possibilidades de expressão que ficam ocultas a nós na opressiva e concreta realidade racional e estável expressa pelos sentidos quando estes estão em pleno funcionamento. A arte, mediada pela embriaguez, é uma maneira de mostrar esses aspectos ocultos e inéditos do real, abrindo mais possibilidades dentro dele. É uma interessante contradição que a arte embrigada coloca, sob esse ponto de vista: a realidade se abre um pouco mais a nós justamente quando fazemos um esforço consciente para ficarmos distantes dela e expressarmos essa irrealidade de alguma maneira.

Dito tudo isso, o que você está esperando para se embriagar - de vinho, poesia ou virtude, à sua escolha?

terça-feira, 19 de abril de 2011

Vinho: "Ovinho"

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Vinho: A última Parreira (Conto)

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Um homem na cama do hospital. Estava para morrer, sabia que morreria em breve, era fato consumado. Era um escritor, um poeta errante, nos momentos errados. Vendo de sua cama que a poesia esfacelava-se na velocidade da folhas que caiam no outono. Da janela do hospital, via-se uma parreira que parecia resistir ao pincel cinza que transcorria a cidade. Sentia-se só.

Na mocidade, pensava que alcançar a academia, não tão acessível há quarenta anos, lhe garantiria uma vida de conforto. Lembrava como se fosse ontem do Vinho do Porto que ganhara de seu pai logo que entrou para o seleto grupo de futuros intelectuais:

-Tem tudo para ser grande, filho. Seus sonhos têm que ser maior que as suas pernas, assim como é maior a quantidade de vinho em uma garrafa do que o que se cabe em uma taça. Mas o que chamam de maturidade é a calma para mudar o vinho de recipiente sem que ele transborde ou manche a toalha sobre a mesa.

Anos depois, formou-se, era, enfim, oficialmente letrado. Tudo ia bem, engenheiro estável, saiu empregado da formatura e, colhendo os frutos do milagre econômico brasileiro, tinha sua fatia do bolo. Estava pronto para a vida, e seu pai, dividindo com ele um vinho francês que trouxera de sua última viagem a Paris, especialmente para a ocasião, pressionava.

- Filho, que grande dia.

-Obrigado.

-Reparou que a taça de vinho tem o formato de uma vulva? A mulher que compõe uma família, meu filho, é como este recipiente. Olhe para sua mãe, por exemplo, serena, sentada na mesa. O cristal, aqui, poderia ter qualquer formato, mas ele abrilhanta e acalenta o seu conteúdo, sem deixar que ele se perca, dando a base e forma para uma vida estável. Você precisa se casar, meu filho.

- Sim pai, eu estou procurando a mulher certa.

-Na sua idade, eu já era casado.

-Sim, e eu tenho certeza que logo alcançarei mais essa conquista.

-Tem mesmo? Não me parece uma preocupação recorrente pra você, como obviamente deveria ser.

-Assim como o cristal é único dentre tantos materiais, procuro uma dama única para que eu possa preenchê-la.

-A mulher certa, meu filho, é uma dama na sociedade e uma puta na cama.

-Devo olhar novamente para minha mãe como exemplo, pai?

O que é preciso para uma mudança de rumos? Uma separação, um novo emprego, um posicionamento político. Pois para ele a mudança veio anos depois, ainda estava solteiro, sob efeito de muitas taças de vinho, sentado embriagado com uma colega da empresa, após convidá-la para um vinho em sua casa, terminado o expediente.

-Agora que estamos bêbados, conte-me um segredo qualquer.

- Faz três anos que não falo com meu pai, desde que me formei.

-Por quê?

-Por causa de uma taça de vinho, como esta.

-Como?

-É uma longa história, não quero falar. Conte-me você um segredo.

Sentiu a moça lhe beijar e não reagiu, apenas retirou do bolso um papel, pegou uma caneta tinteira e escreveu palavras que lhe vieram vomitadas à cabeça. Foram seus primeiros versos e a descoberta de que escrever lhe fazia reinventar o mundo como um beijo inesperado. Largou o emprego, estaria em tempo integral dedicado à nova profissão, seria escritor.

Tentou um, dois, três, quatro, cinco, quinze, vinte e cinco manuscritos. Viveu de esporádicos trabalhos para a redação de alguns jornais locais. Vez ou outra ainda escrevia panfletos para fábricas, sindicatos, ou quem lhe pagasse. Passaram-se anos sem que nenhum de seus poemas fosse aceito por editoras. Voltou a bater na porta de seu pai, que não demonstrou surpresa com sua volta, tampouco tristeza por seu rosto fatigado. Ofereceu-lhe um vinho comum, chileno, mas que poderia ser de qualquer país, um destes que se oferece pra visitas comuns.

- A que devo sua visita?

-Preciso que fale com seu amigo, Benício.

- Dono daquela editora?

-Sim.

- O que quer com ele?

-Tenho um conjunto de poemas, que escrevi nestes últimos anos, desde que larguei a engenharia. Quero publicá-los.

-Por favor, saia de minha casa.

Bebeu o que restava de vinho em sua taça e, com a porta fechada, sabia que dali em diante, o vinho seria doce e barato, não mais combustível de sua imaginação, apenas fonte de dores de cabeça no dias seguintes. Logo se percebeu doente e, após muito resistir ao seu próprio pessimismo, internou-se. Estava para morrer, sabia que morreria em breve, era fato consumado. Era um escritor, um poeta errante, nos momentos errados.

Quando o aparelho alertou que seu coração parara de bater, não se sabia se o que tinha em mãos era exatamente um haikai ou se havia simplesmente acabado sua força no meio da escrita. Não queria estar ali, e assim morrera, com os olhos rasos d’água ainda abertos, mirando a janela. Um poeta desconhecido, cujo epitáfio fazia-se por linhas cinzentas e tortas de resmungo retiradas de seus versos derradeiros.

A brisa no verde da parreira proclama
Safra rica de Vinho doce
Na vida seca de dor e de cama


Era início do outono e as folhas começavam a cair.

domingo, 17 de abril de 2011

Vinho: Rótulos

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário

Lá ia eu saindo de casa em direção ao bar, ao mesmo bar de tantas semanas e meses cotidianos enquanto duas histórias eram remoídas e aproximadas mentalmente. A primeira era uma boa e velha, na verdade sempre nova, dor de cotovelo. Nada mais fazia sentido, nunca iria descobrir algo de novo no mundo, nada teria mais graça, ou diversão que fosse. Tudo seria só chatice, as minhas veias tinham apenas acidez, ironia e sarcasmo profundos. E lembrar que estava a caminho de encontrar uma amiga chata era mais motivo pra ranhetice. Porque temos aqueles amigos que, potz, não dá, são chatos, ! Entendo se alguém me acha chato também, só não fique me dizendo, me lembrando disso, por favor! Ah, a menina é uma daquelas patricinhas (com o perdão às Patrícias de nome), enjoadas, que reclama de tudo, cheia de frescuras, que fala quase o tempo todo de roupas caras, dinheiro e sucesso, ou seja, um pé no saco! Naquela noite, ia encontrar com uma galera, porque uma amiga dessa patricinha chegara de viagem. Amiga de patricinha que chegara de viagem só poderia ser, óbvio, tão patricinha quanto a amiga...

A dor de cotovelo era, puxa vida, uma garota tão linda, uma morena de sorriso tímido, com cabelos em dreds que a faziam de uma seriedade tola. Curioso, porque os dreds deveriam dar um tom relaxado a ela, no entanto, o olhar desconfiado compunha outra expressão. Mesmo assim, as palavras lhe saiam com alegria sutil, desfazendo qualquer dureza. Nos conhecemos numa noite e já combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte, enfim, tudo seguiu bem demais durante alguns dias, mas acabar de uma hora pra outra... por quê?! Será que fiz alguma piada que ela não gostou?! … Me perguntava. Ou será que ela fizera tal como a moça do vinho, que apareceu pra jantar em casa com uma amiga?? É a segunda história.

Acostumados a convidar os amigos pra jantar em casa, ou simplesmente beber por qualquer pretexto banal, de surpresa certa vez uma amiga nossa trouxe uma convidada dela que não conhecíamos. Preparamos a especialidade da casa, um prato à moda dos anfitriões, preguiçosos e invencionistas. Preguiçosos não, talvez fosse melhor muquiranas, pois o preparo de uma tradicional paeja, além de considerável trabalhinho na cozinha, necessitaria de ingredientes, no mínimo, um bocado mais caros. O que havíamos preparado naquela noite estava entre uma paeja e um risoto, se é que essa comparação faz algum sentido... Depois de encaminhadas as panelas, já próximo da finalização, abrimos todos os vinhos que tínhamos em casa e fomos servindo os copos. O pessoal foi ficando mais soltinho, , sabe como é, o que seria da sociabilidade não fosse o álcool?! Grandes amizades, paixões e muitos sentimentos, até de conflito, devem muito às cervejas, vinhos e tantas outras bebidas! Depois de já levemente ébrios (adoro esta palavra – porque gente muito sóbria é mesmo um fardo – taí outra de que gosto muito, enfim, melhor parar com isso e fazer um post apenas sobre as palavras de que gosto), até a comida era a mais maravilhosa do mundo! É uma tática, considere a dica, embebede seus convidados antes do jantar, assim eles vão comer já satisfeitos, encantados com a comida sem antes mesmo a terem provado! Não foi diferente naquela noite, e elogios, muitos elogios nos vieram, à casa, ao papo da noite, à comida, e ao vinho, oras! “Que vinho delicioso!” nos disse a convidada surpresa já em direção à porta, quando todos já saiam. “Quero saber qual é, vou comprar dele também!” E foi em direção à cozinha, enquanto um dos anfitriões e eu nos olhamos apenas. Existem algumas maravilhas no mundo, é verdade, apesar das dores de cotovelo, é preciso reconhecer! Uma garrafa de vinho tinto seco bom por 79 centavos, por 79 centavos (!!), é uma raridade, mas, sim, existe. O preço não estava na garrafa, evidentemente, porém, a marca e a informação “de mesa” estavam no rótulo, claro. Com isso, a expressão da convidada surpresa ao se deparar com o vinho que tanto elogiara foi indisfarçável, e difícil de esconder também foram nossas gargalhadas com a reação dela. Como já estavam todos de saída, o fechar da porta foi o sinal para uma larga crise de riso!

Mas a minha dor de cotovelo não desistia durante a caminhada: teria eu me revelado um “vinho de mesa barato” para a moreninha dos dreds?? Ao chegar no bar de sempre, lá estava a galerinha de sempre, o garçom de sempre, e eu já ia pedir a cerveja de sempre acompanhada pelo lanche de sempre, porque se tem uma coisa que cai bem para dores de cotovelo é tradição e conservadorismo de butequim! Ao chegar na mesa, contudo, a amiga da patricinha levantou-se para me cumprimentar, ela que estava de costas para a entrada. De longe, e, digamos, com o cotovelo dolorido diante dos olhos, eu só conseguira fazer um comentário maldoso e preconceituoso no pensamento, “é loira... igual a amiga patricinha... deve ser um cocô igual, certeza”.

Só consegui assentir com a cabeça, apertando suavemente os olhos enquanto alguém dizia, “esse é o Bruno”, lhe dei um beijinho de cumprimento e um leve abraço, sequer um “oi” saiu da minha boca. Acenei rapidamente pra todos presentes na mesa e me dirigi à cadeira vaga do outro lado, na posição oposta àquela da moça que já não era mais “a amiga da patricinha”, e naquele intervalo de segundos passava a ser identificada como quem “tem nome de música”, passo pós passo até a cadeira. Meu sentimento era de profunda, amarga, dolorida vergonha, me senti a convidada surpresa do vinho de mesa barato, só que às avessas. Cada sorriso, cada gesto, cada olhar, cada palavra, cada desconforto com a conversa de roupa cara e glamour vazio da amiga patricinha ao lado, cada arregalar de olhos, cada lembrança de filme, cada comentário de livro, cada simpatia contrabandiada por delicadeza e elegância, cada suavidade, cada tudo nela era a Beleza...

Troquei a cerveja de sempre por uma taça de vinho, e estava tentando inventar uma história - como escrever sobre “vinho” numa série - pra não deixar a conversa parar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Vinho: Gosto & poder

. . Por Caio Moretto, com 5 comentários

vinho_e_poder

Esse post faz parte da série Vinho.

Uma das grandes preocupações da antropologia é tentar compreender o que é universal de todas as comunidades e o que é particular. Ironicamente, os livros de antropologia, depois de lidos, dividem-se em dois grupos que seguem um lógica parecida. De alguns lembra-se apenas o relato, de outros apenas a teoria. Detalhes interessantes tem esse perigoso poder de tirar a atenção do todo. Vale lembrar das duas galinhas d’O Homem Que Copiava de Jorge Furtado ou os dois acrobatas de Luís Fernando Veríssimo. O livro Gosto e Poder, de Jonathan Nossiter é uma sorte de estudo antropológico do mundo do vinho.

Os causos, detalhes e declarações polêmicas são uma diversão a parte. Até quem não entende nada de vinho consegue acompanhar e se divertir com a simulação de Nossiter ao levar um vinho alterado (misturado com outro vinho vinagrado) ao fornecedor e escutá-lo argumentar que não há nada de errado. Mesmo depois de prová-lo.

370306.1020.ASe você assistiu o filme Sideways (trailer) e lembra qual é o vinho que Miles (Paul Giamatti) acaba tomando sozinho em um copo de plástico ou ao menos a região onde o filme se passa, você irá se deliciar com os relatos e causos de Gosto e Poder. Neste caso, veja também o documentário Mondovino (trailer), do mesmo autor. Se esse é o seu caso, leia este livro duas vezes. Você não quer perder a teoria.

Fique com essa pequena degustação, filtrada, obviamente, pelo meu gosto pessoal.

“Uma reavaliação do vinho também poderia nos levar a reconsiderar o que nos fez adiquirir um gosto pessoal (em termos de vinho, de arte, de política, de tudo) e o que nos permite afirmar essa liberdade crucial sem nos deixarmos intimidar por aqueles que dizem saber tudo ou – pior – por aqueles que orgulhosamente se gabam de saber pouco ou nada”.

mondovino

“Parece-me um paradoxo crucial. Para existir plenamente como indivíduos, temos de nos inscrever numa narrativa mais ampla que a nossa. Se, ao contrário, afirmamos uma individualidade inteiramente sui generis, afastamo-nos dos mecanismos comuns (baseados na história) que nos protegem da onivora cultura do marketing”.

“A lógica inexorável dos que procuram confiscar a diferença cultural em proveito pessoal (…) é transformar os cidadãos que somos, livres para afirmar nossos gostos, em simples consumidores enganados pela ilusão de que a capacidade de escolher constitui uma expressão do gosto”.

“Garantem que vivemos um era de democracia sem igual, na qual temos universalmente acesso aos vinhos da melhor qualidade possível, a todos os preços, da China ao Paraguai, passando pela África”

“Cidadãos políticos, estamos nos transformando em consumidores previsíveis, confundidos num único e mesmo corpo político transnacional, uniformizado e desprovido de qualquer dimensão ideológica. O “cidadão do mundo” se tornou o “consumidor mundial” do fácil e do açucarado.”

mondovino-2004-02-g

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Série Temática: Vinho

. . Por Caio Moretto, com 0 comentários

Baco, o indigesto deus romano do vinho, foi escolhido como ser mitológico padroeiro deste blogue.

Um dos maiores conhecedores de vinho, Michael Broadbent, classificava seus vinhos com estrelas, até quatro para os melhores. Nós, subversivos indigestos que aqui escrevemos, fizemos uma anti-degustação. Classificamos as estrelas com taças de vinho. Até quatro para as mais belas. Constelações depois, retomando a consciência, inauguramos um novo momento para este blogue: séries temáticas.

Cada indigesto escreverá um ou mais posts sobre o mesmo tema. O primeiro já está aí, veio de brinde com a própria ideia.

Esperamos que você goste desta nova mistura.

Que se desate a sangria.

baco_velasquez

Da Felicidade

. . Por Fábio Accardo, com 1 commentário

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Como dizia o Poeta...

. . Por Mistura Indigesta, com 3 comentários

"Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós." (Manoel de Barros)

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Certo dia, alguém me disse que em uma de suas últimas palestras, já velhinho, o educador Paulo Freire foi perguntado qual seria seu próximo projeto. Após pensar um pouco, ele respondeu, sereno:

- “Será o mesmo projeto que tenho desde o primeiro, fazer de minha prática o mais próximo da coerência com o que eu acredito.”

Assim como todo diz-que-diz, nunca saberei se o episódio realmente aconteceu, mas pouco importa, não irei ao Google conferir. Pra mim, é tão belo, que virou verdade. Se, na “Pedagogia do Oprimido” temos a certeza de que escreveu: “não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”, por que não sonhar com a situação da palestra? Poderia ser dele; é dele.

Foi usando o Google que me decepcionei com Einstein. Sempre ouvi que a frase “o único lugar que o sucesso vem antes do trabalho é o dicionário” fora dele. O maldito translator, tão útil em outras situações, desta vez estragou a graça quando descobri que, em alemão, o termo “trabalho” se escreve “Arbeit” e a palavra “sucesso” se escreve “Erfolg”. Por lá, nem no dicionário o sucesso vem antes do trabalho. Pouco provável ter partido da boca do cientista germânico. A frase deve ser brasileiro mesmo, sei lá, Eike Batista. Dane-se, decepcionei-me. Até perdi a vontade de trabalhar, culpa do Google.

Pior mesmo foi o que aconteceu com o poeta brasileiro Eduardo Alves, que escreveu, em um jornal estudantil dos anos 60 o belo poema “No Caminho com Maiakovski”, uma homenagem ao poeta russo. Roberto Freire escreveu o trecho abaixo em seu livro e, numa tremenda confusão, deu crédito ao russo, e não ao brasileiro.

"[...]
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[...]"

Dali pra frente, o poema, agora russo, espalhou-se feito vento. A confusão só foi desfeita quando, em um episódio de uma novela de Manoel Carlos, a chatíssima “Mulheres Apaixonadas”, Cristiana Torloni leu o poema e deu os créditos correto a Eduardo Alves. É, a Globo contribuindo com a cultura nacional. Mesmo assim, até hoje recebemos via e-mail com a assinatura de Maiakovski.

Mais e mais e mais exemplos de quase verdades, de quase autores, poderiam ser lembrados. O mundo da informação e das redes nos mostra que tudo pode ser desvendado, desmascarado. O sexo gravado no celular, a tecnologia que evitaria erros no futebol, flagras de paparazzo, sites de pesquisa com filtros finos, câmeras de alta definição, a quantificação. Todo sucesso é, agora, numerável. A verdade, somada aos medos, constroem o argumento maior do caminho enfadonho: humanidade, lá vamos nós! E não precisa ser Orwell ou Huxley para dizer isso, basta tentar ver um pouco além dos olhos.

Manoel de Barros, poeta daqueles que nem mil anos trarão algum parecido, dizia que “inventar aumenta o mundo” e defendia “tudo que não invento, é falso”. Em vez de proibir, procurar culpados ou donos, melhor o caminho dos poetas e das crianças. Estas, se perguntam e se exclamam ingênuas, sem saber que pecam. É preciso crescer mais devagarzinho.

(No fundo, tanto faz quem escreveu, quem disse, quem tem culpa...)

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