VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

domingo, 20 de março de 2011

Janelas

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários

Quando era criança, até a adolescência, dividi quarto com minha irmã. Depois que ficamos maiores, ainda crianças, a beliche já não era uma boa opção para irmãos que quase sempre brigavam por qualquer besteira. Com o fim da beliche, minha cama foi para o lado da janela. Desde então, próximo à janela tenho ficado com a minha cama, mesmo tendo me mudado várias vezes nesses anos. Vez ou outra não, a janela fica distante no quarto, como quando, por exemplo, dividi quarto em república, mas só inicialmente, ou alguns meses no alojamento universitário, momentos em que logo depois levaria a cama pra perto dela. Sempre que posso escolher, nem penso muito as razões no momento, só prefiro a janela. E “janela” é metáfora pra mais de metro na literatura, no cinema, em mil conceitos mundo afora, isso não é novidade pra ninguém. Beira um arriscado clichê falar delas.

Mas lembro de cada um dos barulhos que folhas ou venezianas faziam ao longo desses anos. De pequeno, gostava das venezianas que podia abrir, ou entreabrir, fazendo com que as primeiras luzes do dia me acordassem. Era como se quisesse encontrar com o nascer do dia cotidianamente, mesmo que não fosse pra levantar em seguida, e já voltar a dormir, porém, olhar o céu, procurar por uma ou outra nuvem dava uma sensação boa. Três das janelas nesse tempo, depois que deixei a casa dos meus pais, eram mais altas, duas na parte de cima do sobrado, e uma delas no segundo andar do prédio. As mais altas têm um charme especial, te levam ao horizonte, te dão aquele ar de aventureiro ou viajante que mira o longe, o futuro. Meio blasé. Especialmente quando o fundo era um pequeno bosque: estava construído o bucolismo. Da mais alta, tinha um carinho diferente, pois ao longe, além do horizonte aparentemente plano cortado por uma região montanhosa, passava uma linha férrea, então os horários dos trens, a velocidade, o movimento, era como se tudo fosse um aviso constante: estamos em trânsito.

Perco horas, gasto os minutos, mesmo quando não deveria, e ainda que não esteja no quarto, seja na sala, ou mesmo na cozinha, preso às janelas. Às vezes, é só o exercício do silêncio, de esperar que os pensamentos fujam pelo grande retângulo aberto diante de mim, aguardando que novas coisas possam surgir. Noutras, é uma briga intensa para que a teimosia de coisas repetidas que atiro pela janela, que defenestro, e que voltam, por fim, inclusive à contragosto, definitivamente não mais se aproximem.
Gostava da janela da sala do alojamento que deixei há pouco mais de um mês. Na frente dela estava uma frondosa árvore. Me sentia protegido, me faziam companhia a janela e a árvore. Não que ao redor estivesse em risco, não. A grandiosidade da imagem me colocava no lugar, me situava, assombreava o olhar.

Curiosa é a relação que há no quarto entre a disposição da cama e a localização da porta. Pra mim, a janela acaba tendo papel decisivo. Já ouvi várias vezes que a cabeceira da cama não deveria ficar voltada para a porta, pois isso traria azar. Hum. É uma boa explicação para pequenos infortúnios que a ventura me reserva diariamente, porque muitas vezes, quando criança, dormia com os pés voltados para a cabeceira, com a cabeça mais próxima da janela e, dessa forma, “de costas” pra porta. Ainda que a cabeceira da cama estivesse como deveria, eu cometia um desrespeito à ordem cósmica que protege a nossa sorte, às leis universais da superstição.

Por isso, hoje, as duas janelas do meu quarto estabeleceram um conflito de significado na minha cabeça. A vista de uma delas, sentado da mesa onde escrevo neste instante, é engraçada: um peixe, que está desenhado no muro dos fundos. É legal, como se eu acordasse dentro de "Procurando Nêmo". Já a outra não dá vista, justamente porque não abre, e está no alto e no centro da parede de frente para a porta. Ela poderia ser uma entrada para o forro, para a laje da casa, mas não é. Deveria estar na cozinha, ou na sala, ou até mesmo no banheiro, pois não tem o formato usual daquelas que geralmente ficam nos quartos e que se pode abrir com movimentos horizontais. Pintada toda de branco, até mesmo nos cinco vidros que a compõem, ela teoricamente se abriria com um movimento de cima pra baixo da pequena alavanca que traz à direita. Poderia ser uma passagem secreta, porém, não é discreta o suficiente para isso. É uma crueldade de significação de qualquer forma, como se dissesse, insistente e metaforicamente, que há janelas que não podem ser abertas, que não levam a lugar algum, em conflito com a própria existência da janela, já que, sendo assim, não deveria sequer existir. Se não pode ser aberta, se não comunica nada, por que existir então, oras?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Miséria S/A

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

quinta-feira, 10 de março de 2011

Por uma política das Baratas...

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Primeiro, foi simples como reajustar os ponteiros do relógio e fingir que voltei no tempo. Depois, foi difícil, como mexer em lixos sem luva e, no final das contas, com o que me constituíra.

A história da humanidade contada em livros, os filósofos que venceram, os sempre-mesmos-donos-do-poder e o poema - métrico e rigoroso - do trágico jornal de cada dia. Todos eles convencem: somos avessos a mudanças.

Kafka mostrou que, às vezes, é preciso ser barata para se sentir humano. A política dominante, seja ela de exceção ou permanente, tem eliminado sistematicamente as baratas do mundo. A necessidade de cada ser nascido neste país tornar-se barata deve ser a base de qualquer proposta de uma nova política.

Não havendo condições múltiplas para o distanciamento (para se ser barata) não é possível se encontrar no mundo, mas isso não tem desesperado ou provocado hecatombes, pois sequer se tem a possibilidade de procura. E assim perpetuam-se os dias.

O objetivo da educação deveria ser o de se preocupar com o que as pessoas trazem consigo para então transformá-las em baratas e promover a reflexão crítica (ai, que medo de usar essa tão malfadada palavra!). Explico-me, o batido termo “reflexão crítica” nada tem de esquerdista ou qualquer “ista”, como indica a primeira leitura. Pelo contrário, longe de esboçar uma ideologia, é a possibilidade de escolha de instrumentos para se compreender o processo em que estamos inseridos. Deveria ser pressuposto para qualquer mudança, destra ou canhota.

A cultura, por outro lado, teria que partir daquilo que as pessoas não têm, do que causa estranhamento. Até repulsa é melhor do que o entretenimento que acomoda o mundo à mediocridade (no sentido etimológico da palavra – “situação mediana, comum”). A autonomia ideal do artista deveria permitir que ele fosse uma barata ainda mais barata que as outras, avessa ao óbvio, provocativa – com merecido financiamento.

(diminuir verba desses dois orçamentos não é postura de qualquer governo preocupado com as baratas)

Mas não é possível ser barata sem o risco de ser pisoteado. Nem na academia, templo do saber, aconchego da certeza. Tampouco no mercado, límpido rio de fluxo contínuo, com poucos navegantes e muitos peixes. A casa da barata é suja, incerta, muda a cada novo lixo, itinerante, sem as amarras do que é certo ou constante. Sem rumo, as baratas vagueiam pela rua em meio ao fétido, observando sujeiras escrotas e ticando item por item, com mais interrogações e exclamações do que pontos finais no corriqueiro tsunami de almas. (credo, "tsunami de almas" isso soa tão apelativo! Por que sentimos um quê de vergonha alheia com posturas humanistas em um mundo tão sabidamente desumano?).

A esquerda tem sido politicamente correta demais para as baratas (defendem os bois e a sustentabilidade, mas não exitam em jogar veneno na primeira cucaracha com perguntas impertinentes que encontram pela frente). A direita quer manter coisas como estão e isso as baratas também não gostam, já que sua função primeira é provocar momentos de exceção. No fundo suas antenas – esquerda e direita – percebem dos dois lados o sonho de um mundo sem baratas.

Sem espaços fixos, as baratas atuam em brechas, no escuro, por frestas pequeninas de algumas casas, bem menores que a janela com vista pro mar ou a tela LCD expandida. Às vezes em grupos, assutam alguns, provocam outros, voam causando pequenos estragos, ativam com ira a chinelada dogmática. Diz-se, da barata, “tonta”, por não ter um rumo certo, mas, no fundo, ela não quer ter um rumo, porque toda direção que serve de norte é, por si só, incompatível com sua natureza. Ela muda constantemente, pois está sempre se estranhando e estranhando a tudo que encontra pelo caminho - o mais normal comportamento e o mais inconseqüente devaneio. Pensa sempre porque incomoda tanto a diferença e como carregar o fardo de ser nojenta. E não pense que com tantas mudanças de rumo ela não vai a lugar algum. Ela apenas não é linear como a lógica de nosso tempo espera.

A última vez que encontrei uma barata, faz umas duas semanas, ela estava atrás de meu shampoo, escondida no canto do banheiro. Ela me perguntou com voz serena:

- Por que Nelson Rodrigues explica melhor a sociedade que Marx?

Fiquei em silêncio que confidenciava minha não resposta.

Antes de abrir as asas e levantar voo com medo de uma chinelada, ela segredou pra mim:

- As vezes, ser barata dói.

sábado, 5 de março de 2011

Ctrl + Alt + Del

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários

Quando trabalhava, dentre as tais oito horas formais diárias cumpridas, a maior parte do tempo era passado em frente ao computador. No início do mês passado, contudo, terminado meu contrato, vivi uma dificuldade de concentração incrível. Meu cérebro, acostumado às abas e janelas, parecia pensar, procurar por um “Ctrl+Tab” ou "Alt+Tab" o tempo todo, querendo deixar pra trás o que via e lia, seja lá onde fosse. Como se o "Alt+Tab", atalho que utilizamos para trocar de janelas na área de trabalho, pudesse me fazer trocar de assunto, e o "Ctrl+Tab", usado pra mudar de abas nos navegadores de internet, me possibilitasse buscar uma novidade sobre determinado tema. As notícias que chegaram com o começo de fevereiro também não ajudavam.

- José Sarney eleito pela 4ª vez presidente do Senado, 01/02/2011.
Não desejava o encargo, dele não pude fugir, tendo na carne o alto preço do exercício destas funções. A confiança dos meus ilustres colegas conforta, redime e aumenta as minhas responsabilidades.

Alt+Tab

- Torcedores do Corinthians após eliminação do clube da Pré-Libertadores, 05/02/2011.
Quem não joga por amor, joga por terror

Ctrl+Tab

- Romário, ex-jogador de futebol, deixa a primeira sessão na Câmara Federal e joga Futvôlei no Rio, 08/02/2011.
Para aqueles que não sabem, não teve plenário e a presença não era obrigatória.

Alt+Tab

- Mubarak renuncia à presidência do Egito, 11/02/2011. Depois intensos protestos populares inspirados no processo que pressionou Ben Ali a deixar o governo da Tunísia, no dia 14 de janeiro.

Ctrl+Tab

- Marrocos, Argélia, Líbia, Bahein, Yemen: onda de protestos, de mudanças no chamado mundo árabe.

Alt+Tab

- Cine Belas-Artes resiste ao fechamento, por enquanto, 22/02/2011.


Ctrl+Tab



De repente, como diria o Aoki pentelhando, não mais que de repente, zaz, tudo se confundiu na minha cabeça e comecei a imaginar José Sarney, com aquele imenso bigode no qual esconde, não é possível, o mais absoluto cinismo imaginável, como o responsável pelo aumento da passagem de ônibus em São Paulo e pelo fechamento do Cine Belas-Artes, também na capital paulista. Romário, ao invés de ex-jogador de futebol e deputado que joga futvôlei durante uma sessão na Câmara, era incentivador, apoiador e ajudava a organizar não o protesto de torcedores do Corinthians, descontentes com a eliminação da equipe do Parque São Jorge da Taça Libertadores da América, mas agora ações contra um serviço de transporte público paulistano que humilha usuários diariamente. E aterrorizados não ficavam os jogadores do Corinthians com os protestos, mas o poder público, com a verdadeira pressão crescente das pessoas pelas ruas, tal como no mundo árabe, protestando contra o aumento da tarifa de ônibus e o fechamento do Cine Belas-Artes. Símbolo de uma cidade, de uma região, de um país todo, de um estilo de vida globalmente difundido, as Marginais Tietê e Pinheiros haviam sido paralisadas pelas manifestações. O congestionamento se estendia mais e mais pelas ruas, avenidas e rodovias, inclusive, do restante do Estado, o caos estava instalado. As pessoas se recusavam a entrar nas linhas de metrô da cidade, todas ficavam paradas diante das catracas.
"Ctrl+Tab" ou "Alt+Tab" já não faziam sentido, eu precisava era de um "Ctrl+Alt+Del" para reiniciar tudo, estava louco. Internet e computador não eram apenas um hábito, mas um vício.

Acho, também, que assisti muito ao Pink & Cérebro quando era criança. Não me fez bem.

Tsc tsc tsc


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