VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Tabuleiro e peça novos

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário

Quando fui informado, no início deste mês, que o astrônomo Parke Kunkle defende que as mudanças no alinhamento terrestre alteraram as datas dos signos do zodíaco, e mais, que existe um décimo terceiro (13º!) signo, Ophiuchus, ou Serpentário, pensei que tragédia pouca seria o meu signo agora ser este último. E é. Uma catástrofe psíquica me invadiu. Confesso, já está claro nesse momento: eu leio horóscopo... Há 3.000 anos estão definidos os signos e a astrologia tal como todos conhecemos, daí aparece um sujeito e... tcharan! Tudo muda? Como assim? É uma nova interpretação do céu, do posicionamento da Terra, e que inclui uma nova constelação, a mesma de Ophiuchus.
Segundo a astróloga Barbara Abramo, no entanto, não há motivos para arrancar os cabelos, porque, como um sistema simbólico fechado, diferente da Ciência moderna que conhecemos, que incorpora avanços, descobertas, inovações, transformações, o novo zodíaco pode ser experimentado por qualquer um. Porém, isso não altera as "composições" que se faz com aquele sistema de 12 signos tradicional. Abramo compara a astrologia à música, teoricamente, como se as "composições" com um novo zodíaco apenas gerassem novos contextos e leituras, tal como uma "nova nota musical" não iria invalidar a história da música e as composições já existentes, apenas possibilitaria novos arranjos.
A minha pertubação diminuiu, mas de qualquer modo posso ser duas pessoas distintas para os Céus, e ao mesmo tempo, com duas constelações. É uma espécie de esquizofrenia astral. E muitos também trocaram de signo com a possibilidade do novo sistema.



Se nosso dia-a-dia for encarado como uma partida de xadrez, de certo modo, Parke Kunkle trocou o tabuleiro e trouxe uma peça nova, inclusive, podendo ainda dar novos movimentos a cada uma das peças na partida. A astrologia parece, assim, um mapa da convivência humana, dá os limites, as possibilidades e também aponta as tendências para determinadas ações, com cada uma das peças, ou signos, dispostos sobre um tabuleiro imaginário. Com a astrologia, ao invés de 16 peças, temos 12 signos, ou 13 agora, e um conjunto de orientações e tendências segundo algumas combinações e... zaz: o jogo esta aí!

Estranho? Não, a comparação entre a vida e o xadrez não é nova. Por exemplo, já foi feita com maestria dispensável de comentários por João Guimarães Rosa em "Minha Gente", conto de Sagarana. E recentemente encontrei outra, dos anos 90, em Acerca de Roderer, novela curta do argentino Guillermo Martínez, que utiliza a metáfora do xadrez diferentemente de Guimarães Rosa.

"Acerca de Roderer" conta a história do encontro de dois garotos que se conheceram jogando xadrez. Um deles, Roderer, é recém chegado na cidade, e aos poucos vai se revelando um sujeito enigmático, encerrado em seu próprio universo. A novela se desenrola contrapondo a vida do protagonista, diga-se de passagem, aparentemente, um alter ego do escritor Martínez, pois ambos seguem para a Universidade estudando Ciências Matemáticas, e de Roderer, que prefere manter-se concentrado em seus pensamentos misteriosos, tentando decifrar sistemas filosóficos sozinho, e para isso precisa daquela coisa simples e de fácil compreensão para todos nós: tempo. O xadrez, a todo instante, parece permear o enredo em meio às estratégias pessoais dos personagens principais, e pequenas surpresas, embora o desfecho acabe esperado, como um xequemate anunciado algumas jogadas antes:
"Conocía bien ese tipo de tormento, pero había creído hasta entonces que solamente yo lo sufría; la imposibilidad de elegir entre dos opciones triviales y absolutamente indiferentes, la horrible vacilación de la inteligencia que oscila de una a la otra y nada puede discernir, que argumenta en el vacío sin encontrar una razón decisiva mientras el sentido común se burla y la azuza: da lo mismo, da lo mismo."
Se faltou zodíaco na trama, não faltaram pequenas discussões filosóficas para prender o leitor. Nada também que nos exigisse um conhecimento aprofundado da história da filosofia para acompanhar o livro. Nesse sentido, o pequeno romance de Guillermo Martínez lembra O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, mas bem mais modesto.

No fim das contas, além de um signo novo ou não, a comparação da astrologia com a música e com o xadrez mostra que o universo de combinações, ou de possibilidade de ações é bastante ampla, e que se sabemos alguns movimentos possíveis das peças, ou das características astrais, dos perfis, os arranjos com cada um deles possui escopo, senão infinito, largo o suficiente para que qualquer leitura seja apenas mais uma. Sem contar que, ao mesmo tempo em que somos "jogadores", para os astros também somos "peças" num jogo que não fazemos muitas escolhas.

Mentira, não acredito em Astrologia, mas me divirto um bocado!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Coluna do Leitor - Casa

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários


Não se está na casa,

à meia luz,

não se está na casa:

não se vê o número na parede.

No lusco-fusco,
não se está;

que se toque
na pedra branca,
arenosa,

que se sintam, lentamente,
esparramando a palma da mão,
recuos ao infinito,

que se arranque com as unhas
prova calcada de sua presença
em farelos;

não está.

Suspenso na despedida,
o sol obriga ao catavento,
entre arabescos na varanda,
a rarefação de cada sílaba,
rente ao muro,
do visitante quase familiar:

“nunca

se está”.


Na casa,
não.

Apenas.

Felipe Bier Nogueira é roseano, apesar de torcer pelo Palmeiras. Não, não é verde-rosa da Estação Primeira de Mangueira do Carnaval carioca. Se ele sai fantasiado lá não sabemos, somente que sai no bloco da Oito Mãos, enquanto segue publicando enredos poéticos em Nowhere Land.
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Se você também quiser ter seu conto, crônica, poesia, resenha, análise, desabafo ou delírio publicados, basta enviá-los para o e-mail misturaindigesta@gmail.com

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O dilema de Godard

. . Por Thiago Aoki, com 6 comentários




"Je vous salue Sarajevo" (acima), de 1993, estava na 29ª Bienal de Artes de São Paulo e tem como autor Jean-Luc Godard, que analisa uma única foto da guerra na Bósnia, ocorrida entre os anos de 1992 e 1995. Embora faça referência a uma guerra particular, o texto, além de belíssimo, tem como grande máxima uma definição universal que adoro:

“Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. (...) A regra quer a morte da exceção.

Mais ainda, se repararmos os cortes e closes de imagem que Godard usa durante o curta, a regra é mostrada com um fuzil na mão, apontando para corpos que insistem em subverter - “artistas da vida” tão grandiosos quanto Dostoievski, Cézanne ou Antonioni.

Ao espectador atento, a agressiva metáfora, impactante por se tratar de um momento claro de repressão, continua viva. Levando a cabo as definições, sempre que houve arte, houve regra e exceção. Se hoje há arte, deve, necessariamente, existir também uma regra que quer a “morte da exceção”. Essa regra, talvez não seja representada apenas diretamente com fuzis, mas, em tempos de relativa paz, transveste-se em imagens, padrões de comportamento, moralismos, mercadorias, e outros cerceamentos cotidianos que, com ou sem intenção, enclausura qualquer forma libertária que não esteja de acordo com as normas.

Lembro-me que, durante as revoltas de Maio de 1968 na França, uma das frases mais pichadas nos muros dizia: “A arte está morta. Nem Godard poderá impedir”. O cineasta, nesse vídeo de 1993, exatos 25 anos depois, parece tentar responder à provocação. Para ele, a “arte de viver ainda floresce” e isso não é um otimismo. O “ainda” tem o sentido de reticências, indicando a possibilidade de futura suspensão da arte de viver - de subverter e fugir das regras impostas. Teríamos então uma sociedade apática e normativa, controlada pelo medo, sem contrapontos, sem arte.

Há filmes que duram dois minutos, mas permanecem latentes por tempo inestimável. Passados quase quinze anos do “Je vous salue Sarajevo”, as perguntas ficam e atormentam todos os dias: quanto de nós é regra ? E quanto ainda nos resta de exceção?




O vídeo é uma apresentação intitulada "Este lado para cima", do grupo teatral Brava Companhia, apresentado no Mirada, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, em 2010.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Poeira Nas Entrelinhas

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

Ler ouvindo "Eu quero é botar meu bloco na rua" de Sérgio Sampaio


Lembro-me de um dos indigestos contando-me uma história que lhe ocorrera num ônibus em Campinas, onde um certo senhor reclamava sobre qualquer coisa (que poderia não ter nem aberto a boca para tal). Reclamação essa menos importante aqui nesse relato, diante de tamanho impacto da sua ação seguinte. Segundo nosso indigesto detalhista o senhor teria coloca as costas da mão direita no ombro esquerdo e agitado a mão como se "espanasse" uma poeirinha ali, proferindo frase sem igual:

- No tempo das estrelinhas que era bom!

Não mais inquietante foi ler nessa última terça-feira, dia 12 de janeiro desse ano novo, o texto de Jorge Roriz (capitão da reserva do Exército e deputado federal pelo PP do Rio de Janeiro) publicado no espaço Tendências e Debates da Folha de São Paulo. O texto intitulado Comissão da Inverdade coloca a "revolução de 64" como um golpe democrático dos militares e nos "revela" que foi uma demanda da imprensa, da Igreja Católica, de empresários, de agricultores e de mulheres, que saíram às ruas pedindo aos militares que salvassem a nação da possibilidade de uma ditadura do proletariado e que os militares deflagraram um Estado democrático ao Brasil. O texto do comandante do exército e deputado federal faz referência a Comissão da Verdade, projeto de janeiro de 2010 do ainda presidente Lula, que previa uma comissão para apurar crimes de tortura e assassinato por militares durante o regime militar. Modificado em maio de 2010, prevê, então, a investigação de violação aos direitos humanos praticados durante o regime militar, tanto pelos militares como por grupos contra a ditadura.

O projeto parecia ter sido esquecido quando a então presidenta eleita Dilma Roussef apressa-se em aprovar o projeto. Participante ativa de grupos guerrilheiros armados da esquerda que lutavam contra a ditadura militar instaurada no Brasil, Dilma violou direitos e foi vítima de torturas. O caro Jorge Roriz parece tapar aos olhos para enxergar o número de casos de mortes e torturas a milhares de pessoas por todo o Brasil e enxerga com clareza e precisão o caso de um carro bomba que explodiu no QG do primeiro Exército matando UM almirante e UM recruta. Não é o caso aqui de auferir justiça nas mortes ou qualquer viés democrático ou anti-democrático às ações de um lado ou outro, mas não se pode fazer-se cegar estrelinhas no ombro e nacionalismos encravados no peito.

Ainda nesse curto período como presidenta Dilma já causou nova polêmica ao mandar retirar Bíblia e crucifixo do seu gabinete no Palácio da Planalto. Tema recorrente dos embates políticos nas campanhas eleitoreiras de 2010, Dilma, que diziam atéia, se colocou a favor da liberdade religiosa, escapando de uma caracterização que poderia tirar alguns votinhos dela.

Seria referida ação resultado do respeito a liberdade de culto ou de sua antiga prática libertária de esquerda?

Dizer que a esquerda só chegou ao poder graças aos militares de 64 que impediram a instalação de uma ditadura do proletariado...doeu!

sábado, 15 de janeiro de 2011

Pontos, pontos (...)

. . Por Hugo Ciavatta, com 3 comentários

Reticências, o que são reticências? Professor Aurélio, por favor:
- Sinal de pontuação, série de pontos com que se marca interrupção ou omissão. Mais, supressão voluntária de uma coisa que poderia ou deveria ter sido dita. Ou ainda, é uma figura retórica pela qual o orador, calando-se, faz perceber o que não quer dizer expressamente.
Segundo a “história via google”, também, reticência deriva de taciturno, deixando entender, em silêncio, o sentido daquilo que não se diz, e, possivelmente, muito mais. Vinda ainda do latim (quando não é do grego, não é mesmo?), a palavra agregou o prefixo “re-”, cujo significado aqui seria "retirar-se para dento". Hum...Pois, sim: Wikipédia também é poesia!

As reticências podem ser um ponto final atrás de outro e mais outro, simplesmente. Mas um ponto final impõe fim a uma ideia, a uma expressão, a um diálogo. O ponto encerra um movimento da linguagem, ao menos por um instante, podendo abrir caminho, em seguida, para uma nova comunicação. Basta que uma letra se coloque a frente e a expectativa pelo que virá se reinicia. Não importa a ordem, mas pedirão os didáticos que seja primeiro sujeito, depois verbo e só então complemento. Entre a letra que entrou em cena e o ponto final que circunscreverá o pensamento enunciado, todavia, aparecerão alguns quase-pontos: as vírgulas. Elas dão a devida cadência à música do texto, imprimem ritmo. A ausência delas acelera o canto, enquanto que o exagero de uma e outra próximas pode confundir. Só mesmo uma boa medida, de uma receita indecifrável, pode dar a harmonia tão desejada para o uso delas. Difícil. As vírgulas seriam pontos não fosse o fino escorregar de tinta sobre o papel que se projeta no sentido horário, como se quisesse ir a frente, mas que precisa apontar para o que a antecede e, no meio do caminho, pára. Vírgulas parecem pequeninos ganchos, elos nas orações. Mas depois delas a nova palavra avança, é acrescentada para explicar, complementar, negar, reafirmar, enfim, a canção se amplia. Quando chega o momento do ponto final, o ar já anuncia sua própria falta na respiração e, assim, colocado o pequeno círculo negro sobre o papel, por fim, inspira-se, recuperando o fôlego. Outros sinais também podem surgir em meio à reza: o ponto e vírgula e o dois pontos. Misteriosos são os primeiros que, como o próprio nome diz, parecem reunir as aquilo que possuem quando separados. Querem encerrar, mas, ao mesmo tempo, abrem a possibilidade para seguir, fazendo isso a partir de algo em comum, ou ao alterar apenas parte da oração que se deseja dar seguimento. Já o dois pontos é um anúncio solene, pomposo quase, como se não conseguisse somente encerrar a conversa com um ponto final. Ele quer, porém, explicar determinada coisa, encurtar a prosa decididamente, como um ponto final sobre outro, porque depois deles pode vir, inclusive, um resumo da ópera, além de um exemplo qualquer, ilustração. E sobre um ponto pode aparecer ainda um gancho, ou apenas um traço, são interrogação e exclamação. Orações arregaladas costumam trazer exclamações para destacar a presença, a força do que se diz. Exclamações são como lanças atiradas pela língua ao fim de uma frase, deixam clara a ênfase do dito, mais que anunciam, gritam, se fazem lembrar. Já os ganchos de boca pra baixo miram uma questão, perguntam, querem saber o quê, o como, o por que, e tantas outras conjunções e pronomes que se imaginar para inquirir, ou "enxerir"! mesmo. Quando se repetem sucessivamente, interrogações conseguem é perturbar, tontear, atordoar o ouvinte, quando não, irritam de fato.

Alguém reticente, entretanto, parece propenso à contrariedade, digamos, se negando a algo.
Reticências parecem ser um arrastar esganiçado do incômodo causado pelo silêncio, de quando não se tem o que dizer. Como se anunciasse o desconforto, também, que causaria apenas um ponto final. Então, jogar mais dois pontos finais na sequência poderia ser a saída para não deixar o interlocutor sozinho abruptamente: uma cruel delicadeza. Reticências podem ser ainda um brincar, mostrando o quão desconhecido são os locais sobre os quais se irá saltar, os pontos, e os espaços obscuros entre eles que se deixaria pra trás no salto. A dúvida, o vacilo, o receio, o medo. Reticências podem ser três passos de incerteza entre duas lacunas, intervalos sobre o que não se tem clareza. São hesitações, vícios. Reticência é um nervosismo, é uma ansiedade. Reticências não são pontos finais sucessivos. São adiamentos ...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Explosões Dinâmicas - Fotografia e Arte

. . Por Fernando Mekaru, com 1 commentário

A fotografia é um campo relativamente controverso da arte, por normalmente exigir uma série de explicações para que se justifique qualificar uma foto como arte e a foto que se tira da família como algo mundano, que vez ou outra acabam caindo no interminável e trabalhoso debate sobre o que caracteriza os trabalhos de uma determinada mídia como sendo arte ou não. Os trabalhos de Martin Klimas, porém, são rápidos em dispensar explicações e deixar muito claro que a fotografia é uma arte tão válida quanto a pintura ou a escultura.



Klimas especializou-se em fotografar objetos frágeis em queda, mais especificamente registrando o exato momento em que tais objetos acabaram de se partir em muitos fragmentos após atingir o chão: como o título da postagem diz, a fragmentação dos objetos é capturada em filme como uma explosão dinâmica, que concede movimento e intensidade a um ato que, sem a câmera, nunca poderia ser vista a olho nu.

É digna de nota a característica mais importante da explosão dinâmica: ela existe por um único instante, e é impassível de ocorrer da mesma maneira mais de uma vez - cada escultura se parte de maneira diferente ao encontrar o chão, e os fragmentos percorrem diferentes trajetórias e desenham "estruturas" diferentes graças a isso. Os trabalhos de Klimas, nesse sentido, apresentam uma interessante contradição: são muito efêmeros, por consistirem em um único instante que ocorre graças a inúmeras variáveis aleatórias, mas ao mesmo tempo são eternos, já que foram registrados pela câmera e podem ser reproduzidos inúmeras vezes por outros meios técnicos.



Capturando um único instante, que seria invisível ao olho humano nas condições normais, e congelando-o de maneira que as minúciais invisíveis a olho nu tornem-se detalhes muito importantes para caracterizar a imagem, a máquina fotográfica acaba por gerar interpretações e significados que nunca seriam apreensíveis sem a sua utilização. A fotografia, sob a óptica da criação de signficados que não poderiam ser expressos por nenhum outro meio técnico, acaba por se consolidar enquanto arte nas louças e cerâmicas recém-fragmentadas do fotógrafo alemão.



Veja mais trabalhos no site do autor.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Coluna do Leitor - Diana e Prometeu

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários

Por Luis Fernando Mifô

Como diz Chico Buarque: quem me ver sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar. Mas eu sambo bem sim, pode acreditar. Sou quase um mestre-sala. O problema é que me tornei um filósofo chato e minha chatice acabou me convencendo de que no fundo no fundo eu não gosto do carnaval. Então deixei de frequentá-lo.

Mas em 2009 conheci Diana, e Diana me disse que não perderia nenhuma noite de folia daquele ano. Se eu não tivesse conhecido Diana, certamente teria partido para um retiro espiritual qualquer ou ficaria em casa batendo punheta. Mas a conheci e foi aí que voltei a frequentar o carnaval.

A única vez em que estive com Diana antes do carnaval, ocasião em que nos conhecemos numa pracinha do Centro, tive o cuidado de memorizá-la observando cada detalhe do seu corpinho enquanto ela me dizia que se acha uma pessoa desinteressante. Com o olhar, contornei vagarosamente suas pernas, cintura, volúpia dos seios sob a blusa, ombros, pescoço, lábios, olhos, cabelo, voltei para baixo e passei pela volúpia da boceta sob o short apertado, mais embaixo os pés, tudo, parecia um maníaco. Eu não queria perdê-la de vista no corredor da folia.

Em certa altura, quando ela se deu conta da minha cara de tarado, perguntou por que todo aquele interesse. “Você é muito gostosa, Diana!”, respondi sem titubear. “Você tem olhos de gênese, desses que quando a gente tira os óculos nasce um novo mundo. E tua pele é de uma brancura límpida que certamente Monet usaria como tela para pintar sua mais valiosa paisagem”.

Nessa hora ela fez cara de quem não entendeu nada. Então continuei: “E tua boca... assim... grande, carnuda... me pagando um puta boquete...”. Nesse momento ela sorriu como quem finalmente manjou tudo. “E teus seios... dá vontade de morder, de arrancar os pedaços como um abutre comendo o fígado de Prometeu e...”. Agora pausa. Nesse momento ela se afasta, faz cara de meio termo e volta; abre a blusa olhando para um lado e para o outro e enfia os peitos na minha boca, loucamente, me deixando mamar e morder por quase cinco minutos. Uma delícia! Néctar dos deuses! Mais tarde, enquanto trocávamos telefones, ela me perguntou quem era Prometeu.

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Apesar de nunca ter publicado um livro, Luis Fernando Mifô jura que é um escritor oriundo do sertão paraibano, que hoje escreve no blog Mifocronicas - logo colocado em nossa sessão "Recomendamos". Em suas próprias palavras, "escritor de verdade tem que ser meio parnasiano". Nos descobriu por acaso, maravilhas da internet, e, agora, nós descobrimos ele neste conto indigesto.


Se você também quiser ter seu conto, crônica, resenha, análise, desabafo ou delírio publicados, basta enviá-los para o e-mail misturaindigesta@gmail.com que nós, sob o crivo da moral e dos bons costumes, publicaremos.

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