domingo, 4 de dezembro de 2011

Dia do Doutor

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

(" 'É gozado', refleti, 'ver o que nós pensávamos há cinco anos'.
'Concordamos (...) que o objetivo da vida
é formar boas pessoas e produzir bons livros'. (...) 'Um bom homem
deve ser ao menos honesto, apaixonado
e desinteresseiro'." V. Woolf)


Passei boa parte da infância e da adolescência indo a um estádio de futebol. Não ia à escolinha, não treinava, mas acompanhava meu tio e meus primos ao Santa Cruz, estádio do Botafogo Futebol Clube, de Ribeirão Preto. Ali nasceu a minha paixão pelo futebol, e não que eu não torcesse nem acompanhasse antes, o São Paulo era o meu clube até então, mas ir ao estádio rotineiramente me encantou. Eram jogos da segunda, até da terceira, e, felizmente, inclusive da primeira divisão dos campeonatos estadual e nacional. Emoção, raiva, tristeza, decepção, alegria, felicidade, quantos sentimentos a gente experimenta em tão poucos minutos.
Um campeonato foi muito especial pra mim, e pra muitos botafoguenses, claro, o paulista de 2001. Nele o Botinha foi vice campeão, perdendo a final para o Corinthians. A semifinal com a Ponte Preta, contudo, foi um dos momentos mais bonitos, uma vitória apertada em casa, num dois a um cheio de gols perdidos, defesas, o estádio completamente lotado, a enorme bandeira da torcida do Bota. E naquele dia, eu que nunca havia ido com a camisa do clube ao campo, quis ir, era especial. Antes de entrar no estádio, porém, ao cruzar com torcedores adversários, entendi que futebol não era só esporte, diversão, aprendizado, envolvimento humano. Futebol é uma loucura, não tenho a menor dúvida, hoje. Tive que retirar a camisa, meu tio e eu fomos chutados e empurrados até a porta do estádio por torcedores da outra equipe enquanto policiais assistiam a tudo... Nenhuma novidade pra ninguém. Continuei indo ao estádio muitos anos depois disso, mesmo assim.
Mas muitas coisas, especialmente fora do campo, na política do futebol que muitas vezes não diz respeito somente ao esporte, foram me levando até mesmo a vontade de assistir a uma partida. Neste campeonato brasileiro que se encerrou hoje, por exemplo, mal vi os jogos, tal a repulsa pelas notícias que envolvem a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, Ricardo Teixeira, a construção dos novos estádios, o uso do dinheiro público. A péssima declaração do ídolo Ronaldo na semana passada é só mais um exemplo. E o Corinthians nunca foi a equipe de que mais gostei, pelo contrário, como é de se imaginar. A mesma antipatia que tenho pelo Juvenal Juvêncio só se reflete na sua imagem mais jovem, pra mim, dentro do parque São Jorge, com Andres Sanches. O futebol brasileiro parece ser resolvido, administrativamente, como se fosse o sofá da cozinha aqui de casa... não consigo aceitar...
Na manhã de hoje, porém, tomei um enorme susto, porque a primeira notícia veiculada na data de meu aniversário era a morte do Doutor Sócrates. Chorei. Tenho um amigo, meio japonês, meio boliviano, meio barrigudinho, que vive dizendo que eu torno os acontecimentos ao meu redor, especialmente os infortúnios, uma espécie de mania de perseguição, ou de teoria da conspiração, como se o mundo estivesse contra mim: o coitadinho. Ele também é meio (sic) exagerado. Tenho é sorte por ter os amigos que tenho. Em poucos minutos, não conseguia deixar a lembrança das palavras de um senhor pequenino que sempre estava ao nosso lado no estádio anos atrás. No meio de um jogo, ele contava, diante da perda de um jogador nosso que saia machucado, a esperança que tinha sempre que isso acontecia, que o absurdo de uma tarde nos anos 70 se repetisse. Ainda no poliesportivo do clube, num jogo importante, valendo a classificação da equipe, logo no primeiro tempo o craque de então se machucou, fazendo com que muitos no campo se desesperassem, só poderia ser um sinal do fim trágico... Mais desesperançados ainda ficaram quando um sujeito completamente esguio, aparentando uma fragilidade gritante, e de cerca de 1,90 de altura fora chamado para substituir o jogador que saía contundido. O primeiro passe de calcanhar daquele que entrara fez com que seu nome não mais saísse da memória de todos: era Sócrates.
Impossível recontar a história que se seguiu. A vida no Botafogo, no Corinthians, a Democracia Corinthiana, a Seleção de 82, a medicina, a clareza e o posicionamento polí­tico. Só posso, só podemos, todos, afirmar, destacar a dignidade de um sujeito, de um ser humano. Pra quem o viu senão muitas, pelo menos algumas vezes, era sem dúvida um cara muito legal, simplesmente, admirável, muito acima de qualquer idolatria banal.
Me perguntei a manhã toda se não fora o destino (se é que ele existe) quem retirou de Sócrates a oportunidade de ver o quinto tí­tulo brasileiro do Corinthians. Será que Sócrates queria ver este título? Será que vivia também alheio a emoção do esporte que tanto encheu de arte ao jogar, que tanto preencheu de reflexão e crítica ao trazer o que nunca esteve longe dos gramados, a vida social e política do país? Será que de tanto o futebol se tornar... se tornar... se tornar isso, uma mercadoria, uma ilusão para muitos adolescentes e uma desgraça para tantos profissionais, permeados pela escrotice de dirigentes e administradores, até mesmo o Doutor Sócrates, um apaixonado pelo futebol, ironicamente, teria preferido não ver o tí­tulo por tudo isso? Não... não... triste casualidade, só podem ser delírios pretensiosos de minha parte, colocando-o na mesma condição que a minha, um aniversariante neurótico. Redundância dizer que se Sócrates não se calou diante de tudo isso que é o futebol recentemente, ele também não escondia de ninguém a alegria de sentir a felicidade de tanta gente, de tantos torcedores pelo paí­s... Porque pra além da arte, da política, há a vida. Ele estaria muito feliz.
E eu, que continuo um secador do Corinthians, depois de não conseguir entender tamanho acaso hoje, por causa do Doutor, me vi no meio da tarde morrendo de vontade de correr até a janela e comemorar o meu aniversário gritando: VAI CURÍNTHIA!!

(blog do Juca Kfouri)

2 palpites:

hugo, você não entende nada de futebol.

deve ser a tal antropologia...

snif

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