sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A. A. de Padaria

. . Por Hugo Ciavatta, com 9 comentários

Na cozinha de casa tem um sofá. Esquisito. Que nada. Quem passa pelo pequenino portão de grade branca sempre aberto – encostado, às vezes, mas nunca trancado –, descobre que há duas portas antes de entrar aqui. Passada a primeira de ferro e vidros horizontais, é obrigatória a espera debaixo da samambaia para depois cruzar a segunda, de madeira, e então descobrir a sala. Sendo um destemido visitante, não dará bola à vigilante barulhenta e seus latidos mequetrefes. É preciso atenção, caso contrário, nem se nota que no alto e à esquerda, sobre a estante de livros e a mesa do computador, está a morada de nosso santo padroeiro: aquele que jamais nos deixa perdidos nessa vida, que pra tudo que perdemos, nos é solícito e pronto atende à nossa procura. São Longuinho mira e protege toda a residência de sua posição estrategicamente calculada. Pois bem, depois de conhecida a sala, os amigos já podem se sentar no sofá, que está na cozinha logo em frente. Nem Ap, nem kitnet, é uma casinha como outra qualquer. É preciso compreensão, também, pois é dever ainda dividir o espaço do sofá com um dromedário e um tucano. Ambos são de pelúcia, claro. E se a cozinha é o lugar mais legal de uma casa, da conversa solta e desordenada por encontros casuais, preparos de cafés, almoços ou jantares, ora, nada mais agradável do que ter um sofá ali, unindo a intimidade da cozinha ao aconchego de um sofá!
Porque estranha mesmo é a geladeira, que tem um daqueles imãs, imãs de geladeira mesmo, com três desenhos reproduzidos dois a dois, e três vezes seguidas, uns ao lado dos outros. São os símbolos de sanitários masculino e feminino em geral, dois homens, uma mulher e um homem, e duas mulheres, respectivamente. Na parte de baixo do desenho, com fundo colorido, está escrito “love is love”: aí, sim, esquisito. Porque todas as manhãs enquanto procuro alguma coisa na geladeira, percebo que a minha preguiça venceu o meu vício. Fico envergonhado de dizer essas coisas, sabe, não pelo choque que isso possa causar, mas pela trivialidade da minha condição, que afinal pouco importa. Também pois, ultimamente, ao abrir o jornal e ligar a TV, tenho visto muitas coisas que fazem do meu problema, novamente, uma coisa muito boba, não há dúvida que com o meu desatino sofro eu, óbvio.
Só que como a minha geladeira padece de misterioso e crônico vazio, aproveito pra pegar o jornal no portão e já corro na padaria que fica duas quadras atrás de casa. O seu Fernando já me conhece, quando é ele quem está atrás do balcão, apenas confirma: “é o de sempre, menino?”. Aceno com a cabeça e sorrio de canto pelo “menino” que ignora meus cabelos brancos. Precoces, é bom que se diga. Mas, outro dia, um homem, novo no atendimento e que nunca tinha me visto ali, me trouxe o tradicional expresso e pão de queijo depois do meu pedido. Foi só aí que me dei conta da tragédia, quando provei a xícara: o café estava adocicado. O rapaz ficou horrorizado, coitado, mesmo assim lhe disse pacientemente que apenas não gosto de açúcar no café, mas que não importava, iria tomar aquela xícara sem problemas. É uma questão de convivência, né, o sujeito não está acostumado com pessoas como eu, digamos, não viciados... em açúcar no café! Mal sabe ele que a ausência do açúcar é compensada pelo amarelar dos dentes, cafeinados por xícaras e mais xícaras ao longo dos dias, e pela obsessão, pela compulsividade em torno dessa porção de queijo mais polvilho feita no forno que me atormenta diariamente: o pão de queijo, a minha perdição. Já reparei, inclusive, que algumas garotas arqueiam somente uma das sobrancelhas quando eu, ao invés de as convidar para uma festa de gente com topete, luzes e roupas coloridas, ou para um jantar com macarrão iugoslavo ao molho prussiano, pergunto apenas se elas aceitam um pão de queijo. É tão mais direto, simples, só um pão de queijo quentinho e macio, se acompanhado por um cafézinho então... hum... sem açúcar, claro.
O professor Houaiss é que dá uma porção de jeito de falar o que quer dizer vício: defeito ou imperfeição são duas das primeiras palavras. Qualquer deformação que altere alguma coisa também é outra forma. Só com essas duas definições, por exemplo, apenas com as palavras imperfeição e deformação, não é por nada não, mas eu não preciso me manifestar, escrever uma palavrinha sequer, porque está estampado no meu rosto, literalmente: sou um deformado, digo, um viciado, em café e pão de queijo.
Mas enquanto a TV do seu Nando mostrava as manifestações em Brasília contra a criminalização da homofobia, ao mesmo tempo em que se comentava a aprovação do Dia do Orgulho Hétero pela Câmara de vereadores de São Paulo, tudo era muito estranho pra mim. Eu pensava que estávamos todos perdidos, que não havia sofá na sala ou São Longuinho que desse jeito nesse mundo confuso entre o que é estranho e o que não é.
Porque se um sujeito não conseguia entender o fato de alguém tomar café sem açúcar, o que há de fazer com que pessoas aceitem que “amor é apenas amor”, e que não há nada mais besta e trivial do que isso? Já sei, já sei, na certa faltou a Mário de Andrade ter notado o equívoco no título de seu romance, Amar, verbo intransitivo (intransitivo: 1. Adjetivo: que não se pode transmitir ou passar a outrem; intransmissível; 2 Rubrica: gramática. Adjetivo ou substantivo masculino: diz-se de verbo que não aceita complemento verbal; p.ex.: a criança caiu; o gato miou... Houaiss). É isso, claro, porque pra ser contra tornar crime uma violência, uma agressão a outra pessoa que Ama outra pessoa, só mesmo acreditando que Amor é um verbo concedido, restrito, ou então, justamente, que Amar só pode ser um verbo proibido.

9 palpites:

Huguíssimo. Gostei bastante desse texto. Você fala de você e se transborda. É autobiografia como forma de crítica. É meu estilo preferido feito por uma das minhas pessoas preferidas.

Sofá na cozinha é a ideia mais brilhante que já vi. Acho que a cozinha de vocês é um dos lugares mais gostosos que já conheci. E olha que minha avó tinha uma chácara com rede na varanda.

Fui surpreendido no final. Não vi o argumento que você estava costurando. Já estava sentado no seu sofá quando você falou: "Porque se um sujeito não conseguia entender o fato de alguém tomar café sem açúcar, o que há de fazer com que pessoas aceitem que 'amor é apenas amor'". Direto como um pão de queijo.

Estou tentando digerir essa.

Abraços!

"Você fala de você e se transborda. É autobiografia como forma de crítica. É meu estilo preferido feito por uma das minhas pessoas preferidas." por hora, faço minhas as palavras do mestre.

há mais: a relação que o Caio percebeu(e eu não) não me pareceu bem desenvolvida no texto... achei sutil demais... e é o núcleo do texto... podia ter desenvolvido melhor

achei que tem algumas partes que não estão ajudando em nada o argumento e atrapalham a leitura... não é só estética, como o caião sugeriu... atrapalha, mesmo...

achei que foi um certo desperdício... você tinha ótimos assuntos, como o sofá na cozinha e o vazio da geladeira... a descrição - insisto - sempre é muito boa... e a passagem de convidar as meninas para o pão de queijo é de mestre - na vida e no texto.

mas tudo embolado, perdeu... ficou confuso...

acho uma boa fórmula de crônica - talvez por isso uma fórmula boi com abóbora - misturar dois assuntos num texto só e sugerir a conexão... (pão de queijo com café sem açúcar e polissexualismo, por exemplo)

mais que isso eu acho que perde a liga, que acho que foi o que aconteceu...

é bom, mas poderia (cada um dos vários textos que dá pra tirar daqui) ficado excelente..

vamo que vamo...

smac

ps: obviamente, não sou o uendel bigato, mas uso o computador dele de vez em sempre...

não sabia que ia sair assim o comentário, mas passa, né? dá pra descobrir a assinatura, nénão?


smac.

Gostei de onde o texto chegou, foi surpreendente..

Tive um pouco de dificuldade com a discrição da casa no começo, larguei por duas vezes antes de ler até o fim por causa disso, mas isso talvez, ou provavelmente, seja uma dificuldade minha com discrições, que na verdade podem ser deliciosas. Talvez porque já conheça sua casa também, enfim.

Mas de resto curti, dá pra sentir seu tradicionalismo, "chatisse" e inteligência, nessas linhas.

Abraços

É por isso que eu sempre prefiro a posição do crítico: hahaha! Muito obrigado, meninos!

Chinêszinho, como você está afiado, hein! Mas, oi, "de resto curti, dá pra sentir seu tradicionalismo, "chatisse" e inteligência, nessas linhas"??? Me lembrei de uma historinha: "nossa, legal essa cor do carro, né?! Muito feia essa cor!!" Ahn??

Peixe, o texto "nasceu" pensado com essa relação, talvez sutil, e fui preenchendo e tentando fugir de muita firula teórica... pra não ficar "antropologês"... de repente, eu tinha quase duas páginas de preenchimento, e a relação estava "ali", ou quase não mais... então fui cortando e cortando, e ao mesmo tempo, tentava deixar em cada um dos parágrafos algum tipo, genérico é verdade, de "coisa estranha" - se é que são... sofá na sala, café sem açúcar, imã de geladeira... acho que perdi a mão quando entro no lance do Houaiss... ficou totalmente fora de lugar, achei... mas, tenho tentado me sacanear às vezes, e achei que estava tentando ali, de novo, e depois, "voltei" ao argumento, ou melhor, tentei mostra-lo, mas confesso que não gostei do resultado também...

E, Caião, tomara que a Mari não tenha ciúmes, cara, também te amo, mano: porque a primeira parte do comentário é uma declaração de Amor, orra!

acho que dá pra tirar os textos de dentro dele e formar o argumento "em séries". hehehe

pelo meno me deu vontade de desenvolver as idéias...

vamos aí?

smac

Aff, que obsessão! rs
Depois tento reescrever, pelo menos.

Mas uma coisa que esqueci, a casa, sim, é aquela onde moro, com o sofá, a geladeira e até mesmo com o tal imã, mas pára por aí. Se é "autobiográfico", é também inventado...

Beijos

e qual texto não é autobiográfico?

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