domingo, 10 de julho de 2011

Ao Senhor (parte I)

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário

(texto de novembro de 2009)

A Richard Dawkins,

Olá, acho melhor me apresentar primeiro. Sou um sujeito que faz pouco tempo o conheceu, casualmente, através do contato com um de seus livros. Sei que é estranho dizer isso, mas escritores são assim, em sua maioria, os conhecemos apenas pelo que escrevem. Fiquei muito surpreso com a beleza apresentada pela edição brasileira de Deus, Um Delírio, é de prender os olhos. Quando em minhas mãos, corri logo os olhos pela capa, contra-capa e orelhas desse livro de tantas páginas. Por todos os cantos, pude notar o quanto o senhor é celebrado internacionalmente, admirável. No entanto, ao longo dos anos, desenvolvi em mim algo que pessoalmente repudio, sem falsa modéstia: superficialidade e proselitismo. Quando abri o livro, li rapidamente partes da introdução e fui e voltei pelos índices e capítulos de sua obra, então, deixei-a de lado.
Tenho profundo apreço por posturas agnósticas, céticas, e hoje estou mais inclinado ao ateísmo também. Digo hoje, pois sou um bom burguês do século XIX, sabe? Quando “a coisa aperta”, me encanta a fé das pessoas, começo a acreditar e confiar nelas, me emociono até. Já em outros momentos, se me aparecem coisas cada vez mais tristes, indiferentes, me fecho, distribuo reduzas e quero que tudo e todos se explodam em seus egos imbecis. Uma música, que conheci faz pouco, diz bem o meu sentimento nesses instantes, Eu Tou Cansado dessa Merda, da Banda Eddie: “Nêgo!/Eu tou cansado desta merda/ Da violência que desmede tudo/ Da minha liberdade clandestina/ De ta no meio dessa briga/ Chega!/ Da gente tá se apertando/ Da ignorância insandecida/ Se esquivando de estatísticas/ A minha paz, faz tempo, ta querendo trégua/ A minha paciência se atracou como ela/ Eita!/ Que o sangue pinga nas notícias/ Vendidas como coisa bela/ A merda já tá no pescoço/ E a gente acostumou com ela/ Nunca se sabe o que vai acontecer/ Nunca se sabe, pode acontecer/ Nêgo!/ A máquina acordou com fome/ Vem detonando tudo em sua frente/ Comendo ferro, carne e pano/ Bebendo sangue e gasolina/ Eita!/ Sentenciado ao absurdo/ De merda em merda emergindo/ Um dia afoga todo mundo/ E assim acaba a caganeira”. De verdade, nessas horas, não há Deus, Diabo, santo, padre ou pastor que me faça pensar diferente, não há moral, ou punição que me faça pensar que as pessoas possam “ser” diferentes, acabo junto daqueles que desejava não mais existirem: preso em um pensamento totalitário e vazio. Mesmo assim, sou um fraco, me derreto fácil e qualquer palavra boba já me deixa, também, igualmente bobo.
Tonto, como fiquei quando fui assistir ao concerto de uma Orquestra Filarmônica dentro da Catedral da cidade de Granada, aqui na Espanha. Sorte que era gratuito, porque do contrário dificilmente pagaria o preço pedido para um espetáculo como aquele. Sabe, costumam ser muito caras essas coisas. E ainda mais aqui, onde há muitas Igrejas, toda uma tradição com o catolicismo, hoje aliado ao turismo, imagine o senhor, seria por demais caro assistir a isso pagando... Felizmente, aquele concerto foi gratuito em virtude da celebração de músicos ilustres da região, bastante ligados à Igreja Católica... Nada como estar desacreditado do mundo, das pessoas, e continuar assim, porém, pelo menos sentir-se emocionar dentro de um lugar tão bonito, de uma brancura, de uma aparente harmonia, de uma quase tranqüilidade que forjamos, projetamos no espaço, nas cores. Queria pegar um pouquinho disso tudo, quase num roubo silencioso, por numa caixinha e levar comigo pela rua...

(continua)

1 palpites:

Consigo pensar um sistema moral baseado na falta de leis sem gerar o caos absoluto: o amor e a religião são formas. Há bandos que vivem de relações afeivas mais flexíveis que as presentes na sociedade. E há microsociedade que sobrevivem de crenças.

Eu sou ateu, mas não deixo de ver um gigantesco benefício de certas regiliões, como os sufistas, os paganistas, os xamânicos, religiões e sistemas de crenças que despensam todos os pressupostos que o R.D. derruba em seus livros/palestras. Outras piras. Bom pesquisar e não ficar só na mesma fonte, é a mesma crítica que se faz ao religioso que só considera seu livro sagrado e tal.

Abraço!

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