domingo, 22 de maio de 2011

"Mundo, mundo, vasto mundo..."

. . Por Hugo Ciavatta, com 6 comentários

"Odeio as viagens e os exploradores. E eis que me preparo pra contar minhas expedições (...) esse gênero de relato encontra aceitação que para mim continua inexplicável. A Amazônia, o Tibete e a África invadem as lojas na forma de livros de viagem, narrações de expedição e álbuns de fotografias em que a preocupação com o impacto é demasiado dominante para que o leitor possa apreciar o valor do testemunho que trazem. Longe de despertar seu espírito crítico, ele pede cada vez mais desse alimento, do qual engole quantidades fantásticas. Ser explorador, agora, é um ofício; ofício que não consiste, como se poderia acreditar, em descobrir, ao cabo de anos de estudo, fatos até então desconhecidos, mas em percorrer elevado número de quilômetros e em acumular projeções de fotos ou animadas, de preferência em cores, graças às quais se encherá uma sala, vários dias seguidos, com uma multidão de ouvintes para quem as trivialidades e as banalidades parecerão milagrosamente transmutadas em revelações, pela única razão de que, em vez de produzi-las em sua terra, seu autor as terá santificado por um percurso de 20 mil quilômetros" (...)
"Hoje, quando ilhas polinésias afogadas em concreto se transformam em porta-aviões solidamente ancorados no fundo dos mares do Sul, quando a Ásia inteira ostenta o semblante de uma zona enfermiça, quando as favelas corroem a África, quando a aviação comercial e militar avilta a candura da floresta americana ou melanésia antes mesmo de poder destruir-lhe a virgindade, de que poderia a pretensa evasão da viagem conseguir outra coisa que não confrontar-nos com as formas mais miseráveis de nossa existência histórica? Esta grande civilização ocidental, criadora das maravilhas de que desfrutamos, certamente não conseguiu produzi-las sem contrapartida. Como a sua obra mais famosa, amontoado onde se elaboram arquiteturas de uma complexidade desconhecida, a ordem e a harmonia do Ocidente exigem a eliminação de uma massa extraordinária de subprodutos nocivos que hoje infectam a terra. O que nos mostrais em primeiro lugar, viagens, é nossa imundície atirada à face da humanidade."
"Então, compreendo a paixão, a loucura, o equívoco das narrativas de viagem. Elas criam a ilusão daquilo que não existe e que ainda deveria existir, para escaparmos da evidência esmagadora de que 20 mil anos de história se passaram. Não há mais nada a fazer: a civilização já não é essa flor frágil que se preservava, que se desenvolvia a duras penas em certos recantos abrigados de um torrão rico em espécies rústicas, talvez ameaçadoras por sua vivacidade, mas que permitiam também variar e revigorar as sementeiras. A humanidade instala-se na monocultura; prepara-se para produzir civilização em massa (...)."
(Claude Lévi-Strauss. Tristes Trópicos)

Em meados do século passado, as recordações de Lévi-Strauss, que viera ao Brasil, entre outros intelectuais, para a fundação da Universidade de São Paulo, não haviam encontrado temporalmente a primeira experiência humana pelo espaço, fora da órbita terrestre. Experiência esta que alterou, que redimensionou a aventura humana no universo. Fatalista, desesperançada, pessimista são talvez alguns dos adjetivos que podem caber às palavras do etnólogo. Ao mesmo tempo, uma visão suficientemente realista diante da destruição, da miséria humana pelo mundo. No entanto, não imagino quais teriam sido as palavras de Lévi-Strauss diante das imagens abaixo, uma recriação feita pela Estação Espacial Internacional da viagem de Yuri Gagarin. É uma nova filmagem combinada com o áudio, a gravação do primeiro homem a ver o planeta pelo espaço, e com uma incrível trilha sonora. A miséria dos vasto mundo criado pelos homens contrastada aqui pela poética de imagens do mundo que, de alguma forma, serve aos mesmos homens.




(ao amigo Arthur Saraiva - o Cão -, quem me indicou o vídeo)

6 palpites:

Hugão, estava relendo seu post e resolvi fazer uma confissão.

Um dos livros que mais me incomodou na vida foi "O mito de Sísifo" do Camus. Li antes da faculdade e fiquei fudido com o absurdo que é a morte. O livro todo é questionando o ponto existencial fundamental: se vale a pena viver. Ele compara a experiência do "absurdo" (como ele mesmo chama) de saber que vamos morrer ao mito de Sísifo. No mito, Sísifo carrega uma pedra montanha acima e a pedra rola para baixo, tornando seu esforço eterno e inatingível. Na vida, a alegria de um dia é sempre seguida da experiência absurda de lembrar a morte e essa é a pedra que cai. Ou algo por aí.

Enfim, tenho muitos medos, como qualquer mortal, mas a coisa que me faz sentir menor e mais vazio são essas merdas dessas fotos do universo. Não consigo ver beleza nenhuma. Apenas sinto a pedra caindo e mudo rapidamente de assunto.

Resumindo, ainda não vi o vídeo.

Abraço

Caião,
Também tenho dificuldade com fotos, imagens e vídeos do espaço, lembro que quando era adolescente, eu gostava muito de uma banda, Pearl Jam, e uma das capas de um cd tem uma supernova, eu pirava com aquilo, a morte de uma estrela, a grandiosidade da imagem e a insignificância nossa diante de tudo aquilo...
A primeira vez que andei de avião fiquei muito atordoado, pra mim foi um deslocamento (pra além do espaço-tempo) muito forte, com a noção ver as coisas tão pequeninas e tal...
Um dos filmes de que mais gosto, cuja trilha sonora também é ótima, é Adeus Lenin, muita gente já viu, né... Mas é um detalhe, porque o cara que está reconstruindo, mantendo o mundo pós queda do Muro de Berlin pra mãe que voltara do coma e não sabia, poderia nao suportar a ideia de ver tudo acabado, sonhava, quando criança, em ser astronauta, pois lá de cima tudo aqui parecia tão bonito, harmonico, enquanto aqui embaixo as coisas são beeem mais complicadas.
Do Camus, não conheço o livro, mas uma leitura dele também me causou um desconforto sem tamanho, "O Estrangeiro", que pra mim deveria se chamar "sobre a crueldade", já que aparece das mais diferentes formas o livro todo. O livro sobre Sisifo não conheço, mas o mito é bem impactante mesmo...
Tem um poema do Antero de Quental sobre a ciência, também, que desvenda os confins do universo e os meandros da matéria, mas não olha pras coisas próximas e caóticas ao nosso redor "do mundo dos homens", não o encontrei aqui, na internet.
Enfim, você tem razão, o sentimento da "pedra cair" é assustador...
Abraço

A antropologia no brasil, é ou deve ser do Brasil?

(Y el hombre retórico vuelve otra vez más: Fábio y sus preguntas breves)

Pues... que es una falsa controversia, ahn...

Antropologia no tiene nacionalid, si está hecha en Brasil, no es o dever ser acerca de Brasil, mismo porque existe una cosa así como "Brasil" ou "brasileño"?? Yo nunca he visto todavía, llevo 24 años por aquí y nunca me pareció descubrir o encontrar algo así...

Yo lo que sé? Ni puta idea...

Besito

cara, achei seu blog, enfim. Valeu pela dica que vc deixou, vou procurar!! E quanto ao Tristes Trópicos, é o livro mais legal que já li de todos os tempos. Imagina, mais do que Cem anos de Solidão... abração!

    • + Lidos
    • Cardápio
    • Antigos