domingo, 17 de abril de 2011

Vinho: Rótulos

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário

Lá ia eu saindo de casa em direção ao bar, ao mesmo bar de tantas semanas e meses cotidianos enquanto duas histórias eram remoídas e aproximadas mentalmente. A primeira era uma boa e velha, na verdade sempre nova, dor de cotovelo. Nada mais fazia sentido, nunca iria descobrir algo de novo no mundo, nada teria mais graça, ou diversão que fosse. Tudo seria só chatice, as minhas veias tinham apenas acidez, ironia e sarcasmo profundos. E lembrar que estava a caminho de encontrar uma amiga chata era mais motivo pra ranhetice. Porque temos aqueles amigos que, potz, não dá, são chatos, ! Entendo se alguém me acha chato também, só não fique me dizendo, me lembrando disso, por favor! Ah, a menina é uma daquelas patricinhas (com o perdão às Patrícias de nome), enjoadas, que reclama de tudo, cheia de frescuras, que fala quase o tempo todo de roupas caras, dinheiro e sucesso, ou seja, um pé no saco! Naquela noite, ia encontrar com uma galera, porque uma amiga dessa patricinha chegara de viagem. Amiga de patricinha que chegara de viagem só poderia ser, óbvio, tão patricinha quanto a amiga...

A dor de cotovelo era, puxa vida, uma garota tão linda, uma morena de sorriso tímido, com cabelos em dreds que a faziam de uma seriedade tola. Curioso, porque os dreds deveriam dar um tom relaxado a ela, no entanto, o olhar desconfiado compunha outra expressão. Mesmo assim, as palavras lhe saiam com alegria sutil, desfazendo qualquer dureza. Nos conhecemos numa noite e já combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte, enfim, tudo seguiu bem demais durante alguns dias, mas acabar de uma hora pra outra... por quê?! Será que fiz alguma piada que ela não gostou?! … Me perguntava. Ou será que ela fizera tal como a moça do vinho, que apareceu pra jantar em casa com uma amiga?? É a segunda história.

Acostumados a convidar os amigos pra jantar em casa, ou simplesmente beber por qualquer pretexto banal, de surpresa certa vez uma amiga nossa trouxe uma convidada dela que não conhecíamos. Preparamos a especialidade da casa, um prato à moda dos anfitriões, preguiçosos e invencionistas. Preguiçosos não, talvez fosse melhor muquiranas, pois o preparo de uma tradicional paeja, além de considerável trabalhinho na cozinha, necessitaria de ingredientes, no mínimo, um bocado mais caros. O que havíamos preparado naquela noite estava entre uma paeja e um risoto, se é que essa comparação faz algum sentido... Depois de encaminhadas as panelas, já próximo da finalização, abrimos todos os vinhos que tínhamos em casa e fomos servindo os copos. O pessoal foi ficando mais soltinho, , sabe como é, o que seria da sociabilidade não fosse o álcool?! Grandes amizades, paixões e muitos sentimentos, até de conflito, devem muito às cervejas, vinhos e tantas outras bebidas! Depois de já levemente ébrios (adoro esta palavra – porque gente muito sóbria é mesmo um fardo – taí outra de que gosto muito, enfim, melhor parar com isso e fazer um post apenas sobre as palavras de que gosto), até a comida era a mais maravilhosa do mundo! É uma tática, considere a dica, embebede seus convidados antes do jantar, assim eles vão comer já satisfeitos, encantados com a comida sem antes mesmo a terem provado! Não foi diferente naquela noite, e elogios, muitos elogios nos vieram, à casa, ao papo da noite, à comida, e ao vinho, oras! “Que vinho delicioso!” nos disse a convidada surpresa já em direção à porta, quando todos já saiam. “Quero saber qual é, vou comprar dele também!” E foi em direção à cozinha, enquanto um dos anfitriões e eu nos olhamos apenas. Existem algumas maravilhas no mundo, é verdade, apesar das dores de cotovelo, é preciso reconhecer! Uma garrafa de vinho tinto seco bom por 79 centavos, por 79 centavos (!!), é uma raridade, mas, sim, existe. O preço não estava na garrafa, evidentemente, porém, a marca e a informação “de mesa” estavam no rótulo, claro. Com isso, a expressão da convidada surpresa ao se deparar com o vinho que tanto elogiara foi indisfarçável, e difícil de esconder também foram nossas gargalhadas com a reação dela. Como já estavam todos de saída, o fechar da porta foi o sinal para uma larga crise de riso!

Mas a minha dor de cotovelo não desistia durante a caminhada: teria eu me revelado um “vinho de mesa barato” para a moreninha dos dreds?? Ao chegar no bar de sempre, lá estava a galerinha de sempre, o garçom de sempre, e eu já ia pedir a cerveja de sempre acompanhada pelo lanche de sempre, porque se tem uma coisa que cai bem para dores de cotovelo é tradição e conservadorismo de butequim! Ao chegar na mesa, contudo, a amiga da patricinha levantou-se para me cumprimentar, ela que estava de costas para a entrada. De longe, e, digamos, com o cotovelo dolorido diante dos olhos, eu só conseguira fazer um comentário maldoso e preconceituoso no pensamento, “é loira... igual a amiga patricinha... deve ser um cocô igual, certeza”.

Só consegui assentir com a cabeça, apertando suavemente os olhos enquanto alguém dizia, “esse é o Bruno”, lhe dei um beijinho de cumprimento e um leve abraço, sequer um “oi” saiu da minha boca. Acenei rapidamente pra todos presentes na mesa e me dirigi à cadeira vaga do outro lado, na posição oposta àquela da moça que já não era mais “a amiga da patricinha”, e naquele intervalo de segundos passava a ser identificada como quem “tem nome de música”, passo pós passo até a cadeira. Meu sentimento era de profunda, amarga, dolorida vergonha, me senti a convidada surpresa do vinho de mesa barato, só que às avessas. Cada sorriso, cada gesto, cada olhar, cada palavra, cada desconforto com a conversa de roupa cara e glamour vazio da amiga patricinha ao lado, cada arregalar de olhos, cada lembrança de filme, cada comentário de livro, cada simpatia contrabandiada por delicadeza e elegância, cada suavidade, cada tudo nela era a Beleza...

Troquei a cerveja de sempre por uma taça de vinho, e estava tentando inventar uma história - como escrever sobre “vinho” numa série - pra não deixar a conversa parar.

1 palpites:

num primeiro momento, pensei que "Bruno" fosse o nome da moça e você tivesse comprado gato por lebre,como no caso do vinho "de mesa", mas depois entendi que Bruno era quem contava a estória hehehe...

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