domingo, 20 de março de 2011

Janelas

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários

Quando era criança, até a adolescência, dividi quarto com minha irmã. Depois que ficamos maiores, ainda crianças, a beliche já não era uma boa opção para irmãos que quase sempre brigavam por qualquer besteira. Com o fim da beliche, minha cama foi para o lado da janela. Desde então, próximo à janela tenho ficado com a minha cama, mesmo tendo me mudado várias vezes nesses anos. Vez ou outra não, a janela fica distante no quarto, como quando, por exemplo, dividi quarto em república, mas só inicialmente, ou alguns meses no alojamento universitário, momentos em que logo depois levaria a cama pra perto dela. Sempre que posso escolher, nem penso muito as razões no momento, só prefiro a janela. E “janela” é metáfora pra mais de metro na literatura, no cinema, em mil conceitos mundo afora, isso não é novidade pra ninguém. Beira um arriscado clichê falar delas.

Mas lembro de cada um dos barulhos que folhas ou venezianas faziam ao longo desses anos. De pequeno, gostava das venezianas que podia abrir, ou entreabrir, fazendo com que as primeiras luzes do dia me acordassem. Era como se quisesse encontrar com o nascer do dia cotidianamente, mesmo que não fosse pra levantar em seguida, e já voltar a dormir, porém, olhar o céu, procurar por uma ou outra nuvem dava uma sensação boa. Três das janelas nesse tempo, depois que deixei a casa dos meus pais, eram mais altas, duas na parte de cima do sobrado, e uma delas no segundo andar do prédio. As mais altas têm um charme especial, te levam ao horizonte, te dão aquele ar de aventureiro ou viajante que mira o longe, o futuro. Meio blasé. Especialmente quando o fundo era um pequeno bosque: estava construído o bucolismo. Da mais alta, tinha um carinho diferente, pois ao longe, além do horizonte aparentemente plano cortado por uma região montanhosa, passava uma linha férrea, então os horários dos trens, a velocidade, o movimento, era como se tudo fosse um aviso constante: estamos em trânsito.

Perco horas, gasto os minutos, mesmo quando não deveria, e ainda que não esteja no quarto, seja na sala, ou mesmo na cozinha, preso às janelas. Às vezes, é só o exercício do silêncio, de esperar que os pensamentos fujam pelo grande retângulo aberto diante de mim, aguardando que novas coisas possam surgir. Noutras, é uma briga intensa para que a teimosia de coisas repetidas que atiro pela janela, que defenestro, e que voltam, por fim, inclusive à contragosto, definitivamente não mais se aproximem.
Gostava da janela da sala do alojamento que deixei há pouco mais de um mês. Na frente dela estava uma frondosa árvore. Me sentia protegido, me faziam companhia a janela e a árvore. Não que ao redor estivesse em risco, não. A grandiosidade da imagem me colocava no lugar, me situava, assombreava o olhar.

Curiosa é a relação que há no quarto entre a disposição da cama e a localização da porta. Pra mim, a janela acaba tendo papel decisivo. Já ouvi várias vezes que a cabeceira da cama não deveria ficar voltada para a porta, pois isso traria azar. Hum. É uma boa explicação para pequenos infortúnios que a ventura me reserva diariamente, porque muitas vezes, quando criança, dormia com os pés voltados para a cabeceira, com a cabeça mais próxima da janela e, dessa forma, “de costas” pra porta. Ainda que a cabeceira da cama estivesse como deveria, eu cometia um desrespeito à ordem cósmica que protege a nossa sorte, às leis universais da superstição.

Por isso, hoje, as duas janelas do meu quarto estabeleceram um conflito de significado na minha cabeça. A vista de uma delas, sentado da mesa onde escrevo neste instante, é engraçada: um peixe, que está desenhado no muro dos fundos. É legal, como se eu acordasse dentro de "Procurando Nêmo". Já a outra não dá vista, justamente porque não abre, e está no alto e no centro da parede de frente para a porta. Ela poderia ser uma entrada para o forro, para a laje da casa, mas não é. Deveria estar na cozinha, ou na sala, ou até mesmo no banheiro, pois não tem o formato usual daquelas que geralmente ficam nos quartos e que se pode abrir com movimentos horizontais. Pintada toda de branco, até mesmo nos cinco vidros que a compõem, ela teoricamente se abriria com um movimento de cima pra baixo da pequena alavanca que traz à direita. Poderia ser uma passagem secreta, porém, não é discreta o suficiente para isso. É uma crueldade de significação de qualquer forma, como se dissesse, insistente e metaforicamente, que há janelas que não podem ser abertas, que não levam a lugar algum, em conflito com a própria existência da janela, já que, sendo assim, não deveria sequer existir. Se não pode ser aberta, se não comunica nada, por que existir então, oras?

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