sábado, 5 de março de 2011

Ctrl + Alt + Del

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários

Quando trabalhava, dentre as tais oito horas formais diárias cumpridas, a maior parte do tempo era passado em frente ao computador. No início do mês passado, contudo, terminado meu contrato, vivi uma dificuldade de concentração incrível. Meu cérebro, acostumado às abas e janelas, parecia pensar, procurar por um “Ctrl+Tab” ou "Alt+Tab" o tempo todo, querendo deixar pra trás o que via e lia, seja lá onde fosse. Como se o "Alt+Tab", atalho que utilizamos para trocar de janelas na área de trabalho, pudesse me fazer trocar de assunto, e o "Ctrl+Tab", usado pra mudar de abas nos navegadores de internet, me possibilitasse buscar uma novidade sobre determinado tema. As notícias que chegaram com o começo de fevereiro também não ajudavam.

- José Sarney eleito pela 4ª vez presidente do Senado, 01/02/2011.
Não desejava o encargo, dele não pude fugir, tendo na carne o alto preço do exercício destas funções. A confiança dos meus ilustres colegas conforta, redime e aumenta as minhas responsabilidades.

Alt+Tab

- Torcedores do Corinthians após eliminação do clube da Pré-Libertadores, 05/02/2011.
Quem não joga por amor, joga por terror

Ctrl+Tab

- Romário, ex-jogador de futebol, deixa a primeira sessão na Câmara Federal e joga Futvôlei no Rio, 08/02/2011.
Para aqueles que não sabem, não teve plenário e a presença não era obrigatória.

Alt+Tab

- Mubarak renuncia à presidência do Egito, 11/02/2011. Depois intensos protestos populares inspirados no processo que pressionou Ben Ali a deixar o governo da Tunísia, no dia 14 de janeiro.

Ctrl+Tab

- Marrocos, Argélia, Líbia, Bahein, Yemen: onda de protestos, de mudanças no chamado mundo árabe.

Alt+Tab

- Cine Belas-Artes resiste ao fechamento, por enquanto, 22/02/2011.


Ctrl+Tab



De repente, como diria o Aoki pentelhando, não mais que de repente, zaz, tudo se confundiu na minha cabeça e comecei a imaginar José Sarney, com aquele imenso bigode no qual esconde, não é possível, o mais absoluto cinismo imaginável, como o responsável pelo aumento da passagem de ônibus em São Paulo e pelo fechamento do Cine Belas-Artes, também na capital paulista. Romário, ao invés de ex-jogador de futebol e deputado que joga futvôlei durante uma sessão na Câmara, era incentivador, apoiador e ajudava a organizar não o protesto de torcedores do Corinthians, descontentes com a eliminação da equipe do Parque São Jorge da Taça Libertadores da América, mas agora ações contra um serviço de transporte público paulistano que humilha usuários diariamente. E aterrorizados não ficavam os jogadores do Corinthians com os protestos, mas o poder público, com a verdadeira pressão crescente das pessoas pelas ruas, tal como no mundo árabe, protestando contra o aumento da tarifa de ônibus e o fechamento do Cine Belas-Artes. Símbolo de uma cidade, de uma região, de um país todo, de um estilo de vida globalmente difundido, as Marginais Tietê e Pinheiros haviam sido paralisadas pelas manifestações. O congestionamento se estendia mais e mais pelas ruas, avenidas e rodovias, inclusive, do restante do Estado, o caos estava instalado. As pessoas se recusavam a entrar nas linhas de metrô da cidade, todas ficavam paradas diante das catracas.
"Ctrl+Tab" ou "Alt+Tab" já não faziam sentido, eu precisava era de um "Ctrl+Alt+Del" para reiniciar tudo, estava louco. Internet e computador não eram apenas um hábito, mas um vício.

Acho, também, que assisti muito ao Pink & Cérebro quando era criança. Não me fez bem.

Tsc tsc tsc


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