sábado, 15 de janeiro de 2011

Pontos, pontos (...)

. . Por Hugo Ciavatta, com 3 comentários

Reticências, o que são reticências? Professor Aurélio, por favor:
- Sinal de pontuação, série de pontos com que se marca interrupção ou omissão. Mais, supressão voluntária de uma coisa que poderia ou deveria ter sido dita. Ou ainda, é uma figura retórica pela qual o orador, calando-se, faz perceber o que não quer dizer expressamente.
Segundo a “história via google”, também, reticência deriva de taciturno, deixando entender, em silêncio, o sentido daquilo que não se diz, e, possivelmente, muito mais. Vinda ainda do latim (quando não é do grego, não é mesmo?), a palavra agregou o prefixo “re-”, cujo significado aqui seria "retirar-se para dento". Hum...Pois, sim: Wikipédia também é poesia!

As reticências podem ser um ponto final atrás de outro e mais outro, simplesmente. Mas um ponto final impõe fim a uma ideia, a uma expressão, a um diálogo. O ponto encerra um movimento da linguagem, ao menos por um instante, podendo abrir caminho, em seguida, para uma nova comunicação. Basta que uma letra se coloque a frente e a expectativa pelo que virá se reinicia. Não importa a ordem, mas pedirão os didáticos que seja primeiro sujeito, depois verbo e só então complemento. Entre a letra que entrou em cena e o ponto final que circunscreverá o pensamento enunciado, todavia, aparecerão alguns quase-pontos: as vírgulas. Elas dão a devida cadência à música do texto, imprimem ritmo. A ausência delas acelera o canto, enquanto que o exagero de uma e outra próximas pode confundir. Só mesmo uma boa medida, de uma receita indecifrável, pode dar a harmonia tão desejada para o uso delas. Difícil. As vírgulas seriam pontos não fosse o fino escorregar de tinta sobre o papel que se projeta no sentido horário, como se quisesse ir a frente, mas que precisa apontar para o que a antecede e, no meio do caminho, pára. Vírgulas parecem pequeninos ganchos, elos nas orações. Mas depois delas a nova palavra avança, é acrescentada para explicar, complementar, negar, reafirmar, enfim, a canção se amplia. Quando chega o momento do ponto final, o ar já anuncia sua própria falta na respiração e, assim, colocado o pequeno círculo negro sobre o papel, por fim, inspira-se, recuperando o fôlego. Outros sinais também podem surgir em meio à reza: o ponto e vírgula e o dois pontos. Misteriosos são os primeiros que, como o próprio nome diz, parecem reunir as aquilo que possuem quando separados. Querem encerrar, mas, ao mesmo tempo, abrem a possibilidade para seguir, fazendo isso a partir de algo em comum, ou ao alterar apenas parte da oração que se deseja dar seguimento. Já o dois pontos é um anúncio solene, pomposo quase, como se não conseguisse somente encerrar a conversa com um ponto final. Ele quer, porém, explicar determinada coisa, encurtar a prosa decididamente, como um ponto final sobre outro, porque depois deles pode vir, inclusive, um resumo da ópera, além de um exemplo qualquer, ilustração. E sobre um ponto pode aparecer ainda um gancho, ou apenas um traço, são interrogação e exclamação. Orações arregaladas costumam trazer exclamações para destacar a presença, a força do que se diz. Exclamações são como lanças atiradas pela língua ao fim de uma frase, deixam clara a ênfase do dito, mais que anunciam, gritam, se fazem lembrar. Já os ganchos de boca pra baixo miram uma questão, perguntam, querem saber o quê, o como, o por que, e tantas outras conjunções e pronomes que se imaginar para inquirir, ou "enxerir"! mesmo. Quando se repetem sucessivamente, interrogações conseguem é perturbar, tontear, atordoar o ouvinte, quando não, irritam de fato.

Alguém reticente, entretanto, parece propenso à contrariedade, digamos, se negando a algo.
Reticências parecem ser um arrastar esganiçado do incômodo causado pelo silêncio, de quando não se tem o que dizer. Como se anunciasse o desconforto, também, que causaria apenas um ponto final. Então, jogar mais dois pontos finais na sequência poderia ser a saída para não deixar o interlocutor sozinho abruptamente: uma cruel delicadeza. Reticências podem ser ainda um brincar, mostrando o quão desconhecido são os locais sobre os quais se irá saltar, os pontos, e os espaços obscuros entre eles que se deixaria pra trás no salto. A dúvida, o vacilo, o receio, o medo. Reticências podem ser três passos de incerteza entre duas lacunas, intervalos sobre o que não se tem clareza. São hesitações, vícios. Reticência é um nervosismo, é uma ansiedade. Reticências não são pontos finais sucessivos. São adiamentos ...

3 palpites:

Hugão,

tu, grande pessoa para ver coisas e mais coisas em uma simples coisa. De princípio me parecia um texto piegas, já manjado, como alguns que me lembro ter lido na escola ou em alguma corrente de emails, que fala de qualquer coisa (por exemplo pontos, virgulas, etc) e compara com a vida. Não. É simples e leve. Gostei. E gostei mais ainda porque me vejo sempre cheio de reticencias. Escrevo muito com os tres pontinhos. Sempre parece que não termino as frases ou o que quero dizer. Adiando algumas coisas.

Bonito.

Tem alguns textos que lemos e sentimos que a pessoa estava inspirada quando o escreveu, este é um destes. Pra mim, um dos que mais tem poesia e fluidez, sem as tantas vírgulas que você costuma usar e, por vezes, me confunde!

A forma está na medida certa e o conteúdo metalinguístico está ótimo também.

A única coisa que mudaria é terminar com uma reticência, não com um ponto final rsss... Porque, afinal, não queria que a crônica tivesse um fim...rss

Hugão: texto-maravilha esse hein!
Me deixou pensando em outros...pontos dessa partitura que você desenhou, por assim dizer: no espanhol tem a interrogação de ponta-cabeça, tem as aspas super acadêmicas, o travessão, etc.
Abraço!
Lobão

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