VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

sábado, 27 de novembro de 2010

De Kafka a Liza Gilbert

. . Por Hugo Ciavatta, com 11 comentários

"I left my home in Georgia
Headed for the Frisco Bay
I've got nothin' to live for
Looks like nothing's gonna come my way, yeah...
Sittin' on the dock of the bay
Watchin' the tide roll away
Sittin' on the dock of the bay
Wastin' time..."
(Otis Redding)




Poucas obras talvez tenham um início tão emblemático como A Metamorfose, de Franz Kafka, ou melhor, talvez poucas obras sejam tão emblemáticas como este livro do escritor nascido em Praga: "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso." Gregor é um funcionário público com uma vida padronizada, pautada pelas obrigações tanto em relação à sua família como em relação à sociedade, na qual as relações entre as pessoas eram norteadas por um interesse material, mercantil, somente. Kafka, com o poder que só "o papel e a caneta" poderiam lhe dar, transforma-o em uma barata. Então, com o absurdo que não só a literatura permite, Gregor adquire humanidade. Enquanto homem, Gregor era um inseto desprezível e nojento, imagina-se, como uma barata. Ao longo da novela, todavia, como uma barata do tamanho de um homem adulto, Gregor é de fato um Ser Humano, preso dentro de um quarto. E, ao mesmo tempo, pela mesma transformação, também, passam seus familiares, que adotam uma postura mais sensível entre si e em relação a Gregor.

Quando assisti ao Comer Rezar Amar (Eat Pray Love), adaptação do livro de Liza Gilbert, do qual ela é também personagem, mais uma vez me lembrei de Kakfa, porque a primeira vez que a recordação me ocorrera foi vendo Na Natureza Selvagem (Into the Wild), que conta a história de Christopher McCandless.

Nos diz Liza:
- Preciso mudar.
(...)
- Eu nunca dei um tempo de duas semanas só pra mim.
(...)
- Toda a minha enorme sede de vida desapareceu.
- Quero ir a algum lugar e me maravilhar.
(para se sentir livre)

Liza vai à Itália, à Índia e à Bali. Já Chris McCandless deixa pra trás tudo, família, amigos, dinheiro, ateia fogo no carro e em seus documentos, e desaparece no interior dos EUA.



A postura de Chris parece muito mais crítica, afinal, está contestando A Sociedade. Ele abre mão de tudo para viver em meio às aventuras que a natureza pode lhe proporcionar, distante da falsidade, das mentiras que os homens vivem uns com os/pelos outros. Chris deseja encontrar-se consigo, longe de tudo que apresenta e representa a sociedade na qual todos vivemos. Submete-se a um processo que ele mesmo nomeia de "revolução espiritual". Assim, Chris encontra Liza, e ambos, a seus modos, dialogam com Kafka.

Se a atitude de Chris pode parecer crítica, no entanto, nada tem de inovadora. Por exemplo, Edgar Allan Poe já descrevia o flâneur, trabalhado também por Walter Benjamin. Este, por sua vez, pensava o poeta Charles Baudelaire da Paris de meados do século XIX, transformada pela revolução industrial. O flâneur é uma figura sobretudo urbana e que ressaltava a perversidade das relações humanas, das quais, não por acaso, Chris também se queixava. A diferença é que, ao invés de partir para o isolamento da Natureza, o flâneur se esquece em meio à multidão presente nas ruas.

Enquanto Kafka transforma seu personagem logo de início em uma barata para torná-lo humano, Chris rejeita tudo e todos à sua volta, mostrando o quão barata, asqueroso e repulsivo, tudo ao seu redor é. Já Liza, talvez, se apresente como uma espécie de Gregor, sentido-se uma barata e em busca de uma transformação que a realize. Destituída de "crítica social", Liza viaja o mundo em busca de si própria, consome o mundo e a diversidade dele para si.

Chris e Liza estão à frente de suas decisões, de suas próprias histórias, numa postura que se confunde em meio a vários elementos, à coragem, à autoafirmação, à vaidade, ao egocentrismo, e até mesmo à indiferença, em algumas situações. Ao longo de suas trajetórias, quem se sobressai, quem está a frente, no começo, no meio e no final, no caso de Chris trágica e resignadamente, são eles, Liza e Chris. Voltados a questões distintas, Chris inconformado com a sociedade na qual vive, querendo se afastar para se transformar, e Liza incomodada consigo mesma, precisando mudar, ambos parecem seguir com rigor os valores aos quais estão ligados. São EUs enormes desfilando, que poucas concessões estabelecem ao mundo e às pessoas ao seu redor. Sujeitos bem informados, que muito bem falam, mas que têm dificuldade para ouvir. E, ironicamente, nada de novo descobrem quanto a si próprios, apenas se redescobrem. Com Chris a situação é ainda mais irônica, porque ele se depara com a obra de Boris Pasternak, que esteve com ele o tempo todo desde que partira, e da qual ele gostava muito, Doutor Jivago.

Por isso Kakfa, em A Metamorfose, triunfa, na posição de escritor genial, nos comunica nossa miséria, de barata que todos somos, em perspectiva.

♫ ♫ "Sittin' on the dock of the bay/ Watchin' the tide roll away/ Sittin' on the dock of the bay/ Wastin' time..." ♫ ♫

"A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em buscar novas paisagens,
senão em ter novos olhos" (Marcel Proust)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Crianças Contemporâneas

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

(Aviso já: um texto um pouco mais longo e denso sobre arte contemporânea)

Esses dias, tive contato com uma palavra que me remeteu à sua beleza enquanto termo e fonema: "Hermético". Escutei-a em seu terceiro significado no dicionário Houaiss: "difícil de entender e/ou interpretar, obscuro, ininteligível". Dizia-se que a arte contemporânea, mais especificamente a dança contemporânea, seria "hermética", daí sua baixa popularidade e dificuldade em formar um público que venha de outro lugar que não da própria classe artística.

Algumas linhas pedagógicas afirmam que o brinquedo, do modo como o conhecemos, mais limita do que educa uma criança. Isso porque o brinquedo tem uma estrutura rígida com regras de como deve ser usado, muitas vezes estimulando o pensamento único e a repetição de movimentos. Um exemplo grotesco: nada mais se faz em um escorregador do que subir a escada e descer a rampa bundado, repetindo-se ciclicamente. Pouco se estimularia, em ambos casos, a imaginação e a sinestesia da qual a criança poderia provar. A proposta é que as escolas comecem a construir espaços semi-estruturados, com elementos que forneçam possibilidades, cuja brincadeira ou atividade seja norteada pela imaginação da própria criança, evitando que a criança seja condicionada a partir da estrutura em si. Ela mesmo criará suas regras e normas.

Me parece que esse tem sido o movimento na arte contemporânea hoje, ao trazer às exposições e espetáculos com tamanho grau de obscuridade. Espera-se que cada um que se depare com o trabalho tenha significado/experiência distintos, chamando isso de "ampliação da subjetividade do espectador".

O problema é que se esquece da praticidade que se tem em descer um escorregador. Além disso, para a criança, ela nunca está apenas descendo uma rampa, seria menosprezá-la. Rubem Alves disse alguma coisa no sentido de que deveríamos viver nossa vida com o espanto e a curiosidade de uma criança que encontra uma conchinha. O escorregador do clube, para mim, já foi ponte, tunel do tempo e até cachoeira.

Do mesmo modo, não acho que é o caso de culpar apenas o público pelo "baixo grau de instrução", "pouco contato com as artes" ou "falta de sensibilidade". Não, não é culpa do futebol. É simplesmente natural sentirmo-nos afugentados diante do novo, daquilo que nos foge do controle, do comum. Precisa-se sim, do lado do artista, pensar para quem e até quem chegará a arte que está fazendo. É possível uma arte provocativa, que consiga seduzir o público, mas que não caia no mero hermetismo, tampouco seja óbvia e que ainda obtenha a proeza de ser aclamada pela crítica? É. Acreditem, já brinquei em escorregadores que davam várias voltas, de diferentes formatos, velocidades, texturas, até com recursos tecnológicos. E a molecada adorava. Também já tive a oportuidade de conhecer diversos espetáculos, exposições, intervenções dos mais inovadores serem aplaudidos de pé por pessoas das mais tradicionais.

Entretanto, em alguns momentos, o que a suposta inovação tem provocado - tanto para o público da arte contemporênea como para as crianças exiladas de seus parquinhos - é o mesmo que alguns críticos fazem ao utilizarem o termo "hermético", ao invés de "obscuro": nada.

Muitas vezes, uma tela branca é apenas uma tela branca. Ou, como disse algum antropólogo, num contexto bem diferente, uma piscadela é apenas uma piscadela.

(PS: Espero não ter sido (tão) obscuro, quer dizer, hermético. E sim, sou leigo)

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Misturas Relacionadas:

Quão abstrato pode ser um conceito? - Por Fábio Accardo
Viva a Vaia - Por mim mesmo

sábado, 20 de novembro de 2010

Sobre Bolas e Crianças...

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

Acordei sentindo falta. Sentindo falta da dose de coragem que continha o vinho dos poetas românticos de outrora. Do brilho profano dos olhos adolescentes refletidos no espelho de meu quarto. Do espasmo saltado à face das crianças que chutam bola diante da descoberta do movimento (será que se excitam por que sentem que podem controlar a direção da bola ou por não saberem em que local a redonda se aportará?).

O tempo, meticulosamente sádico, acordou preguiçoso, calorento e lento, como que a colocar agulhas em minha incompletude, intensificando a falta que sentia. Demorou a passar as horas. Por vezes, a raiva tomou conta e quase perdi o relógio de pulso ao jogá-lo contra a parede logo após constatar: o ponteiro dos minutos pouco havia girado.

Era o tempo lento ou a angústia apressada?

Coloquei devagar a ponta do pé para sentir a temperatura da água. Estava Quente. Um banho, talvez a solução. A água, feito enxurrada, escorria pelo corpo. Já não sabia se as gotas eram do chuveiro ou de meus olhos, importante era que tinham o mesmo destino: o ralo.

Abri a janela do quarto - as cortinas sufocavam - e libertei o sol pra dentro, junto com uma suave brisa quase divina a refrescar. Não resisti, saí de casa. Sentei no banco da praça da esquina e observei: brincavam com a bola dois garotos provocadoramente ingênuos e risonhos. Será que se excitam porque sentem que podem controlar a direção da bola ou por não saberem em que local a redonda se aportará? À pergunta, antes em parênteses, mas agora trazida à tona pela razão, nenhum autor que havia lido conseguira responder.

As crianças sorriem tão naturalmente quanto o axioma de a bola rolar na descida. Não há como não imitar o sorriso infantil, é quase um bocejo. Abri um sorriso discreto enquanto os meninos corriam ladeira abaixo disputando a pelota. Voltei para casa, escurecia.

Amanhã seria um outro dia, novas bolas atravessariam o caminho à espera do chute. Melhor mesmo fazer como as crianças.

Dormi sentindo falta, mas sorrindo, um sorriso ainda tímido.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Há um Ano...

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Há um ano, não imaginaríamos uma presidente mulher. Tampouco o palhaço Tirirca com mais de um milhão de votos no Estado de São Paulo. Saramago, mestre morto? Nem pensar. Brasil, vexame na Copa do Mundo, quem diria? (O Hugo, mas ele não vale, é um chato pessimista!). Há um ano, nenhum apostador em sã consciência jogaria suas fichas em Obama, estapafurdiamente, como Nobel da Paz (o Fernando, mas ele não vale também, porque explica coisas inexplicáveis) e Mario Vargas Llosa, atrasadamente, como Nobel da Literatura. Há um ano, se falássemos em mineiros saindo do buraco, remeteríamo-nos ao Cruzeiro, Atlético Mineiro, Ipatinga, quem sabe, mas jamais aos bravos chilenos. Há um ano, parecia apenas blá blá blá estudantil dizer que a reitoria da Unicamp, junto a uma associação de moradores, reprimiria manifestações culturais na universidade (pasmem!), e incentivaria a entrada da polícia no campus como algo normal (oras!). Há um ano, dizer que Silvio Santos estava a beira da falência era apenas início de piadas infames (como as que só(!) o Thiago sabe fazer).

Dentre de tantos imprevitos, jamais poderíamos, em 16 de novembro de 2009, saber que estaríamos, exatamente um ano depois, mantendo este Blog. Que teríamos novos layouts. Que seríamos convidados a participar de um livro didático. Que seríamos indicados ao prêmio Top Blog na categoria "Arte e Cultura". Que alguém, além de nós mesmos, investiria seu tempo com nossas postagens. Que faríamos deste um espaço de hobby (ou seria de happening, como só o Caio é mestre?!), de discussão e, acima de tudo, de encontro entre amigos e desconhecidos que, sabe-se lá porque, nos acessam, comentam, mandam sugestões e textos para serem publicados.

Que teríamos 92 postagens, 40 parceiros de botequim, 169 seguidores no twitter, 224 amigos no Facebook, em um total de 10.090 de page views e uma média de 570 acessos únicos por mês.

Tantas surpresas são, na verdade, motivos pelos quais insistimos em dormir tarde para corrigir uma postagem, em dar uma escapadinha no trabalho para atualizar nossas redes sociais, em pensar em novos textos e postagens, em buscar novidades e em abrir espaço para quem se identifica e gosta de jogar conversa fora.

"- Afinal, mas quem são vocês e o que estão fazendo com isso aqui, um blog?" - mais uma vez nos perguntam. "Quais são seus objetivos, finalidades, propostas?"

Pois é, o que fazemos, quem somos e para onde vamos, parafraseando Schopenhauer, é justamente o que nos perguntamos... Tudo bem, tudo bem, talvez muitos já tenham nos visto por aí: cinco amigos que entraram no mesmo ano em Ciências Sociais na Unicamp. É claro, temos muitas afinidades, primeiro, simplesmente, pra topar uma iniciativa coletiva e pública, aberta, que se pode acessar de qualquer lugar no mundo, desde que devidamente equipado. Um exemplo que daria 'pano pra muito post': o título (e, note bem, que incrível, ainda(!) não é "O blog do Fábio", pois ele se apropria de tudo, de tudo!) Mistura Indigesta - Arte e Cultura. Ahn? Então ao juntar Arte e Cultura se faz uma mistura indigesta?? Quem sabe, sim. Só que pra definir o que é Arte e o que é Cultura... aí entraríamos em pequenas discordâncias... na relação entre os mesmos termos e tantos outros, como Política... humpf, haja post... Porém, acreditamos que isso não é nada demais, pelo contrário, é um prazer abrir este verdadeiro mural eletrônico e ler o que nossos amigos próximos, ou mesmo distantes, conhecidos, pouco conhecidos, pessoas de fato desconhecidas, pensam sobre o que dissemos, ou tentamos dizer com um texto, uma postagem. Ora, o blog pode ser visto como uma conversa na qual aqueles que atravessam esse espaço virtual podem mostrar como lêem, o que acham, enfim, expressar-se também. Nos arriscamos, por que não, a dizer que este blog é um espaço público: como uma rua pela qual muitos podem apenas atravessar, passeando, no entanto, podem também parar um tiquinho e trocar figurinhas, conhecer algo novo, e nos mostrar algo novo também.

As mãos que tocam o teclado são as mesmas que abrem portas e atiram pedras...

A todos que, insanamente, nos acompanharam nesse trajeto, nosso muito obrigado!

Equipe Mistura Indigesta!

PS: Desculpem as piadas internas, mas é o risco de se fazer um texto em 10 mãos amigas!

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Para quem tiver interesse:

Se você tem algum projeto, atividade cultural , ou trabalho a ser divulgado, envie as informações e nós divulgaremos em nosso "Divulgando".

Se você possui algum site independente, que possui assuntos compartilhados por este Blog, envie para inserirmos em nosso "Recomendamos".

Se você escreve, fotografa, pinta, canta, ou algo do gênero, envie seu texto ou projeto para publicarmos em nossa "Coluna do Leitor".

sábado, 13 de novembro de 2010

No Escuro

. . Por Caio Moretto, com 3 comentários

Nada de extraordinário para um paulistano em trabalhar no feriado, ainda mais para um publicitário. Não fiquei mais chateado ou mais irritado por não poder viajar e já havia me acostumado com a idéia de que o dia acabaria bem com uma típica lasanha de microondas em meu apartamento não fosse por um arcaico e desagradável imprevisto: estava sem eletricidade.

Acabo de entrar pela porta principal e o interruptor está inútil, mas demoro um pouco para interpretar os sinais contraditórios. Subi de elevador e a luz do corredor funciona perfeitamente. Há algo errado. Tomo um susto com o gato preto do João - filho da mãe! – mas o xingamento é para o dono. Não estamos sem força, fomos cortados. Ele não pagou a conta.

Começo a me incomodar com os olhos amarelos do nosso invisível bicho de estimação e com as coisas que deixarei de fazer. Um momento de racionalidade me faz pensar as opções que tenho: dormir mais cedo ou lutar heroicamente contra a conspiração de meus colegas caloteiros e da Eletropaulo para ferrar o meu feriado. O momento passa. E a luta começa.

Horas e horas perdidas assistindo James Bond e MacGyver, a escuridão não tem a mínima chance. Uma passada no corredor para ativar o sensor de movimento da luz do elevador e consigo encontrar provisões e alimentos. Distraio-me um pouco comendo o pacote de Club Social e ela se apaga novamente, só para me provocar.

É hora de jogar duro. Encarrego o gato de manter a lâmpada acesa, um pouco contra sua vontade e vou buscar uma extensão. Será que tem gente que usa a tomada do corredor para economizar na conta de luz? Pode parecer ridículo, mas foi o que pensei quando constatei que nenhuma funcionava.

O gato não gosta de mim, mas faz um bom vigia de corredor. A luz apaga, ele se levanta, o sensor ativa, ele resolve ficar mais um pouco. Um ótimo método, mas insuficiente para meu novo objetivo. Decidi que para vencer essa batalha é preciso decretar vitória moral ao inimigo. Eu preciso ler um livro.

Encontro três velas de bolo. 1, 2 e 3. Talvez aniversários de algum sobrinho, talvez um colega de 32, que não quer esbanjar com um novo três a cada ano. Quantos anos teria o gato? Esqueço os números e acendo cuidadosamente cada vela, colando-as com sua própria cera no fundo de xícaras de chá. Uma na sala, para quando chegarem os outros moradores e duas para zombar do adversário com uma boa leitura em minha cama.

Dois “parabéns para você”. Acho que este é o tempo médio de uma vela de aniversário. Talvez seja proposital, para a gente usar um novo 3 a cada ano. Foi o suficiente para ler uma única página de Fernando Sabino. Uma que já havia lido, para retomar a história. Mas gol de barriga também dá vitória. E já é tarde demais para um paulistano estar acordado se divertindo. Afinal, amanhã terei que acordar mais cedo para pagar a conta de luz.

P.S.: Nenhum animal foi prejudicado durante a produção deste texto.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O céu não tem região...

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

-Que presepada aquilo lá embaixo, não?

-Aquilo o quê seu Luiz?

-Brasileiro falando de brasileiro, mas como se não fosse brasileiro.

-Qual é seu Luiz?

- Vi na revista hoje, todo mundo culpando o nordeste.

-Culpando do quê, seu Luiz?

-Não sei direito, acho que das coisas tarem como tão. Desse fuá que o mundo tá.

-Mas eles estão certos, seu Luiz.

-Como assim certos?

-Você tem que entender que o Brasil passou por uma “Afrociberdelia” aguda.

-Cuma?

-Bom, deixa eu falar de outro jeito. É o seguinte, como meu amigo Fred disse há algum tempo atrás, precisávamos deslobotomizar e carregar as baterias da cidade nordestinas...Injetar energia na lama, Gonzaga, é disso que estou falando!

-Carregar as baterias da cidade, é?

-Sim, mas isso pensamos em fazer faz é tempo, uns bons vinte anos atrás.

-E fizeram, é?

-Claro, e lá sou eu cabra só de falar, seu Luiz?

-E como fizeram isso?

-Misturando muita coisa, coisas que pareciam distantes uma das outras. Tudo quanto é ritmo e movimento, queria ordenar aquele caos todo e criar um novo caos muito melhor, um caos que funciona, que integra e cria algo novo, algo que vibra, que dá luz! Sair pro mundo seu Luiz!

- Mas revista falou de...

- Sei que você tá desconfiado seu Luiz, mas foi uma pegada louca, não tem nada no mundo que não pode ser juntado, agregado, reaproveitado, nada que não possa ser usado pra fazer um barulho novo! No começo, teve muita gente que torceu o bico, mas até uma revista gringa disse bem de nós! O Nordeste tava mostrando que dava pra regionalizar o universal e devolver o trem refeito pro mundo!

- Calma menino, que você tá fazendo presepada! A revista disse que tem um monte de tabacudo que não é daqui, dizendo que nordestino não gosta de trabalhar, vota nas pessoas erradas, que só tem analfabeto. Tem gente até querendo matar a gente do nordeste. Tirar do país. Todo mundo com ódio de nós.

-Que loucura seu Luiz! Dá gastura só de ouvir. Acho que a molecada não entendeu nada do Brasil. Foi só eu sair do país e o negócio ficou assim é? Sobrou ninguém lá não? Quem que falou essa besteraiada toda? Não era só nos caranguejos que faltavam cérebros?

- Um pessoal, desses fuleiros que ficam atrás do computador, sabe?

- Num era desse caos que eu tava propondo. Eu queria juntar, não separar.

- Eu sei menino, não fique cabreiro. Apesar de falar umas coisas abiloladas, Você parece um menino bom, diferente desses doidos que passeiam as mãos tão ligeiras nas teclas pra escrever tanta besteira, tanto fuzuê. Vale menos que corrida de ganso.

- Hehehehe... Logo você, seu Luiz, reclamando da habilidade com as teclas?

- Mas a tecla que minha mão toca só sai coisa boa, cabra!

-Verdade Seu Luiz... Verdade...

-Como é teu nome mesmo menino? Lembro de você, mas não do teu nome.

- Francisco de Assis, mas já que não sou santo, pode me chamar de Chico. Ou Chico Science, como me chamavam lá embaixo.

- Chico, o quê?

-Science!

-Tá, vou te chamar só de Chico, pode ser?

-Claro que pode. Mas chega de prosa, vamos descer da nuvem, vai ter um show de um camarada lá embaixo, chama Otto, cabra bom de música que só vendo, vamos lá comigo seu Luiz, você vai ver a mistureba gostosa que ele faz!

-Bora lá então. Chega de leriado que você me deixou curioso como esse negócio de Afrociber-seiláoquê. Quando subi pra cá ainda não tinha muito disso não.

-Vamos lá que você vai entender o que digo. Mas vai tocando seu acordeon que é pra embelezar a viagem! Depois acho que podíamos pensar em misturar seu baião com um manguebeat, ia ficar um fuá pra lá de bom!

-Deixa eu tocar meu acordeon mesmo, antes que você fale mais coisa esquisita:


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