VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

domingo, 31 de outubro de 2010

Coluna da Leitora - Metalíngua

. . Por Mistura Indigesta, com 4 comentários

Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.
- Carlos Drummond de Andrade

Todo escritor é intolerante e todo leitor é curioso, mas apesar de estas serem características um tanto quanto distintas, ambos são regidos pelo mesmo motivo. A expressão escrita não permite que o outro incomode suas vírgulas, lacunas e pontos finais, é a expressão dos impacientes, daqueles que não querem ter que discutir muito. Você joga suas idéias, alguém lê e se não concordar, que procure outro texto. Se não lhe entendeu, que interprete, que se vire, que vá as favas. Há certa dose de prepotência na escrita, que reside na possibilidade de sempre dizer que o outro lado que foi incapaz de sentir e por isso o texto não lhe serviu. Escritores nunca se admitem medíocres, é uma raça insuportável apoiada nessa premissa de culpar o outro. Drummond sabia bem disso: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira.

O leitor é parecido, já que não quer lhe olhar nos olhos e perder suas horas entre conversas e vinhos, ele só quer saber o que você pensa, não quer tentar lhe mudar ou lhe convencer. Muito pelo contrário, o leitor quer que alguém fale por ele e vai buscar, de palavra em palavra, algo que possa roubar para sua realidade. Diga-se de passagem, foi isso que fiz ao roubar a frase de Drummond, deixei que ele se expressasse por mim, por julgar que possui mais clareza e elegância.

Existe um sem fim de poesias de Drummond das quais me valho ao tentar entender porque escrevo tanto. Sou compulsiva, posso passar horas e horas ouvindo o barulho do grafite arranhar no papel. Ele me ridicularizaria, já que minha expressão é intencional, meus textos tem uma finalidade estabelecida. Ele estava certíssimo ao dizer que a arte de verdade é aquela que deixa escapar, sem querer, uma ponta de beleza. Eu não, não transbordo essa beleza ao acaso, cada palavra aqui é forçada e sua posição no texto é escolhida depois de uma análise lógica digna de jogadores de xadrez. Não consigo me culpar por isso, sou engenheira e a beleza que enxergo nessa dança de ritmos e cadências vem exclusivamente do ato de vê-las como argumentos estratégicos. O papel não julga seu tom de voz, não percebe seus vícios através da pupila, ele apenas aceita. Qualquer coisa, nunca vai dizer que aquela mão que o rabisca pertence a um péssimo fingidor.

Fernanda Maria Ribeiro Fernandes, é contra indicada. Mentira. O título aham, Cláudia, senta lá é um outro bom exemplo. Impaciência e grosseria podem ser pensados quando se vê a já famosa frase da "Rainha dos Baixinhos" num dia inspirado (sic). Ironia da Fernanda, claro, no Tumblr, uma mistura de blog e microblog, ela faz de uma espécie de diário, um espaço incrível de criação e reflexão sobre os mais variados temas.

O Mistura Indigesta espera contribuições, críticas, comentários, xingamentos, desabafos, choros, e até textos! Escreva-nos: misturaindigesta@gmail.com

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Entre falas, coelhos e lapsos: escrita

. . Por Hugo Ciavatta, com 5 comentários

De ideias de girico, algumas vezes, mas apenas algumas vezes, que fique bem claro, muito raramente, aparecem coisas legais. Não digo isso por pura pretensão generalista, somente porque o sujeito que mediou os diálogos que foram editados em Conversa Sobre O Tempo solta uma pérola na abertura digna de nota. O jornalista Arthur Dapieve compara o encontro de Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura a um reality show: uma ideia de girico. Você já imaginou Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura em alguma coisa que lembre, de relance, de longe, sem óculos e um pouco ébrio, enfim, que lembre alguma coisa parecida com um Big Brother Brasil, ou A Fazenda, pra não dizer A Casa dos Artistas? Não dá. Uma ideia de girico, mas apenas para aqueles precipitados, como eu, que lêem a primeira oração e quase fecham o livro. Porque Dapieve se explica em seguida, dando a peculiaridade do encontro, realizado ao longo de cinco dias. O jornalista, assim, apresenta o resultado das conversas entre os escritores e amigos que o livro nos traz, e que dispensa incentivos a leitura. Dividida em quatro partes, Amizade & Família, Paixões, Política e Morte, esta última talvez reserve os momentos mais impressionantes do livro.
Me chamaram a atenção, contudo, as falas de Ventura e L.F. Verissimo a respeito da relação deles com a escrita.

Ventura: Escrever é realmente pra mim muito mais penoso. Ler é que é bom. Mas, enfim, escrevo por necessidade, escrevo porque é realmente o ganha-pão, minha maneira de viver, de sobreviver. (...)

L.F.Verissimo: Eu não concordo com a ideia de que o escritor tem uma função social. É sempre por prazer, para fazer uma terapia individual, fazer literatura é ter uma história que tem que botar para fora, de alguma forma. Mas acho que é também uma forma de organizar o meu pensamento. Muitas vezes eu descubro o que penso sobre determinado assunto quando começo a escrever sobre aquilo. É a tua reação diante do mundo, diante das coisas. É uma maneira de botar as tuas ideias para fora.

Ventura: Eu acho que, no meu caso, tem também essa pretensão, do papel, da função social. Existe a vontade de escrever para comunicar, para intervir de alguma maneira, mostrar sua opinião ou sua indignação, ou o que seja, em relação a um fato, a um episódio. (...) Isso pra mim é uma motivação, mas a motivação de escrever é muito mais a necessidade. (p.130-131)

Prazer, necessidade, função social, exteriorizar um história, ou um pensamento... Entre as discordâncias de ambos, me veio um conto de Julio Cortázar.

Carta a una Señorita en París está em "La isla al mediodia". O conto inicia-se com o narrador remetendo suas palavras à Andrée, proprietária do apartamento onde o próprio narrador se encontra. Há uma queixa do narrador, na carta, que se refere à dificuldade por entrar em uma "ordem fechada", como ele mesmo anuncia de início, ou: "Me es amargo entrar en un ámbito donde alguien que vive bellamente lo ha dispuesto todo como una reinteración visible de su alma". Ele situa essa dificuldade ao lado dos coelhinhos vomitados por ele, fato que o levou a escrever a mesma carta. Não, não está errado, o narrador vomita coelhos ao longo da carta. Isso, aqueles animaizinhos brancos mesmo, eles vão aparecendo enquanto ele conta os dias vividos no apartamento de Andrée. Cortázar é conhecido por uma escrita demasiado alegórica, com metáforas pouco usuais para falar de uma determinada temática. Difícil é saber, assim, exatamente, o que o escritor argentino diz quando usa o "vomitar coelhos".... "Como siempre me ha sucedido estando a solas, guardaba el hecho igual que se guardan tantas constancias de lo que acaece (o hace uno acaecer) en la privácia total." O narrador do conto relata, ainda, que soube, que sentiu que logo vomitaria um coelhinho ao entrar na casa de Andrée, e foram dez desde então. Todos os coelhos estariam agora dentro do armário dela, dormindo durante a noite. Dessa forma, a empregada, Sara, parecia desconhecer a existência dos coelhos, uma existência apenas noturna: "Su día principia a esa hora que sigue a la cena, cuando Sara se lleva la bandeja con un menudo tintinear de tenacillas de azúcar, me desea buenas noches - sí, me las desea, Andrée, lo más amargo es que me desea las buenas noches - y se encierra en su cuarto y de pronto estoy yo solo, solo con el armario condenado, solo con mi deber y mi tristeza."
Amargura, tristeza, e angústia também, quem sabe, sejam materializados em forma de coelhos na carta, na qual o narrador justifica a escrita em um momento: porque gosta de escrever e pois chove, simplesmente, construindo um cenário de solidão e isolamento.

Com as discordâncias de Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura, o conto de Cortázar talvez nos ajude um pouco, imagino. Mas, antes, é justamente por L.F.Verissimo e Ventura discordarem da relação que eles próprios mantém com a escrita, como escritores, que a produção deles se torna atrativa. Se fossem iguais, seriam chatas, provavelmente. Tal como o são, são belas em suas diferenças.
Já o narrador de Cortázar, quando está estranhando profundamente o apartamento de Andrée, diz que "las costumbres son formas concretas del ritmo, son la cuota del ritmo que nos ayuda a vivir". No caso dele, num "ritmo" de angústia e solidão, aparentemente. Enfim, isso me fez imaginar que a escrita pode ser um "costume", muitas vezes ligado à memória, também, e não necessariamente amargurado:

"Estando mais ou menos na metade da metade da minha vida (1/4), já me dei conta de que me esqueço de várias coisas que vivi. Trechos cotidianos, principalmente, que me deixam surpresa quando os recordo. Se isso já ocorre agora, quando eu estiver em outras décadas talvez irei acreditar que minha vida foi composta só das recordações mais fortes, algo que penso ser muito sacana por parte do meu cérebro. Eu não respirei apenas aquilo que me marcou, existiram zilhões de dias e momentos banais. (...) Se estou condenada a deletá-las da memória só porque é assim que as coisas ficam com o tempo, pra que as vivi então? (…) É por isso que escrevo tanto, pra sempre ter ao meu alcance minha vida inteira." (Lapsos, Fernanda Maria Ribeiro Fernandes)

Quando a escrita aparece entre a memória e os fatos da vida, quase como uma ferramenta de registro, nesse pequeno espaço entre elas parece surgir a criação, a invenção de algo que não é nem o acontecimento em si, nem apenas a lembrança, mas literatura.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Elite Responsável?

. . Por Thiago Aoki, com 11 comentários


"É reconhecidamente um dos pontos de comércio mais elegantes da cidade. A rua, de acordo com a Mystery Shopping International, foi eleita uma das oito ruas mais luxuosas do mundo, e é o mais pujante símbolo dos Jardins, região de São Paulo que concentra grande parte do comércio de rua de luxo do país. Uma ampla reforma foi realizada durante 2006 ao custo de 8,5 milhões de reais, com enterramento de fios e padronização do mobiliário urbano. Cerca de metade do valor das obras é de origem de verbas municipais. No convite acerca da inauguração distribuído à imprensa, lia-se em um trecho: 'Poeira, marteladas e barulho acabaram. No lugar dos operários, homens e mulheres bem vestidos e com a aparência favorecida em todos os aspectos voltam a circular pelas calçadas da rua Oscar Freire'." (trechos retirados do Wikipedia sobre a rua Oscar Freire, São Paulo)

Lá, na rua Oscar Freire, nas paredes de uma loja especializada em óculos de sol, acaba de ser inaugurada uma exposição com fotos clicadas por moradores de rua. Antes, os mesmos passaram por 5 meses de curso em fotografia digital. A ideia é fruto de parceria entre o Instituto Brasis e a loja Op Art, dos quais Marcos Amaro é presidente e dono, respectivamente. A exposição, na sequência, deve passar pela Daslu, loja de artigos de luxo localizada no bairro do Morumbi cercada por imensa favela.

Luz de Velas. Foto de Marli Pereira Dias, moradora de rua.
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Há algum tempo, a mesma Daslu, cuja dona é Eliane Tranchesi, cedeu, polemicamente, espaço para o lançamento do excelente livro do rapper brasileiro MV Bill, intitulado "Falcão, meninos do tráfico", que relata situações de violência vividas por crianças das favelas brasileiras ligadas ao tráfico de drogas. À época, Lúcia Mineiro, socióloga - tinha que ser! - chamada para dar uma palestra durante o evento, causou alvoroço:

- "Estamos aqui na Daslu, no templo do consumismo! Isso aqui também é responsável pela violência."

Imediatamente, a líder comunitária da favela pegou o microfone, defendeu a - segundo ela - "amiga pessoal" e dona da botique, emocionando os clientes presentes.

- "O que essa mulher [Lúcia] falou não tem nada a ver! Misturou consumismo com violência! Estamos aqui num evento tão bonito..."

Por fim, foi a vez da própria Eliane, que nove meses antes havia sido presa por sonegação fiscal, advogar-se a si mesma.

- "Ela tem que entender que o consumo é bom! Nós, empresários, geramos empregos, pagamos impostos, gente!"

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As imagens expostas na Op Art por moradores de rua impressionam pela qualidade das imagens e densidade autobiográfica que contêm em si, escapando de estereótipos ou dramatizações autopiedosas. Assim como o livro de MV Bill, além de muito bem escrito, mostrou um Brasil errante, até então pouco conhecido em tamanha riqueza de detalhes.

O que está em questão, no entanto, não é a qualidade dos trabalhos, mas a estratégia do "choque" provocado ao levar para a elite realidades tão contrastantes através da arte. Há tempos ouvimos sobre a "perversidade de nossa elite". Alguns pensadores reformistas defendem uma modificação cultural e humanista nas classes dominantes como condição para que haja o bem estar social - ou, nas palavras de Marcos "o capital é uma ferramenta quase sempre usada para gerar mais capital. Eu estou tentando entender como usar ele para criar cidadania”. Mas para mim, o argumento de diminuir o hiato entre as classes é inconsistente. Porque simplesmente não há um hiato, hiato algum, entre o consumidor da alta moda e o morador de rua ou traficante da favela. Há, sim, uma relação de interdependêcia e de dominação. Porque, em última instância, a socióloga está certa, todos queremos aquele tênis, aquele vestido, aquele sanduíche - seja qual for a classe. A "arte social", neste caso, posta à contemplação nas paredes ou limpando nome de marcas, não basta. É preciso algo maior que isso e menor que um assalto. Se quer tocar e modificar de verdade a elite, a arte à ela levada deve conter o tom de denúncia, mostrar sua responsabilidade como topo da pirâmide. Talvez a fala da socióloga pode ter sido uma boa tentativa, mas além de constrangimento e subsídio para essa postagem, pouco efeito surtiu. Isso porque dizer aos templos do consumo qual seu papel nesse circo de horrores ultrapassa os limites da vinculação da marca às questões sociais, "pega mal". Aí que está: Por mais que seja tudo bem intencionado, há um hiato, aí sim, entre o que transforma de verdade uma atitude e o que apenas serve como desencargo de consciência ou valorização da marca.

Esse é o ponto de meu ceticismo.

Espero estar errado.

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Filme: "Um sonho possível"

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Forasteiros

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários


Iñarritú, Bardem, Biutiful


Entre os destaques do lançamento do Festival de Cannes deste ano, estava o longa "Biutiful", do diretor Alejandro Gonzalez Iñarritú. Foi o primeiro filme que Iñarritu dirigiu depois de sua ótima parceria com o escritor Guillermo Arriaga que levou à trilogia "Amores Brutos", "21 Gramas" e "Babel". "Biutiful", título que remete à palavra inglesa beautiful, emocionou boa parte dos cinéfilos ao falar sobre uma Barcelona pobre e cerceada pela exploração à imigrantes.

Javier Bardem, muito elogiado pela crítica, faz o protagonista Uxbal, que jamais conheceu o pai, tem uma esposa problemática e cuida sozinho dos filhos. Para isso, "agencia" imigrantes ilegais - africanos e chineses.

Claro que, como a maioria dos brasileiros, ainda não tive a oportunidade de assistir ao longa, mas gostei de uma entrevista que li com o ator principal. Em uma das falas, o entrevistador pergunta algo como se não era estranho o artista ter participado como protagonista de dois filmes que mostram Barcelonas tão diferentes, referindo-se à pobreza de "Biutiful" e o glamour de "Vicky, Cristina e Barcelona", dirigido por Woody Allen. A ótima resposta do ator é a seguinte: "A Barcelona de Alejandro é a da corrupção e da exploração de imigrantes ilegais, sem a qual a Barcelona de Woody Allen não existiria. As duas realidades são interdependentes, dois lados de uma mesma moeda." Infelizmente o repórter, ou a edição da reportagem, mudou de assunto.

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Banksy e os Simpsons

No último domingo, foi ao ar, nos EUA, uma polêmica abertura dos Simpsons, dirigida e produzida pelo polêmico grafiteiro Banksy, a pedido dos prdutores da série. O casamento dessa espécie rara de anti-herói marginal com a Fox, gigante da produção cinematográfica, só poderia mesmo ser, no mínimo, problemática. A animação é desde o início interessante com alguns toques notáveis do artista, e radicaliza-se no final, quando a câmera se afasta da fotografia tradicional da família sentada ao sofá, que encerraria a abertura. Uma nova fúnebre trilha sonora se inicia e a imagem escurece. Chega-se a um lugar insalubre, com diversos trabalhadores semelhantes, imigrantes ilegais caracturais e tristonhos, em uma linha de montagem para a confecção de produtos da minissérie. Além disso, evidencia a matança e maus tratos de animais que, tristes, cedem à lógica do lugar feito escravos. Após a forte e torturante cena, a câmera afasta-se mais um pouco e percebe-se que aquilo tudo está ocorrendo dentro do alicerce do emblema da Fox, que por sua vez está dentro de uma televisão - no caso, da televisão de quem está assistindo ao programa. Dá a entender, assim, que o espectador, acostumado a rir com as peripécias de Hommer e companhia, assite também a uma empresa cujo interior é composto pelo submundo da exploração do trabalho imigrante e de mazelas sociais. Diz-se por aí que as notícias sobre terceirização de trabalhadores coreanos por parte da megaempresa teriam "inspirado" o artista.

Eu não esperava menos de Banksy e de sua arte diversas vezes posta à prova pela Indústria Cultural. Por outro lado, devo reconhecer que fui supreendido pela exibição sem cortes do polêmico trecho. Seria mesmo contraditório a série que tem como cerne o exagero dos costumes e problemas americanos censurar uma brincadeira consigo própria. Ainda que toda brincadeira tenha um fundinho de...Bom, vocês sabem...



(Fiquei imaginando a abertura de uma novela ou "reality show" brasileiro qualquer. A câmera se afastando da imensidão tecnológica dos estúdios e chegando às vilas existentes na periferia de SP, com trabalhadores coreanos, bolivianos e peruanos - superexplorados pela indústria têxtil. No escuro da fábrica, a confecção em massa de vestidos e figurinos para a emissora. Claro que nunca houve essa ligação, é só realismo fantástico de minha parte...)

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Tendo como ponto principal a questão da exploração de imigrantes, ferida aberta em boa parte dos países de "primeiro mundo", os casos de "Biutiful" e da abertura dos Simpsons demostram que é possível uma arte relativamente autônoma e contestadora desenvolver-se no seio da Indústria Cultural. Superando possíveis embates institucionais, tanto Biutiful fora ovacionado em Cannes, e deve concorrer a algumas estatuetas do Oscar, como a abertura dos Simpsons fora transmitida integralmente e é hoje um dos vídeos mais assistidos na web. Se é a fórmula mais eficiente e conceitualmente válida não sei, mas é uma boa maneira de equilibrar visibilidade, recursos e inovação - equação tão cara aos artistas de hoje. Não é preciso ser da periferia para ser marginal. Agindo nas brechas da corrente que tudo engloba, é possível fazer arte sem ser óbvio, simplista ou passivo.

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Misturas Relacionadas:
Nous Sommes Tous Des Immigrés - Por Caio Moretto
Quem é Banksy? - Por mim mesmo

domingo, 10 de outubro de 2010

Minha Casa, Sem Endereço

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

"Veja o mundo passar
Como passa
Uma escola de samba
Que atravessa
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Sentado na porta
De minha casa
A mesma e única casa
A casa onde eu sempre morei..."

(Zeca Baleiro - Minha Casa)

Ouvia o trecho desta canção acima com estranheza, imaginando ser muito acomodada a posição do eu-lírico. Oras, que diabos é um sujeito pra dar uma sugestão como essa, uma espécie de Deus sentado numa nuvenzinha celestial?!

Depois de conhecer o trabalho do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, no Tatuapé, em São Paulo, outra perspectiva ganhou o mesmo trecho. No início daquele dia, quando conheci algumas unidades e projetos do Centro Social, passava por mim aquele filme de Sérgio Bianchi, Quanto Vale ou é Por Quilo?. No filme, o diretor explora a relação do discurso da responsabilidade social e da solidariedade que encabeça muitas atividades do terceiro setor, iniciativas atreladas à lógica do lucro, como se fossem empresas de marketing da miséria. Mas o Centro Social me pareceu muito distante do universo retratado pelo filme. De trabalhos com crinças com HIV, sem família, à atividades de reinserção social de população de rua, nenhuma delas se aproximava do objeto da desmedida crítica de Bianchi.

O trabalho que mais me chamou a atenção no Centro Social foi o 'Agente nas Ruas', em que hoje ex-moradores de rua ajudam pessoas em situações de rua. Um agente nos contava a dificuldade das pessoas de reconhecerem a própria situação delas, de procurarem ajuda nos postos de saúde, por exemplo, diante de qualquer problema cotidiano. Muitos não têm documentos de identidade, e não conseguem assumir, também, que não têm residência. Fomos conhecer uma região onde vivem muitas pessoas, abaixo de um viaduto movimentado e ao lado de linhas de metrô.

E então o trecho de Zeca Baleiro me pareceu assustador. Saímos da calçada da avenida abaixo da ponte e caminhamos, subimos e subimos até bem próximo do concreto do viaduto. Por fim, avistamos um porção de madeiras e lajes dispostas verticalmente, ao redor de onde começava um trecho da ponte. O agente se aproximou e bateu nas portas, pediu licença para entrarmos e, assim, passamos adentro.

Um rapaz, muito contente com a presença de três estudantes, nos apresentou cada um dos cômodos da residência. Ao entrar, passamos por uma varanda onde brincavam algumas crianças, em seguida, estava a sala com três sofás dispostos circularmente, uma mesa no centro e uma televisão na lateral de um dos assentos. Logo depois, bem atrás, reconhecia-se a cozinha com a mesa maior no centro, um vaso de flores e as cadeiras ao redor. Guiados pelo rapaz que nos recebeu, passamos aos quartos: duas caçambas, e algumas barracas de lençóis. Pareciam viver ali, mais ou menos, cinco famílias. Não havia paredes, claro, mas as marcas de cada espaço eram evidentes. O teto era a ponte, o som ambiente vinha do trânsito, da chuva e do metrô, e o cheiro de álcool perpassava os cantos, também.

Momento cômico: quem nunca brincou de Tartarugas Ninja? Santa Tartaruga! (risos) O espaço de higiene, como o truta nos dizia antes de nos levar até a boca de acesso à rede de água, que passava no alto e ao fundo, já fora da proteção da ponte, não parecia esgoto, tampouco a rede de abastecimento propriamente. Pelo que ele dizia, enquanto baratas e animaizinhos diferentes corriam de um lado ao outro, ali corria a água de alguns condomínios da região, com um desvio feito por eles, que usavam aquela água para o banho, mas brincavam ser o espaço das "Tartarugas Ninja". Constrangedor.

Se fosse (d)escrever o dia, os espaços visitados, as conversas, enfim, leitor preguiçoso, você teria um filho colorido. Conto ao meu terapeuta pequeno burguês, como eu, depois, e te poupo de arrastar a barra lateral.

Porém, pensei naquele rapaz pedindo pra que eu cantasse o trecho inicial, aqui, da canção de Zeca Baleiro. Os meus tamboris certamente eu não encontro. E, talvez, pudéssemos pensar então em "casa" como uma grande metáfora, para sair da imeeensa desigualdade social que nos acompanha, porque aí a discussão se alongaria muito.

Criar a própria casa independente de paredes e localização espacial pode ajudar quando tratores e ladrões, dos mais variados tipos, te levam o abrigo e a paz.



domingo, 3 de outubro de 2010

Eu confesso...

. . Por Thiago Aoki, com 5 comentários

Esses dias, sem querer querendo, caiu no meu colo uma linda crônica de Tostão - fantástico futebolista e futebólogo. Dizia ele que é mentira a máxima segundo a qual a bola procura o craque. Pelo contrário, é ele que busca e encontra o lugar certo, na hora certa. "O grande craque, além da técnica e da habilidade, antevê o lance, inventa, improvisa e surpreende. Ele sabe antes dos outros. Como ele sabe? Sabendo. Existe um saber intuitivo que antecede o raciocínio lógico. Ele sabe, mas não sabe que sabe." ("O Corpo, a Alma e o Futebol" - Folha de São Paulo, 12/02/2006)

Para escrever essas linhas, Tostão deve ter pensado nos grandes mestres da bola, como Pelé, Cruyff, Romário. Ao lê-las, no entanto, me vêm à cabeça Drummond, Van Gogh, Cartier-Bresson. Que diabos havia na na cabeça do poeta mineiro no momento em que escrevia seus poemas? Ele aliás, tem uma célebre frase sobre Pelé: "O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé". O mesmo poderíamos dizer sobre sua poesia tão inovadora, e tão já sabidamente eterna. E Van Gogh, com sua pincelada única, que força estranha possuía suas mãos guiando seu pincel de modo que nenhum outro pudesse imitá-lo? Deve ser algo semelhante ao clique da câmera fotográfica de Cartier-Bresson, cujo instante, estático na foto, movimenta-se em nossos devaneios após contemplá-la.

Todos sabiam os conhecimentos específicos de sua área de atuação: literatura, pintura, fotografia. Mas não podemos considerar apenas uma técnica apurada. Algo ali os distinguiam da média. Algo não concreto, não didático, intuitivo, impossível de se quantificar ou coisificar, que nos permite e obriga a ficarmos encantados. Um saber para além da lógica, beirando o metafísico. Nosso próprio encantamento não depende do conhecimento estrito e racional. Não é preciso conhecer o movimento na harmonia musical ou a tonalidade em que se dá a progressão das notas para se encantar com "Jesus, alegria dos homens", obra imortal de Bach ou com o violão de Baden Powell. Acho que é isso: as obras desses artistas estão tão carregadas de inspiração e intuição, esse sexto sentido que Tostão descreveu, que não há como não nos entregarmos a elas.

E o que faz de uma obra medíocre seria o contrário. Podemos acertar o emprego de todas as crases e pontuação de um texto, mas odiarmos seu conteúdo ou forma. O texto de jornal, aquele que relata friamente uma notícia, diferencia-se de uma grande obra literária porque, por mais correto ortograficamente, não contem a subjetividade que a inspiração de seu autor poderia adicionar ao nosso cotidiano. Claro que cada um inspira-se de um modo e talvez seja apenas uma ideia minha pensar que Chico Buarque é melhor que Felipe Dylon. Como também há, quem sabe, quem prefira Felipe Melo ao Garrincha. Gosto é gosto e vice-versa.

Mas o que fazemos quando, apaixonados e esperando por Garrinchas, encontramos apenas Felipes Melos? Se ao nosso redor não encontramos praticamente nenhum resquício de nossas referências, de nossas inspirações, outrora completas? Se nada fosse suficiente para preencher qualquer tipo de esperança?

Chame do que quiser: vazio da modernidade, mal estar da pós-modernidade, fim das utopias. Mas eu simplesmente não aceito o menos pior, o básico. Aquele que, com muita sorte, tem apenas o conhecimento técnico da coisa. Que longe de inventar ou surpreender, padroniza, torna estático o que seria sublime. Aquele que é pragmático, utilitário e funcional - apenas.

Prefiro simplesmente me abster, esperar, enquanto busco noutros cantos outros encantos. Não quero levar comigo o desalento forçoso de achar magia onde não há. Como pode ser tão grande a distância entre o cheiro fétido que inalamos e o perfume suave e sedutor que deveríamos sentir? Nego-me a contentar com tão pouco, com o que não inspira... Nego-me a alimentar com comida podre para saciar a gula..

Nego-me a escolher entre o sórdido e o inconcebível.


Qual a confissão? Anularei meu voto no segundo turno das eleições de 2010 para presidência do Brasil. Por enquanto...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um Marcador, Um Jornal, Uma Poesia

. . Por Fernando Mekaru, com 8 comentários

Austin Kleon é mais um dos milhares de escritores que a internet nos coloca em contato ocasionalmente: utilizando-se da rede para disseminar seus trabalhos, procura atingir o maior público possível para que suas mensagens não sejam só mais um artístico (e inócuo) grito para um público inexistente.

O diferencial maior de Kleon, aquilo que o torna distinto de todos os outros, não é a qualidade de sua literatura, os temas que aborda ou as polêmicas que levanta: o autor americano é interessante por subverter o processo tradicional de criação de texto, ao executá-lo somente com recortes de jornal, uma caneta marca-texto preta e a paciência para caçar palavras de tal maneira que, juntas, as palavras escolhidas façam aparecer um sentido que, anteriormente, não estava lá. O contraste entre preto e branco que se gera durante este trabalho causa um pouco de arte plástica incidental, que o autor se aproveita de maneira criativa em alguns de seus trabalhos.



O problema de Cinderela foi sentar e esperar pela fada madrinha


A princípio, esse processo quase infantil de geração de textos soa como picaretagem e mediocridade extremamente concentrados: aqui, é difícil falar em autoralidade da obra de arte para além da escolha e ordenamento das palavras, e o esforço envolvido para a criação de um texto literário é ínfimo se comparado a processos mais tradicionais de escrita. Numa primeira avaliação, é mais uma experiência artística com tudo para ser considerada pura forma, desprovida de conteúdo.

A verificação dos trabalhos, porém, acaba por quebrar essas expectativas iniciais.

Os trabalhos de Kleon são pequenas peças de literatura, que normalmente não passam de duas sentenças, mas que possuem carga emocional e significado o suficiente para que a apreciação de recortes de jornal pintados arbitrariamente de preto não seja considerada uma atividade reservada a loucos ou desocupados. O trabalho do artista, nesse caso, se dá na extração de sentidos e narrativas de um enorme banco de palavras aleatórias de tal maneira que seus significados se tornem maiores do que a mera soma das palavras escolhidas - é, em resumo, um processo de síntese que não se difere muito da produção tradicional de textos.

Em poucas palavras, seu trabalho possui as características necessárias para serem encaixados, de uma maneira ou de outra, no universo de difícil definição que se tornou a arte atualmente.



Enquanto houver uma estrada aberta, o familiar terá competidores formidáveis.


Verifique muitos outros trabalhos do autor no blog do mesmo.

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