VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ao Meu Melhor Amigo

. . Por Hugo Ciavatta, com 5 comentários

Meu caro,

Quanto tempo já levamos em companhia um do outro, não? Outro dia me perguntava quando foi exatamente que nos conhecemos, quando fomos apresentados, ou melhor, que me apresentaram a você, né?! ... Talvez tenha sido na faculdade, ou será que foi antes? ... Ah, deve ter sido naqueles tempos ...

Sei lá se é porque fazia tempo que eu não via a primavera, que chegou nesta semana, e como é bonito esse período, mas andei alegrinho demais ultimamente, cheio de pieguices, agradecendo a sorte de ter os amigos que tenho. E, pior, dizendo isso pra eles. E agora, aqui, de novo. Fiquei num balanço dos meus queridos e queridas. E olha que “balanço” é uma coisa que geralmente se faz em final, ou em começo de ano, né? Pois é, resolvi que precisava fazer isso agora, que precisava, mais ou menos, terminar um ano, ou começar outro no meio do caminho, sabe? Parece frescura, e talvez seja mesmo, não nego, meu querido, só acho que é mais um envelhecimento. Me senti mais velho dia desses. E nem é um velho rabugento, ou tão ranzinza assim ... um pouquinho, sim, claro (risos), mas digo isso num sentido de amadurecimento. Lembra que sou um ladrãozinho, né, querido? Então, roubei a fala de uma amiga que me questionou enquanto eu ranhetava contra o termo amadurecer, quando se diz que fulano é uma pessoa “madura”. Me parecia, antes, que se repetíssemos “madura” muitas, rápidas e repetidas vezes, “madura-madura-madura-madura-madura”, no fim, o som produzido seria semelhante a “armadura”. Por isso rejeitava o termo. Minha amiga me desconsertou, como se fosse a “golpes de pincel” – não disse que ando piegas, olha um ataque? –, porque pra ela “amadurecer” é como uma fruta, que quando madura está vermelhinha, docinha, macia. E, ó, nem vem, não estou dizendo que estou que nem “uma frutinha docinha”, hein, rapaz! Olha o respeito, pó parar! O lance é que parece que eu poderia vir aqui pra você e desabafar um monte, angústias que todos temos, imagino. Porém, tenho me sentido pequenino, rindo, e ao mesmo tempo sereno, não querendo me desesperar. Esquizofrenia? Hum, atravesso a rua quando cruzo um consultório (risos).

Às vezes, sinto que algumas coisas perdem a precisão temporal, os dias marcantes. É como se não houvesse mais um momento a partir do qual se estabelecesse um antes e um depois bem específicos. Vivendo inercialmente nos esquecemos dessas coisas. Se bem que, não vejo isso como de todo negativo. "Inércia" não é uma boa palavra pra isso, porque enquanto vivemos, simplesmente vivemos, podemos fazer de todos esses pequenos momentos, desse grande intervalo que é a vida, a beleza da coisa. E não das extremidades, de um início ao presente. Evitamos, desse modo, um exercício de lembranças apenas, seguidos de um prolongado tempo de ausência ... Vamos costurando o bagulho todo nas entrelinhas ... Às vezes, sinto que prefiro pensar assim ... (Confusa essa última frase, não?) ... Mesmo porque, também, de alguns amigos a gente acaba se afastando, não por descaso ou qualquer mal entendido, são acasos somente ... E quando a gente reencontra estes, ah, nossa, nem parece que nos afastamos, é tão estranho de bonito, parece que estivemos próximos de alguma forma, ainda que de fato estivéssemos sem nos falar há muito, não? ... Coisas engraçadas ...

Bem, entre a gente, meu caro, as coisas não foram bem assim, pelo menos não têm sido, né? A gente sempre está se falando, sempre em contato, trocando idéias, se ajudando, se divertinho, próximos mesmo, companheiros de fato. Sempre que eu te procuro, você está aqui do lado, ao alcance, te jogo algumas palavras e você me dá outras tantas, textos, a prosa é sempre um grande prazer. Quantas vezes não sabia nem o queria dizer direito, titubeando, e você estava ali me ajudando a tentar dizer melhor, desvendando o que eu queria dizer. O quanto me ensinou, porque amizade é mesmo um grande aprendizado, nem consigo imaginar. Você me dá acesso a outro mundo, praticamente, através de você descobri coisas incríveis, saio da minha realidade ... E só vejo você crescendo nesse tempo todo. Que massa. Nem consigo falar muito sobre essas coisas, você também é todo especial, cheio de mistérios, ao mesmo tempo que muito claro, sei lá, não sei (te) explicar. É assim, cara. Simplesmente.

Mas era isso, só queria te agradecer.
Muito obrigado,
Google!

Um abraço,
1° Quase irônico, 2° e 3° Eu mesmo, 4° Já sem propósito
(Ordem dos Parágrafos)
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Quando assisti ao Mary And Max, fiquei muitíssimo assustado, acho que deveria ser classificado como uma "animação-terror". E quero, com isso, elogiar um belíssimo filme, que além de muito bem feito, traz uma história impressionante!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ordem e Regresso.

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Começou nesta terça-feira (21/o9) a aguardada Bienal Internacional de Arte de São Paulo 2010. Com o orçamento muito maior do que o de 2008, a ideia é que o "vazio" da edição anterior seja preenchido. Para isso, uma variedade de estilos e performances que abordarão a conturbada relação entre Arte e Política. Ironicamente, o episódio que agita as preliminares do início das exposições parece justamente exemplificar os emaranhados que envolvem o fazer arte/política em nosso país. O fato é que a OAB-SP ameaça lançar veto ao trabalho do artista plástico pernambucano Gil Vicente, que fez um autorretrato (abaixo) pra lá de provocativo, no qual o próprio artista está em posição de assassinar os dois últimos presidentes da república: FHC e Lula. Segundo a entidade, a imagem faz "apologia à violência".


Segundo o autor da polêmica, a ideia era "descarregar o inconsciente" e afirma ainda que sua lista possui outros nomes como o papa Bento 16, George W. Bush, a rainha Elizabeth e Ahmadinejad, presidente iraniano. Todos personagens que representam intimamente o poder. A organização da Bienal, acertadamente, fez questão de manter a exposição em lugar de destaque e espera que a OAB recue a violação contra a autonomia do artista.

O caso e o trabalho do artista nordestino me remeteu à fotógrafa inglesa Alison Jackson, autora do livro de fotografias "Confidential" (imagens abaixo, clique para ampliar). Seu trabalho, muito interessante, consiste em fotografias com contornos de voyeurismo, na qual personalidades famosas são retratadas, como se fossem "flagras" dos paparazzos. Obviamente que os modelos fotográficos são apenas sósias muito bem maquiados, porém a brincadeira com o escândalo e com a sociedade do espetáculo, na qual as celebridades, ou melhor, suas imagens detêm poder desproporcional, é divertidíssimo.



A sensação que temos ao observar essas fotos, é um choque de realidade. Como se a relação tão íntima e distante que temos com a imagem de cada celebridade ruísse e, agora, temos não mais um ícone idealizado, mas um imoral qualquer, de carne e osso, que participa de orgias, faz cocôs, maltrata crianças. Como se a imagem fosse um valor de troca, um componente do status quo.



Seja pela inglesa ou pelo pernambucano, ambos, de certo modo, vingando-se dos centros de status e poder, fica claro que, para a arte que contesta ou subverte a normalidade, independente do mérito de sua ação, é necessária relativa liberdade. Deve ser permitido que no imaginário, nosso e do artista, matemos presidentes, estraguemos celebridades ou pintemos paredes antes limpas. Como cada um recebe as balas - ora subjetivas, ora cruas - disparadas pela arte é outra história.

Independente de ser descrente ou entusiasta da arte de Gil Vicente como ação política (se é que há uma ação política), espero que o artista pernambucano vença a queda de braço institucional e, assim como Alison Jackson, possa expressar suas angústias com o exagero que lhe parecer necessário. Do contrário, caminharemos no sentido oposto, no caminho da arte adestrada, da arte boa-conduta, e, pior, da obviedade.

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Posts anteriores sobre a Bienal 2010:
Um Spray na mão e uma Bienal na cabeça.
Bienal 2010 - Política, Rua e Rebolation

domingo, 19 de setembro de 2010

Divulgando - Pensando/Fazendo Junto

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

(Clique no E-Flyer para ampliá-lo)

Peço licença para uma divulgação que é quase um jabá pelo fato de eu estar nos bastidores. Mas, se um dos objetivos de nosso blog é tirar as artes e as humanidades de seus respectivos quadrados e misturá-las indigestamente, não poderia deixar de propagandear o evento que ocorrerá no SESC Campinas a partir de terça-feira (21/09).

O subtítulo - "A contemporaneidade dos povos tradicionais" - é quase um paradoxo, mas prefiro dizer que é uma equação de difícil resolução. Pensar que povos tradicionais possuem sua contemporaneidade e que podem apropriar-se de novas tecnologias sem perder sua especificidade e identidade pode parecer heresia. Mas essa heresia logo vai abaixo quando tentamos observar a questão de modo mais horizontal. Ou seja, não como o encontro do índio coitado com a nova tecnologia avassaladora, mas como o encontro entre tecnologias igualmente relevantes. Claro que a possibilidade de um encontro totalmente horizontal é uma utopia, porém, buscá-la deve ser o norte de qualquer discussão que aborde o contato, a diversidade, tão falada diversidade. Por isso, teremos o formato de uma roda, no Espaço Arena do SESC Campinas, durante os bate-papos, com microfone aberto aos espectadores.

Tudo bem, mesmo que você seja cético quanto ao formato, a atividade será envolvente tanto para os amantes das humanidades como da sétima arte, o cinema. Isso porque a programação contará com exibição de filmes do Cinema Xavante (22/09), colocando na tela seu grande expoente, o premiado cineasta Caimi Waiassé. Também será exibido Panchamana (23/09) de Eryk Rocha, isso mesmo, filho de Glauber (impossível não citá-lo, desculpe). O longa aborda a civilização inca na Amazônia peruana.

Ocorrerá também bate-papo com ambos diretores, discutindo "Imagens e Sentido" (24/09) e, para quem se interessar, uma Vivência de Vídeo (25/09) com Caimi Waiassé, no sábado.

Dizer que outros grandes nomes como Stella Senra, Augusto Postigo, Marina Herrero e Laymert Garcia estarão presentes, também conta. Mas prefiro a divulgação a partir do título do encontro. É preciso mais gente para pensar e, para além, fazer.

Junto.

Vale lembrar: é tudo grátis.

Links com informações sobre o evento:
CTeMe
Facebook
Sesc

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Sessão Divulgando - Se você quer divulgar algum projeto ou evento, basta enviar um e-mail com maior número de informações possíveis para misturaindigesta@gmail.com

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Dançando com a Linguagem

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

Existe um pacto implícito aqui: escrevemos e nos lemos para, quem sabe, conversarmos. Contudo, nada garante que o que dizemos é compreendido por nossos interlocutores da mesma forma com que o enunciado foi pensado.

"Ao falar, imaginamos sempre que nos escutam com nossos ouvidos, com a nossa alma (...). A verdade que depositamos nas palavras não abre caminho diretamente, não tem irresistível evidência. Cumpre que decorra o tempo necessário para que se possa formar no interlocutor uma verdade da mesma espécie. E então o adversário político, que, apesar de raciocínios e provas, considerava traidor ao sectário da doutrina oposta, chega a compartilhar das detestadas convicções quando já não interessam aquele que antes tentava inutilmente difundi-las. E assim, a obra que para os admiradores que as liam em voz alta mostrava claramente as suas excelências, ao passo que só chegava aos que ouviam uma imagem de mediocridade ou insensatez, será por estes proclamada obra-prima demasiado tarde para que o autor o possa saber". (Marcel Proust, À sombra das raparigas em flor)

A primeira vez que li o trecho acima, achei um pouco pretensioso, meio arrogante. No entanto, esse dilema acompanha toda expressão da linguagem, imagino. E a linguagem está pra tudo que é canto, por exemplo, numa apresentação de dança.

Sentei pra assistir a outro espetáculo já pensando que seria infrutífero, pois não iria entender nada. O palco era simples, lençóis negros faziam o fundo e as laterais, enquanto a única dançarina, Elisa Massariolli da Costa, se ocupava do terreno praticamente vazio. Apenas uma pequena esteira de palha e um cesto ao fundo a acompanhavam. O início de "Nascedouro" trouxe a trilha sonora com cantos de aves e pássaros e, ao lado da caracterização do corpo da dançarina, como espectadores, sabíamos ser a encenação de uma indígena em meio à floresta. Cada movimento do corpo, cada passo, cada giro, cada corrida, os cantos e gritos, tudo comunicava o enredo do espetáculo: uma tensão permanente entre o sujeito e a mata, o indivíduo e seus pares. Tensão essa, ainda, expressa pelo desejo de proteção de uma mãe em relação ao seu filho. Porém, mais que apenas isso, era possível ler também os momentos de encontro com a natureza, comunicando afinidades entre a mulher, personagem, e a floresta, da mesma forma com os animais que surgiam na trilha sonora, ou ainda na encenação de uma dança-ritual na aldeia. Tudo isso ali, enunciado pelo corpo, pelo correr, pelos passos, pela voz, em quase ruídos, pelo olhar, pelo riso.

Que dançar é uma arte ninguém discute, imagino, só que nem sempre com o corpo.

Em A Casa Verde, Mário Vargas Llosa construiu uma narrativa que, pra mim, somente no meio começou a fazer sentido, afinal, o início é muito confuso, o que é bastante comum em muitos romances, também. Só depois de avançada a leitura me dei conta de que, se não todas, pelo menos algumas das histórias se cruzavam. A maneira com que Llosa escreve é bem dirente também, às vezes, no meio de um parágrafo, acontece um diálogo e o narrador em terceira pessoa vira personagem depois de uma vírgula, e logo volta a ser narrador após outra. Demorei pra pegar o ritmo da escrita dele, que acaba por produzir uma leitura especial, pra conseguir acompanhar o texto.

Lembro que alguns dizem não conseguir, não adianta, por mais que tentem, ler Guimarães Rosa, que preferem que as coisas sejam rápidas, fluídas, claras e objetivas, querem que a escrita não "tropece". Enfim, acho que não sou suspeito pra falar só porque é o autor de que mais gosto, mas, quando se começa a ler Guimarães Rosa, é muito díficil memso, confuso, fechado, perdido, obscuro, misterioso. Daí paciência é importante, e às vezes falta a todo mundo. Grande Sertão: Veredas já tinha deixado no meio e voltei depois de quase dois anos. Quem sabe porque era muito longo e eu estava com preguiça?! Não! Mas quando voltei a ler, depois de uns baita tropeços, tive que ouvir primeiro antes de ler. Foi isso, Guimarães, magicamente, escreve como se acompanhasse um ritmo todo particular. Assim, parece fundamental sentir a musicalidade do texto, os solavancos, as acelerações, a empolgação, todos os sentimentos possíveis que o autor, narrador e personagem dão à história, compondo a escrita e a nossa leitura.

Talvez ler seja como dançar, mesmo que eu não saiba dançar, apenas imagino que sim. Não é porque se pode preferir rock, sertanejo, música clássica, pagode, forró, valsa, samba, axé, funk - bom, já deu pra entender, né?! -, ou o que houver de "estilo" - "jeitão", se preferir -, que não se pode tentar ensaiar, brincar pelo menos num estilo diferente... Sei lá, aprender a dançar é importante quando a gente lê, porque a escrita de cada autor, possivelmente, deve ter um ritmo próprio.


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Coluna do Leitor - Três

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Seguia assim, caminhando pela rua que costumeiramente atravessava quase todos os dias e olhava, como sempre, para as árvores que pouco mudaram nesses anos todos morando naquele distrito. Estava um pouco mais preocupado que o de costume, afinal, mesmo sendo fim de tarde e não tendo aula nem trabalho no dia seguinte, em breve ela partiria e isso lhe trazia grande insegurança. Partidas sempre foram um problema pra ela, sobretudo pra ela.
De longe, quatro quadras de distância, avistou alguém que corria. Não tinha o hábito de encarar ou nem mesmo reparar com ligeireza aqueles que cruzavam seu caminho. Era tímido, algo que por vezes era confundido com esnobismo ou falta de consideração. Mas aquele que vinha correndo em sua direção poderia ser algum amigo, que agora cruzava a rua da terceira quadra. Caminhou com os olhos pelo horizonte. É, parecia mesmo alguém conhecido. Desviou o olhar. Mas será? Quem seria? Não tem muitos amigos que reservam um fim de tarde pra correr por aí. Bem poderia ser alguém que resolveu cuidar da saúde de sopetão, assim, sem avisar ninguém. Mas não, era fim de semestre, nunca uma boa época pra começar exercícios físicos, dietas ou qualquer coisa que exija um mínimo de tempo sem pausas ou férias. Agora o rapaz já chegava na metade da quadra da frente. Encarou rápido para ver se reconhecia. O coração então disparou. Alguém conhecido. Não necessariamente próximo, mas o bastante para saber o nome, o que fazia, um pouco do que gostava e com quem havia estado. Nessa altura já podia ouvir, na sua cabeça, a cadência dos passos.
Virou o rosto para a mata.
Engraçado como nessa época do ano, mesmo fazendo frio, as árvores não perdem as folhas. Reparou no alto que os fios se mesclavam com a copa das árvores, numa desordem que outrora tentaram conter. Viu um casal de pombos se acasalando. A pomba se mantinha no fio, enquanto o macho realizava rodeios para tentar subir no dorso da fêmea. Tarefa difícil. Com algum esforço, após floreios e arrulhos precisos, conseguiu o que queria. Se concentrava agora para ouvir o barulho do riacho que seguia o contorno da rua. O cheiro não era nada agradável, mistura de esgoto com lixo apodrecido. Porque não limpavam aquilo? Ouviu latidos de cachorros. Eram três. Um deles vasculhava, sobre duas patas, o lixo de uma das casas da rua. Parecia ter encontrado algo de bom. Começaram a brigar. Latidos fortes se alternavam. Um deles parece haver se machucado. Saiu arrastando a pata. Os dois outros seguiram pela direção contrária. Parecia ter passado.
“Rafael? Rafael.” Sim, era ele.

Rodrigo Charafeddine Bulamah é um irresistível (ui!) Indigesto. Parafraseando Euclides da Cunha, e esquecendo a módestia, é possível dizer que ele é um sobrevivente: se não é um forte sertanejo, pelo menos passou por corações partidos, crises financeiras internacionais e um terremoto, todos vistos como sinônimos em ordem de intensidade.

O Mistura Indigesta espera contribuições, críticas, comentários, xingamentos, desabafos, choros, e até textos! Escreva-nos: misturaindigesta@gmail.com

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Poesia Cantada

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Quebro minha cabeça pensando por que a poesia está em baixa. Não só o seu consumo, mas sua produção. É claro que olhar a prateleira de uma livraria não é a melhor forma de compreender a arte, mas poucos novos poetas surgem, inclusive nos blogs da vida. Todos sonham ser escritores, poucos poetas, estes já são espécies raras dentro ou fora de nossa indústria cultural. A indagação é recorrente a qualquer pessoa que pense nossa literatura. Em uma fala que tive a oportunidade de presenciar, de Antônio Cícero, um de nossos poetas contemporâneos, ele afirmou que a poesia não é como outros os demais campos artísticos, pois necessitam de uma interpretação peculiar, não basta ler um poema para ler um poema, despende-se tempo e subjetividade na sua compreensão. O esforço exigido é muitas vezes caro ao pragmatismo de nosso cotidiano cada vez mais frenético. Em uma poesia de Drummond, por exemplo, encontramos muitas figuras de linguagens, trocadilhos, brincadeiras com o ritmo e com a forma, uma fluência particular e complexa em suas entrelinhas. Além disso, tem uma questão educacional que está diretamente relacionada à poesia - o modo como aprendemos literatura em nossos colégios é o mais chato possível (não entrarei no mérito da questão por hora).

Estou de acordo. Porém, há um fator também importante por demais e que muitas vezes não é colocado na discussão, que é a oralidade. O individualismo, de trancafiarmo-nos em nossos cantos e encantos, enclausurando-nos cada vez mais em nossas especializações também apunhala nossa literatura. Um projeto interessantíssimo que pode exemplificar é a Cooperifa, sarau realizado na periferia. Com a preocupação de tirar a poesia do altar, e neste sentido diferencia-se dos saraus tradicionais, busca-se que pessoas "comuns" possam pensar e fazer poesia, independente da "instrução". E é o ritmo oral e não o escrito, que possibilita a ascenção da poesia, em um lugar em que a tradição não permitiu. (vale também conhecer as Edições Toró que têm publicado e disponibilizado para download boa parte desses novos poetas).



Outro exemplo da importância da oralidade é Patativa do Assaré, nordestino, um dos maiores poetas brasileiros do século XX, que fazia seu poema feito música, cantando. Patativa pouco conhecido foi, e ressurge, com atraso, após sua morte. Diz que ele, tardiamente alfabetizado, não gostava de escrever os poemas, pois só gostava deles quando falado, cantado. O próprio Wikipedia nos alerta: "A transcrição de sua obra para os meios gráficos perde boa parte da significação expressa por meios não-verbais (voz, entonação, pausas, ritmo, pigarro e a linguagem corporal através de expressões faciais, gestos) que realçam características expressas somente no ato performático (como ironia, veemência, hesitação, etc.)".



Por fim, para não ficar apenas nas exceções, volto a Drummond e seu belo poema erótico "A Lingua Lambe".

A Língua Lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

O ritmo e aliterações (repetições de fonemas, no caso as sílabas com "L") impõem ao leitor, desavisado, que faça com sua língua e boca o movimento do sexo oral, termo que em nenhum momento aparece escrito estritamente, a não ser por metáforas preciosas. Porém, se você está lendo "de cabeça", na tela de seu computador, provavelmente perderá boa parte de seu conteúdo.

Por esses todos e pela sobrevida do poético, se for ler poesia, em prosa ou verso, cante-a, mesmo que baixinho.

sábado, 4 de setembro de 2010

Eleições 2010 - Tiriricas e Batatas

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Essas eleições, repetindo o mérito da última copa do mundo, têm de tudo para ser uma das mais chatas e deprimente de todos os nossos poucos anos democráticos. Millôr tinha uma frase que era algo como "abaixo a extrema-esquerda, abaixo a extrema direita, mas, acima de tudo, abaixo o extremo-centro". Se pudesse, definiria nossos tempos como essa tragédia: a ditadura do extremo-centro. Se, ao invés de bobagens biográficas elencássemos algumas perguntas fundamentais, a resposta dos dois principais candidatos à presidência seria a mesma.


-O senhor é a favor da intervenção do governo na economia?
-Sim, para estimular o desenvolvimento, mas sem quebras de contrato e autoritarismo.
-O senhor é a favor da reforma tributária e do corte de impostos?
-Sim, mas de forma responsável para não afetar áreas fundamentais
-Como o senhor vê a relação da economia com o meio-ambiente?
-É possível que o país se desenvolva economicamente de forma sustentável.
-Qual a relação de seu governo com os movimentos sociais?
-Vamos manter o diálogo, mas sempre respeitando o Estado de direito.


Não, eu não queria Stálins e Hitlers, mas me dá uma coceirinha saudosista pensar que já tivemos Brizola e Lacerda. Que algum dia fomos pautados em uma discussão de como deveria ser constituido nosso Estado e qual projeto de nação gostaríamos. Hoje o que temos é isso. Se você duvida, entre no site de qualquer um dos candidatos e busque, por exemplo, entender as estratégias dos futuros governos para a cultura. Se você encontrar algo que não seja amplo e superficial, alguma diretriz ou plano estratégico e pragmático, por favor me envie.

Esses dias, o ministro da cultura disse que Tiririca, candidato a deputado federal, faz "deboche com democracia". Na verdade, acho é que falta deboche com a democracia. Falta, como tudo no mundo, sair de uma certa hipocrisia do politicamente correto, ser um pouco mais agressivo, no sentido de questionar essa coisa disforme que a democracia brasileira. Isso porque passamos quatro anos sem fazer absolutamente nada no que se refira a uma ação política, para, às vésperas da eleição, criticar com sete pedras um "palhaço" que diz que "pior que tá não fica". Claro, ele não tem instrução, formação, conhecimento político, blá blá blá. E pior é dizer que o povo vota no Tiririca porque "é burro". Muito mais eficiente entender a estapafúrdia candidatura como uma crítica a esse modelo por si só ridículo, com brechas e sujeiras, sem o mínimo de dignidade, moral, intelectual e política.

A democracia brasileira parece uma grande peça de Nelson Rodrigues, onde tudo está podre e tal podridão é proporcional à altura que o personagem ocupa dentro do centro de decisões. Eike Batista disse, no roda viva, que pouco acompanha o debate eleitoral. Ser o oitavo homem mais rico do mundo tem suas vantagens. Ele sabe que continuará como está, seja qual for o novo preseidente. Ele continuará vencedor e rico. Mas, contrário do que disse, não porque ele não dependa do governo, mas porque o governo depende dele. Isso que é crescimento sustentável.

Walter Benjamin, propõe pessimistamente em suas "Teses sobre a filosofia da história" que a história é como um amontoado de escombros que se acumulam com o tempo. Acho que Machado de Assis aprofunda a análise quando fala sobre o escravo de Brás-Cubas em sua infância, Prudêncio, que na época era menino como seu senhor. Após anos de humilhação, servindo de "cavalinho" e aguentando a tudo calado, resignado, Prudêncio é liberto. Brás-Cubas o encontra, já velho e surpreende-se com a cena. Em uma praça pública, lá estava Prudêncio, homem livre, chicoteando um escravo que comprou com o dinheiro da alforria. Para mim é uma das passagens mais trágicas e sintomáticas de nosso mundo. É como se reproduzíssemos a cada segundo esse monte de escombros, essa dominação, essa sujeira. Pense em seu tabalho e fica mais fácil de visualizar prudêncios e mais prudêncios. Porque é isso que as eleições e nosso direito têm sido, fábricas de prudêncios que reproduzem exatamente aquilo que se critica: a apatia.

Pelo amor de Deus - sim, ele existe - este não um texto niilista, essa ideia de que é melhor perecer do que lutar contra o invencível. O niilismo é a filosofia que, em nossas universidades e centros intelectualoides, tem subsidiado o conformismo, a inoperância. Tampouco se defende aqui o inverso da democracia, a ditadura - balela pensar que aquilo sombrio foi uma época de florescimento. O fato é que, como alguém disse, a "democracia pode ser arma e armadilha", no nosso caso tem sido apenas armadilha.

É uma provocaçãozinha por uma ação política que seja transformadora, que busque o novo, que não apenas se defenda e critique, mas que tenha propostas de ataques. E principalmente que não se esgote em períodos de voto. Não sei se ela existe, mas é melhor construí-la.

E rápido.

Por hora, aos vencedores as batatas.

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