VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Divulgando - Rica Miséria

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários


Paralelamente ao glamour espetacularizante da bienal do livro, um grande lançamento de pequeno alcance: a Revista Miséria número 4. Devorei-a em coisa de 15 minutos, mas até agora não consegui digerí-la. Isso porque pensar na miséria dói, seja por culpa reprimida ou por saber-se miserável, ainda que não em um aspecto não monetário. A crueldade dos quadrinhos miseráveis nada misericordiosos enclausura-nos num canto do cômodo, põe a faca em nosso pescoço e pergunta até quando ser conivente. Com desenhos que trafegam dos traços sutis ao "cru-que-incomoda", coloca-nos a pensar, em forma e conteúdo, em arte e mundo, em necessidades e ostentações. Certo dia alguém me pegou de surpresa: é preciso resistir, mas resistir a quê? Para os cartunistas, a resposta, me parece clara: à (ir)racionalidade do mundo do trabalho.


As contradições, feridas que incomodam, expõem-se em seguidos choques. Ricardo Flóqui, Batata e João da Silva, os três incansáveis quadrinistas, parecem ter uma sinergia intensa. Todas as páginas fluem e todos os quadrinhos se convesam, fazendo da miséria - a revista e a categoria - algo sólido e contagiante. Parece-me que ler a Miséria é também passear inconscientemente por nomes que exaltam a crítica social - como Edgar Vasques, Quino e Glauco - ou que destacam o politicamente incorreto - como Allan Sieber, André Dahmer, Fábio Moon e Gabriel Bá. Também é um pouco tarantinesca, por que não? Cabe ressaltar que esta quarta edição tem um salto editorial gigantesco para as demais. Primeiro por intercalar-se com textos, poesias e trabalhos externos, todos de alta qualidade (como o de nossa última "Coluna do Leitor"). Segundo pela qualidade da impressão que, cada vez mais, ruma à possibilidade de um mercado que faça os criadores da revista, finalmente, realizarem o principal sonho de suas vidas: viver de quadrinhos.

Além do trabalho editorial, os incansáveis e insaciáveis miseráveis, cujo dia parece ter mais de 24 horas, participam de movimentos sociais, fazem oficinas de quadrinhos, ocupam espaços públicos e ainda arrumam tempo pra cantinar.

A Revista Miséria pode ser adquirida por míseros e injustos R$3,00 na Banca Central (Barão Geraldo - Campinas), no HQ QG (em frente ao Restaurante Universitário da USP), no site oficial do Miséria HQ, no Sebo Galpão (Barão Geraldo), no Pagode do Souza (todas as segundas à noite no IFCH - Unicamp), na Banca Túnel do Tempo (Taubaté), entre outros locais obscuros.


Em tempo: nós do Mistura Indigesta fizemos, cerca de 5 meses atrás, uma extensa entrevista de boteco, regada à água de coco e suco de laranja, com os cartunistas do Miséria, porém ela ficou muito extensa e com necessidade de censura e edição (hehehe), coisa que foi impossível ocorrer, por isso nossa dívida com o grupo, que pagaremos em algum botequim campineiro.
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Se você possui ou conhece algum projeto que mereça ser divulgado, contate-nos pelo misturaindigesta@gmail.com e divulgaremos gratuitamente.

Coluna do Leitor - Nosso Partido é Alto. Legenda: Fundo de Quintal

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Tava vendo na néte uma entrevista do Zeca Pagodinho ao Jô – de quando ele deixava seus entrevistados falarem. Lá pelas tantas o Jô manda a pergunta fatal: “Zeca, qual a diferença entre pagode e samba de partido alto?”. “Bem, Jô, pra cantar pagode tem que ter ginga, tem que saber improvisar...”. “E partido alto?”. “Também...”. “Mas então é igual?”. “É igual mas é diferente...”. Tô com Zeca: é igual mas é diferente... Quando a gente escuta, toca, ou canta um pagode e um partido alto, sente a diferença. Não sei explicar nem entender, mas dá pra sentir... Aí me perguntam: “Então porque você faz questão de chamar de Pagode?”. Primeiro, tem o significado do termo: pagode é uma festa com música, geralmente moda de viola ou samba... música de pobre, feita por amadores – ou seja, por amor à música, não ao dinheiro. É uma festa em que a galera se sente parte da coisa, cantando, dançando e/ou batendo na mão... no caso do samba, sempre rola da galera ir pegando um ou outro instrumento e tocando junto mesmo... Não é plateia, é a razão da festa... é a diversão. Mas tem outro ponto que me motiva a chamar de Pagode; a provocação. Quando vem neguinho me dizer que “samba é bom, pagode é um lixo”, aí eu fico puto mesmo. Dá pra sacar na hora que tipo de gente é essa: uma gente que não entende nada da coisa... uma gente que não se sente tocada pelo batuque... que escuta dois sambistas foda – sempre gente morta – como mero consumo... consumo cult... consumo pra dizer que gosta... come sardinha e arrota camarão... gosta tanto de Cartola quanto de Beatles, Dostoievski ou de cinema francês... Tanto faz... Nem liga se gosta... liga no que os outros vão pensar... no tipo de conversa que vai poder ter com o tipo de gente que também gosta assim... Tanto faz o conteúdo, o que importa é a fitinha... Bota um monte de coisa diferente no mesmo rótulo (samba=bom) e outras coisas muito diferentes noutro (pagode=ruim) sem perceber que a distância entre coisas que chamam de samba (entre Noel, Caymmi, Adoniran e Monarco, por exemplo) é muitas vezes maior do que aquela existente entre esses e o que chamam de “pagode” (como Fundo de Quintal e Zeca)... Sem falar na gigantesca diferença entre Martinho, Exaltasamba, Só pra Contrariar, Karametade e Art Popular, todas igualmente rotuladas de “pagode”. Mas eu quero mesmo é falar de outra coisa, que tem a ver com o uso nada inocente de palavras para discriminar pessoas e atitudes. Tinha prometido pra mim mesmo que não ia escrever sobre eleição e que ia lá dar meu periódico voto nulo em paz com a minha consciência... não resisti. Não ando lendo jornal, mas foi pegar um e ver a abundância da (a)crítica suja pra me emputecer... Tenho completo nojo de todo o processo eleitoral e da democracia qual ela existe, mas não posso deixar de externalizar a minha repulsa pelo modo como essa gente encara a coisa. Sobretudo quando a escória dos (de)formadores de opinião brasileiros se metem a falar de “populismo”. Não vou entrar no mérito do uso histórico e teórico do termo, porque é muito controverso e, principalmente, muito chato. Gostaria só de chamar a atenção para um fato: sempre que você ler uma acusação de “populista”, observe como a única coisa que tá sendo acusada é que esse sujeito tá fazendo alguma coisa pra pobre. Tudo que é pra pobre é “populista”. Mano, se isso for ser populista, tomara que todo mundo o seja... Você, que acredita nesse troço de eleição, por favor, não se engane. Todos os governos são para os ricos. Alguns deles dão umas migalhas pros pobres. Há quem se contente com isso. Eu não. Provavelmente porque eu não passo fome, mas, por mais que eu tente me colocar no lugar de quem passa, eu não consigo. São as minhas contradições de classe (média cada dia mais baixa)... Eu queria acreditar na papagaiada democrática. Não consigo... Seria de bom-tom terminar com alguma citação de algum partideiro sangue-bom pra você não achar que eu escrevi tudo aquilo só pra encher linguiça, mas fiquei tão brocha com esse assunto, que prefiro me calar. Vai escutar por você. Vai num pagode, num bem amador.. aí, sim, você poderá sentir as semelhanças e as diferenças e entender que a importância da roda de samba está para muito além de se o som é bom ou ruim. Se o camarada tocando o cavaquinho é ou não é um virtuose formado em Tatuí. O negócio é muito mais embaixo... é reunir gente que se gosta, pra fazer coisas junta, se divertir junta, “construir” junta... viver um gozo democrático. Nos tempos chatos em que vivemos, isso, sim, é uma coisa revolucionária...
Smac

Peixe, vulgo Thiago Fernandes Franco, é um sujeito franco(!), como se autodefine. Também é pagodeiro do Pagode do Souza e jogador de futsal a procura de uma pelada. Ah, ele é um sujeito irônico! Diz ainda que estuda História pra não dizer Economia, e é professor de Sociologia.

Nosso Partido é Alto. Legenda: Fundo de Quintal está impresso na edição número 4 da Revista Miséria. Tão bonita está a versão do exemplar que seus integrantes, Batata, Ricardo Flóqui e João da Silva, entraram em crise, se perguntam se a Crítica Social não está sendo envolvida pelo Mercado, e melhor seria se a revista se chamasse "Très Chic". Mentira, claro que não!

Mande seu texto para nossa Coluna do Leitor: misturaingesta@gmail.com

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Divulgando - SOS MIS Campinas

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

Para quem não conhece, o Museu da Imagem e do Som (MIS) de Campinas tem, como proposta, e assim o faz desde sua fundação, preservar a memória audiovisual do município, bem como gerar uma programação independente que propicie reflexão (educação) crítica sobre as práticas culturais. É também, ainda que mal das pernas por falta de apoio, um espaço de inovação e experimentação, um dos poucos nesta grande, e por vezes culturalmente abandonada, cidade.

O que converge para essa postagem no Mistura Indigesta - e salvo-engano falo aqui também em nome dos demais indigestos - é o "fantástico" projeto que, segundo o jornal "Correio Popular" seria retomado por nosso líder executivo municipal, Doctor Hélio (PDT), de transformar o Palácio dos Azulejos (atual sede do MIS), no gabinete do prefeito.

Esta postagem não tem um tom de profunda reflexão ou debate sobre o uso do espaço público, pois, de tamanha absurda a proposição da prefeitura, o texto aqui será panfletário. O objetivo da utilização desse espaço no blog é simplesmente de me posicionar contrariamente a tal estapafúrdio devaneio e também de deixar o link para quem possuir o mesmo posicionamento. Isso porque uma petição virtual, localizada na página inicial do MIS, tem sido repassada e assinada por diversos grupos, em reação à proposta de Hélio. Portanto fica a dica para quem quiser acessá-la e assiná-la, clicando aqui.

No mais, reproduzo, aqui, o trecho mais importante da tal carta:

Defendemos, assim, a permanência do MIS no Palácio dos Azulejos, reivindicando também o reconhecimento deste espaço por parte do poder executivo como fundamental para a preservação da memória e produção cultural campineira. Neste sentido, fazemos coro com as reivindicações que exigem uma real política cultural para a cidade de Campinas. Para a defesa e permanência do MIS no Palácio, chamamos a população a participar das ações que já estão ocorrendo."


Não é preciso dizer mais nada, certas situações nos emudecem.

Veja também a matéria completa feita pelos "Comunicadores Populares", para maiores detalhes.

sábado, 14 de agosto de 2010

Onde Moram As Cidades

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

Todos têm seus podres, portanto, como mais uma pessoa comum, lá estava eu ouvindo Fágner no carro... Fágner, isso, aquele mesmo... E um trecho da canção dizia assim: "Bela é uma cidade velha...". Opa, então quer dizer que, segundo Fágner(!), a nossa capital, Brasília, que neste ano completou cinquenta anos, não deve ser considerada uma bela cidade?! Puxa, mas cinquenta anos não é bastante coisa para uma pessoa - sem querer ofender, muito pelo contrário, isso inspira todo respeito -, meio século? Sim, mas para uma cidade é bem pouco. Se o tempo tem valor diferente para os animais e para as coisas, o que dizer de uma coisa como uma cidade: Brasília é um bebê.

E não foi uma criança inesperada, pelo contrário, nossa capital foi planejada, concebida pelas mãos e imaginação dos arquitetos e urbanistas Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Inspirados por aspectos de uma arquitetura modernista, cujos traços denotam clareza, objetividade, simplicidade e o atendimento a determinadas funções, por exemplo, Brasília privilegiaria em sua concepção o fluxo de automóveis. Contudo, Niemeyer gosta de enfatizar, sem perder as curvas que a paisagem natural inspirava, exemplo de alguns dos prédios ali presentes, e, talvez, da imagem formada pela cidade vista do alto: um pássaro.

Tem história que não precisava ser história, só estória, narrativa inventada. Não? Sim. Sabe aquelas crianças que não param quietas, que ficam fazendo perguntas, perguntas, aporrinhando, e que quando deixam de falar passam a mexer as pernas, depois, se colocadas sentadas é a vez das mãos, dos dedos não pararem? É como se a agitação migrasse de um canto pro outro do corpo a cada instante. E então o que geralmente se faz é ocupá-las. Pois bem, tenho pra mim que um dia (não qualquer, mas O Belo dia) decidiram dar um monte de papel, caneta, sorvete, lápis de cor, doces, pirulitos, chocolates, muitos chocolates, a uma criança dessas, pedindo pra que ela rabiscasse ali, na esperança dela dar sossego. Só que de tão atentado, o pivete fez régua, compasso e esquadro dos palipos de sorvete e pirulitos.

Quem disse que criança só tem menos de doze anos? Que nada! Pegaram os desenhinhos da criança grande e fizeram casas, parques, começaram até a fazer igreja: Antônio Gaudí. A Casa Batló parece ter saído do fundo do mar da imaginação... Há nela uma riqueza de ornamentos, de detalhes em cada pequenino espaço, tudo nos deixa abobalhados... devia ser massa brincar de esconde-esconde por aqueles corredores e andares.

Mas se parece que estou falando de coisas distintas, porque uma casa é um espaço sobretudo privado, fechado, restrito a poucas pessoas – e no caso das casas feitas por Gaudí, também destinadas a estratos sociais muito, muito ricos –, ao invés do planejamento de uma cidade, a riqueza fantástica do universo de Gaudí ainda está presente num parque público, como o Güell. Este, por exemplo, parece ser, antes de mais nada, um ponto de encontro, ou de realização da sociabilidade.

Mais, tenho pra mim que Gaudí tinha um irmão perdido, Ildefonso Cerdá. Foi ele o responsável pelo Plano de urbanização da cidade de Barcelona, no século XIX, cuja principal característica é o quadriculado formado pelo Ensanche. Ademais do cruzamento das largas avenidas e das ruas que, em tese, não diferenciariam transeuntes, o desenho da cidade apontaria, fundamentalmente, para o interior dos pátios criados pela disposição das casas. Pensando num equilíbrio entre privado e público, e também entre os aspectos do rural e do urbano, que privilegiava a ventilação e a construção de jardins, Cerdá viu seu plano sofrer várias críticas pela suposta pequena área construída, e que ainda desvalorizariam as mesmas áreas. Porém, se hoje o Ensache não tem a realidade imaginada por seu idealizador, a história da arquitetura, do urbanismo, ganhou um modelo de cidade bastante difundido e voltado para o que depois seria chamado de espaço público. Espaços nos quais, ao menos, estariam pressupostos o uso coletivo, enquanto a tal realidade, não só espacialmente, continua funcional e segregada.

Não tenho pretensão alguma aqui de estabelecer uma comparação que hierarquize ou sobrevalorize uma cidade em relação à outra, entre Barcelona e Brasília, por aquilo que elas têm enquanto tempo de vida, pelo contrário, quero pensar a experiência de passar, de atravessar, de encontrar, de viver numa cidade. Procurei apenas destacar minhas dúvidas quanto à concepção de uma cidade. Claro, nisto, construí algumas oposições gerais e não escondo minha preferência pela cidade catalã. E Brasília, sim, tem suas belezas, ao contrário do que o verso de Fágner poderia nos fazer pensar, e belezas que podem, inclusive, ficar para outra postagem.

Porque, também, acho que uma cidade deve ser como uma pessoa dormindo, digo, como quando assistimos ao sono de alguém. Uma cidade não está apenas no Planalto Central, ou às margens do Mediterrâneo. Enquanto alguém dorme, imaginamos quem é que habita aquele corpo, um amontoado de matéria. Roubando ainda a idéia de um verso, "
A cidade não mora mais em mim", diria que uma cidade é feita das imagens da memória daqueles que ali vivem, mesmo que de passagem, brincando de amarrar a imaginação, o pensamento e o espaço.

"Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava exisitir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.
Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos."
(Ítalo Calvino,
As Cidades Invisíveis, p.30)

(À amiga aniversariante Natália Helou Fazzioni)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

João Montanaro - Promessa e Bagunça

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários


Quantos anos você acha que tem o cartunista da charge acima? Pouco entendo, tecnicamente, de quadrinhos, mas acredito que qualquer um que não conheça João Montanaro, provavelmente não arriscaria poucos 14 anos. Quando um amigo me contou sobre tal quadrinista potencial, não acreditei. Isso mesmo, nascido em 1996, João já trabalha para a Revista Mad, Le Monde Diplomatique (de onde a charge foi retirada) e para a Folha de São Paulo.

Ainda com 12 anos, em entrevista para a revista "O Grito", o autor afirmou ter como leitura predileta "Assassinos da Rua Morgue", de Edgar Allan Poe e estar acabando de ler "Leite Derramado", de Chico Buarque. E ainda se divertia em contar que teve que assistir escondido do pai - o editor de livros Mario Montanaro - ao famoso Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.

O autor, considerado por diversos cartunistas como um fenômeno em seus traços e humor, lançou, neste dia 7 de agosto, seu primeiro livro, "Cócegas no Raciocínio", pela editora Garimpo. O título vem de uma frase do pouco conhecido Leon Eliachar, humorista egípcio, crescido no Rio de Janeiro, que certo dia afirmara: "humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros"

A fama de "garoto prodígio", longe de deslumbrar, atrapalha, mas não intimida o autor. "Isso me incomoda um pouco, o 'menino prodígio' é alguém que aparece e logo some", diz. "Apesar de ser óbvio, não gosto que falem tanto na minha idade porque tira o foco do trabalho. Mas vou ter de lidar com isso por um tempo ainda, né?". Entre os afazeres com blog, twitter e publicações, João gosta de assistir Bob Esponja, ler jornais, tocar guitarra e organizar seus LP's.

Nos quadrinhos, teve como principais influências os ótimos Angeli, Laerte, Adão, e os tradicionais herois da Marvel.

Que rumo tomará João, não se sabe, mas experimente conhecer seu blog e verá que é mais do que mero produto da indústria cultural e da sociedade do espetáculo. Claro que ainda tem muito o que caminhar, em forma e conteúdo, há inclusive quem diga que não deveria trabalhar com essa idade. Ainda assim, João é fruto de borbulhas de fervor nos quadrinhos nacionais e deve chegar para compor uma nova geração que promete. Mesmo que, com essa idade, espera-se de um garoto menos promessa e mais bagunça.

domingo, 1 de agosto de 2010

Pequenas Frases

. . Por Hugo Ciavatta, com 4 comentários

Entrei num bar, meses atrás, na Espanha, tentando ser simpático. Às vezes, pelo menos tentar ser agradável, imagino, deve ser bom. Sabe, não me convencem muito aquelas histórias de que há um "tipo" de brasileiro, outro de português, argentino, e assim por diante. Isso parece muito mais uma generalização forçada de algumas características, um exagero, uma caricaturização de uma região ou outra. É engraçado, de qualquer forma, encontrar pela rua um "tipo" desses, numa reação estereotipada, num momento específico, como naquela noite na Espanha, em que cheguei no balcão dizendo:
- ¡Hola! Por favor, ¿hay cerveza?
- ¡Hombre! ¡¿Entras en una farmacia y preguntas si hay pastillas para dolor de cabeza?! ¡Claro que hay cerveza!
Depois de rir meio assustado, pedi minhas duas cervejas e voltei pra mesa e contei a cena, claro. Ouvi que a minha infeliz tentativa de ser simpático acabava sendo completamente imbecíl, idiota. É.

Meses depois, encontrei um texto de Ignácio de Loyola Brandão, Vamos seguir o horários oficial de Brasília. Nele, o escritor fala sobre os benefícios que teríamos se adotássemos, de fato, os horários seguidos pelos parlamentares de Brasília. Haveria uma mudança significativa em nosso dia a dia. A semana de trabalho seria menor, por exemplo, e ainda trabalharíamos menos durante o dia. A primeira reviravolta seria o fim da segunda-feira, dia mais terrível não há para todos nós, menos para os nossos representantes no legislativo federal.
No entanto, uma das personagens da crônica de Loyola Brandão é obcecado pelo significado das palavras, pergunta-se pelo motivo, cada vez mais recorrente, de muitas pessoas, depois de ouvirem um agradecimento, responderem com um "Imagina...". Ora, você diz "Obrigado" a alguém e ouve um "Imagina...". Peraí, imaginar o quê? É uma pergunta inútil:

"Imaginar o quê? Por quê? Em função do quê? Ele perdeu o sono muitas noites, fazendo mil hipóteses e não consegue chegar a nenhuma. Onde teria nascido isso? Como? Talvez exista algum costume ancestral, remoto que possa dar um sentido a essa resposta. Ou será de propósito? Algo como uma pegadinha? É para a pessoa ficar imaginando, supondo, querendo desvendar o mistério? O que há para imaginar? É uma tentativa de obrigar o outro a pensar, a raciocinar, a pôr a cabeça e as ideias em ação, algo para sacudir a inércia?".

O escritor finaliza com outras duas respostas bastante comuns. No restaurante, o cliente chega e pergunta ao garçom: e a comida, está boa? Ou numa feira, em meios as frutas, você se dirige ao rapaz que vende mangas e solta: é doce?
É verdade, se alguém lhe responder que não, que o prato está ruim e a fruta nada doce, desconfie, pode ser um garçom andaluz!

Outra dessas situações aparece quando nos despedimos de alguém, geralmente numa ocasião de um formalismo desnecessário, e querendo ser educado. Por algum motivo misterioso, dizemos e ouvimos "desculpe qualquer coisa"... qualquer coisa? Mesmo? Olha, sou gênio em dar foras, cometer gafes, em perder grandiosíssimas oportunidades de ficar calado, mas, se pensarmos bem, o termo qualquer é muito angustiante... qualquer coisa... qualquercoisinha... sabe-se lá o quê! Por isso, dá próxima vez que alguém me vier com um "desculpe qualquer coisa" vou revidar a incerteza com "claro, compreendo o insólito acaso de você ter nascido!".
Semelhante é o "me desculpe por tudo"... Ahnnn, mas tudo? Além do possível "fato de existir" vindo pelo impreciso qualquer, o tudo causa uma agonia próxima à indiferença... já que é tudo: nada importa para aquele que ouve, imagino, pensa quem diz tudo. Quando alguém desculpa tudo, permite qualquer coisa
Tcharan, deve ser isso, num tempo muito, muito distante, quem um dia desculpava tudo fez com que outros pedissem desculpas por qualquer coisa, uma vez que não havia importância. Mas o inverso não é válido, quem desculpa qualquer coisa, pode não esquecer algum ponto em meio a tudo. Confusão.

Melhor diálogo então seria, Loyola Brandão:
- Tchau, a gente se fala!
- Ah, tchau, até mais! Hum, desculpe qualquer coisa, viu...
- Imagina... !
















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Agradecendo ao amigo Rodrigo Bulamah pela ótima história sobre qualquer coisa!

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